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Kompetansesentrenes relasjoner til det sentrale nivået

5 Samspillet mellom sentrale og lokale aktører

5.2 Kompetansesentrenes relasjoner til det sentrale nivået

Os Incríveis certamente é um dos filmes mais provocadores da Pixar e é um dos que tem como central a figura de heróis e heroínas em sua acepção clássica: seres dotados de super poderes em defesa dos fracos, oprimidos e afins em todo mundo. Mas a narrativa de heroísmo é desconcertante na medida em que descortina problemáticas

referentes ao poder em diversas esferas, entre elas na dimensão do estado-nação e também na dos afetos.

O mundo não pode prescindir dos heróis. É fato que eles povoam nosso imaginário simulando nossas redenções e materializando nossos salvamentos individuais, coletivos, oníricos ou reais. Mas em Os Incríveis os heróis são punidos justamente em virtude do dom que possuem e da ação magnânima e heroica que executam. É o Estado Leviatã como que na concepção de Hobbes (1998) que cerceia o direito de eles, os super-heróis, realizarem seus atos heroicos.

Desde que contratualizamos enquanto sociedade a submissão a um soberano a fim de nos protegermos de nós mesmos, este soberano representado também no filme de maneira ubíqua decide retirar os heróis das ruas. Isto porque uma vez subvertidas suas atuações heroicas, tais práticas estariam causando prejuízos e impondo óbices aos direitos da pessoa humana, (exemplo: o direito de retirarmos nossas próprias vidas) como afirma e decide o Judiciário de Metroville.

Diz-se que um Estado foi instituído quando uma multidão de homens concordam e pactuam, cada um com cada um dos outros, que a qualquer homem ou assembleia de homens a que seja atribuído pela maioria o direito de representar a pessoa de todos eles (ou seja de ser seu representante), todos sem exceção, tanto os que votaram a favor dele como os que votaram contra ele, deverão autorizar todos os atos e decisões desse homem ou assembleia de homens, tal como se fossem seus próprios atos e decisões, a fim de viverem em paz uns com os outros e serem protegidos dos restantes homens (Hobbes, 1998, p.107).

Um Estado onipotente que pode cometer incoerências ou absurdos para cumprir seu papel estabelecido no contrato coletivo e subjetivo firmado por homens e mulheres. No filme, este poder se mostra como absoluto e exercido de forma direta, com os julgamentos públicos e a exposição midiática; ou subterrâneo, com os agentes secretos do Programa de Recolocação de Super-

Heróis sendo responsáveis por manter heróis e heroínas na clandestinidade, ao mesmo tempo impedindo o também direito que

eles têm de realizar suas bravuras.

É o suicida, que tem seu direito de se suicidar negado em virtude da ação de coragem do Senhor Incrível, quem apela ao Estado via Judiciário para exigir que o soberano pactuado no contrato social garanta o seu direito indivisível e inquestionável de retirar a sua própria vida. São os passageiros do metrô

que questionam o modo como foram salvos de um trágico fim, alegando ferimentos inaceitáveis e dignos de reparação, todos de dolo proporcionalmente muito menor que as mortes trágicas evitadas pelo herói.

E mais: o capital reiterando sua ojeriza à perda e ao déficit de lucro é quem impetra uma avalanche de ações contra este mesmo Estado, subscritas por homens e mulheres que se sentem prejudicados financeiramente devido aos estragos físicos causados pelo heroísmo. Heroísmo que protege o bem mais valioso que temos: a vida.

É tamanha a inversão de papéis impostos pela medida estatal que são os heróis e heroínas que passam a agir à

escondidas, cometendo os “delitos” e “crimes” de salvarem as pessoas e, assim, desrespeitarem o poder totalizante deste Estado. E quando são descobertos, a punição é reiterada, com o Programa de Recolocação repreendendo-os, alterando suas identidades falsas e os transferindo, novamente, de cidade, de casa, de emprego...

Necessário destacar outro ponto valioso e instigante da narrativa, que é a

privatização das ações de heroísmo e bravura implementada por este Estado Leviatã. Na ausência de heróis, todos condenados ao banimento e ao anonimato forçado, quem assumirá as suas funções? E a resposta é a sagaz e faminta indústria bélica, cada vez mais tecnologicamente refinada como demonstra por meio do Projeto Kronos e do letal robô Omnidroid o antes menino Bochecha/Gurincrível, agora magnata dos armamentos e pseudo super-herói Síndrome.

