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KAPITTEL 6: FATTIGDOM OG MARGINALISERING

6.2 A RBEIDSMARGINALISERING

Conforme vimos no tópico anterior, o que hoje parece dominar o pensamento sobre os processos comunicativos, especialmente do ponto de vista da linguagem, tem raízes na trajetória dos estudos sobre comunicação que remetem a McLuhan, na década de 60, quando esse autor investigava as características dos meios de comunicação, especialmente a partir do advento da televisão e do que, para ele, instaurava a era da eletrônica, que seria seguida pelo computador. Interessado nas novas configurações da mensagem, McLuhan (1996) advertia para a combinação e reprocessamento de meios, que resultaria num ambiente no qual “o meio é a mensagem”.

Para esse autor, a famosa asserção significava que, na era da eletrônica (cuja televisão era o principal suporte) estaria se criando um ambiente totalmente novo, composto pelo conteúdo de ambientes anteriores mecanizados, da era industrial. Nas palavras de McLuhan (1996), “o novo ambiente reprocessa o velho tão radicalmente quanto a TV está reprocessando o cinema, pois o „conteúdo‟ da TV é o cinema”. Para esse autor, o híbrido seria um momento de revelação, do qual nasceria a forma nova.

Na atualidade, instrumentos como a televisão, o rádio, o telefone e o computador fazem parte integrante do nosso quotidiano e do nosso cenário urbano social, contribuindo para o desenvolvimento da civilização, para o nosso bem-estar e qualidade de vida, já que é deveras inibidor imaginar um futuro sem estes objetos tecnológicos. Embora seja verdade, Derrick de Kerckhove (1997, p. 31) afirma que “a melhor e mais útil tecnologia do mundo não pode impor-se a um público não preparado”.

Nessa perspectiva, podemos inferir que desde os primórdios da humanidade estamos dependentes das tecnologias, e hoje mais do que nunca isso se verifica, pois as tecnologias acompanham-nos desde sempre, demarcando suas presenças e assumindo-se como prolongamento da nossa corporeidade e identidade. As tecnologias são algo extremamente poderoso que, ao longo da história, têm tido efeitos profundos nas nossas vidas.

Assim, corroboramos com Pierre Lévy (1999, p. 22) ao afirmar que:

Desde o fogo de Prometeu26 que coze alimentos, endurece a argila, funde os metais, alimenta a máquina a vapor, corre nos cabos de alta tensão, arde nas centrais nucleares, explode nas armas e engenhos de destruição aos nossos dias, foi

26 A figura trágica e rebelde de Prometeu, símbolo da humanidade, constitui um dos mitos gregos mais presentes na cultura ocidental. Filho de Jápeto e Clímene – ou da nereida Ásia ou ainda de Têrmis, irmã de Cronos, segundo outras versões – Prometeu pertencia à estirpe dos Titãs, descendentes de Urano e Gaia e inimigos dos deuses olímpicos.

percorrido um longo caminho que passou pela descoberta de tecnologias como o fogo, a roda, a escrita, a imprensa, o telégrafo, o telefone e o computador.

Lévy (1999) defende que estamos assistindo, na entrada do novo milênio, ao nascimento da cibercultura, uma transformação radical nas culturas humanas, ocasionada por uma rede digital que conecta tudo a todos: o ciberespaço. Para esse autor, o ciberespaço é o ambiente de comunicação aberto para interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores.

Para entendermos melhor os conceitos de cibercultura e ciberespaço, vale recorrer a esse autor:

O ciberespaço (que também chamarei de “rede”) é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim, como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo “cibercultura”, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço (LÉVY, 1999, p. 17).

No ciberespaço é possível se construir uma espécie de inteligência coletiva, promovida por comunidades virtuais. Essas comunidades virtuais caracterizam-se pela conexão entre pessoas com interesses em comum, mesmo que esses sejam conflitantes e divergentes ideologicamente. Por meio de interações, cria-se a oportunidade de aprendizado e troca entre os membros. Rompem-se, portanto, as barreiras dos sistemas burocráticos, através da cooperação mútua dos participantes.

Nesse sentido, o conceito de comunidade virtual não difere da essência do termo “comunidade”. Sabe-se que o conhecimento é o insumo mais importante da economia capitalista. A partir dessa valorização, novas formas de adquirir e disseminar informação se tornam cada vez mais essenciais.

Por essa razão, corroboramos com Oliveira (2005) ao salientar que as experiências do fluxo, da instantaneidade e da simultaneidade fundem o tempo num constante culto ao presente. Na opinião desse autor, “o importante não é mais estar reunido, mas conectado.

Com base nesses argumentos podemos inferir que a Internet talvez seja uma das interfaces mais importantes para o acesso a uma Ouvidoria Pública como canal de comunicação, ainda que na comunicação mediada por computador, em ambientes virtuais como o de uma ouvidoria, o processo comunicativo dependa quase que exclusivamente de trocas textuais, subtraindo-se as possibilidades de uso de linguagens não-verbais, gestos, expressões faciais, olhares, tom de voz etc., mas são essas relações complexas que impulsionam o aumento da democracia participativa.

Para Scroferneker (2006), ouvidorias virtuais são compreendidas como canais comunicacionais que propiciam, quando geridas com efetividade, interlocução entre as organizações e seus segmentos de públicos. Na opinião da autora, a ouvidoria virtual também pode ser identificada por uma série de expressões, dentre as quais Fale Conosco, Contato e Ouvidoria, encontradas com facilidade nas homepages de sites e portais.

