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Devido à necessidade de garantir a acumulação do capital em tempo de superprodução e subconsumo, vários países de capitalismo avançado reduziram seus gastos públicos, abandonando as ideias keynesianas e adotando o monetarismo e o neoliberalismo como padrões político-econômicos. O modelo keynesiano começou a ser reestruturado na direção de um novo regime de acumulação, o qual David Harvey chama de acumulação flexível, aumentando o poder do capital financeiro sobre o Estado.

O modelo anterior gerava uma rigidez econômica, com investimentos de capital fixo de

larga escala e de longo prazo em sistemas de produção em massa, que por sua vez engessavam a flexibilidade de planejamento econômico ao mesmo tempo em que presumiam um crescimento estável em mercados de consumo supostamente invariáveis. Desta forma, em uma comparação com o fordismo-keynesiano, Har vey delineia os traços da nova estrutura produtiva da seguinte forma: “a acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo.” (HARVEY, 1992)

Com esta flexibilização generalizada, a economia capitalista mundial passa, de um sistema em que as redes de acumulação estavam inseridas nas redes de poder e subordinadas a elas para um sistema em que as redes de poder

estão inseridas nas redes de acumulação e subordinadas a esta. Nesse sentido, os governos mesclam progressivamente sua estrutura com a das empresas comerciais, voltadas para o lucro. O Estado minimalista intensifica as privatizações e consolida sua submissão ao capital financeiro. O neoliberalismo vigora baseado na liberdade política e econômica, com seus princípios expressos na economia de mercado, subordinado às prerrogativas do capital e oposto aos sistemas de proteção social.

O surgimento do excesso de capacidade de produção fabril, expressão da acirrada competição internacional e da disponibilidade de mão- de - obra extremamente barata nos países asiáticos, acarreta uma significativa perda de potencial lucrativo para o setor industrial, que apresenta ainda mais dificuldade em proporcionar uma taxa de lucro adequada ao frenético capitalismo

quando par te substancial do capital se desloca para as finanças. A indústria se enfraquece e, como consequência, assistimos ao declínio das cidades industriais e à implantação de gerências estratégicas mediante a flexibilização das estruturas de trabalho. As necessidades de redução de custos de produção ocasionam a transferência das atividades produtivas das antigas metrópoles para qualquer lugar onde mão- de - obra, instalações e infraestrutura à preços competitivos estivessem disponíveis.

A organização urbana sofre mais uma inversão em sua lógica com o deslocamento de atividades nas antigas metrópoles industriais, ocasionando a decadência e a ascensão de diferentes regiões urbanas e o surgimento de novas centralidades. Neste cenário de transformação das bases organizacionais da sociedade, a precarização do trabalho

é traduzida em altos níveis de desemprego estrutural, ganhos modestos de salário real, um aumento do emprego temporário e da terceirização.

O massivo proletariado urbano se sujeita às demissões para enxugamento de pessoal advindas das reestruturações nas linhas de produção, às reduções de benefícios sociais e às drásticas políticas de redução de salários. Em um cenário mundial, degradação urbana se agrava ainda mais com as reformas promovidas pelo Estado visando cortes nos gastos públicos, especialmente na área social, e com o aumento dos impostos referentes às políticas anti-inflacionárias.

Mais do que nunca, as favelas se tornam par te integrante da cidade contemporânea. Consolidadas através do tempo, mediante uma sequência de transformações nos objetivos

organizacionais das sociedades, as favelas e ocupações irregulares par ticipam hoje da economia formal e informal das grandes cidades globais. Dialeticamente, esta parcela marginalizada da sociedade que deixa de par ticipar da sociedade enquanto rede de recursos e benefícios, se torna par te indispensável do funcionamento do capitalismo à medida que, no conjunto, promove a diminuição dos custos de reprodução do capital. Sendo assim, o termo exclusão social deve se ater exclusivamente ao que diz respeito aos benefícios e assistências de uma sociedade organizada. Do ponto de vista econômico, a desigualdade e marginalização são par te inerente do processo de acumulação capitalista.

Ainda constituindo uma lógica dual, não apenas a parcela supostamente excluída da população está intrinsicamente inserida

na economia capitalista como par te funcional. Mas ainda, pode -se ressaltar que no interior das favelas se replicam em menor escala os mesmos processos de acumulação do macro cenário social. Diante da consolidação de um mercado informal, a pobreza urbana gera renda com seus recursos e patrimônio em uma relação de exploração de pessoas ainda mais pobres, caracterizando um ciclo vicioso de inclusão econômica pela desigualdade.

Notadamente, nos últimos anos a acumulação de capital foi responsável por influenciar for temente a lógica da ocupação territorial, orientando as políticas públicas e mesmo as políticas sociais. O cenário urbano global se configura, deste modo, como reflexo de um longo período de consolidação de ideais que estabelecem uma rede relações de cunho parasitário, onde os recursos provedores de

capital são levados ao esgotamento. Como resultado, assistimos à crescente degradação das condições de vida e da qualidade dos espaços urbanos.