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8 Effektevalueringens hovedresultater og begrensninger

8.2 Begrensninger ved effektevalueringen

Face à ameaça de uma nova imensurável perda, Marlin mergulha no desconhecido de nadar em busca de Nemo. Ele não se dobra. Segue em frente, aconteça o que acontecer. Encontrar o filho e resgatá-lo é mais que resposta à perda da esposa e da então prole em projeto. É restituir o sentido de sua vida, agora à deriva e a depender do acaso na jornada mar adentro.

Neste percurso de rota etérea, a única certeza que se consolida é a solidariedade dos demais seres marinhos e não marinhos, que se irmanam no horizonte de encontrar Nemo. A procura do pai e seu aprendizado de valentia inesperada viram mito e ecoam a partir das profundezas do oceano à Baía de Sidney. E Nemo também faz sua reeducação sentimental no aquário no qual está aprisionado, superando obstáculos para empreender fuga e assim reviver.

O trabalho de Marlin em procurar Nemo é a experiência limite de sua vida. Falhar ele não pode, em especial diante da falha a qual ele se amargura por ter perdido mulher e ovas em um ataque traiçoeiro e

assassino. Com Nemo há de ser diferente e seu papel de pai protetor não poderá dar errado. Daí o desprendimento ilimitado do peixe em enfrentar toda a sorte de turbulências, perigos e correntes adversas a fim de reconquistar seu rebento.

E nos caminhos que percorre, Marlin é agraciado com a dádiva da solidariedade, feição humana que necessita de resgate e universalização em um mundo de “agonia planetária”, como nos sugere Morin.

Se “durante o século XX, a economia, a demografia, o desenvolvimento, a ecologia se tornaram problemas que doravante dizem respeito a todas as nações e civilizações, ou seja, ao planeta como um todo” (Morin, 2003a, p. 63), a solidariedade também se esfacelou em nossa terra-pátria. Repensá-la e reerguê-la tornam-se ações fundamentais.

O apelo da fraternidade não se encerra numa raça, numa classe, numa elite, numa nação. Procede daqueles que, onde estiverem, o ouvem dentro de si mesmos, e dirige-se a todos e a cada um. Em toda parte, em todas as classes, em todas as nações, há seres de “boa vontade” que veiculam essa mensagem. Talvez eles sejam mais numerosos entre os inquietos, os curiosos, os abertos, os ternos, os mestiços, os bastardos e outros intermediários. O apelo à fraternidade não deve apenas atravessar a viscosidade e a impermeabilidade da indiferença. Deve superar a inimizade. A existência de um inimigo mantém ao mesmo tempo nossa barbárie

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e a dele. O inimigo é produzido por cegueira às vezes unilateral, mas que se torna recíproca quando respondemos com uma inimizade que nos torna igualmente hostis. É verdade que os egocentrismos e os etnocentrismos, que suscitaram e não cessam de suscitar inimigos, são estruturas inalteráveis da individualidade e da subjetividade, mas, assim como essa estrutura comporta um princípio de exclusão no eu, ela comporta um princípio de inclusão num nós, e o problema chave da realização da humanidade é ampliar o nós, abraçar, na relação matri-patriótica terrestre, todo ego alter e reconhecer nele um alter ego, isto é, um irmão humano (Morin, 2003a, p. 167-168).

Marlin empreende sua busca e nela se depara com inúmeros perigos e ameaças. Mas uma rede de solidariedade se

forma em seu entorno, colaborando para que ele alcance seu objetivo. Peixes, animais marinhos e até não marinhos dão sua cota de colaboração para com o gesto heroico do pai envolto em sofreguidão e, mesmo assim, em esperança.

Como no poema, todos os seres da narrativa sabem que é preciso tecer a manhã em busca do peixinho perdido e privado dos

seus. “E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação” (Neto, 2001, p. 151).

Excluem-se entre estes os seres humanos, responsáveis pela barbárie de manter Nemo e outros animais cativos, com requintes de crueldade, sadismo e despropósito. Diante do ato vil de homens e mulheres, os bichos se “encorpam em tela” em apoio a Marlin. O dentista é pura insensibilidade na captura predatória de um filhote de peixe, deficiente ainda por cima, e a menina Darla é pura maldade, em sua versão infantil, vide o registro dos atos de atrocidade que ela cometeu contra outros peixes ofertados a ela como presente.

A fuga de Nemo e a queda na armadilha do dentista australiano têm como iniciador um ato de rebeldia do menino peixe ocorrida em aula de campo. Aliás, é a escola uma das instâncias primeiras a quem Marlin permite a socialização do filho superprotegido. Filho que ao final do

filme também dará sua contribuição à solidariedade planetária ao motivar e liderar a libertação de um cardume preso e condenado à morte em uma rede de pesca lançada ao mar.

