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Konstruktivistisk metodologi

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O controle da Igreja no campo intelectual durou muitos séculos na Espanha. No reinado de Felipe II (1581 - 1598), por exemplo, os espanhóis tinham permissão para estudar em apenas três faculdades fora da Espanha, sendo essas na Itália e em

5 Memória histórica é um conceito historiográfico de desenvolvimento relativamente recente, tendo como

seu principal formulador o historiador Pierre Nova. Tal conceito busca designar o esforço consciente dos grupos em entroncar com seu passado, seja este real ou imaginado, valorando-o com importância histórica. (NORA, Pierre. ―Entre Memória e História: a problemática dos lugares‖, In: Projeto História. São Paulo: PUC, n. 10, pp. 07-28, dezembro de 1993).

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Portugal — que na época estava anexado à Espanha. Em qualquer outro país, isso era considerado ideologicamente perigoso, pois havia um grande receio de que os espanhóis se afastassem das ideias permitidas pelo catolicismo por causa das novidades do pensamento. Trezentos anos mais tarde, já no reinado de Fernando VII (1808 – 1833), as autoridades espanholas mantinham a mesma postura em relação às Universidades estrangeiras, não permitindo que os estudantes saíssem do país para estudar, nem que novas ideias e intelectuais entrassem na Espanha.

Mas a situação começou a mudar no século XIX, mais especificamente entre os anos de 1808 e 1814, período que compreende a Guerra de Independência — conflito iniciado pela invasão de Napoleão e terminado com a expulsão dos franceses da Espanha. A Guerra de Independência teve grande importância para a Espanha por vários motivos. O início do século XIX foi um período de abertura intelectual no país por causa da invasão de Napoleão e pelas novas linhas ideológicas que seu exército levava consigo. Assim como a entrada das tropas napoleônicas na Espanha teve papel importante, sua saída também foi marcante, por ter sido fruto de um levante popular, abrindo a mentalidade da população para uma nova maneira de agir. Esta época da história da Espanha também foi imortalizada nas artes a partir da produção de Goya, que retratou em seus quadros a luta do povo contra a opressão do exército napoleônico, luta imortalizada6 na fase das sombras do artista. Com o fim do conflito, a Igreja e Exército — instituições que sobreviveram com honra à Guerra de Independência — passaram a impor sua força à monarquia espanhola, que havia capitulado com a invasão de Napoleão.

Naquele período, a Igreja e o Exército não eram instituições aliadas, como vieram a ser no século XX. Ao contrário, a Igreja Católica mantinha sua posição

6 ―O Fuzilamento do 3 de maio em 1808‖, uma das obras mais conhecidas de Goya, retrata a resposta dos

soldados franceses à rebelião dos cidadãos de Madri contra o exército de Napoleão, que eclodiu no dia anterior à data do título do quadro.

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conservadora como sua principal característica, enquanto o Exército era visto como uma instituição marcada pelo pensamento liberal e maçônico. Nos anos que finalizavam o século XIX, a Igreja e o Exército na Espanha não eram instituições que aliavam seus pensamentos e interesses. O exército, fortalecido na época das Guerras Napoleônicas, era o refúgio da jovem geração das classes dominantes decadentes que esperam tudo do Estado — e que obviamente entraram em choque com aqueles que do Estado não esperavam nada, como os grupos de esquerda formados por camponeses e operários.

A fragilidade da monarquia, o fortalecimento da Igreja e do Exército e a crescente mobilização popular fizeram da Espanha um dos países mais turbulentos da Europa dos séculos XIX e XX. O país se tornou um território de constantes lutas entre os liberais do exército e os conservadores clericais, e depois sofreu uma sucessão de golpes de estado. Esta etapa durou até o ano de 1868, às vésperas da Primeira República Espanhola (1873-1874), proclamada em 1873. Porém, a primeira experiência republicana do país não contava com o apoio do Exército e Igreja, e durou apenas um ano, tendo fim com outra tomada de poder pelas forças militares, que restituíram o poder monárquico. O trono foi novamente ocupado pelos Bourbons, e a partir de então, passou a vigorar uma monarquia constitucional. Neste tipo de regime, a chefia de Estado é exercida pelo monarca, mas a chefia de Governo fica nas mãos de um primeiro-ministro e a este cabe o verdadeiro encargo do Poder Executivo. Este tipo de governo se caracteriza pelo fato de a coroa ter papel moderador nos conflitos políticos; o rei ou a rainha arbitram nos conflitos do governo, sobre os quais o governante real escolhe livremente.

