Sinonímia. Denominacions Lycopodium denticulatum
21. Pinus halepensis
Partindo da abordagem metodológica definida e conceituada, surge a necessidade de uma definição de como os dados serão recolhidos e, posteriormente, analisados e interpretados. Portanto, cabe ao pesquisador a definição de procedimentos ou técnicas que possam lhe amparar na busca de tais informações. Aparentemente, muitas vezes, os pesquisadores não estabelecem procedimentos que consigam “dar conta” do objeto proposto para a investigação. Nesse sentido, Gatti adverte que
Questão que não se acha suficientemente discutida e trabalhada pelos pesquisadores é a tendência à não discussão em profundidade das implicações do uso de certas técnicas, e mesmo de propriedade e adequação desse uso e sua apropriação de forma consistente (GATTI, 2002, p. 28).
A definição de uma abordagem qualitativa, onde os dados são analisados sem parâmetros estatísticos e/ou exatos, exige que o pesquisador trilhe pelo caminho do recolhimento dos dados, bem como da sua interpretação, de forma cautelosa, procurando apreender do objeto as informações relevantes à sua investigação. É, portanto, “fundamental o conhecimento de meandros filosóficos, teóricos, técnicos e metodológicos da abordagem escolhida” (GATTI, 2002, p. 30).
Nas pesquisas qualitativas, o estudo de caso é uma das abordagens que permite ao investigador a “observação detalhada de um contexto, [...] ou de algum acontecimento específico” (BOGDAN e BLIKEN, 1994, p. 89). De fato, o estudo de caso procura se apropriar, em profundidade, sobre um caso; não qualquer caso, mas um caso singular, diferenciado. Obviamente que o caso pode se assemelhar a outro, mas, “é ao mesmo tempo distinto [...], e se destaca por se constituir uma unidade dentro de um sistema mais amplo” (LUDKE e ANDRÉ, 1986, p. 17).
Nesse sentido, o estudo de caso se sobressai pelos aspectos peculiares àquele caso, mesmo que possa, eventualmente, apresentar certas semelhanças com outro caso e/ou situação. Ludke e André (1986) e Bogdan e Bliken (1994) indicam algumas características fundamentais aos estudos de caso. Destacamos os aspectos que mais se aproximam do nosso objeto de estudo, a saber:
Estudos de caso visam à descoberta; portanto, o investigador se mantém atento a possíveis novos descobrimentos (importantes) que ocorrem durante o processo investigativo. É algo que vai se descobrindo e construindo durante o processo, durante a caminhada;
Estudos de caso optam por um espaço e/ou uma organização particular, se concentrando, a partir de então, em um aspecto específico dentro da organização, como, por exemplo, um grupo específico de pessoas, que neste caso se aplica aos professores;
Estudos de caso reforçam a interpretação a partir do contexto. Nessa lógica, para que o caso tenha, realmente, significância, ele precisa ser analisado dentro de um contexto mais amplo, ou seja, o local, o modo de vida, a realidade social e as características específicas da região onde está localizado o sujeito e/ou objeto; Estudos de caso intencionam apresentar a realidade de forma completa, isto é,
a ser estudada. Focalizam o todo e a relação que este se estabelece entre seus componentes;
Estudos de caso se apropriam de uma série de fontes informativas. O investigador, nesse sentido, busca seus dados em várias fontes: entrevistas, documentos, observação etc.
Por conseguinte, a partir destas características fundamentais, entendemos que o nosso objeto de estudo se configura em um estudo de caso e que este tipo de estudo contribui para que se compreenda melhor a ação pedagógica de professores que estão inseridos em um contexto educacional na realidade ribeirinho-amazônica (BOGDAN e BLIKEN, 1994). Analisar, portanto, a ação pedagógica de professores ribeirinhos, que atuam a partir dos princípios freireanos da Escola Açaí, na Escola Professora Araci Corrêa Santa Maria, em Igarapé-Miri, constitui uma instância singular, historicamente situada, apesar de se aproximar do contexto vivenciado por outros professores ribeirinhos, em outras regiões e contextos. (LUDKE e ANDRÉ, 1986). Esta possibilidade é denominada pelas respectivas autoras de “generalizações naturalísticas”.
Destaca-se, ainda, que em estudos de caso
o pesquisador pode proceder à coleta sistemática de informações, utilizando instrumentos mais ou menos estruturados, técnicas mais ou menos variadas, sua escolha sendo determinada pelas características próprias do objeto estudado (LUDKE e ANDRÉ, 1986, p. 22).
