Há certos pontos de contato entre a epistemologia de Epicuro e a dos estóicos, embora a visão de mundo destes últimos seja muito diferente da de Epicuro. Os estóicos enfatizavam a idéia de um continuum, em contraste com o atomismo de Epicuro. O corpo era definido como aquilo que podia agir e sofrer ação, com o resultado de que praticamente tudo no sistema estóico tinha que ser caracterizado como corpóreo, sendo as exceções coisas tais como as proposições, que são denominadas de “incorpóreas” e que existem apenas como objetos de pensamento. O corpo é determinado pela matéria e pela forma, esta última fornecendo os princípios racionais das coisas – “os princípios seminais”, como eram amiúde chamados. Eles constituíam a alma do mundo – referida como pneuma (alento, ou espírito) -, de modo que o mundo em geral tem que ser visto como vivo e orgânico. Há, assim, espaço para a providência, idéia esta que recebeu crescente ênfase nas fases posteriores do estoicismo, sobretudo na teoria (proposta por Posidônio no século II a.C.) de simpatia cósmica, mediante a qual todas as forças do mundo trabalham juntas. Tudo isto se distancia muito do ponto de vista de Epicuro.
Mas foi, apesar de tudo, um regime determinista, segundo o qual tudo tem uma causa. Os estóicos, porém, estavam tão interessados como Epicuro em conservar o livre-arbítrio. Crisipo, a principal figura da Stoa no século II a.C., aparentemente traçou uma distinção entre causas perfeitas e principais, por um lado, e auxiliares e próximas, pelo outro. Quando aceitamos uma percepção sensorial, a existência desta última é uma condição necessária da aceitação e, nesta condição, causa auxiliar dela, mas a causa principal está em nós. Analogamente, diz ele, quando um cilindro rola ou um pião gira não farão isso sem um empurrão inicial, mas a causa principal de seus movimentos reside em suas próprias naturezas. Na ação humana, têm de haver condições necessárias para que possamos agir e nossa ação fica, assim, sujeita a causas . Mas a causa
principal da ação está em nós e em nossa própria natureza. Tal opinião é às vezes denominada de “determinismo suave”. Não satisfaz a todos porque instiga a questão se nossa própria vontade e natureza estão sujeitas a causas. Por que a denominada causa principal não estaria sujeita à própria causa?
O ideal estóico de boa vida era o da conformidade com a natureza. A diferença entre a concepção estóica de natureza e a dos epicuristas resulta em idéia diferente do que é viver nessa conformidade. O homem supremamente sábio procurará estar de completo acordo com a razão. Para ele, só o ideal de racionalidade será bom, e mau apenas o oposto completo a ele. Qualquer coisa entre os dois será indiferente. Os estóicos vieram a reconhecer, contudo, que o homem comum não pode viver inteiramente de acordo com o padrão do sábio. Por isso mesmo, entre os indiferentes distinguiam-se os que eram preferíveis. O dever perfeito, em cuja conformidade vivia o sábio, é na verdade conformidade àquilo que Kant viria a chamar de boa vontade e que é exigida da virtude completa. As obrigações da vida ordinária são constituídas de deveres imperfeitos (officia media, ou kathekonta). Viver de acordo com eles implicaria falta de introvisão e racionalidade completas do sábio. As emoções eram julgadas como juízos falsos e por isso o ideal estóico pode ser também caracterizado como apatheia (ausência de paixões). Mais uma vez, observamos um contraste com o epicurismo.
O mesmo se aplica à política dos estóicos. Ao passo que Epicuro pouco se preocupava com a sociedade em geral, interessando-se mais pela amizade em comunidades locais, os estóicos adotaram a idéia dos cínicos, do homem como cidadão do mundo. Epicuro pensara em justiça como resultado de uma espécie de contrato social. Os estóicos abraçaram a idéia de lei natural e justiça como implicando conformidade com a natureza e, dessa maneira, aplicáveis a todos os homens. Cabe lembrar que dos estóicos, através do conceito romano de ius gentium, é que procedem os conceitos de direitos e leis naturais, e o direito consuetudinário das nações, que chegou à Idade Média. Era um conceito que evidentemente atraía os romanos, que se sentiam oprimidos por imperadores como Nero. Durante esse período, o estoicismo, especialmente em seus aspectos morais e cívicos, teve numerosos adeptos.
