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Demokratisering av menigheten – utfordring av predikantrollen?

5.1 M ENIGHET I FORANDRING

5.1.4 Demokratisering av menigheten – utfordring av predikantrollen?

Os monges, o bispo Flaviano e o presbítero João Crisóstomo. Cada um deles, a sua maneira, intercedeu em favor de Antioquia e dos antioquenos, chamando para si a responsabilidade de zelar pelos habitantes bem como pela cidade. Os monges intercederam junto aos magistrados quando estes chegaram à cidade e montaram um tribunal para inquirir a população sobre os acontecimentos. O bispo Flaviano dirigiu-se a Constantinopla, para, em uma audiência com Teodósio, falar também em nome da cidade e de seus habitantes, mesmo quando havia muitos impedimentos que o obrigavam a permanecer em Antioquia. O presbítero João Crisóstomo instruiu, consolou a população e exortou todos, por intermédio de

suas homilias, a terem esperança em um bom resultado. Assim, João Crisóstomo atribui o mérito de um desfecho que segundo ele foi muito favorável ao cristianismo, ao bispo Flaviano, aos monges, mas, sobretudo, ao Deus dos cristãos, que, acima de todas as outras coisas, tornou tudo isso possível.

A obra é considerada, geralmente, a partir de seu caráter apologético e retórico. Freqüentemente, argumenta-se que as homilias possuem fatos ficcionais e que uma ampla série de afirmações nelas contidas não correspondem à realidade social do Império romano do século IV. No que concerne à interferência cristã, é lugar comum, embora haja algumas variações, o argumento de que tanto os monges quanto o bispo Flaviano não influenciaram diretamente a resolução imperial final. Por exemplo, Paverd (1991:73), no que se refere aos monges, afirma:

[...] não pode ser verdade que os monges influenciaram o veredicto sobre a cidade. Sem dúvida, o destino da cidade bem como daqueles réus que foram considerados culpados foi decidido em Constantinopla, pelo próprio Teodósio.

Para Stephens (2001:20),

O cenário mais provável é aquele no qual os oficiais imperiais inicialmente tinham a autoridade para suspender a sentença de morte dos membros do conselho da cidade antes de fazer o relatório a Teodósio. A falha de Libânio em mencionar os monges não exclui a intervenção deles, mas levanta dúvidas sobre a extensão de seu papel. E, enquanto é improvável que Crisóstomo tenha fabricado completamente o papel que os monges desempenharam nesses eventos, parece que ele exagerou a influência que eles tiveram. Na versão de João Crisóstomo, a intervenção dos monges é a única razão pela qual os membros do conselho não foram imediatamente executados.

Sobre a interferência de Flaviano, Paverd (1991:139) argumenta, em primeiro lugar, que a petição de Flaviano e a resposta de Teodósio implicavam no relatório de Cesário, um dos oficiais responsáveis pela investigação ordenada por Teodósio, quando ele estivesse de volta a Constantinopla. Por isso, em segundo lugar, Paverd (1991:145) aponta que Flaviano, provavelmente, teve duas audiências com o imperador. A primeira teria ocorrido antes da

chegada do relatório de Cesário. Nessa, Teodósio concorda com a petição do bispo para a reconciliação com a cidade. Mas seria somente depois do relatório de Cesário que Teodósio expediria o decreto com o perdão. Para Paverd (1991:148), tanto a versão de Libânio quanto a de Crisóstomo são parciais. Esses testemunhos somente mencionam e enfatizam aquelas personagens que reforçam o interesse particular de cada um, ou seja, a visão pagã e a perspectiva cristã.

A compreensão de João Crisóstomo e a ênfase dada à participação cristã remetem aos interesses do clero cristão. De fato, é possível que os eventos não tenham ocorrido conforme nos relata João Crisóstomo. Mas isso não invalida a influência que o cristianismo e, em particular, os bispos possuíam nesse período junto à população e ao imperador. Ou seja, a invenção ou o exagero produzido por João Crisóstomo não invalida o impacto que a embaixada de Flaviano, a participação dos monges ou mesmo a do próprio João Crisóstomo teria na decisão imperial e a contribuição que a participação deles trouxe para a resolução final do conflito. Realmente, João Crisóstomo exalta, evidencia e enfatiza a interferência cristã, especialmente, a embaixada de Flaviano, tornando-a quase a única responsável pelo “bom” desfecho do conflito. Essa visão não é desinteressada, mas parcial e unilateral. Contudo, mesmo que, como propõe Paverd (1991:148-9), a decisão imperial e a reconciliação de Teodósio com a cidade tenha sido um esforço conjunto de uma série de petições,143 a interferência cristã, a participação de Flaviano, foi mais significativa, uma vez que se insere num contexto no qual o cristianismo já exerce uma influência efetiva na sociedade romana, por meio da conquistas de espaços sociais e posições políticas, cuja força e impacto na sociedade são visíveis. A influência cristã deve ser vista sob um ângulo diferente, que leve em consideração as conquistas cristãs alcançadas pelo cristianismo tanto no âmbito cultural

143 Paverd (1991:148-149) compõe um cenário no qual houve a participação e interferência conjunta de Cesário,

oficial enviado pelo imperador para a investigação dos acontecimentos em Antioquia; de Flaviano, que se encontrou com o imperador em duas ocasiões, ou seja, teve duas audiências com Teodósio; bem como também de uma delegação enviada pela cidade da Laodicéia; da interferência do Senado e do povo de Constantinopla.

quanto no político. Assim, tendo isso em vista, mesmo que os monges e Flaviano não tenham exercido uma influência direta junto aos magistrados e ao imperador, isso não significa dizer que a intercessão cristã não teve peso na decisão imperial, pois o imperador estava sendo informado continuamente dos eventos que ocorriam em Antioquia. Mesmo que Teodósio tenha esperado pelo relatório de Cesário para expedir o perdão, apesar de ter tido anteriormente a audiência com o bispo Flaviano, e que tenha sido por meio do relato de Cesário que o imperador fundamentou-se para tomar sua decisão final, Cesário não deixaria de reportar a Teodósio sobre os acontecimentos em Antioquia, inclusive sobre as gestões dos líderes cristãos, uma vez que ele mesmo era cristão144. Uma outra questão se coloca: após fazer sua reivindicação junto à autoridade local responsável, a população recorreu ao bispo Flaviano, fato que foi também confirmado pelo testemunho de Libânio. Logo, em nossa opinião, a repercussão do envolvimento dos monges e, sobretudo, as prédicas de João Crisóstomo e a notícia de que Flaviano estava, numa embaixada, a caminho de Constantinopla foram elementos suficientes para influenciar na decisão do imperador quanto à resolução final do conflito. Nesse sentido, as prédicas de João Crisóstomo não projetam na sua época uma realidade imaginada, pelo contrário, compõem um cenário no qual o cristianismo e, em particular, os bispos desempenhavam de fato uma influência que alcançava também o nível imperial. Além disso, o próprio fato de os bispos tornarem suas a tarefa e a responsabilidade de ir em socorro da cidade e de seus habitantes é um indicativo de que essas personagens, gradualmente, agregaram entre suas funções a de defender a cidade.

144 Cesário e Elébico são, ambos, cristãos (Paverd, 1991:57-8). Mesmo que Cesário seja ariano, ainda assim é