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4 Fra handlingsplan til handling

4.6 De viktigste tiltakene i de enkelte kommunene

4.6.1 Erfaringer fra noen enkeltprosjekter

Toy Story é considerado o primeiro longa-metragem de animação computadorizada da história. O filme brasileiro Cassiopéia (1996) requer este título, alegando incoerências técnicas na produção do primeiro longa da Pixar. Incoerências que seriam inexistentes no pioneiro da animação digital brasileira. Entretanto, é fato que as aventuras de Woody e Buzz Lightyear chegaram ao cinema alguns meses antes do lançamento do filme do diretor Clóvis Vieira.

Então, por ser o primeiro de um gênero, Toy Stoy levanta uma série de questões que merecem relevância. Porém, uma única cena já bastaria para que um debate intenso sobre a condição humana fosse empreendido no contexto do filme. Na casa do inimigo Sid, temendo por suas vidas, Woody e Buzz

intentam fuga. O guerreiro interestelar, crente em ser um combatente cósmico contra as desumanidades do malvado Imperador Zurg, este o articulador de uma ameaça letal contra todo o universo, tenta voar.

Sim, ele se comunica com o Comando Estelar, está em missão por toda

a galáxia e tem super poderes ciborgues advindos de uma parafernália que o veste como segunda pele, com armas de raios, sensores, capacete pressurizado e asas aptas a voos supersônicos.

Na casa de Andy, quando de sua chegada triunfal como brinquedo recém presenteado ao menino, Buzz Ligthyear oferta uma mostra de sua condição sobre humana de super-herói. Por mais que um Woody prolífico em ciúmes tente ridicularizá-lo, há

uma gota de advertência em cada senão feito pelo brinquedo mais experiente. O caubói afirma o que somente todos ali são: simples brinquedos, nada mais. Todavia, Lightyear se nega a acreditar, porque, para ele, sua condição é de guerreiro interplanetário salvador das galáxias. E no começo do filme, em uma acrobacia que conta com boa sorte e acaso, Buzz consegue voar para espantos de todos os demais brinquedos.

Porém Buzz e Woody se perdem e caem nas mãos do terrível Sid. É hora da fuga. E o boneco astronauta se vê diante de seu duplo fantasmagórico como propaganda. Lightyear é surpreendido com um comercial de televisão que lhe diz o que ele não quisera ouvir: ele é um boneco, que não voa de verdade, made in Taiwan e multiplicado aos milhares, vendido nas melhores lojas do ramo, como a Al’s Toy Barn. Que horror, que desilusão!

Mas ele não crê, afinal, ele é Buzz Lightyear, vai voar em busca de se conectar com o Comando Estelar e deixar para trás aquele solo estranho e aterrorizante do planeta Terra. Ele entoa seu lema de bravura, sobe no corrimão de uma escada para levantar voo e se lança... ao infinito e além... E a queda da qual se faz vítima é mais que dolorosa, é emocionalmente traumática. Ele perde seu braço e sua identidade circunstancial de bravura.

O gesto heroico de Buzz é revelador de nossas limitações face as nossas fragmentadas identidades, que em tempos de pós-modernidade não mais encontram referenciais únicos. Somos bonecos, somos super-heróis, somos infalivelmente falíveis. Compreender estas dualidades que Lightyear nos força a compreender com sua queda e com a resignação a sua condição de simples brinquedo – não por isso menor – é uma das mais valorosas contribuições que o filme da Pixar nos lega. Confrontar-se com estas dualidades e multiplicidades é deparar-se com o processo de construção do sujeito pós- moderno que, de acordo com Hall (2006), é aquele que se configura nesta humanidade do final do século XX e começo do século XXI.

Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). E definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora “narrativa do eu” (veja Hall, 1990). A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente (Hall, 2006, p. 13).

