Um dos conceitos básicos para compreender a multiculturalidade e os tipos de relação que se estabelecem em contextos multiculturais, como nas escolas, é o conceito de cultura. Ajudados pelas definições precedentes podemos identificar alguns aspectos mais determinantes daquilo que toda a cultura contem e a identificação das suas componentes quando for necessário descrever em profundidade a cultura de um grupo humano. Com Taylor (1871) especificou uma série de componentes como: o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e quaisquer outros hábitos e capacidades adquiridas pelo homem como membro de uma sociedade, que foram respeitadas no tempo pelos diferentes estudiosos sobre o tema. Curiosamente, Goodnough (1971) volta a assinalar como componentes as formas, crenças, valores, regras e valores públicos, receitas, rotinas e costumes, significado e função; todas susceptíveis de serem aprendidas por um indivíduo pelo facto, como sustentava Taylor, de pertencer a uma comunidade social. Como recordamos, (Harris e Moran, 1990, p. 36) procurou realizar uma taxonomia destes componentes, diferenciando a infraestrutura, a estrutura e a superestrutura, como categorias pertencentes a um padrão universal para todas as culturas. No entanto, queremos referir a uma classificação mais realista e pragmática da classificação dos componentes culturais e para isso Ouellet (1991) estabelece uma graduação dos diversos elementos que correspondem à cultura de um grupo social segundo a maior ou menor implicação dos mesmos na dinâmica das
relações entre os membros de uma determinada sociedade. Distingue assim quatro grandes blocos: (a) Um primeiro bloco de valores fundamentais compartilhados pela maioria dos membros de uma sociedade, independentemente da sua pertença a grupos socioculturais minoritários no seio da mesma sociedade. Assim dentro deste grupo encontram-se os grandes princípios que são assumidos pela grande maioria de pessoas e países, por exemplo os Direitos Humanos na actualidade; (b) Um segundo bloco das diversas produções culturais próprias dos diferentes grupos sociais: filosofia, arte, alimentação vestuário; (c) Um terceiro bloco que estaria configurado por todos aqueles aspectos que configuram o mais singular de um grupo cultural: crenças, religião, orientações axiológicas, festas, rituais, organização familiar; (d) finalmente, um quarto bloco que estaria constituído por aqueles comportamentos, habilidades, atitudes, próprios do âmbito comunicativo, aspectos que, segundo Ouellet, encontram-se na base do virtual êxito ou fracasso nas interacções socioculturais.
Na realidade, quando falamos de componentes culturais podemos situarmo-nos no “Modelo do Iceberg” da cultura, já que é difícil precisar com exactidão todos os elementos, tendendo a delimitar aqueles que se encontram no nível consciente e que todos reconhecemos, mas, no entanto, são muitos os que ficam no terreno do inconsciente e que configuram o nível profundo do nosso modo de ser e de situarmo- nos no mundo, assim como a maneira que tem cada grupo humano para organizar sua vida.
Comportamentos/práticas/ símbolos/hábitos/costumes normas/tradições/rituais
Visível
Invisível Crenças e atitudes
Valores
Da mesma maneira que 9/10 do iceberg estão submersos, assim também 9/10 de cultura ficam de fora do conhecimento consciente. Esta parte da cultura, fora do consciente, pode-se chamar cultura profunda (Elosua et al, 1994, p. 10). No recente livro de Guy Bajoit, encontramos também esta ideia mas com o nome de “identidades territoriais”, referindo-se às identidades que se dão na Europa:
Achamos conveniente distinguir vários níveis, vários “escalões de profundidade” articulados na reserva de sentido: o mais profundo seria o dos mitos antigos, logo veria o dos modelos culturais, na continuação o das ideologias e da utopia e finalmente o das prescrições comportamentais, valores, normas, interesses e afectos (Bajoit, 2006, pp. 114-115).
