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9 Forankring, kompetansebygging og andre effekter

9.1 Forankring fryder

inicial marca todo o percurso de Ratatouille (2007). E este estranhamento primeiro se dá pela linguagem. Constatação importante, pois no universo de filmes da Pixar, em geral, humanos, demais animais e

seres inanimados ou até mesmo imaginários compartilham o código verbal do idioma. Todos falam e tem suas falas compartilhadas entre si. Porém, isto não acontece entre Rémy, rato verdadeiramente chef, e Linguini, falsário acidental da haute cuisine.

Ambos dominam um idioma, pensam com base em um idioma (a língua francesa, no caso, travestida da língua inglesa, falada na pátria da Pixar), mas se comunicam entre si por gestos, por pantomimas, principalmente de Rémy para com Linguini, que se torna refém de uma linguagem aleatória de sinais ordenada pelo ratinho, compartilhada

para que ambos alcancem seus objetivos e vivenciem seus instantes de irreversibilidade: Rémy se tornar um chef de verdade e Linguini se converter em chef farsante, contudo verossímel.

A comunicação entre rato e humano do filme traz mais que um estranhamento, pois indica um arrojo da produção do estúdio norte-americano, uma vez que delineia de modo inicial o debate sobre a superioridade do humano frente os animais. Se nos demais filmes os bichos se submetem à língua dos homens, em Ratatouille se faz necessário uma nova linguagem, integradora, desenvolvida por Rémy e Linguini com base no erro, na experimentação e na insistência quase que exaustivas. E no filme cabe ao humano aprender a partilhar este código caso queira ter sucesso em sua empreitada.

Este debate sobre a superioridade humana suscitado inicialmente pelo modo de comunicação entre os protagonistas nos leva a pensar a natureza da própria humanidade. Morin (1973, 2011) é um dos que nos orienta nesta reflexão. Reflexão que é um dos paroxismos apresentados pelo filme. O ponto máximo da vida de ambos é aquele no qual a dupla, rato

e humano, humano e rato, irá se irmanar como composta por seres viventes na mesma teia da vida. Esta junção é impensável e ainda um dogma. E por quebrá-lo de forma pertinente, Ratatouille expõe a questão a um estágio ímpar.

O antagonismo de Rémy é essencial para a vida de Linguini.

E vice-versa. Com este estranhamento inerente à Rémy e Linguini, potencializado não só pelo uso do idioma (no filme o rato pai de Rémy, Jango, é voz sempre contrária ao homo sapiens), mas que é infinitamente maior porque se refere à condição de seres vivos habitantes do planeta, Ratatouille nos leva a pensar no paroxismo de compreender, enfim, a vida na Terra (Morin, 2011). Antagonismo que desemboca no final da história, quando o restaurante é salvo por uma rataria em comunhão, que solene com seus esforços coletivos e solidários, junto a humanos, faz com que Anton Ego se delicie com a melhor ratatouille de toda a sua vida.

Ratos e homens em igualdade enquanto seres que pensam e se auto organizam. É por meio do desejo de Rémy em ser chef que Linguini dá um sentido a sua vida de órfão, aparentemente sem sentido algum. E é por meio da posição de Linguini que Rémy se iguala ao chef Gusteau, sendo reconhecido e saudado por Anton Ego como “nada menos que o melhor chef da França”. A dualidade limite entre os protagonistas de Ratatouille nos faz refletir sobre nossa condição humana, que nos lança no dilema de nossas vidas situadas entre natureza e cultura, apontando para complementaridades e indissociablidades de ambas.

No entanto, esta dualidade antitética homem/animal, cultura/ natureza, esbarra contra toda a evidência: é evidente que O homem não é constituído por duas camadas sobrepostas, uma bionatural e outra psicossocial, é evidente que não transpôs nenhuma muralha da China que separasse a sua parte humana da sua parte animal; é evidente que cada homem é uma totalidade biopsicossociológica (Morin, 1973, p. 5).

Anton Ego é outro que em Ratatouille vive uma experiência em mais alto grau. Com toda a sua vida dedicada à crítica de imprensa impiedosa revestida de sadismo, Ego poderia ser um dos personagens analisados por Roudinesco (2008) quanto a uma possibilidade de perversão viabilizada nele pela escrita mordaz, solitária e destrutiva do jornalista especializado em culinária.