Da escola para o aquário por meio do exercício da solidariedade integral, Marlin e Nemo exercitam o ideal de uma humanidade que parece perdido em meio às incertezas do contemporâneo. Da escola para a tela, Nemo e Marlin parecem nos ensinar a compreensão, a partilha, a doação, a união das espécies, dos povos, dos homens. Pai e filho, assim, descortinam o ideal daquilo que Morin chama de ética da compreensão planetária (2000). E de modo revelador, a saga de ambos começa em um ambiente devotado à educação.

Estamos comprometidos, na escala da humanidade planetária, na obra essencial da vida, que é resistir à morte. Civilizar e solidarizar a Terra, transformar a espécie humana em verdadeira humanidade torna-se o objetivo fundamental e global de toda educação que aspira não apenas ao progresso, mas à sobrevida da humanidade. A consciência de nossa humanidade nesta era planetária deveria conduzir-nos à solidariedade e à comiseração recíproca, de indivíduo para indivíduo, de todos para todos. A educação do futuro deverá ensinar a ética da compreensão planetária (Morin, 2000, p 78).

Mas para além de Marlin e Nemo, há um outro personagem que merece destaque na trama. E este é caso do peixe fêmea Dory. Portadora de amnésia anterógrada, Dory não se lembra dos acontecimentos recentes, esquecendo-se do que dissera ou fizera minutos antes. Além deste distúrbio, o peixe apresenta leve carga de autismo, mesmo que por vezes meio às avessas, já que Dory tem dificuldade em se comunicar em virtude dos excessos de suas falas e da rapidez e desconexão de seu raciocínio.

Dory será a companheira de Marlin na viagem sem roteiro fixo rumo a resgatar Nemo. E quantos momentos de apuros Dory proporciona a Marlin, devido as confusões que faz a dupla de meter. E quanto momentos de doçura, sabedoria e orientação Dory proporciona a Marlin devido as inconstâncias e incompreensões que seu comportamento tido como anormal leva a dupla se salvar. Em Procurando Nemo, Dory, irracional, louca,

Nemo preso no aqauário em Sidney

descomedida, é o contraponto de Marlin, centrado, dono da razão, cartesiano.

A presença de Dory na narrativa, além de representar o espelho que projeta os atos de Marlin e metaforizar o roteiro caótico da jornada rumo ao encontro de Nemo – paroxismo da trama – auxilia-nos na reflexão sobre a aceitação da face demens do ser humano, propiciando a compreensão de nossa natureza e de nosso gênero enquanto espécie, enquanto ser vivo.

A idéia de se poder definir o gênero homo atribuindo lhe a qualidade de sapiens, ou seja, de um ser racional e sábio, é sem dúvida uma idéia pouco racional e sábia. Ser Homo implica ser igualmente demens: em manifestar uma afetividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor; em crer na virtude de sacrifícios sanguinolentos, e dar corpo, existência e poder a mitos e deuses de sua imaginação Há no ser humano um foco permanente de ‘Ubris’, a desmesura dos gregos. A loucura humana é fonte de ódio, crueldade, barbárie, cegueira. Mas sem as desordens da afetividade e as irrupções do imaginário, e sem a loucura do impossível, não haveria ‘élan’, criação, invenção, amor, poesia. O ser humano é um animal insuficiente, não apenas na razão, mas é também dotado de desrazão (Morin, 2002, p. 7).

Tão solitária quanto o peixe pai, Dory se associa a Marlin fazendo-o redescobrir forças e quebrar barreiras que traumas anteriores lhe impediam de romper. Unir-se a criaturas tão diferentes de si em busca de um objetivo pessoal, e ver este objetivo pessoal ganhar em uma espiral solidária a adesão do cosmos marinho, demonstram a viabilidade e a necessidade da união dos seres. Sejam homens, sejam peixes.

Ratatouille

Nossas semelhanças nos fazem diferentes. Principalmente em se tratando de espécies do reino animal. Contudo, inúmeros são os laços que nos unem enquanto viventes no planeta. Há um elo que liga, inclusive, o precário e falso chef humano ao magnífico e sublime chef rato. Linguini e Rémy se tornam um só na odisseia do encontro inesperado que resulta em dores, delícias e emancipações.

Rémy é um rato que sonha em ser chef. Linguini é um jovem órfão que não sonha. Gusteau foi um grand chef que, como grandes homens da história, quis mostrar em vida que nosso desejo é alcançável, sempre. “Qualquer um pode cozinhar” diz a fala e o livro de Gusteau, inclusive o ratinho do interior da França que na infância foi farejador de veneno a evitar a morte coletiva dos seus. E ser chef é o sonho que Rémy perseguirá, com sucesso.

O ratinho vai parar em Paris, influenciado pela imagem de Auguste Gusteau, em busca de ser um cozinheiro de renome. Gusteau morreu após uma crítica negativa do temível Anton Ego, maior crítico gastronômico do país. Mas mesmo morto, Gusteau aparece em pensamento, imagem e alter ego para Rémy, aconselhando-o sobre o dever que o rato tem de jamais desistir de seu ideal. Mesmo que um rato ser um chef seja, certamente, uma tarefa impossível a priori e a princípio, em um mundo de condenação das alteridades e de incompreensão coletiva.

