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8 Effektevalueringens hovedresultater og begrensninger

8.1 Oppsummering av hovedfunn

Mais uma vez os saberes da sustentabilidade emergem de um filme da Pixar. Miles Eixo de Roda se apresenta no começo de Carros 2 como herói da preservação ambiental ao propor um combustível limpo, não derivado do petroléo, lançando-se a uma ação global de marketing – o World Grand Prix – a fim de promover o produto e conscientizar a sociedade mundial sobre a importância da conservação da biosfera.

Entretanto, ao final do filme, revela-se a farsa de que Miles Eixo de Roda e as motivações sustentáveis do empresário são puro engodo. Ao sabotar criminal e sorrateiramente o Allinol, o que ele intenta é desacreditar o combustível perante a opinião pública do planeta. E desacreditado, tido como combustível estoura motor, comercialmente o Allinol tenderia ao fracasso.

Temos sim a defesa das tecnologias limpas e sustentáveis enredadas na trama do filme. Porém, esta é a constatação óbvia que Carros 2 nos deixa de legado. Há, sobretudo, um outro questionamento implícito na história de vilania de Miles Eixo de Roda e de heroísmo matuto de Mate. Este questionamento é o saber sobre o que nos será necessário para conciliarmos desenvolvimento sustentável e inclusão social.

Porque em um mundo no qual a natureza já foi demasiadamente sacrificada em prol do desenvolvimento econômico, em séculos de poluição e destruição ambiental, a equação humana ainda não foi resolvida.

Ainda há imensas hordas de miseráveis pelo mundo, de pobres em condições sub-humanas de moradia e com fome, muita fome. Refugiados, expatriados, párias e vítimas de xenofobia,

violência e exploração. O continente europeu e a zona euro enfrentam há anos uma crise que se agudiza em alguns países (o caso espanhol é exemplar) e os Estados Unidos não acompanham mais a pujança que era

crescente desde o pós Segunda Grande Guerra. A crise econômica se dissemina pelo mundo.

Miles Eixo de Roda encampa o discurso ambiental como farsa porque, na verdade, ele queria era desqualificar o Allinol para, assim, poder vender ainda mais gasolina e diesel. Se assim o fazia, era na certeza de que sua estratégia empresarial

seria condenável porque anti-ética, mas seria lucrativa diante do fato de que a grande maioria dos automóveis “vivos” imprescindiam e imprescindem de gasolina e diesel para sobreviver.

Principalmente os carros velhos, fora de modelo, mal conservados, longe da zona primeira de desejo da sociedade de consumo. Principalmente os carros que compõem as hordas de automóveis miseráveis pelo mundo, de carros pobres

em condições sub-humanas de moradia e com sede, muita sede por um litro ou galão sequer de gasolina ou diesel.

Veículos refugiados, ex-patriados, párias e vítimas de xenofobia, violência e exploração, com latarias demodés e sem o apelo sexual de McQueen, Finn McMissile ou Holley. Certamente consumidores potenciais, embora desafortunados, da loção antiferrugem que tem o jovem campeão Relâmpago como seu garoto propaganda.

Carros velhos do mundo todo, uni-vos!

Em entrevista concedida em 2012 em época próxima à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, ao jornal brasileiro O Globo, Edgar Morin colocou que a erradicação da pobreza é um dos vetores para o sucesso e a universalização de uma política ecológica e de respeito ao meio ambiente.

A erradicação da pobreza é um dos desafios para se atingir o desenvolvimento sustentável. Ainda hoje há povos em situação de pobreza extrema e as nações não conseguem solucionar. Por quê?

EDGAR MORIN: É uma lacuna. Não se pode isolar a questão ecológica da questão social. A pobreza é um problema mundial e pressupõe a adoção de políticas que combatam a exclusão. Mas as nações parecem que estão isoladas umas das outras e não conseguem se aliar para enfrentar questões globais como esta.

Por quê?

MORIN: Por um lado, não temos ainda uma realidade supranacional capaz de impor medidas adequadas aos Estados. Por outro, os Estados estão atrelados à especulação financeira. É preciso uma reforma política para que Estados exerçam o papel para o qual foram criados: o de garantir os direitos básicos à população (Morin, 2012).

O plano de Miles Eixo de Roda inicialmente dá certo porque conta com o auxílio de um coletivo de carros velhos, prestes à aposentadoria, com escassez de peças de reposição, que se une ao mal magnata a fim de realizar trapaças, mas também, no fundo, em defesa de seus “direitos à alimentação”.