Mas Síndrome quer um pouco mais, que é também promover a desaparição dos heróis e a banalização dos atos de bravura por meio da multiplicação de armas na sociedade. Assim todos seriam potenciais heróis e, deste modo e com este paralelismo, ninguém mais o seria.

No plano comercial, a tática do vilão guarda raízes também em uma estratégia apta à crítica que é apregoada mediante orientações políticas do neoliberalismo defensor do conceitual estado-mínimo. Caberia ao Estado unicamente a salvaguarda da justiça e da segurança, a fim de proteger valores inalienáveis do ser humano em sociedade. E não bancar as estripulias dos super-heróis, por mais necessárias que estas fossem, já que situadas muito além do possível em um Estado de Bem Estar Social.

Síndrome é a personificação desta suposta estratégia privatista. Sem heróis em circulação, ele realiza sua perversão sádico e vingativa represada desde de criança, provocada pela rejeição do Senhor Incrível ao seu amor nos tempos em que ainda

sonhava em ser herói (sim, porque homem feito o dinheiro lhe proporcionará este status e este poder). Matar aquele que ele amara e lhe rejeitara, exterminar todos os heróis e brilhar impassível como estrela solitária de uma constelação heroica dizimada é a meta do infantilizado senhor das armas.

Não obstante, oportunista, ele implementa como fornecedor de armamentos de destruição em massa, das quais o robô Omnidroid é a sua criação mais perfeita, sua meta de lucro. Para que proteger, não intervir e manter heróis na ativa, se terceirizar a ação heroica pode ser mais vantajoso, politica e economicamente?

E o que Síndrome vai fazer é saciar a fome do Estado em delegar economicamente à iniciativa privada àquilo que se acredita poder ser delegado, em nome dos princípios da eficiência, da economicidade e do combate à corrupção.

Corrupção inclusive de valores morais: seria inaceitável em nossa era de direitos e liberdades um super-herói impedir o suicídio de um homem em depressão!

Mas, além deste debate, os atos de bravura de Os Incríveis reverberam na seara dos afetos. Isto porque há uma infidelidade conjugal que paira na aura do filme, concretizada ainda que em desejo pleno, mesmo que não em corporeidade.

A estonteante e dietética funcionária de Síndrome seduz o Senhor Incrível, incitando no super-herói castrado em seus super poderes e vivente de um casamento de rotina padrão o desejo de se reconstituir enquanto herói e enquanto homem. Mesmo monogâmico, Beto Pera é tentado a ceder. Se é fato que o dinheiro ofertado

pela mulher para que ele faça o test drive no robô Omnidroid é tentador, muito mais atraente e excitante é o sex appeal da linda agente, com seu poder de sedução exercido de forma insinuante, provocativo, de sutil libido.

Helena Pera, a heroína Mulher Elástica, parte em busca do marido. Porém, mais ainda, sai com a meta de salvar seu casamento, uma vez que a desconfiança da traição já se avizinhara da relação conjugal em início de crise. Há também o salvamento dos afetos dos filhos, corpos, poderes e hormônios heroicos em ebulição contida em virtude do forçoso interdito estatal. Por fim, há a descoberta do afeto heroico do bebê Zezé, despropositadamente cruel para o desconcerto da babá, mas irrepreensível no desfecho de controlar Síndrome e, assim, salvar Metroville.

E, salvando Metroville, salvar o mundo. Mesmo que todo o esforço não garanta a libertação dos heróis. E somente lhes reserve mais uma remoção a ser empreendida pelo hobbesiano Programa de Recolocação.

Carros

Um preciso instrumento de velocidade e aerodinâmica. E de presunção. Este é Relâmpago McQueen, jovem participante da final da Piston Cup, campeonato de corrida acompanhado por toda a sociedade do automóvel.

Ególatra, Relâmpago não brilha sozinho na prova. Seus concorrentes são o Rei, Strip Weathers, membro da escuderia Dinoco, todo em azul, campeão absoluto e prestes a se aposentar. E Chick Hicks, todo em verde e com um bigode canastrão, sendo acompanhado neste distintivo por todos os membros de sua escuderia.

