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5 Samspillet mellom sentrale og lokale aktører

5.1 Pilotkommunenes relasjoner til det sentrale nivået

Em fins de 2012 e início de 2013, o líder norte-coreano Kim Jong- un recrudesceu para todo o mundo o seu discurso contra os inimigos do Ocidente, em especial contra os Estados Unidos e seus aliados no Oriente Médio e demais países da Oceania, Coréia do Sul e Japão. A ordem do “grande líder” era guerra contra os algozes do povo norte- coreano.

Em 15 de abril de 2013, data festiva em Pyongyang em comemoração aos 101 anos do nascimento de Kim Il-sung (pai de Kim Jong-Il e avô de Kim Jong-un), o primeiro dos ditadores em série da Coréia do Norte, o olhar global aguardava notícias de um bombardeio norte-coreano contra um inimigo de sempre, a Coréia do Sul, ou

contra os aliados japoneses, ou até mesmo contra uma base norte-americana no Pacífico. Mas no dia D nada disso aconteceu.

E restou à imprensa global ironizar veiculando que o único e solitário tiro ouvido no país de Kim Jong-un fora o deflagrado a fim de iniciar uma maratona. Na mesma data, nada de exercícios com armas nucleares na televisão do país, e sim imagens de uma dança tradicional encenada em imenso grupo pela população local.

As estratégias bélicas de Vida de Inseto, atos de bravura presentes no filme, representam as encenações de estratégias bélicas e de atos bilaterais celebrados na atualidade entre nações. Tão blefe quanto o falso pássaro de Flik era, ao menos naquele dia, a ameaça nuclear norte-coreana.

E a figura dos bravos combatentes de guerra, ou dos grandes estrategistas militares-geopolíticos, cede espaço para lideranças inseguras como Atta e a corte de formigas, ou para deslocados, caricatos e embusteiros como Flik. Ou ainda para o bando mambembe que assume o lugar de tropa combativa e guerreira.

Também, os exércitos são entidades não mais concretas como nas grandes guerras do passado e, quando existentes, igualmente se dão à simulação imagética. Na invasão do Iraque pelos Estados Unidos, aponta-se a existência de até 50.000

“soldados” terceirizados a serviço do Pentágono em solo iraquiano, contratados pela empresa Blackwater (Scahill, 2008). Quantos “artistas de circo” não existiriam entre estes mercenários alugados para combater na epopeia circense da Guerra ao Terror?

Por sobre a intenção de nos espelhar em uma história de superação e amor – Flik, o enjeitado engenhoso, salva a nação dos invasores carrascos e exploradores e, de quebra, consegue o amor de Atta, tornando-se um humilde futuro rei (embora no filme- animação fora suprimido o ato de ele ser coroado, já que esposo de princesa-rainha se tornaria) – Vida de Inseto fabula argumentos sintomáticos da coragem nesta já não mais tão nova ordem mundial.

Jean Baudrillard (1997, 2003) é um dos que elenca este caráter de hiper-realidade aurática concedido aos objetos e transcendente para com as sociedades, também inseridos e visualizáveis no contexto de guerra. No caso da ameaça à comunidade de Flik e Atta, a ideologia da defesa deu-se pela espetacularização da brava performance dos atores circenses, alçados à categoria de bravos guerreiros por seu dotes de caserna, anedóticos e midiatizáveis na comunidade.

Flik sabia da farsa, mas foi impotente (ou dissimulado) para dissuadi-la a tempo. Manter o simulacro de bravura e destemor era mais importante, ou necessário, naquele momento. E Como na ameaça nuclear de

Kim Jong-un, o pássaro criado por Flik sob o incentivo da criativa e escrachada trupe de guerreiros é mais um elemento de valor fractal, unicamente simbólico e usado como máquina de terrorismo de estado. Assim, o terror se mostra mais como imagem, que como concretude.

A guerra sob o comando de Flik é espetacular – e por isso midiática, com alegorias e pantomimas. Existe mais em visualidade, aqui referindo-

se unicamente e a princípio ao artefato bélico central utilizado na batalha: o grande pássaro cenográfico usado como elemento beligerante e farsesco.

