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KAPITTEL 2: FATTIGDOM – BEGREPSAVKLARING OG ANALYTISK RAMMEVERK

2.1 H ISTORISK BLIKK PÅ FATTIGDOMSFORSKNING I N ORGE

Ainda que os resultados evidenciem de forma expressiva a eficiência dos sistemas de sinalização e a existência de uma interação entre usuário e meio, num local público, cabe ao indivíduo a escolha entre fazer uso ou não do auxílio de tais dispositivos. Sendo que a opção de rejeitar o auxílio do sistema de sinalização não implica em ficar impedido de usufruir dos serviços e conveniências disponíveis num ambiente público.

É a situação observada quando um indivíduo que vive em uma grande cidade se encontra num shopping center. De acordo com a perspectiva apresentada por Marc

Augé (2003) para a noção de não-lugares, um shopping se enquadra perfeitamente em

tal modelo e por esta abordagem supõe o estabelecimento de uma relação efêmera e imediata entre o indivíduo e o meio, apoiada no cumprimento de determinados fins. Apesar disso esta situação não se estende a qualquer indivíduo ou em qualquer

shopping.

Faz parte da experiência vivida em grandes cidades a realização de compras, refeições, lazer entre outros serviços em shopping centers. O próprio conceito de

shopping continua em processo de reformulação. Apesar disso, shopping centers são

bastante parecidos em termos de estrutura quando comparados numa mesma cidade ou entre países diferentes.

Paradoxalmente, uma experiência que deveria conduzir a uma tensão solitária, como a preconizada por Augé, acaba se revelando acolhedora na medida em que o indivíduo, considerado deslocado, pois encontra-se imerso num meio completamente alheio, tal qual numa visita a uma cidade, país ou espaço, que representem uma antítese da sua própria cultura, encontra num shopping, outrora tratado como não-

lugar, um ambiente extremamente familiar.

De fato esta situação hipotética pode ser observada em qualquer ambiente caracterizado como não-lugar, exatamente por conta da sua presença em vários locais, bem como a repetição sistemática de suas características. Ou seja, um shopping se

assemelha a um shopping onde quer que ele esteja, bem como um aeroporto se

parece com qualquer aeroporto, ainda por esta lógica pode-se mencionar um parque, uma rodovia, um cinema, uma praça, um restaurante ou lanchonete multinacionais, uma rede de lojas etc. Assim sendo, é confortável para esse sujeito “deslocado” a permanência nesses ambientes globalizados e globalizantes, já que ele compreende seu modo de funcionamento, compartilha seus códigos de linguagem e pode circular livremente, sem intermediários.

As identidades locais vão se reconfigurando para modelos mais abrangentes, reciprocamente entre os indivíduos e os espaços ocupados por eles. Stuart Hall (2005, pp. 12 e 13) reflete sobre a questão da identidade na contemporaneidade a partir do delineamento do perfil do sujeito pós-moderno. Este sujeito é concebido sem a construção de uma identidade fixa ou permanente, mas uma reformulada continuamente em relação às formas como se é representado pelos sistemas culturais vigentes.

A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente (HALL, 2005, p.13).

Este ponto de vista não se diferencia muito do assumido por Giddens (2002), já mencionado anteriormente, a saber: a identidade é resultado da elobaração de uma narrativa pessoal e assim define de forma cambiante o indivíduo em vários momentos da sua experiência de vida. No entanto, a adesão deste pressuposto, à relação estabelecida entre meio e indivíduo, é um tanto diferente. Anteriormente, neste estudo, a noção de identidade apresentada por Giddens (2002) reforçava o aspecto frágil da identidade dos não-lugares; uma vez que sendo um local de passagem, a relação transitória estabelecida entre meio e indivíduo não favorecia a apropriação de experiências relevantes para a elaboração da narrativa individual. Ao mesmo tempo, a presença do indivíduo no espaço era breve e efêmera, o que não levava à formulação da identidade do espaço a partir da ocupação e da transformação provocada pelos sujeitos.

Neste capítulo, a partir da perspectiva de Hall, a identidade do indivíduo é condicionada por um sistema de representações culturais, que interfere também na relação que o sujeito contemporâneo constrói com os lugares e espaços de domínio público.

Espaço e tempo são coordenadas básicas em qualquer sistema de representação cultural e para Hall (2005), a própria percepção de espaço-tempo é alterada pelos efeitos da globalização na noção das identidades individuais. Isto porque a “aceleração dos processos globais, leva à sensação de que o mundo é menor, as

distâncias mais curtas e que eventos em um determinado lugar têm impacto imediato sobre pessoas e lugares situados a uma grande distância”, Hall (2005, p. 69).

Ainda segundo o autor, quanto mais a vida social se torna mediada por um conjunto de referências globais em termos de estilos, imagens e ligares compartilhados pelos meios de comunicação com alcance global, mais as identidades se tornam desvinculadas de tempos, lugares e tradições históricas específicas.

Os fluxos culturais, entre as nações, e o consumismo global criam possibilidades de identidades partilhadas – como consumidores para os mesmos bens, clientes para os mesmos serviços, públicos para as mesmas mensagens e imagens – entre pessoas que estão distantes umas das outras no espaço e no tempo. À medida em que as culturas nacionais tornam-se expostas a influências externas, é difícil conservar as identidades culturais intactas ou impedir que elas se tornem enfraquecidas através do bombardeamento e da infiltração cultural (HALL, 2005, p. 74).

Por extensão do mesmo ponto de vista, Bhaha (1998, p. 298) enuncia a dificuldade de significar as “passagens intersticiais e os processos de diferença cultural que estão inscritos no entre-lugar, na dissolução temporal que tece o texto global”. Tais processos interculturais levam à formulação de um novo sujeito surgido no limiar das representações locais para o conjunto das estruturas sociais como um todo.

Em virtude dessas considerações pode-se observar que apesar do indivíduo que transita num ambiente público, como é o Aeroporto Internacional de Brasília, como são os não-lugares de maneira geral, declarar a importância e a eficiência dos sistemas de sinalização para o deslocamento interno, na prática o mesmo sujeito não é dependente de tais dispositivos, para a realização de suas atividades, porque este tipo de ambiente não é necessariamente estranho à sua própria experiência.

A premissa de que o não-lugar é um espaço desprovido de identidade e que por isso não favorecia a relação entre o meio e o indivíduo, é questionada porque o próprio conceito de identidade é colocado numa novo patamar. Para esta nova abordagem, os lugares públicos e padronizados globalmente são causa e efeito de um sistema de representação cultural mais abrangente que permite o acolhimento desse indivíduo que ostenta uma identidade cambiante, influenciada por referências interculturais.

Ambas as abordagens a respeito da identidade, tanto no âmbito individual como espacial, não são excludentes. Tão pouco há uma definição enquanto critério metodológico em assumir uma ou outra forma de refletir sobre o constructo. Na verdade, os dois vieses se aplicam de forma complementar para explicar o fenômeno da interação entre o usuário do espaço público e os mecanismos de comunicação do meio com tal sujeito. Ora lançado luz sobre a relevância da existência e da eficiência do sistema de sinalização na manutenção da ordem e do funcionamento da estrutura do ambiente; ora observando a rejeição e o caráter prescindível do próprio sistema de sinalização diante de um indivíduo que já está completamente doutrinado a usufruir dos serviços e conveniências disponíveis em tais lugares.