Pelo regime de governo, em 1876, foi promulgada uma Constituição que parecia ser o sinal da Modernidade chegando à Espanha. A Constituição de 1876 consolidou as liberdades fundamentais de expressão e associação; declarava o

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catolicismo como religião oficial do Estado — com permissão para práticas particulares de outras crenças —; os partidos políticos e sindicatos tiveram autorização para entrar em funcionamento e expressar suas opiniões em periódicos locais e nacionais. Além disso, a Constituição instituía o sufrágio universal masculino, mas as eleições deste período foram manipuladas em alto nível de nepotismo. Além disso, a elite governante mantinha importantes relações com as classes econômicas dominantes, as elites financeiras e fundiárias, enquanto os setores comercial e industrial representavam parceiros mais recentes.

Com a Restauração na Espanha, o rei era o comandante das Forças Armadas, mas, além disso, foi criada uma aliança entre altar e trono. Assim, se a Igreja era a guardiã ideológica da Monarquia, as Forças Armadas eram sua guardiã pretoriana. A principal função do Exército era defender a nação de seus inimigos internos, e qualquer agitação social era seguida pela suspensão da Constituição e pela decretação da lei marcial7, concedendo ao Exército o controle final sobre a manutenção da ordem pública. Os pactos entre as camadas dirigentes da comunidade espanhola, somados às constantes fraudes à Constituição, abriam ainda mais espaço para a difusão e o fortalecimento de ideias revolucionárias entre a classe operária espanhola. Assim, entre o final do século XX e a época da Primeira Guerra Mundial, dois sindicatos gerais ganharam importante força política e social na Espanha: CNT (Confederação Nacional do Trabalho) e UGT (União Geral de Trabalhadores).

O desenvolvimento na Espanha, no final do século XIX e início do XX, era desigual nas diferentes regiões do país. O norte, de terra fértil e chuva abundante, contava com pastos verdes e vastas criações de gado; no leste do país, havia um

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Lei marcial é o sistema de leis que entra em vigor quando uma autoridade militar toma o controle da administração ordinária da justiça. Quando a Lei marcial entre em vigor, são suspensas as liberdades fundamentais do cidadão, como os direitos de ir e vir, de se reunir, de manifestar sua opinião e de não ser aprisionado sem fundamento judicial.

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dinâmico setor voltado a exportações, além de uma pequena produção de frutas e legumes. Tais atividades consolidaram, em ambas as regiões, uma classe de pequenos arrendatários e fazendeiros que não confiavam no Estado central. Já a região central, onde se situa Castela, era mais pobre, e ali havia um modelo agrário que fazia coexistirem grandes e pequenos camponeses proprietários de terra. Nessa região, o catolicismo do campesinato mantinha as atitudes sociais conservadoras e evitava o conflito social. Nos anos de 1930, estes camponeses castelhanos comporiam os escalões populares de partidos de direita e as tropas nacionalistas.

O Sul da Espanha — sul de Castela, Estremadura e Andaluzia — até meados do século XX era uma região marcada pelo grande vácuo econômico entre proprietários de terra e camponeses sem terra, além de estar territorialmente dividida entre a aristocracia e as ordens eclesiásticas, mantendo a influência destes na política nacional. A grande maioria da população continuou como mão-de-obra barata e mantinha o padrão de vida mais baixo na Espanha. A ausência de classe média rural sólida exacerbava as divisões de classe, e a Igreja era vista como uma instituição que legitimava essa opressiva ordem semifeudal.

O Sul se tornou, consequentemente, o centro de um conflito social quase primitivo, com explosões violentas e frequentes de revoltas populares contra o clero, sufocadas com uma ferocidade igualmente brutal pela polícia paramilitar, a Guarda Civil. Em contraposição, uma economia capitalista moderna se desenvolveu em torno da indústria têxtil da Catalunha, das fábricas de ferro e aço do País Basco e dos interesses de exploração de minas das Astúrias. O contraste entre o progresso dos centros urbanos e o atraso do campo era impressionante.