Buzz Lightyear é astronauta, é super-herói, é brinquedo, é humano sem ser de carne, nem de osso, submerso por suas fragilidades no mesmo mar de inconstâncias e incertezas no qual se encontram nossas identidades pós-modernas. E como espelho, faz refletir seus gestos de bravura em Woody. A divisão do coração de Andy, fraturado entre o guerreiro interestelar de plástico e luzes e o caubói de espuma e pano, assinala o início deste rompimento, com o antes doce e respeitável brinquedo cavaleiro do Velho Oeste assumindo uma face dissimulada em busca de aniquilar o inimigo passageiro.

Com amores, ódios e paixões iguais as nossas, Woody se revela demasiadamente humano arquitetando e colocando em prática logo de início um micro plano para, por meio de uma micro vingança, livrar-se em definitivo de Lightyear. O plano da certo e é o remorso de Woody que o coloca junto com Buzz na liberdade e nos perigos das ruas, acabando por parar na casa do menino torturador de brinquedos, do qual é necessário se livrar rapidamente se o objetivo é sobreviver.

Buzz Lightyear é um super-herói com poderes falsos, mas com coração e gestos de herói de verdade. E sabemos do que são capazes os super-heróis de verdade, inclusive com suas ações de benevolência, sempre dispostos a ajudar o próximo. Woody é um bom moço, que pode até ser bom (e realmente o é), mas sua persona má não se esquiva em se revelar quando seus interesses – o amor incondicional de Andy – são colocados em risco, mesmo que minimamente. Assim, a representação de Woody também se mostra volátil, sendo ele também partícipe deste contexto no qual sujeitos pós modernos são

impelidos à uma realidade de múltiplas identidades.

Não nos esqueçamos de um fator essencial contido na própria imagem de Woody. O boneco é um caubói, arquétipo midiático do homem rural norte-americano que a cultura de massa do século XX nos legou. De um caubói que é símbolo de bravura, mas como nos alerta Hobsbawm (2013), de um caubói que é também fanfarronice, rudeza e selvageria.

Desta forma, o ato de bravura de Woody em se irmanar com Lightyear rumo à libertação da dupla e à reconstituição com o grupo de brinquedos, e por tabela com Andy, ocorre em paralelo à canalhice inicial por ele protagonizada, de viabilizar o acidente que faz o astronauta sair do conforto e segurança do lar do menino.

Assim, as dualidades de Woody, que são também nossas dualidades, estão presentes. E a própria figura do caubói, onipresente nas imagens dos Estados Unidos inclusive fora deste país (registre-se neste cenário a importância do cinema de western que projetou o ícone do caubói em escala global), surge como inerente a uma pós- modernidade, já que instável e polifônica.

Antes de fazer conjecturas em busca de uma resposta, quero dizer uma palavrinha ou duas sobre esses outros mitos de caubói. Faço isso em parte com o objetivo de chamar a atenção para o que todos eles têm em comum, mas sobretudo para lembrar a flexibilidade ideológica e política desses mitos ou dessas “tradições inventadas”, aos quais voltarei num instante no contexto americano. O que eles têm em comum é óbvio: tenacidade, bravura, o uso de armas, a prontidão para infligir ou suportar sofrimento, indisciplina e uma forte dose de barbarismo, ou ao menos de falta de verniz, o que gradualmente adquire o status de nobre selvagem. Provavelmente também esse desprezo do homem a cavalo pelo que anda a pé, do vaqueiro pelo agricultor, e esse jeito fanfarrão de andar e se vestir que cultiva como sinais de superioridade. Acrescente-se a isso um distinto não intelectualismo, ou mesmo anti-intelectualismo. Tudo isso tem excitado mais de um sofisticado filho da classe média citadina. Caubóis — mesmo caubóis da meia noite — são brutais. Mas, além disso, remetem os mitos e as realidades das sociedades a que pertencem (Hobsbawm, 2013, p. 205).

Os atos de bravura de Toy Story nos incitam a repensar quem somos. Ou, ao menos, que identidade expressamos. Todos somos guerreiros interestelares, caubóis... e também indulgentes... e também malévolos.