Deste modo, é fundamental a realização de uma revisão de literatura com teóricos que possam contribuir na busca de respostas às questões anteriormente soerguidas a partir dos problemas elencados e objetivos propostos pela pesquisa. Gressler destaca a importância de uma revisão bibliográfica ou de literatura quando diz que
A revisão bibliográfica possibilita uma melhor posição para se interpretar os resultados de um novo estudo, permitindo a realização de implicações teóricas e comparações úteis, bem como a localização dos resultados do estudo no corpo de conhecimentos existente (GRESSLER, 2004, p. 132).
De fato, o pesquisador deverá empreender-se numa caminhada de leituras das produções existentes no tema que pretende investigar. Essa revisão de literatura “deve servir justamente para capacitá-lo a identificar questões relevantes e a selecionar os estudos mais significativos para a construção do problema a ser investigado” (ALVES-MAZZOTTI e GEWANDSZNAJDER, 1998, p. 181). Os mesmos autores realizam uma advertência significativa quando afirmam que
A pobreza interpretativa de muitos estudos, várias vezes apontada em avaliações da produção científica na área das ciências sociais e da educação, deve-se essencialmente à ausência de um quadro teórico criteriosamente selecionado ou elaborado (ALVES-MAZZOTTI e GEWANDSZNAJDER, 1998, p. 182).
Portanto, no caminho que foi trilhado nesta investigação, tomaram-se por base as produções teóricas que focalizam, descrevem e analisam a ação pedagógica com base nos pressupostos freireanos relacionados ao contexto amazônico e ribeirinho. Deste modo, utilizamos determinados teóricos para cada eixo inicialmente proposto para a investigação.
Para compreender a ação pedagógica através de uma prática emancipadora e libertadora, foram utilizados os escritos de Paulo Freire (1981; 1982; 1986; 1991; 1996; 2000; 2000a; 2000b; 2001; 2009; 2011). Concomitantemente, foram extraídas significativas contribuições de Souza (2002), Brandão (2005; 2010), Gadotti (2006; 2007), Arroyo (2010), Vasconcelos e Brito, (2009) e Inês Souza (2010), entre outros.
Para compreender a Amazônia e a educação do campo a partir do contexto ribeirinho, com suas especificidades, foram utilizadas as produções de Arroyo (1999; 2007), Hage (2002; 2006), Gonçalves (2010), Meirelles Filho (2004) e Diegues (1999). A obtenção de informações, bem como a imersão na cultura e na história do município de Igarapé-Miri, foram realizadas a partir das obras de Lobato (2000; 2004), Miranda Lobato (2008) e de documentos oficiais do Estado do Pará e do município de Igarapé-Miri/PA.
As produções de Oliveira (2003; 2004; 2006; 2007; 2008a; 2008b; 2009; 2010a; 2010b; 2010c) foram utilizadas em ambas as seções, visto que a autora aborda as especificidades relacionadas à educação das populações amazônicas em consonância com os pressupostos freireanos de uma educação popular.
Segundo Ludke e André (1986, p. 15), “a natureza dos problemas é que determina o método, isto é, a escolha do método se faz em função do tipo de problema estudado”. Neste caso, nossa proposta de pesquisa incorpora, também, a pesquisa documental, que segundo Carvalho (1997, p. 154),
É aquela realizada a partir de documentos considerados autênticos (não fraudados); tem sido largamente utilizada na investigação, a fim de descrever/comparar fatos sociais, estabelecendo suas características ou tendências; além das fontes primárias, os documentos propriamente ditos, utilizam-se as fontes chamadas secundárias, como dados estatísticos, elaborados por institutos especializados e considerados confiáveis para a realização da pesquisa.
Consideramos que, por meio da análise documental, conseguimos esclarecer a problemática, pois o “método vai a busca das relações internas de um objeto, de um fenômeno, de um problema, uma vez que esse objeto de estudo fornece as pistas, o caminho para conhecê-lo” (OLIVEIRA S., 1997, p. 27). Portanto, na perspectiva de perceber como o
projeto educacional está sendo implantado no município de Igarapé-Miri, realizamos levantamento e análise documental de publicações oficiais (leis, diretrizes, relatórios, diagnósticos, planos) e extra oficiais (projetos-político-pedagógicos, relatórios) do município de Igarapé-Miri/PA, do Estado do Pará e da Escola Professora Araci Corrêa Santa Maria, que descrevam as ações, intenções, projetos e outras publicações que inferem sobre a realidade social, cultural e econômica miriense e/ou sobre a implementação de projetos educacionais comprometidos com os ideais freireanos.