Dissemos antes que, em sua teoria de conhecimento, os estóicos tiveram pontos de contato com Epicuro. No caso da maioria dos filósofos dessa época, nota-se grande ênfase nas percepções sensoriais, o que deu motivo ao comentário de que um enfoque empírico era comum às diferentes escolas filosóficas. Certamente não ocorreu a ninguém supor que houvesse melhor fonte de conhecimento que a percepção pelos sentidos. Segundo os estóicos, o critério da verdade, como se dizia, devia ser encontrado em intuições sensoriais individuais. A explicação destas teria, naturalmente, que ser diferente da proposta por Epicuro. Aparentemente, Zenão adotou o modelo, de Platão, de cera e sinete, dizendo que
determinadas coisas produzem impressões sobre a alma, embora Crisipo insistisse em que isto não devia ser aceito literalmente. Esta ação produziria phantasiai (representações, ou aparências), que poderiam ser prováveis ou improváveis e, se prováveis, verdadeiras ou falsas. Mas o critério de verdade estava naquelas phantasiai que eram denominadas de kataleptikai. A katalepsis (apreensão) e a kataleptike phantasia (a apresentação apreensível ou apreensiva) eram as bases corretas sobre as quais repousava o conhecimento. O denominado critério da verdade, portanto, tem o objetivo de prover os fundamentos do conhecimento. Com esta idéia, inicia-se a busca de fundamentos epistemológicos que se tornou característica de grande parte da epistemologia subseqüente.
Katalepsis implica um domínio seguro do seu assunto. (Poder-se-ia julgar mais plausível pensar que a apresentação nos domina, controla, e que é nisto que consiste a intuição, embora a interpretação mais comum seja no sentido contrário.) Zenão exemplificou essa idéia com uma imagem. Uma palma de mão aberta, disse ele, representa a apresentação, um ligeiro encurvamento dos dedos o assentimento a ela, a mão fechada a apreensão, e o agarramento da mão pela outra o conhecimento. Crisipo certamente pensava que o assentimento estava em nosso poder e que podia estar sujeita a erro. O que dizer então da katalepsis? Está em nosso poder? Há evidentemente dificuldades neste particular. De qualquer modo, deve haver alguma coisa na apresentação que nos faz agarrá-la. Crisipo invocou também neste contexto a distinção entre causas principais e auxiliares, a apresentação sendo a auxiliar, ou condição necessária, ao passo que nós seríamos a causa principal da aceitação. Está longe de estar claro, contudo, que isto seja útil mesmo para a aceitação, quanto mais para a apreensão propriamente dita. A NOVA ACADEMIA
Arcesilau, da denominada Nova Academia, introduziu o cepticismo nessa escola por volta do ano 270 a.C., provavelmente sobre o fundamento de que isto era um retorno apropriado à prática socrática, na forma sugerida pelos primeiros diálogos platônicos. Ele pode ter sido também influenciado por Pirro, que aparentemente alegava que coisa alguma pode ser conhecida e que a aceitação deste postulado era o segredo da boa vida, isenta de cuidados e de ansiedades. (Pirro acompanhou Alexandre à Índia e, segundo se diz, conversou com “os Magos e os ginosofistas [Seita de ascéticos na antiga Índia que andavam nus e praticavam a meditação (N. do T.)]”. Conta-se também que pôs em prática o cepticismo que pregava, e enfrentava todos os riscos sem tomar qualquer precaução, “fossem carroças, precipícios ou cães”!) Embora nada houvesse escrito, a tradição a seu respeito, autêntica ou não, foi preservada por seu discípulo Timon, que escreveu versos satíricos, onde comparava seu mestre com outros filósofos, em detrimento destes últimos. Como quer que tenha sido, Arcesilau introduziu a doutrina céptica na Academia e lançou ataques contra outras escolas, particularmente a estóica, por seu dogmatismo. A doutrina estóica de kataleptike phantasia servia de alvo fácil, uma vez que implicava, na verdade,
um recurso à intuição. Arcesilau argumentava, de forma bem plausível, que era impossível concluir, à vista de qualquer apresentação em si, se ela era verídica ou não. O conteúdo da phantasia é proporcional e a teoria causal implícita na tese sobre impressões não justifica a reivindicação à verdade implícita na doutrina da apreensão. Ele provavelmente usou também o sorites, ou argumento da gradualidade. Neste contexto, provavelmente equivale ao argumento de que clareza e nitidez em uma apresentação são matéria de grau. Graus de certeza podem ser atribuídos a uma impressão sensorial e não há uma marca clara que separe as que são verídicas das que não são.