Explorados socialmente e negligenciados politicamente, proletariado e campesinato constituíam os grupos mais obviamente dissidentes. No entanto, sua

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organização efetiva só começou a se formar no final do século XIX, e a divisão — tanto ideológica como geográfica — caracterizou esse desenvolvimento. De fato, uma tendência libertária floresceu no Sul e no Leste, enquanto o marxismo se tornava dominante no centro e no Norte. Ambos possuíam a crença de que a emancipação deveria passar pelo processo de educação. A dura rivalidade entre marxistas e anarquistas tornou a unidade do proletariado efêmera, mesmo nos momentos cruciais.

Em 1868, a chegada do italiano Giuseppe Fannelli, discípulo do anarquista russo Mikhail Bakunin, impulsionou na Espanha essa corrente política. Já o socialismo chegou mais tarde à Espanha, em dezembro de 1871, pelas mãos de Paul Lafargue, genro de Karl Marx. O socialismo espanhol viveu um estável embora lento desenvolvimento. Apesar de negligenciar a questão agrária, a estratégia gradualista do socialismo se mostrou bem sucedida entre a chamada ―aristocracia trabalhista‖ (BROUÉ, 1992). Dureza e paciência na estrutura de organização fizeram com que os socialistas conseguissem incursões em importantes áreas industriais, como as minas das Astúrias, e em siderúrgicas e indústrias navais bascas. Entretanto, a ausência de uma estratégia agrária impedia a expansão para o sul rural. Os esforços dos socialistas também fracassaram na Catalunha e nas regiões vizinhas de Valência e Aragão. Em contraste, o movimento libertário desfrutava de períodos de intensa atividade seguidos por outros de repressão e atividade clandestina. As ideias anarquistas pareciam fornecer uma coerência ideológica à tradição segundo a qual as classes populares, sem confiança no Estado e na política, recorriam à ação direta para resolver seus descontentamentos.

Frente a essa organização das camadas populares que ia se formando em várias regiões da Espanha, o retorno do poder monárquico não significou o fortalecimento do poder centralizado, e a volta do rei, após a Primeira República Espanhola, encontrou um importante problema, tanto politicamente quanto no sentido

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simbólico: a questão catalã. O movimento para a autonomia da Catalunha, politicamente, era uma mostra da tendência à fragmentação do território espanhol e, simbolicamente, uma prova da falta de influência da monarquia no país. Além disso, o desenvolvimento industrial de Barcelona, no final do século XIX, gerou grandes desentendimentos entre os novos ricos de Barcelona com o governo de Madri, aproximando cada vez mais esses industriais ao nacionalismo catalão. A ―Liga Catalã‖, nascida das camadas dirigentes daquela região, era uma formação autonomista de posicionamento fortemente conservador, mas se mobilizou contra o centralismo de Castela, levando tanto a pequena burguesia quanto parte do proletariado para o mesmo lado. O movimento de autonomia da Catalunha, a ideologia anarquista dos trabalhadores, as altas taxas de analfabetismo e o ambiente criado pelo Partido Radical8 de Alejandro Lerroux tornaram Barcelona a cidade mais turbulenta da Europa no começo do século XX, sendo conhecida como ―a cidade das Bombas‖. Assim, ―em Barcelona, a revolução não se prepara pelo simples fato de que está preparada sempre‖, como dizia o governador civil Angel Ossorio y Gallardo (THOMAS, 2004, p. 38). Nos anos de 1890, Barcelona presenciou uma espiral de bombardeios e uma repressão impiedosa. A combinação entre proletariado radical, movimento nacionalista, classe empregadora intransigente e oficialato revoltado tornou Barcelona, da maior metrópole industrial da Espanha, no principal centro de conflito político do país.