Ressalta-se, também, a importância do pesquisador ter em mãos alguns elementos prévios com informações sobre os entrevistados, o que levou a necessidade de aplicação de um questionário cuja finalidade consistiu em levantar informações gerais sobre a vida dos sujeitos pesquisandos. Gressler destaca que
O questionário é constituído por uma série de perguntas elaboradas com o objetivo de se levantar dados para uma pesquisa, cujas respostas são formuladas por escrito pelo informante, sem o auxílio do investigador (GRESSLER, 2004, p. 153).
Vale ressaltar que este questionário não é o procedimento principal da coleta de dados, e, sim, uma forma de levantamento inicial de informações pessoais, sociais e econômicas que, se abordadas durante a entrevista, seriam desgastantes para o pesquisador e o informante. O questionário, sem a presença do pesquisador, proporciona um ambiente menos tenso ao sujeito, pois lhe é dispensado um tempo para que reflita e responda às indagações levantadas. O objetivo deste questionário consistiu em levantar questões meramente informativas que contribuiram para a compreensão das informações posteriormente repassadas por meio da entrevista, já que, “quanto mais se sabe, mais provável é que se obtenham informações históricas importantes de uma entrevista” (THOMPSON, 1992, p. 255).
O autor ainda contribui nessa percepção quando adverte que, antes da realização da entrevista, propriamente dita,
O primeiro ponto é a preparação de informações básicas, por meio da leitura ou de outras maneiras [caso em que se enquadra a aplicação de um questionário]. A melhor maneira de dar início ao trabalho pode ser [...] mapeando o campo e colhendo ideias e informações (THOMPSON, 1992. p. 254).
E, mais uma vez, reitera que
Na maioria dos projetos, você precisará de alguns fatos anteriores básicos a respeito de todos os informantes (origem e ocupação da mãe e do pai; e nascimento, instrução, empregos, casamento, etc. do próprio informante), e ainda, muitas vezes, você sentirá necessidades de perguntas básicas e suplementares sobre muitos tópicos (THOMPSON, 1992, p. 262).
O questionário foi disponibilizado ao corpo docente da Escola Professora Araci Corrêa Santa Maria, formado por quinze professores. A partir da análise das respostas, que foram devidamente apresentadas na quarta seção desta dissertação, optamos por quatro professores que foram entrevistados a partir das experiências construídas na docência de escolas ribeirinhas.
Num terceiro momento fundamental para a investigação, foram utilizadas as entrevistas com professores da escola. O professor, nesse caso, estabelece juntamente com o investigador um processo de “conversa livre em que a pessoa, o ‘portador-de-tradição’, a ‘testemunha’, ou o ‘narrador’ é ‘convidado a falar’ sobre um assunto de interesse comum” (THOMPSON, 1992, p. 257).
Na perspectiva de que professores ribeirinhos são e estão, muitas vezes, sozinhos na caminhada da ação pedagógica, permitir que expressem suas ansiedades, seus medos, experiências, tristezas e alegrias se constitui, também, um processo libertador e emancipatório. O professor se reconhece na sua narrativa e, assim, se valoriza, se liberta, constrói significados e, consigo mesmo, restabelece sua caminhada enquanto sujeito histórico, fazendo com que sua fala tenha significado. Por isso, “é justamente nesse ponto que a fala dos professores adquire importância, porque, por meio dela, se revelam os sentidos e os significados do entendimento que eles têm do processo” (GHEDIN e FRANCO, 2008).
Nesse sentido, as entrevistas são fundamentais em pesquisas de abordagem qualitativa. A entrevista, enquanto técnica, é o procedimento mais utilizado nas pesquisas de campo, já que se reforça a comunicação através da linguagem, da fala (MINAYO, 1993).
Gressler, de forma bem objetiva, ratifica que os propósitos das entrevistas em pesquisas qualitativas se fundamentam em “auxiliar na identificação de variáveis e suas relações, sugerir hipóteses e guiar outras fases da pesquisa; [além de] coletar dados” (2004, p. 164). Nessa perspectiva, percebe-se que a entrevista pode ser definida como um processo de interação social entre duas pessoas (HAGUETTE, 1987; THOMPSON, 1992).
