Quando se faz referência a outras culturas em contextos multiculturais, podem-se adoptar distintos tipos de atitudes, e é legítimo assinalar três que podem ser considerados como paradigmáticos.
Primeiro, o Etnocentrismo: Consiste em aproximar-se a outras culturas analisando-as desde a própria cultura, que aparece como medida de todas as demais culturas. Esta
categoria supõe a avaliação do próprio como uma categoria universal e a exclusão do estranho como subprodutos marginais, já superados pela própria história. Esta não é nem exclusiva nem prioritariamente um vício, é melhor um mecanismo por vezes subtil e outras inconvenientes de poder e como tal se utiliza frequentemente nos conflitos de interesses entre indivíduos, grupos e culturas.
O etnocentrismo tão pouco é exclusivamente uma tendência própria da cultura dominante. Como instrumento de poder funciona de forma exuberante dentro de cada cultura e de cada grupo humano para legitimar culturalmente, na maioria dos casos, o domínio dos mais poderosos e noutros para referendar e blindar as próprias posições (Pérez Gómez, 2004, p. 27).
Quando se estabelece a prioridade inquestionável das próprias representações, por ser o reflexo da superioridade cultural adquirida através do desenvolvimento histórico, dão-se por zangados, apriori, os problemas e questões que haveria de submeter a estudo e a discussão. O etnocentrismo, por sua vez, promove tanto a exclusão injusta e injustificada do estranho, como a cómoda conformidade com o próprio. Numa mesma tendência se unem dois dos aspectos mais dissolventes para o desenvolvimento do conhecimento, a certeza e a ignorância. A certeza inquestionável do próprio e a ignorância depreciativa do alheio.
Segundo o Relativismo cultural: Propõe o conhecimento e análise de outras culturas desde seus próprios valores culturais, estabelecendo ademais, a igualdade de todas as culturas. A esta atitude, em aparência respeitosa e tolerante com as outras culturas, a falta da busca do encontro entre culturas: “Eu te respeito, te compreendo, mas tu em tua casa e eu na minha” (Iglesias, 2001, p. 5). Os traços mais importantes desta atitude são a segregação ou separação (não há nenhum interesse em estabelecer contactos); o romantismo (visão deformada da realidade que faz exagerar os aspectos positivos de uma cultura, perdida de sentido crítico) e o conservadorismo (dado que é fundamental conservar as culturas).
Uma das contradições fundamentais do relativismo cultural consiste em que o respeito às culturas alheias e o reconhecimento do outro, chegam inevitavelmente a adquirir culturas que não reconhecem nem respeitam o outro. O relativismo limita o seu igualitarismo a respeitar as diferenças, mas esquece que estas diferenças podem ser a consequência da desigualdade.
(Sebreli, 2000, p. 29).
Sendo assim, para este autor, a crítica ao relativismo não pode significar de modo algum as essências, o reconhecimento de uma forma convencional e natural própria do ser
humano, que pode tornar universal e internacional e, portanto, exportar-se desde a cultura hegemónica mais desenvolvida. No entanto, não pode significar nem a volta ao etnocentrismo nem a negação do relativismo como consciência da contingência histórica e social de toda a formação cultural.
Terceiro, o Interculturalismo: atitude que, partindo do respeito de outras culturas, supera as carências do relativismo cultural. Para o marco de Referência Europeu, é dotar os alunos de: (a) Capacidade de relacionar entre si e a cultura de origem e a cultura dos outros; (b) Sensibilidade cultural e a capacidade de identificar e utilizar uma variedade de estratégias para estabelecer contacto com pessoas de outras culturas; (c) Capacidade de cumprir o papel de intermediário cultural entre a cultura própria e a cultura dos outros e de abordar com eficácia os males entendidos interculturais e as situações conflituosas; (d) Capacidade de superar relações estereotipadas. Tendo em conta o delicado equilíbrio que configura a relação de autonomia e interdependência entre eles os três, sem necessidade de cair no extremo de afirmar o relativismo cultural absoluto, a indiferença ética do “tudo vale”, nem a identidade inquestionável das diferenças culturais, parece necessário reconhecer que a escola não pode transmitir nem trabalhar dentro de um único marco cultural, nem num único modelo de pensamento sobre a verdade, o bem e a beleza. Portanto, os professores e a própria instituição escolar encontram-se perante o desafio de construir outro marco intercultural maior e flexível que permita a integração de valores, ideias, tradições, costumes e aspirações que assumam a diversidade, a pluralidade, a reflexão crítica e a tolerância tanto como a exigência de colaborar a própria identidade individual e grupal.
De maneira geral, pode-se afirmar que nenhuma sociedade encontra-se afastada ou excluída da diversidade de necessidades, culturas, idiomas, credos, entre outros elementos, que conformam e constituem o mundo em que vivemos. De tal maneira, trabalhar para conviver equitativamente num mundo heterogéneo deve ser uma meta de toda a sociedade, incluindo fundamentalmente nesta tarefa os sistemas educativos para responderem às exigências dos desafios deste século. Neste contexto cada vez mais diversificado, resulta indispensável garantir uma interacção harmónica e uma vontade de conviver, pessoas e grupos, com identidades culturais ao mesmo tempo plural, variado e dinâmico. As políticas que favorecem a inclusão e a participação de todos os cidadãos garantem a coesão social, a vitalidade da sociedade civil e a paz. Definido
desta maneira, o pluralismo cultural constitui a resposta política ao facto da diversidade cultural, inseparável de um contexto democrático. O pluralismo cultural é propício aos intercâmbios culturais e ao desenvolvimento das capacidades criadoras que alimentam a vida pública (Sartori, 2001).
A multiculturalidade é um facto. O mundo é mesmo multicultural, pelo que a concepção da educação com função simplesmente assimilacionista não faz sentido neste novo milénio. Daí que assumir uma atitude intercultural responderia à interacção de culturas num contexto multicultural para alcançar níveis aceitáveis de convivência no respeito e aceitação dos outros. Dado que a ampla ambiguidade terminológica com respeito ao tema, para assumir uma posição de entendimento dos contextos educativos, caracterizados por diversas culturas e línguas no mesmo espaço de aprendizagem, analisando-se as definições de diferentes autores, entre eles as de Gil Jaurena (2007, p.15), que define a educação intercultural como:
um enfoque educativo holístico e inclusivo que, partindo do respeito e a avaliação da diversidade cultural, busca a reforma da escola como totalidade para incrementar a equidade educativa, superar o racismo/discriminação/ exclusão, favorecer a comunicação e competência interculturais, e apoiar a mudança social segundo princípios de justiça social (Jaurena, 2002, p. 15).
O multiculturalismo e a interculturalidade devem entender-se de acordo com González, (2003, p. 7) “como processos proactivos que no cenário da globalização e a postmodernidade exacerbam tanto o multiculturalismo (como realidade e como valor), como também as dificuldades para assumi-lo proactivamente”. Este mesmo autor entende por multiculturalismo proactivo: “(…) a força histórica positiva capaz de enriquecer o imaginário pluralista democrático; avançar para uma maior igualdade de oportunidades e ao mesmo tempo em direcção a um maior espaço para a afirmação da diferença”. Desde o ponto de vista pedagógico, o contexto multicultural tem que ser visto como o espaço educativo onde coincidem várias necessidades a satisfazer, diferentes dialectos e idiomas, valores, tradições, diferentes interpretações culturais, para todos compartilharem na busca por manter a singularidade de cada um e de garantir o entendimento sustentado pelo respeito para com os demais e seus valores.