8 O partido de Lerroux incitava seus seguidores com brutal anticlericalismo, anticatalanismo e promessas

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Geração de 98

As questões conflituosas também se davam no âmbito externo, marcando a década de 1890 pela tentativa da Espanha em manter suas colônias — Porto Rico, Filipinas e Cuba — e os últimos vestígios do que um dia foi o império espanhol. A guerra colonial em Cuba foi um dos conflitos mais significativos deste período, e se converteu em uma luta contra os Estados Unidos. O impacto da derrota espanhola inflamou ainda mais as crises nacionais. O fim do domínio espanhol sobre Cuba, em 1898, acentuou o momento crítico pelo qual passava a Espanha, pois os espanhóis tinham uma especial ligação com a colônia, enxergando nela outra província andaluza. Tal perda fez com que o país ibérico movesse todas as suas forças para manter o domínio sobre o Marrocos. Porém, a campanha no país africano só estendeu os conflitos internos espanhóis para o início do século XX. Os acontecimentos de 1898 foram muito significativos na Espanha, não apenas pelo fim do império na América, mas pela sensação de desmoronamento que se abateu sobre o país. A estabilidade do regime foi colocada em risco pela frequente intervenção pretoriana na política. Ressentidos e traumatizados pela derrota colonial, os militares passaram a não tolerar qualquer crítica civil, começaram a reivindicar o papel de guardiões do que eles consideravam como ―valores sagrados da nação‖: a unidade da pátria e a preservação da ordem social.

O ano de 1898 teve um impacto tão grande que, na Espanha, nasceu uma geração de intelectuais interessada em pensar a profunda crise econômica, social e do pensamento nacional. Junto com os muitos conflitos internos e externos, a Espanha vivia uma época de prosperidade artística e literária, e a união destes ficou conhecida como ―Geração de 98‖. O grupo de escritores nasceu em um momento de profunda

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crise, e se uniu, sobretudo, ideológica e politicamente, concentrando suas atenções sobre os males do país. Sua ação enfraqueceu a legitimidade moral do regime. Os poetas, romancistas e filósofos da Geração de 98 pensavam soluções para o atraso pelo qual eles consideravam que a Espanha passava. Pío Baroja e Miguel Unamuno pensavam que as resoluções dos problemas do país passavam pela crença progressiva na mobilização popular; José Ortega y Gasset via como necessária a busca de uma elite moral; Joaquín Costa pensava que era necessária uma personalidade forte, ―um cirurgião de ferro‖, para erradicar a corrupção da política e realizar uma regeneração nacional a partir de cima. Essas abordagens constituíram os dois caminhos para a modernidade, o democrata e o autoritário, cujo confronto final aconteceu abertamente em 1936. Também pertenciam a esse grupo Azorín, Jacinto Benavente, A. Ganivet, Ramiro de Maeztu e António Machado.

No mesmo ano de 1898, nasceu Federico García Lorca. A vida de Federico García Lorca, por si só, poderia ser um capítulo histórico da Espanha. O poeta nasceu no mesmo momento do fim do império espanhol, e morreu no primeiro mês da Guerra Civil Espanhola, outro divisor de águas (trêmulas) da história do país. O local de nascimento e morte do escritor é o mesmo: Granada, na Andaluzia. Apesar de Federico haver estado em diversos lugares da Espanha e da América, o poeta, que em muitas de suas obras — poemas, peças, conferências e entrevistas — homenageou, se remeteu e instigou sua terra, encontrou no mesmo local o céu e o inferno de sua infância e adolescência, frustrações e paixões, êxitos na vida pública e a exposição da vida privada, seu berço e sua sepultura. A vida de García Lorca mais parece uma obra dramática, seguindo o fio condutor da história da Espanha na qual poderíamos inscrever a vida de Federico como uma tragédia grega, inexorável nos fatores que convergem para o fim trágico.