Crisipo efetuou uma tentativa de responder a Arcesilau, frisando maneiras através das quais qualquer experiência sensorial pode ser julgada fidedigna – sua conformidade com “idéias comuns”, com o bom senso, e com a razão correta. Sabemos também que os “estóicos mais jovens” alegavam que a kataleptike phantasia fornecia um critério de verdade, “contanto que não houvesse obstáculo”. Os “estóicos mais jovens” podem ou não ter incluído Crisipo. A tese envolve um apelo geral à coerência da apresentação com outras coisas. Havia, assim, ênfase geral na razão correta e no tipo de racionalidade que os estóicos tentavam encontrar no mundo em geral. Os princípios da razão correta são, claro, encontrados na lógica e isto talvez lhes explique a ênfase na lógica em geral, e na lógica proposicional em particular, comum entre os estóicos. À parte o estudo que fizeram das condições da verdade das diferentes formas proposicionais, incluindo as hipotéticas, o principal interesse do sistema consistia, talvez, na tentativa de formular e formalizar esquemas de argumentos, ou tropoi (modo). Tornaram axiomático o sistema no sentido de tentar mostrar que certos esquemas de argumentos eram indemonstráveis, como, por exemplo, o modus ponens da lógica tradicional – “Se p então q, mas p, por conseguinte q”. Outros argumentos deviam ser derivados de cinco outros primitivos desse tipo. O descendente direto desse enfoque da lógica foi a teoria da consequentiae (conseqüências, ou implicações) da lógica medieval, que tem seu equivalente na denominada “lógica natural” dos tempos modernos.
Após Crisipo, um novo chefe da Academia, Carnéades, renovou o ataque à Stoa. Segundo a tradição, ele substituía a verdade pela probabilidade, admitindo que apresentações poderiam ser prováveis, embora não pudesse haver critério final da verdade. Além do mais, ele distinguia três graus de probabilidade – a meramente provável, a provável e confirmada, e a provável confirmada e submetida à teste. Esta opinião transforma-o em figura importante na história da filosofia da ciência, especialmente no tocante ao estudo da viabilidade de testes. Recentemente, contudo, algum ceticismo foi levantado a respeito dessa interpretação das idéias de Carnéades. Para começar, observou-se que a palavra traduzida como “provável” o seria melhor como “persuasivo”, “convincente”, o que daria à questão uma ênfase mais psicológica, e não epistemológica. Além do mais, segundo seu discípulo Clitômaco, Carnéades nunca teve uma opinião
própria que se pudesse descobrir. É bem possível que as idéias que lhe foram atribuídas tenham sur gido no contexto de discussão com os estóicos e que ele usava premissas estóicas para demonstrar que, mesmo de acordo com as idéias deles, não era possível se formular um critério definitivo de verdade que proporcionasse certeza. Carnéades era conhecido por sua disposição de argumentar por ambos os lados de uma questão. Por isso mesmo, sua posição real, se de fato a assumiu, é incerta.
Mais ou menos 50 anos depois, por volta dos anos 90 e 80 a.C., Antíoco rompeu com a tradição céptica da Academia e restabeleceu a Velha Academia. Fez isso de tal maneira que levou outros a comentar que trouxera a Stoa para a Academia, alegando que as teses estóicas, bem como as do Liceu, haviam sido na verdade retiradas de Platão. Panécio e, depois dele, Posidônio, os principais estóicos do período, tomaram a frente na direção de um estoicismo mais eclético, de tal modo que outros acharam que pouco havia a escolher entre a Academia e a Stoa. O ecletismo tornou-se, na verdade, típico desse período. O estoicismo posterior – em Sêneca, por exemplo, e ainda mais tarde no imperador Marco Aurélio – notabilizou-se por sua posição moral, a ênfase na dignidade e na determinação em face do sofrimento. Transformou-se principalmente em um estilo de vida e não em uma filosofia, que abrange grande número de questões. Isto se aplicou mesmo a Epicteto, no século I d.C., e que ao contrário dos dois precedentes, foi um filósofo profissional.