Todos os autores que reconhecem esta conceptualização de cultura defendem ou sustenta que para abordar um contexto multicultural é importante partir do mais óbvio e objectivo, os símbolos mais verificáveis e ir avançando até à perspectiva mais subjectiva e inconsciente que possam manter os membros da cultura. Portanto, para poder entender as implicações que a cultura tem nas relações e dinâmicas que se geram na interacção entre pessoas e grupos de origem cultural diferente, é importante fazer ênfases em alguns componentes chave deste conceito e sua aplicação ao fenómeno da convivência multicultural. Assim, Malgesini e Giménez (2000, p. 319) destacaram as seguintes características:
a) A cultura é aprendizagem: A cultura aprende-se e transmite-se. Através do
processo de socialização vamos aprendendo os diferentes e múltiplos elementos que compõem a nossa cultura. Aprendemos uma língua, formas de comportamento, formas de relacionamento, formas de ver o mundo, tudo isto que aprendemos ou transmitimos por sua vez mediante os nossos próprios actos. Somos cultura em acção por tantos transmissores desta. Mediante o contacto entre pessoas de diferentes culturas, podemos ir aprendendo mutuamente elementos diversos, no entanto, este processo de aprendizagem nunca será completo, ao mesmo tempo que não poderemos renunciar à nossa própria cultura. Se este contacto continua ao longo do tempo, pelo menos durante duas gerações, o resultado pode ser diferente. As segundas gerações aprendem elementos de duas culturas, o que costuma implicar conflito, podendo desembocar no biculturalismo, ou na mais crua desadaptação.
b) A cultura é um modo de interpretação da realidade. Além da conduta, a cultura
constitui um conjunto de ideias, crenças e valores. O instrumento que o indivíduo utiliza para interpretar a realidade e sua posição no mundo e assim dar-lhe sentido. Este aspecto cognitivo da cultura implica que, perante um mesmo facto, cada pessoa possa dar diferentes interpretações, segundo a cultura à qual pertence e segundo como interioriza ela própria tal pertença.
c) A cultura é transmitida mediante símbolos. A cultura não são somente os actos
que se aprendem, o discurso ideológico ou o pensamento, também é símbolo. Quando as pessoas comunicam fazem-no através de símbolos. A comunicação simbólica por excelência é a linguagem. Para compreender uma cultura é importante conhecer sua forma de transmiti-la, a sua linguagem. Para os imigrantes também é importante conhecer a língua da sociedade de acolhimento. A possível integração passa pelo conhecimento mútuo das culturas, e a linguagem é um dos principais expoentes.
d) A cultura é um todo integrado. A cultura é um sistema. Qualquer cultura tem
numerosos elementos, instituições, normas. Por exemplo formas de parentesco, de organização, de vida. Todos estes elementos formam parte de um todo, e unicamente dentro da totalidade cobram seu pleno sentido. Se queremos compreender qualquer elemento de uma cultura devemos situá-lo no seu contexto. Deste modo para compreender a poligamia, o Ramadão, a escola, ou qualquer outro elemento de uma cultura devemos ter em conta o contexto que lhe dá sentido. Valorizar estes elementos ou instituições separadamente e a partir dos nossos padrões culturais, tem-se uma visão etnocêntrica, que muitas vezes justifica a desconsideração e a rejeição em relação a outras culturas.
e) A cultura compartilha-se diferenciadamente. Dentro de cada cultura diferenciam-
se grupos e subgrupos que interpretam o facto cultural de forma distinta, unidos por outros aspectos como a geração, o género ou classe social. Podendo-se dizer inclusive que cada pessoa interpreta a sua pertença ao grupo de maneira diferenciada, adaptando esta interpretação à sua própria construção coerente da realidade.
Partir desta consideração das culturas como internamente diversas, permite evitar posturas essencialistas que podem cair no culturalismo e atribuir à pertença cultural
determinados comportamentos individuais. Assim, o facto de ser de uma nacionalidade, ou pertencer a um determinado grupo étnico, não é em si mesmo um factor explicativo de uma conduta determinada. O determinismo biológico está superado (excepto como formulário explicito) nos nossos dias e ninguém pensa que a espécie humana ou o sexo determinam a capacidade intelectual ou o comportamento das pessoas por natureza. Este determinismo foi substituído no entanto por outro, o cultural, que tende a atribuir a este aspecto uma importância excessiva na hora de explicar os comportamentos e as relações em contextos de multiculturalidade (Malgesini & Giménez, 2000).
f) A cultura é um dispositivo de adaptação. As culturas mudam, não são estáticas e
enriquecem-se com a mudança. Quando falamos de mudança referimo-nos ao resultado de um processo de adaptação perante novas situações. A cultura não é herdada biologicamente, não se transmite geneticamente, como sucede com as características somáticas, tem carácter orgânico e individual. Os tipos de comportamentos humanos são função de modelos culturais em vigor no grupo. A natureza humana é um produto da cultura em que vive. São os valores, símbolos, interpretações e perspectivas que distinguem um povo de outro nas sociedades modernizadas e não os artefactos ou os objectos materiais.
g) As culturas são dinâmicas, complexas e mutáveis, contudo, nas escolas são
entendidas muitas vezes como estáticas, imutáveis e fragmentadas.
h) As culturas são sistemas — devem ser vistas como um todo e não como separadas
ou distintas em partes isoladas.