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Como trágicos foram caracterizados alguns acontecimentos da história do país. Ainda nos resquícios da tentativa de manter a última colônia da Espanha, em 1909, o governo espanhol convocou 850 reservistas para seguirem para o norte da África, dos quais alguns foram convocados à Catalunha. Mas, quando os militares embarcaram no porto de Barcelona, iniciou-se uma greve geral de protesto que ficou conhecida como a ―Semana Trágica de Barcelona‖. Da greve participaram socialistas e anarquistas, e esse acontecimento foi imortalizado pela queima de aproximadamente oitenta igrejas e outros edifícios religiosos. Quando o exército retomou o controle, foram registradas 120 mortes, e apesar de terem sido atacados tantos edifícios de ordem religiosa, apenas três dessas mortes foram de membros da Igreja. Embora não fosse um ataque político contra o regime, a Semana Trágica prognosticou, em pequena escala, o que aconteceria durante os três anos da Guerra Civil, com as rebeliões antimilitares, a violência anticlerical como expressão da frustração das classes trabalhadoras e a violenta repressão a tais manifestações. A ―Semana Trágica de Barcelona‖ foi a primeira mostra, no século XX, do impacto no encontro do amontoado de ―Espanhas‖. Aos governantes, preocupava mais a destruição, aparentemente sem sentido, causada pelo povo, do que as ideias revolucionárias dos grupos de esquerda. Assim, apoiando-se no medo das massas e na tentativa de evitar novas manifestações populares, a classe política evitou tanto quanto possível as eleições gerais.

Poucos anos depois da ―Semana Trágica de Barcelona‖, deflagrou-se a Primeira Guerra Mundial. A Espanha não entrou na Guerra, mas a guerra entrou na Espanha, e com um impacto devastador. Para as forças políticas não-dinásticas e para as elites culturais, o conflito europeu se tornou uma questão de preocupação obsessiva, e a guerra era percebida, pelos espanhóis, como um choque ideológico. A inquietação interna da classe operária, a questão regional e as guerras coloniais eram os principais

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problemas enfrentados pelo governo espanhol no início do século passado, o que justificou que o exército voltasse a interferir na política, justificando a brutalidade da tentativa da guarda civil de evitar outra revolução, tendo em vista o exemplo chegado do Leste, a Revolução Russa de 1917.

A Espanha tornou-se então em palco de sucessivas agitações populares. No verão quente de 1917, a deflagração de uma greve de transportes em Valência gerou um conflito no qual a reação militar foi de uma brutalidade impressionante. A partir de 1918, a rebelião irrompeu por todo o Sul agrário; em 1919, uma greve geral em Barcelona durou 44 dias, deixando a cidade completamente paralisada. Nesse ano, os conflitos sociais se transformaram em verdadeiras lutas de classes depois que burguesia, grupos paramilitares e Exército selaram uma aliança sem que uma série de importantes governos de Madri tomasse conhecimento. Muitas cidades espanholas se tornaram campos de batalha. Para agravar a situação, notícias devastadoras da quase esquecida aventura marroquina abalaram o país no verão de 1921. Uma comissão parlamentar foi formada para discutir a questão das responsabilidades, ecos da crítica ao regime que tinha comandado o desastre de 1898.

As agitações chegaram também à Andaluzia, onde comitês anarquistas ocuparam governos municipais, aumentaram salários, aguçando o temor dos latifundiários, que por sua vez fugiram. Mais uma vez o exército dominou os grevistas, e com a mesma agressividade imposta em outras partes da Espanha que se agitavam contra a ordem instituída. Em 1923, depois de tantos anos de agitação, a exaustão parecia estar por todos os lados, chegando inclusive à CNT e à UGT, e esse foi considerado o momento perfeito para um golpe de estado. O exército aproveitou-se dele, encabeçado por General Miguel Primo de Rivera. Quando tomou o poder, Primo de Rivera proferiu as seguintes palavras ―Nem eu, nem minhas guarnições, nem as de

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Aragão, das quais acabo de receber notícias nesse sentido, transigimos em nada do que nos foi pedido. Se os políticos, em defesa de sua classe, formam uma frente única, nós também o formaremos com o povo, que armazena tanta energia contra eles. E a esta resolução, hoje moderada, lhe daríamos caráter sangrento‖ (apud THOMAS, 2004, p. 47). O golpe militar contou com o consentimento do rei Alfonso XIII — que sabia de antemão o que estava sendo planejado —, dando início à ditadura de Primo de Rivera, que vigorou por sete anos.

O monarca não manifestou nenhuma medida excepcional contra o golpe, e deixou claro que sua principal lealdade era a ―seu Exército‖. Uma vez na capital, o Rei

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