A Academia passou por um período de inatividade de tal ordem que Cícero – que, embora não grande figura como filósofo, é útil como fonte das opiniões de outros – disse que, ao visitar Atenas, não encontrou a menor indicação da existência da citada escola. Ela se tornou mais tarde, na Academia Média do século II d.C. (c. 160-180, contemporânea de Marco Aurélio) quase mística, além de seu caráter eclético. Albino e Numênio, este último rotulado também como neopitagórico, interessavam-se por uma espécie de cosmologia religiosa, derivada em parte do Timeu, de Platão, com sua ênfase em um Criador artesão e no mundo-alma. Coube também a Numênio a observação de que Platão era Moisés falando grego! A Academia ganhou nova vida com o neoplatonismo no século III d.C., assunto este a que voltaremos adiante.
CEPTICISMO
Entrementes, a filosofia helenística dominante era a da Escola Céptica, fundada por Enesidemo por volta do ano 80 a.C. Ele pode ter sido membro da Academia e talvez a tenha deixado quando Filo, o chefe da escola antes do cisma liderado por Antíoco, mostrou-se dogmático demais para seu gosto. A escola postulava suas origens em Pirro e alegava mesmo uma linha de descendência de suas idéias através de mestres sucessivos. É provável, no entanto, que só com Enesidemo tenha se desenvolvido uma doutrina céptica sistemática, que recebeu uma codificação mais extensiva de Sexto Empírico no século II d.C. Enesidemo
formulou dez argumentos, ou “modos”, com a finalidade de demonstrar que o indivíduo devia suspender os juízos. Este é o objetivo da filosofia céptica, uma vez que seus adeptos julgavam que apenas a suspensão dos juízos poderia levar à tranqüilidade da mente. Diziam os cépticos que, de acordo com o significado etimológico da palavra skepsis, eles eram indagadores. A indagação deles, no entanto, levava à conclusão de que desde que as aparências entram em conflito, não pode haver acesso à verdade independentemente das aparências. A atitude correta a adotar, por conseguinte, era a epoché (suspensão do juízo). Diziam eles que isto produzia ataraxia (tranqüilidade da mente) e consideravam isto como uma oportunidade de descoberta, traçando uma analogia com o pintor Apeles, que, incapaz de produzir o efeito de espuma na boca de um cavalo, lançou sua esponja sobre a tela e acidentalmente conseguiu o próprio efeito que não pudera obter de outra maneira.
Todos os dez tropos, ou modos, de Enesidemo enfatizam o que se tornou conhecido como relatividade perceptual. Frisava ele as diferenças entre as aparências por causa de: 1) diferenças entre animais; 2) diferenças entre seres humanos; 3) diferenças entre órgãos dos sentidos; 4) diferenças entre as circunstâncias da percepção; 5) diferenças em posição, distância e lugar dos objetos; 6) diferenças em contexto e relação com outras coisas; 7) diferenças em grau de quantidade ou qualidade no tocante a objetos; 8) a relatividade das coisas; 9) diferenças na freqüência de ocorrências; e 10) diferenças em costumes e convenções. O objetivo geral desses argumentos é solapar a alegação de possibilidade de verdade absoluta sobre o mundo. Tudo o que temos em nos louvar são aparências e por isto é entendido não apenas impressões sensoriais mas tudo que nos parece ser o caso em uma dada ocasião. Supostamente, interpretar as aparências dessa maneira fora o que pautara a vida de Pirro e que trazia tranqüilidade.