A epifania do ataque liderado por Flik e sua trupe de artistas é essencial para a harmonização daquele coletivo, aprisionado em uma rotina de espoliação pelos seus inimigos, porém domesticados e acostumados a este sistema de servidão de modo não muito diferente ao imposto pelo capitalismo transnacional à quase 7 bilhões de habitantes do planeta.

Além das questões bélicas, Flik faz o papel de Professor Pardal da comunidade de formigas. Seu intento, por vezes incompreendido, por vezes mal sucedido por desastrado, é criar instrumentos para maximizar a produção. Engenhocas bem ou mal arquitetadas, capazes de otimizar a colheita ou causar desventuras coletivas.

Mas não é a racionalidade instrumental de criar novas ferramentas e engenhos o que vai salvar todas as formigas, da mais plebeia à Rainha- Mãe e a princesa Atta. O que vai salvar a todos não é nem o acúmulo de produção destinado aos gafanhotos, muito menos o poder militar do pássaro. Por salvar, leia-se, restituir a vida, aprisionada ao cotidiano de modo de produção a qual o formigueiro está atrelado, ou condenado, a viver.

A salvadora aqui será a arte e o ato de coragem que é estimulá-la em um mundo tão hostil à arte e ao artista. Seus protagonistas serão os membros deste exército tão inacreditável quanto o exército de Brancaleone. Francis, a Joaninha, Manny, o Louva- Deus, Slim, o Bicho Pau, Chucrute, a Lagarta, Rosie, a Viúva-Negra e Cigana, a Borboleta. Sem contar o Sr. P. T. Pulga, manager do grupo. São estes os heróis do circo que, aliados à Flik, salvam o formigueiro. Porém mais com o poder da arte, que com a potência de tiros. Todo o engenho e valentia tímida de Flik não beira os pés da potência emancipadora emanada pela arte dos artistas.

Vida de Inseto é uma ode a arte, irretocável em sua abordagem elevadora quanto à arte circense, já que a trupe de insetos soldados é composta na totalidade por artistas de circo. Artistas cujos fiéis retratos feitos são os de seres entregues, em um ato de destemor cada vez mais necessário, ao único compromisso da expressão da sensibilidade, em toda a sua faceta marginal, desapegada, outsider, economicamente desfavorável.

O circo de P. T. Pulga vive em crise e o próprio proprietário arrisca sua vida em um número quase suicida em busca de plateia. Quando cooptados como terríveis mercenários dispostos a salvar a comunidade de Flik, assim sendo apresentados à Rainha - Mãe, à princesa Atta e as demais formigas, o que os bravos e intrépidos combatentes levam àquela gente nada mais é do que a sublime risada e o deslumbramento com as cores, formas, sons e gestos transformadores pela emoção.

Francis, Manny, Slim, Chucrute, Rosie e Cigana materializam junto às formigas a ideia da escola como idealizada por Edgar Morin. Uma escola onde o ensino principalmente compreende e valoriza o quão vultosa pode e deve ser a contribuição da cultura das humanidades para a educação. Não à toa, são as crianças formigas e alunas as mais encantadas com o novo tempo proporcionado pelos “guerreiros”.

As artes levam-nos à dimensão estética da existência e – conforme o adágio que diz que a natureza imita a obra de arte – elas nos ensinam a ver o mundo esteticamente. Trata-se, enfim, de demonstrar que, em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana (Morin, 2003, p. 40).

Necessário reforçar que o próprio pássaro artificial gigante construído com o intuito de afugentar os gafanhotos inimigos em uma estratégia de guerra imagética é, ele mesmo, a grande obra de arte coletiva do formigueiro, espécie de totem para qual o fazer envolveu todos os integrantes daquele grupo de pertença. Sua conclusão, como ícone artístico-utilitário é celebrado por todos.

Em verdade, os artistas são originalmente os guerreiros do filme, já que estes circenses não se esquivam da luta contra o inimigo comum. A arte que salva é reconhecida ao final do filme-animação, fazendo justiça ao começo da história, quando Flik, o criativo, vê seu gênio criador banido em nome do equilíbrio, das normas, das convenções coletivas.

E na dualidade entre Flik e Hopper, entre a racionalidade criativa e a arrogância exploradora, a primeira somente se faz vitoriosa após a intervenção visual, fantasmagórica e poética – corajosa e mágica – dos circenses mestiços.