Esbelto, “grã-fino de narinas de cadáver” como no sarcasmo de Nelson Rodrigues, tipo de uma intelectualidade afetada e estereotipada, o crítico é também dual: incorpora o terror da caneta destrutiva e o deslumbre da intelligentsia, presente em ramos da crítica e também no universo acadêmico.

Mas a perversão é também criatividade, superação de si, grandeza. Nesse sentido, pode ser entendida como o acesso a mais elevada das liberdades, uma vez que autoriza aquele que a encarna a ser simultaneamente carrasco e vítima, senhor e escravo, bárbaro e civilizado. O fascínio exercido sobre nós pela perversão deve-se precisamente a que ela pode ser ora sublime, ora abjeta. Sublime, ao se manifestar nos rebeldes de caráter prometéico, que se negam a se submeter à lei dos homens, ao preço de sua própria exclusão; abjeta, ao se tornar, como no exercício das ditaduras mais ferozes, a expressão soberana de uma fria destruição de todo laço genealógico (Roudinesco, 2008, p.11).

O crítico perverso – e por isso temível, e por isso fascinante – vive sua epifania da forma mais inesperada que é provar a ratatouille materna produzida por um chef desconhecido, que minutos depois se revelará como um simples, asqueroso e desprezível roedor. A mãe, a infância, a casa de outrora, a sensação de segurança, prazer, redenção e completude que um amor materno pode proporcionar afloram de tal maneira que mudam o destino do crítico, em definitivo.

O paroxismo toca de tal forma Anton Ego que ele refaz sua vida, revê sua função de crítico, faz uma afirmação da necessidade de aceitar o diferente e, sobretudo, o

novo. Rémy, o rato chef, é elemento secreto e implícito no texto que o jornalista publica no dia seguinte à revelação e à reminiscência que ele vive no Gusteau’s. De certo, para o crítico acostumado à deferência, e à solidão, aquele momento inigualável o fez repensar sua existência. Exercício materializado na página do jornal. Confiram a crítica escrita por Ego e veiculada na imprensa no dia posterior a sua experiência gastronômica indescritível:

De certa forma, o trabalho de um crítico é fácil. Nos arriscamos pouco, e temos prazer em avaliar com superioridade os que nos submetem seu trabalho e reputação. Ganhamos fama com críticas negativas, que são divertidas de escrever e ler, mas a dura realidade que, nós críticos, devemos encarar, é que no quadro geral, a mais simples porcaria, talvez seja mais significativa do que a nossa crítica. Mas, há vezes em que um crítico arrisca, de fato, alguma coisa, como quando descobre e defende uma novidade. O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, às novas criações. O novo precisa ser incentivado. Ontem à noite eu experimentei algo novo; um prato extraordinário de uma fonte inesperadamente singular. Dizer que tanto o prato, quanto quem o fez, desafiam minha percepção sobre gastronomia, é extremamente superficial. Eles conseguiram abalar minha estrutura. No passado eu não fazia segredo quanto ao meu desdém pelo famoso lema do Chef Gusteau: “qualquer um pode cozinhar”. Mas eu percebo que só agora, compreendo realmente o que ele queria dizer. Nem todos podem se tornar grandes artistas, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar. É difícil imaginar origem mais humilde do que desse gênio que agora cozinha no Gusteau’s e que é, na opinião deste crítico, nada menos do que o melhor Chef da França. Eu voltarei ao Gusteau’s em breve, com muita fome.

Linguini é levado ao extremo em sua farsa, arrastando em sua trajetória personagens como Colette, a namorada, e Skinner, o ganancioso chef administrador do restaurante Gusteau’s. “Todos podem cozinhar” diz o fantasma de Auguste Gusteau, figura que povoa o imaginário de Rémy e o conduz ao paroxismo de se transformar em grand chef, dono de restaurante, sócio e Linguini e Anton Ego e propositor de um novo pensar na relação entre humanos e ratos, menos superficial, mais voltada à complexidade inerente a esta relação.

Somos animais constituídos biopsicossociologicamente. Ratatouille nos lega esta lição.

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