Linguini é filho de Gusteau, mas não sabe disso. Sua mãe morre e lhe indica para o atual chef do Gusteau’s, o mal caráter e ganancioso Skinner, cuja maior preocupação é transformar a imagem do grand chef morto em uma marca vulgar e mercenária de congelados. Linguini ganha um emprego de faxineiro no restaurante e, ao desgraçar

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Rémy e Linguini

uma sopa, é salvo pelo rato Rémy, que assiste a desventura do rapaz desengonçado. Como bom gourmet, Rémy acresce ingredientes à panela e cria uma nova sopa ultra elogiada no restaurante, sendo esta façanha creditada à Linguini.

Linguini e Rémy mantém contato, mesmo se se falarem palavra, somente por meio de gestos, empatia e intuição. O agora cozinheiro, incrédulo, vê que o rato (!) é um legítimo chef. Os pedidos da nova sopa crescem e Skinner, mesmo a contragosto, faz de Linguini novo cozinheiro, aprendiz ao lado da meio amarga Colette, jovem e única mulher do restaurante. Linguini e Colette irão se apaixonar, mas antes o falso chef desenvolve um sistema análogo ao usado com marionetes, no qual Rémy, escondido embaixo de seu chapéu, manipulará e conduzirá as ações do cozinheiro acidental na cozinha.

Linguini encena. Remy cozinha. O restaurante lota.

Skinner descobre a filiação de Linguini e tenta sabotá-lo de todo modo, mas Rémy atrapalha o plano do inescrupoloso de herdar o restaurante na condição de sous chef. Gusteau tem herdeiro e o rato descobre o seu testamento. Linguini passa de empregado a dono do lugar. Ele ganha fama, se une a Colette, mas renega o ratinho.

Por sua vez, Rémy reencontra o irmão e o pai, os quais ele havia perdido desde que fugiu da raivosa dona da casa em que morava no interior, e que descobriu a colonia de ratos que habitava seu teto. O pai de Rémy lhe dá uma lição: um rato jamais deve confiar em humanos, visto que esta unidade entre seres é inviável. Mas nossas semelhanças nos fazem

diferentes. Na história, o rato e o homem são tão iguais quanto contrários. De igual têm a procura por uma razão de viver. De diferentes têm a natureza, o genótipo.

Eis que Anton Ego, que havia rebaixado o Gusteau’s, resolve desafiar o novo jovem chef. Mas Rémy e Liguini se desentenderam desde que, sentindo-se esnobado, Rémy permite um saque à dispensa do restaurante por parte de toda a sua comunidade de ratos. E agora, o que fazer? O mais temido e mal amado crítico gastronômico do país está, impiedoso e sádico, à mesa do jantar. Mesmo brigado e perseguido por Skinner, Rémy se rende a sua paixão pela cozinha e vai em ajuda de Linguini.

A farsa é desmontada perante toda a equipe do Gusteau’s. O chef jamais fora o jovem estranho herdeiro da casa, e sim um rato que se escondia debaixo de seu chapéu. Ao saberem da história fantástica e abjeta (um rato chef) a equipe abandona, enojada, o emprego. Inclusive Colette. Na mesa, Anton Ego pede o que de melhor Liguini possa cozinhar. Mas não há ninguém na cozinha. A não ser o chef Rémy, auxiliado por centenas de ratos e pela jovem namorada de Linguini, em um espetáculo de união a princípio repugnante, mas em verdade belo, magistral.

O que de melhor oferecer a Anton Ego: uma ratatouille. Prato simplório de legumes do interior do país. E ao dar a primeira garfada na comida despretenciosa, rancheira, rústica provençal, uma tormenta devassa o crítico com lembranças de sua mãe, de sua infância, de uma felicidade irrefutável.

O crítico não acredita naquele gosto inigualável. Quer conhecer o chef, o que Linguini e Colette só deixam acontecer no final quando a apresentam Rémy a um Anton Ego satisfeito e atônito. Integralmente desconcertado.

No outro dia, o jornal traz a crítica de Ego, que considera Rémy, sem expor detalhes sobre semelhanças e diferenças, o melhor chef de toda a França.

O Gusteau’s é fechado porque Skinner e um fiscal da vigilância sanitária denunciam que o local está infestado de ratos, animais desprezíveis. Anton Ego cai em descrédito e Linguini perde o empreendimento.

Que renasce em sociedade quádrupla – Linguini, Colette, Rémy e Anton – com o nome do prato da infância do crítico, do apogeu de Rémy e da liberação de Linguini: Restaurant Ratatouille. Com mesas grandes e pequenas. Para humanos e para ratos. Diferentes, porém semelhantes. Se não iguais.

Ode aos Ratos