Um céptico de época posterior, Agripa, que provavelmente viveu no século I d.C., substituiu esses dez tropos, que são evidentemente de valores desiguais para o fim colimado, por cinco de sua autoria. Estes cinco, porém, eram de um tipo diferente dos dez iniciais. Parecem considerações que devem levar um adversário à suspensão do juízo. Esta deveria ocorrer nos casos em que se declarasse um desacordo, em que as considerações conduzissem a um retrocesso, houvesse relatividade no juízo, este dependesse de suposições e descambasse em argumentos em círculo vicioso. No intervalo entre Enesidemo e Agripa, deve ter havido discussões com interlocutores que os cépticos julgavam dogmáticos, com o resultado de se colocar ênfase nos defeitos de argumentos que os primeiros viam nos dos segundos. Realmente, boa parte das obras de Sexto Empírico é dedicada a tais críticas, muitas das quais, importa reconhecer, têm valor duvidoso. Houve argumentos desse tipo a respeito, por exemplo, a tentativa de especificar as causas das aparências, especialmente quando as causas em questão
eram supostamente encontradas em fatos sobre a natureza que transcendiam as aparências.
Mais tarde outros cépticos, talvez especialmente Menodoto, um médico empirista que talvez tenha sido mestre de Sexto Empírico, reduziu os tropos a dois apenas. Mas o que parece que isso implica é um dilema geral com que os cépticos confrontavam seus adversários. Todas as coisas são conhecidas em si mesmas ou através de outras. A primeira condição, porém, é impossível, como indicaram os desacordos entre os dogmáticos, e a segunda porque a primeira ponta do dilema aplica-se também a essas outras coisas ou surge um retrocesso infinito ou um argumento em círculo vicioso. Este dilema evidentemente depende de considerações aduzidas nos tropos anteriores, de modo que estes dois tropos finais parecem o sumário das discussões, inúmeras, que os cépticos tiveram com os dogmáticos. A conclusão a que chegaram foi que elas “nada resolviam”. A única atitude correta era a suspensão do juízo, contentando-se o indivíduo com as aparências, e isto, alegavam eles, levava à felicidade. Hegel pensou que os antigos cépticos foram os únicos autênticos, no sentido em que os de seu próprio tempo queriam pôr em dúvida algumas coisas apenas para assumir postura dogmática em relação a outras. Há alguma verdade nisto, ou haveria, se os antigos cépticos tivessem vivido, como diziam, de acordo com seu cepticismo. É mais do que duvidoso que eles pudessem ter feito isso ou, na verdade, que alguém pudesse.
NEOPLATONISMO
Com o cepticismo chegamos realmente ao fim das escolas helenísticas, embora, conforme já tivemos oportunidade de ver, ao chegar essa doutrina ao seu ponto culminante, já existissem formas de platonismo misturadas com outras coisas, denominadas Médio Platonismo. À parte Numênio e Albino, a quem já fizemos referência, Filo propôs uma forma de platonismo judaico, cabendo a Clemente e Orígenes sugerir formas de platonismo cristão. O último desses filósofos foi discípulo de Amônio Sacas, uma figura de certa maneira misteriosa que ensinava em Alexandria, que nessa altura se tornara o ponto focal da filosofia grega. Amônio nada escreveu, mas foi mestre não só de Orígenes mas também de Plotino, o fundador da denominada Escola Neoplatônica. Plotino (c. 204-269 d.C.) nasceu no Egito e estudou filosofia em Alexandria, mas seguiu posteriormente para Roma, onde elaborou seu sistema filosófico. Seu principal discípulo, Porfírio (233-304 d.C.), retratou-o em uma biografia e ele mesmo introduziu alguns refinamentos no sistema neoplatônico. Coube-lhe também compilar as obras de Plotino em seis grupos de nove livros, trabalhos estes que vieram a ser conhecidos como Enéadas, da palavra grega ennea, que significa nove.
A Escola Neoplatônica tornou-se a dominante no período e chegou a ser mesmo patrocinada pelo imperador Juliano (o “Apóstata”) como uma rival do
cristianismo. Após a morte de Plotino, a escola se cindiu, parte dela continuando na Síria sob Jâmblico e a outra parte em Atenas sob orientação de Proclo e, mais tarde, de Damáscio. Em 529, o imperador Justiniano, no interesse do cristianismo, proibiu o ensino da filosofia em todo o Império, com o conseqüente fechamento da escola de Atenas (é assunto controvertido se o ensino da filosofia cessou também em outros lugares). Damáscio e outros tentaram continuar a exercer sua profissão na Pérsia, mas julgaram a vida intolerável nesse país. Ao