Feitas essas considerações, entendemos que tanto as comunidades virtuais como as ouvidorias públicas virtuais podem promover a disseminação da informação para grupos de pessoas que se enquadram em certo tipo de comportamento. Porém, para que haja a eficácia da disseminação da informação no contexto organizacional de uma ouvidoria, entendemos que o ouvidor precisa então atuar como gestor da comunicação, promovendo situações que possibilitem a participação ativa e crítica do cidadão na construção dos seus direitos de cidadania.

Isso significa que deve haver a necessária coparticipação dos sujeitos envolvidos no “diálogo” para o ato de compreender o significado da mensagem, uma vez que a linguagem escrita é carregada de intencionalidade, pois é a consciência e a intenção que orientam a escrita. Seu emprego exige uma ação mais abstrata e intelectualizada, e é um processo completamente diverso da fala, muito mais difícil e complexo.

Segundo Bakhtin (1997, p. 123):

O diálogo no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra diálogo num sentido mais amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja, por exemplo, um livro, que é uma das formas do ato da fala impresso, e que se constitui igualmente em um elemento da comunicação verbal. Ele é objeto das discussões ativas sob a forma de diálogo e, além disso, é feito para ser apreendido de maneira ativa e para ser estudado a fundo.

Além disso, salienta esse autor que o ato da fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as de outros autores; ele decorre, portanto, da situação particular de um problema científico ou de um estilo de produção literária. Assim, o discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura apoio etc. Nessa perspectiva, o diálogo, tanto exterior, na relação com o outro, como no interior da consciência, ou escrito, realiza-se na linguagem. Para Eduardo Duarte (2011), “a linguagem desponta, então, como o objeto cultural de percepção do outro. A linguagem torna- se o plano no qual a zona de encontro pode ser através diálogo”.

Notadamente, essa perspectiva dialógica da linguagem confere ao sujeito que ouve certa “autoridade” em relação ao sujeito que fala. Isto é, o autor engrandece o papel do ouvinte – daquele que recebe o enunciado – da sua leitura, permitindo-o intervir no processo comunicativo através de sua expressão oral, gestos, interesses, ideias e premissas culturais (BAKHTIN, 1997, p. 91).

Nesse sentido, entendemos que Bakhtin (1997) considera o diálogo como as relações que ocorrem entre interlocutores em uma ação histórica compartilhada socialmente, isto é, que se realiza em um tempo e local específicos, mas sempre mutável, devido às variações do contexto. Ademais, a linguagem em seu perfil sócio-ideológico gera um encontro psicológico tenso e inter (trans) subjetivo, em que a enunciação – verbo do sujeito e expressão do mundo – se destaca em relação àquele fundo de vozes concorrentes e contraditórias que conferem sentidos a uma determinada tradição histórica.

Por isso, em sua natureza histórica, esse dialogismo da linguagem está associado a uma relação de reciprocidade entre o falante e o ouvinte, que propicia meios para uma constante renovação da cadeia de significações e valores sociais de uma cultura. Movidos, de um lado, por afinidades de pontos de vista, intenções e desejos, e de outro, por divergências de valores e premissas, aqueles debatedores tornam-se protagonistas de seu entorno social (BAKHTIN, 1997, p. 84).

A partir dessas premissas podemos inferir que todo discurso é constituído ou permeado pelo discurso do outro, que não necessariamente seja igual, pois podem ser discursos contrários, conflituosos, portanto, polifônicos27, múltiplos. Isso significa que a apropriação do discurso do outro se dá na medida em que o sujeito recria, reinterpreta, reconstrói a ideia alheia, para torná-la própria e significativa. Daí que o contexto e os interagentes interferem e provocam mudanças nas formas das enunciações.

Nesse sentido, entendemos que o grande desafio da humanidade é se valer dos meios poderosos e eficazes que a tecnologia oferece para um fim socioeconômico, político e cultural, em que muitos possam ter acesso, pois conforme vimos ao longo do estudo, a tecnologia abre gigantescas possibilidades de transmissão de conhecimentos. A Internet está aí para mostrar isso. No entanto, por enquanto, ela revoluciona apenas a maneira com que se manuseiam, ou consomem, ou até manipulam as informações.

27 Segundo Bakthin (2002), o dialogismo não deve ser confundido com polifonia, porque aquele é o princípio dialógico constitutivo da linguagem, enquanto a polifonia se caracteriza por vozes polêmicas em um discurso. Para esse autor, o escritor russo Dostoievski é o criador do romance polifônico que apresenta contradições irremediavelmente contraditórias; não há superação dialética dos conflitos desenvolvidos na trama. Conclui Bakthin que o romance polifônico de Dostoievski não se resolve, não há síntese, não atinge uma apoteose.

Consoante com esse entendimento, vale citar a reflexão de Baudrillard (1997, p. 63): Tudo se move, tudo muda a olhos vistos, tudo se transforma, e, contudo nada muda. Uma sociedade desse tipo, lançada no progresso tecnológico, realiza todas as revoluções possíveis, mas não revoluções sobre si mesma. Sua produtividade crescente não leva a qualquer modificação estrutural.

Em suma, entendemos que a sociedade precisa descobrir formas de colocar esses meios de comunicação a serviço dos cidadãos, para que não se tornem eternamente instrumentos de poder e de dominação, mas um movimento de maior participação social, política e cultural.