9 Forankring, kompetansebygging og andre effekter
9.4 Kunnskap med overføringsverdi
Andy chega ao limite da vida infanto-juvenil e, enfim, parece se desfazer de seus brinquedos. E neste caso a recíproca também é verdadeira. Parece que, finalmente, os brinquedos, em especial o caubói Woody, desfazem-se de Andy. Todos são entregues à menina Bonnie. Um ciclo se renova e uma nova etapa começa na vida de todos.
A despedida é emocionante. A decisão de Andy em dar também o boneco do caubói à pequena Bonnie ocorre depois de Woody ter optado por ficar com os demais brinquedos, não seguindo com o agora rapaz para a faculdade. Assim, o gesto de amizade e desapego é bilateral. A amizade é superior e sobreviverá para sempre, por sobre todas as coisas.
De fato, uma amizade. A união de Andy e Woody não é ameaçada nem pelo apelo tecno fake de Buzz Lightyear, nem pela iminência da ida do agora rapaz ao ensino superior, rompendo a barreira e a proteção doméstica representada pelo lar. Andy e Woody são e serão sempre amigos inseparáveis.
Lembremo-nos de que é curioso notar que o pai de Andy é figura obscura na saga de Toy Story. Ele jamais aparece, e ao mesmo tempo não são feitas menções a esta figura masculina. Talvez a imagem viril de Woody projete no menino-homem a idealização do pai ausente e, por isso, ele a carregará para sempre dentro de si.
No meio de tantos brinquedos – figuras de dinossauro, alienígenas, cachorro de mola, homem e mulher batata, porco cofre, soldadinhos de plástico, cowgirl e seu cavalo desastrado, porém infalível, além de sobretudo um guerreiro interestelar – o caubói será sempre especial. Isto porque em virtude da amizade Andy e Woody são quase que um só, sendo a separação um ato extremo em ambas as vidas.
E amizade é o que faz de uma dupla uma unicidade. Agamben (2009) avança nesta trilha de pensamento. Ao discorrer sobre a figura do amigo, o filósofo afirma, com base em referências como escritos filosóficos e aristotélicos além de impressões sobre pintura, que um amigo não é somente um outro com qual compartilhamos preferências, sentimentos, sensações... Um amigo é mais que isso.
Um amigo seria um outro de nós mesmos. O que se compartilha com um amigo seria o que compartilhamos com nós mesmos, nossa a própria vida, com nossa existência. Assim, “com-sentimos” a existência de um amigo (Agamben, 2009) e “com-dividimos” com ele nosso ser.
Nessa sensação de existir insiste uma outra sensação, especificamente humana, que tem a forma de um com-sentir (synaisthanestha) a existência do amigo. A amizade é a instância desse com-sentimento da existência do amigo no sentimento a existência própria. Mas isso significa que a amizade tem um estatuto ontológico e, ao mesmo tempo, político. A sensação do ser é, de fato, já sempre dividida e com-dividida, e a amizade nomeia essa condivisão [...]. O amigo não é um outro eu, mas uma alteridade imanente na ‘mesmidade’, um torna-se outro do mesmo. No ponto em que percebo a minha existência como doce, a minha sensação é atravessada por um com- sentir que a desloca e deporta para o amigo, para o outro mesmo. A amizade é essa des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si [...]. Os amigos não condividem algo (um nascimento, uma lei, um lugar, um gosto): eles são com-divididos pela experiência da amizade. A amizade é a condivisão que precede toda divisão, porque aquilo que há para repartir é o próprio fato de existir, a própria vida (AGAMBEN, 2009, p. 92).
A separação física da dupla que ocorre no filme representa a experiência mais dolorida de suas vidas, uma vez que se trata de um exercício de reorganizar os modos de “com-sentir” e “com-dividir” que fizeram de Woody e Andy, alegoricamente, um ser só pois que “des-subjetivados”, amigos de verdade. Muito mais que “amigo estou aqui”, como canta a canção tema do filme. Mais que estar, a dupla é exemplar desta “alteridade na mesmidade”.
A compreensão da fortaleza da relação entre Andy e Woody também pode ser conseguida por oposição, situando a persona do ursinho Lotso como o contrário desta “condivisão” de si próprio. O inferno de Lotso é a falta da amizade, sacramentada com o gesto de sua ex-dona, a menina Daisy, entendido por ele como desprezo, desonra, inimizade, desamor. Quebrado este elo essencial, o perverso urso jamais o reconstruiu, vivendo a solidão dos temidos e dos malvados.