A corrida se realiza com lances de expertise e também de trapaça. Chick tumultua, mas o Rei Strip Weathers está na dianteira. McQueen surpreende com manobras inimagináveis e chega a assumir o 1º lugar. Porém Relâmpago, que diz preferir “trabalhar sozinho”, ignora sua equipe e não efetua troca de pneus, vendo-os, minutos depois, explodirem. Diante da crise, Strip e Chick aceleram. A prova termina empatada. Strip, Chick e McQueen cruzaram a linha juntos em 1º lugar.

Deste modo, os três vencedores terão que correr nova prova, em uma semana, na Califórnia. O vencedor leva dois prêmios: a taça da Piston Cup e o lugar do semi- aposentado Rei Strip, na Dinoco.

Com a demissão coletiva de sua equipe, que não suporta sua arrogância, Relâmpago fica sozinho. Restam sua soberba, o apoio de Mack, caminhão-carreta que o conduz, e as palavras ausentes de Harve, seu empresário e advogado. Relâmpago não tem amigos. E a imagem das dezenas de carros velhos e decrépitos que o aguardam após a corrida no estande de seu patrocinador, a “loção” antiferrugem Rust-eze, causam repugnância ao moço carro de corrida.

U

Relâmpago e Sally

Finalizada a prova, rumo à Califórnia. O herói tem pressa de chegar logo ao destino e assim tentar negociação antecipada com a Dinoco. Mack quer dormir, mas McQueen sugere prosseguir viagem noite a dentro. Mack cai ao sono ao volante e o caminhão é alvo de um grupo de jovens arruaceiros. A carreta balança na pista e sem querer provoca a queda de Relâmpago. O herói está sozinho perdido e acaba em um lugar qualquer na lendária Route 66.

Sem farol, já que na dianteira ele só usa adesivos decorativos, sem orientação, pois ele só conhece pistas de corridas, McQueen se perde. Forasteiro, é perseguido por Sheriff, único carro policial da cidade esquecida de Radiator Spring. Em alta velocidade e destruindo a pista de entrada da cidadela esquecida, Relâmpago é perseguido e acaba preso por dano ao patrimônio coletivo da cidade. Condenado, sua pena é reformar, ele mesmo o ele que quebrou.

No outro dia, em Los Angeles, mistério. Onde estaria Relâmpago McQueen? Esta pergunta é feita pela imprensa mundial? Mas enquanto o planeta procura pelo herói, na esquecida Radiator Spring relâmpago é um desconhecido. A cidade sumiu do mapa com a decadência da estrada mãe dos Estados Unidos. E junto com este sumiço, seus habitantes desbotaram seus viços.

Vivem de memória. Perderam a dimensão do futuro.

Quem condena McQueen é carro juiz Doc Hudson. Doc odeia carros de corrida. A promotora da cidade, um modelo Porsche de nome Sally, é autora da acusação contra o presunçoso carro de corrida. Resta a ele

a solidariedade do guincho Mate, caipira de bom coração, que o presenteia desde o primeiro momento com sua sincera e descompromissada amizade.

McQueen tenta fugir, é recapturado, quase morre de esforço para recapear a rua que destruíra, e aprende lições de humildade e companheirismo. Mas seus principais aprendizados serão o sentimental por meio da paixão que passa a sentir por Sally e do exemplo de simplicidade e partilha que Doc Hudson lhe oferta. Doc, ex-carro de corrida, ex-tricampeão da Piston Cup, cansado do mundo de celebridade descartável, transmite-lhe a mensagem de valorização da essência das pessoas e das coisas, o que o campeão Relâmpago desconhecia.

Mate

McQueen se envolve com todos. Além de Mate, que se torna seu grande amigo, ele se aproxima de Flô, dona do posto de gasolina; de Filmore, viúva do fundador da cidade; de Luigi e Guido, italianos da Casa Della Pneus; e de outros habitantes veículos como Lizzie e Sargento.

Radiator Spring, fim do mundo, passa ser seu vasto mundo. Lugar de sua revelação. Seu lugar.

Doc Hudson avisa à imprensa. McQueen é localizado e corre a final, ganhando a Piston Cup e todas as benesses embutidas na conquista. Mas volta a Radiator e se une a Sally. Um outro carro-homem se ergue, mais humano, travestido de campeão.