Uma vez a vitória do Allinol se consubstanciasse, quem iria bancar as conversões de motores daquelas velharias sobre quatro rodas? Haveria peças para a conversão de todos? E os custos destas cirurgias, seriam cobertos pelo Sistema Único de Saúde da sociedade do automóvel? O Estado de Bem Estar Social, em crise mundial, arcaria com estas obrigações?

Quem pagaria esta conta?

O discurso da preservação ambiental, sem a inclusão social e sem a minimização da pobreza, revela-se fantasmagórico e ameaçador para milhares de excluídos ao redor do globo.

Espião por acaso, Mate detém um conhecimento precioso, o qual nem Finn McMissile, nem Holley, possuem. Mate é um destes carros velhos consumidores de gasolina e diesel, que seriam vitimados caso o Allinol imperasse como combustível totalizante. E por ser um carro velho, além de ser um reboque, ele é especialista em carros obsoletos e suas peças de reposição. Este saber que falta a dupla de espiões, fruto de uma inata sensibilidade social vivida

por analogia pelo caminhão caipira – reconhecer-se em seu semelhante – é fundamental para o sucesso da investigação transnacional.

A supracitada Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio+20, ocorrida em junho de 2012

na capital fluminense, colocava a

questão da erradicação da pobreza como um dos eixos de destaque para os debates do evento e para o futuro da sociedade.

O fortalecimento da chamada “economia verde” deve ser meta, afirma a ONU, entretanto este ideal deve estar alinhado à satisfação das necessidades básicas do ser humano.

A “economia verde” constitui um instrumento para a aplicação de políticas e programas com vistas a fortalecer a implementação dos compromissos de desenvolvimento sustentável em todos os países da ONU. Para o Brasil, a “economia verde” deve ser sempre enfocada no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, uma vez que os temas de economia e de meio ambiente (“verde”) não podem ser separados das preocupações de cunho social. O debate sobre “economia verde” apontou para

oportunidades de complementaridade e de sinergia com outros esforços internacionais, englobando atividades e programas para atender às diferentes realidades de países desenvolvidos e em desenvolvimento. É importante relembrar que a redução das desigualdades – em nível nacional e internacional – é fundamental para a plena realização do desenvolvimento sustentável no mundo (Rio + 2013).

Carros 2 é panfletário ao defender o Allinol. E de fato, desenvolver e adotar fontes sustentáveis de energia é um dos maiores desafios de nossa contemporaneidade. O planeta não suportará por muito tempo a emissão de gases derivados de combustíveis fósseis e todo o esforço em prol da “economia verde” deve ser empreendido, apoiado e estimulado. Planetariamente.

Entretanto, enquanto Relâmpago corretamente afirmava sua disposição em contribuir para a sustentabilidade do planeta utilizando o ecocombustível de Miles Eixo de Roda, uns outros tantos carros estavam parados por falta de gasolina, ou tensos ante a iminência de ficar sem dinheiro e, assim, sem combustível.

Por paroxismo compreende-se o ápice de uma sensação, de um sentimento, de um episódio. O paroxismo é o momento do mais alto degrau de determinada experiência, por vezes imprevisível, por vezes multifacetado perante nossas vidas.

Paroxismo que é tema recorrente da arte, instância transformadora e desconcertante. Paroxismo que é origem de mudanças, que é marco temporal de ação. Paroxismo que nos impele a momentos de catarse, a tempos de erupção, autoconhecimento, mutação.

Procurando Nemo (2003), Ratatouille (2007), Up – Altas Aventuras (2009) e Toy Story 3 (2010), juntos, revelam-nos por meio de suas tramas paroxismos que os enredam em uma mesma teia de complexas narrativas. Nestes filmes, personagens são levados a ações extremas, a sentimentos veementes, a gestos profundos e irreversíveis... a instantes paroxísticos.

Como acima afirmado, paroxismo, substantivo, remete a elevação superior, ao instante emergente do qual não se recua a fim de se ocupar a mesma posição anteriormente situada.

Em Procurando Nemo o paroxismo se dá pelo gesto de busca incessante de um pai, que não mede esforços nem pensa nas consequências quando o objetivo é salvar o filho indefeso e capturado. Mesmo quando se pensa que este objetivo é inalcançável, lá está o pai a nadar e a não desistir, com as adversidades o alimentando de vigor, auxiliando-o na articulação de uma rede de solidariedade impensável pela diversidade de atores que criam em torno da história uma narrativa mitológica além mar.