O sentimento de amizade de Andy e Woody extravasa seus corpos e contamina todos os demais brinquedos que, por uma vida, acompanharam de modo intenso as brincadeiras do garoto. Os brinquedos também vivenciam em grau máximo esta amizade,
sendo únicos até na hora da morte após a traição de Lotso e a quase incineração no aterro sanitário. A cena é forte: as mãos de todos se unem. Se é para morrer, que morramos juntos, unidos, únicos e nossa comunhão fraterna.
E Sunnyside é o local onde eclodem estes sentimentos nos corações de todos. Ou melhor, onde todos se apercebem e se apoderam deste prazer e desta profissão de serem amigos. A creche, inicialmente considerada um paraíso por parte dos brinquedos de Andy, logo depois tem sua face infernal revelada por força da rotina de abusos, maus tratos e opressão imposta de um lado por Lotso e sua gangue, de outro pelas crianças mais novas que também frequentam o local.
Até porque em contraposição à casa de Andy, Sunnyside não se configura como próximo ao que se concebe como lugar antropológico, na conformação que Augé (1994) dá a este termo. Despersonalizada, transitória por meio da rotatividade e efemeridade da presença infantil, não impulsionadora de referências e lembranças pessoais (lembramo- nos dos amigos de escola, muito dificilmente dos amigos de creche), desprovida de grande carga de maiores apelo histórico, a creche tem sua parcela de não-lugar.
Enquanto há vida plena na casa de Andy, e por isso nela há a marca subjetiva própria aos lugares de pertencimento, na creche ocorre fenômeno análogo aos dos lugares de passagem, fluxo e fugacidade referenciados por Augé.
Sunnyside não é um grande aeroporto, gare, boulevard, ou shopping center. Entretanto, a solidão e a transitoriedade pontuam o dia a dia na creche. Tanto que a alegria do brincar, plena na casa de Andy, anula-se ao soar o toque que assinala intervalo, lanche ou saída dos pequenos deste não-lugar que é a creche.
Se um lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um não-lugar. A hipótese aqui defendida é a de que a supermodernidade é produtora de não- lugares, isto é, de espaços que não são em si lugares antropológicos e que, contrariamente à modernidade baudelairiana, não integram os lugares antigos: estes, repertoriados, classificados e promovidos a ‘lugares de memória’, ocupam aí um lugar circunscrito e específico (AUGÉ, 1994, p.73).
Mais que isso, as imagens do filme mostram a creche como cárcere, convertida em seus períodos de inatividade em campo de concentração logo após a saída das crianças, em especial no período da noite. De espaço de brincadeira, diversão e principalmente amizade, esta última o sentimento que a saga de Toy Story prega dever haver entre os brinquedos e seus donos, Sunnyside à noite se converte em um ambiente hostil, sombrio e aterrorizador. Tanto que fugir dele se torna meta do grupo. Tanto que a missão de libertá-los ganha o ímpeto de Woody e de todos os brinquedos.
A amizade encontra seu paroxismo. Ambos Woody e Andy sofrem e os outros brinquedos sofrem também, por tabela. Passou-se mais de década, mas o dia em o garoto virara um homem, enfim, chegou. Cabe a Bonnie realimentar o sentimento de “com-sentir” e “com-dividir”, tarefa que ela começa de imediato a fazer. Woody, Buzz e os demais amigos estão em boas mãos.
Por fim, cabe registrar: irmanar-se na amizade não é fácil. O exemplo de um desorientado Ken (e também de uma Barbie em menor escala), fútil e superficial, é sintomático. No filme ele é aliado de Lotso, por meio de subserviência, omissão e fraqueza quase criminosas.
Mas a revelação da chegada da Barbie à creche, boneca que integra o grupo de Andy, incita-o à libertação. Todavia ele fraqueja por diversas vezes e, por um golpe do destino, e medo, acaba ficando na creche. “Com-sentir” e “com-dividir” requerem coragem e determinação.
O contemporâneo nos proporciona muitos homens e muitas mulheres como Andy e Woody. E também como Lotso, nossa face tânatos. Entretanto, há inúmeros homens e mulheres como Ken (e como Barbie). Estabelecer e reatar os elos de “amizade” com eles e com elas é, certamente, um dos desafios do nosso século.