A entrevista, a partir de assuntos relevantes previamente estabelecidos, conduzirá o pesquisador a conhecer os aspectos reais do objeto que pretende investigar. O professor, nesse caso, apontará para as questões que ele entende como importantes na sua trajetória docente, reforçando, ainda, sua percepção do mundo e evidenciando questões pessoais, tais como: emoções, sentimentos, situações, opiniões etc. em relação ao passado ou ao momento atual, ou seja, o “informante [...] relata aquilo que viu ou sentiu ao longo de sua experiência” (HAGUETTE, 1987, p. 78).
exatamente o modo como fala sobre ela [a vida], como a ordena, a que dá destaque, o que deixa de lado, as palavras que escolhe, é que são importantes para a compreensão de qualquer entrevista (THOMPSON, 1992, p. 258).
As entrevistas foram realizadas com quatro professores do ensino fundamental que atuam na Escola Professora Araci Corrêa Santa Maria, localizada na Vila de Maiauatá, Igarapé-Miri/PA. São eles:
Professora Gracilene Ferreira (Lene), 35 anos, ribeirinha de Igarapé-Miri/PA, formada em Ciências Sociais, pós-graduada em Educação para as relações raciais; leciona Literatura, exercendo, concomitantemente, a função de diretora;
Professora Dilza dos Santos Machado, 47 anos, ribeirinha de Maracanã/PA, formada e pós-graduada em Matemática; leciona na mesma área de formação; Professor Claudionilson Almeida de Carvalho, 45 anos, ribeirinho de Igarapé-
Miri/PA, formado em Letras, com pós-graduação em Língua Portuguesa – Literatura; leciona Língua Portuguesa; e
Professora Vânia Sebastiana Nonato Machado, 38 anos, ribeirinha de Igarapé- Miri/PA, formada em Ciências Naturais com habilitação em Química e pós- graduada em Metodologia do Ensino de Ciências; leciona Ciências.
A escolha destes sujeitos não foi arbitrária. De fato, os quatros professores escolhidos apresentam características comuns que são fundamentais na relação dos objetivos desta pesquisa. Todos eles nasceram e se consideram ribeirinhos sendo que, somente um não nasceu no município de Igarapé-Miri. Além da graduação, todos já estão pós-graduados, configurando uma situação diferenciada para o contexto, uma vez que existem professores ribeirinhos que não concluíram o ensino fundamental. Os quatro professores escolhidos possuem larga experiência junto ao contexto ribeirinho, principalmente na Vila de Maiauatá,
lócus da nossa pesquisa. Finalmente, destaca-se o fato de que os quatro professores atuam em
projetos especiais que a Escola Professora Araci Corrêa Santa Maria realiza, como se evidenciará a posteriori, na última seção.
O processo de análise e interpretação buscou identificar os aspectos mais relevantes e explícitos e, ainda, os aspectos implícitos, latentes às falas e apontamentos dos professores e professoras entrevistados, pois “é preciso que a análise não se restrinja ao que está explicito no material, mas procure ir mais a fundo, desvelando mensagens implícitas, dimensões contraditórias e temas sistematicamente silenciados” (LUDKE e ANDRÉ, 1986, p. 48).
Os dados obtidos a partir das experiências docentes foram organizados em categorias de análise norteadas pelos pressupostos freireanos da educação. A forma de análise dos
resultados e dados se concretizou a partir do levantamento das categorias já evidenciadas, como: autonomia, diálogo, contextualização e prática libertadora, de acordo com os pressupostos freireanos e em sintonia com práticas pedagógicas relacionadas à cultura amazônica paraense em Igarapé-Miri/PA.
De fato, uma formação docente mais próxima e relacionada com a realidade ribeirinha da Amazônia, em que se valoriza os saberes e as experiências das populações do campo, e se procura resgatar e afirmar os valores culturais dessas pessoas menos favorecidas, torna-se fundamental para a ação pedagógica. Esta afirmação encontra embasamento nas ideias de Hage (2006), que ressalta “a necessidade de que experiências e políticas educacionais implementadas no campo da Amazônia assumam um projeto político-pedagógico que expresse as causas, os desafios, os sonhos, a história e a cultura das populações da Amazônia que são do campo e nele vivem”.
É, portanto, a partir de um enfoque freireano e de uma abordagem metodológica putada pela pesquisa qualitativa que procuramos observar o contexto ribeirinho de forma contextualizada e histórica, numa perspectiva de compreensão da relação que os professores ribeirinhos têm com o outro e com o mundo, buscando a constituição de uma sociedade mais justa e equitativa através da educação.