Em Ratatouille o paroxismo se dá, por exemplo, no ato de revelação e de aceitação de um rato chef, genial em sua gastronomia, impensável face sua condição de roedor. Já em Up – Altas Aventuras, por exemplo, no gesto amoroso descomedido de fazer da própria casa um balão imaginável, porém inconcebível, carregando-o nas costas até o local do idílio jamais realizado.

Em Toy Story 3 é paroxístico o momento da separação sempre conhecido, esperado, mas nunca desejado, sendo por repetidas vezes postergado. A hora da libertação e da travessia de Andy rumo à vida adulta, e dos brinquedos rumo às suas ressureições como viventes da razão de brincar.

Os brinquedos de Andy sabem, desde o começo da jornada e desde o dia em que chegaram como presentes a casa do menino, que o dia do paroxismo da partida e da separação chegaria. Haveria de existir um ponto em suas vidas em que a distância, de fato, seria inevitável. Em Toy Story 3, esta ruptura se dá uma vez que os brinquedos são doados por Andy. Uma vez que os brinquedos, mais que serem doados, aceitam-se e se resignam como objeto de doação, primeiro para a creche Sunnyside, depois na casa da pequena Bonnie.

Algo análogo acontece em Up – Altas Aventuras, com Carl Fredericksen ao final de sua existência, homem velho, tomando a crucial decisão de realizar aquilo que não

havia efetivado em vida e enquanto homem jovem com a esposa agora morta, que é conhecer o Paraíso das Cachoeiras, na Venezuela, e realizar o sonho de infância. Russell, o menino carente de afeto paterno, não escapa deste momento de inflexão, recebendo a aventura de acompanhar Carl – e salvar a ave Narceja, aspecto científico-político da narrativa – como passaporte para um novo tempo de relação filial.

E o rato Rémy e o jovem Linguini, ao encenarem a dualidade entre natureza e cultura, apresentam aspectos em alto volume desta inicial contradição associada à antropologia. Homens e ratos, em comunhão, aceitam-se no final do filme como seres de um mesmo mundo, partícipes da mesma saga da vida, superando adversidades em conjunto, mesmo que sem conseguirem apaziguar todas as diferenças que os cercam. Em Ratatouille, paroxismos de amor, de vingança, de devaneio fantasmagórico (a alucinação do chef Gusteau a orientar o rato Rémy) e de compreensão transbordam da história contada para a vida vivida dos espectadores, fazendo do ato de assistir o filme um gesto de duplicação de nossas experiências para com a trama retratada no filme.

Já Marlin, pai de Nemo, não se curva ao fatalismo do destino, fazendo-se protagonista de sua própria história decidindo ir até o fim em sua odisséia. Na viagem o pai conta com o apoio de Dory, companheira com dificuldade de lembrar-se do passado recente, acometida certamente de amnésia anterógrada com uma leve dose de autismo.

Situações limite nas quais o possível se extrapola para que o impossível se faça realidade ao menos na tela e nos ajude a compreender nosso mundo. Procurando Nemo (2003), Ratatouille (2007), Up – Altas Aventuras (2009) e Toy Story 3 (2010) revelam- se como narrativas nas quais as situações parecem se exacerbar ao máximo, e ao se exacerbarem revelam a necessidade de desenvolvermos uma ética da compreensão própria ao contemporâneo.

Uma compreensão que admita, frente aos paroxismos que o contemporâneo nos impõe, o impossível de se compreender da forma como tradicionalmente aprendemos o que deve ser a compreensão.

Compreender é compreender as motivações interiores, situar no contexto e no complexo. Compreender não é tudo explicar. O conhecimento complexo sempre admite um resíduo inexplicável. Compreender não é compreender tudo, mas reconhecer que há algo de incompreensível (Morin, 2007, 124).

Os paroxismos de Procurando Nemo, Ratatouille, Up – Altas Aventuras (2009) e Toy Story possuem diversas faces. Nas relações entre homens e demais seres, sejam outros animais, sejam brinquedos ou mesmo objetos, podemos ver nos fatos extremos possibilidades de nos conduzirmos à compreensão da natureza humana em sua intricada relação com a natureza e o mundo.