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KAPITTEL 3: DATA OG METODE

3.1 D ATAMATERIALET OG UNDERSØKELSEN

No mundo contemporâneo, a teologia tem seu lugar na "ciência da comunicação". A teologia é uma disciplina. O termo foi criado pelos antigos filósofos gregos para designar aquela disciplina que busca o “fundamento último das coisas”. Usa metáforas para, por meio da linguagem sensível, indicar o invisível.

“Teos + logos” 59 significa “estudo de Deus”. Deus é efetivamente o objeto essencial e último da teologia. O homem só tem acesso ao conhecimento de Deus se for mediado pelas realidades temporais e usando sua razão.

A teologia, contudo, baseia-se na plausibilidade racional da fé, pois não deixamos de ser racionais quando amamos, quando nos comunicamos, nem quando cremos. A racionalidade humana não se reduz à racionalidade científica ou instrumental, mas também inclui a comunicativa. (ZILLES, 2010, p. 265).

Para Hohlfeldt (2012), foram os gregos (no século V a.C.) e os romanos (séc. I a.C. – séc. I d.C.) que mais contribuíram na relação entre comunicação e teologia. Os filósofos gregos foram os primeiros no Ocidente a refletir sobre a comunicação humana. No mito da Caverna (Livro VII de “a República”) Platão falava “da passagem da luz às trevas e das trevas à luz”. Algo idêntico aconteceria com a alma, passando através dos diferentes graus de conhecimento: o “mundo sensível” (graus do ser e do conhecimento: razão discursiva e razão intuitiva e ciência).

Platão é o primeiro grande pensador a refletir, com maior profundidade, sobre o processo comunicacional, como também a usar pela primeira vez o termo “teologia” no diálogo A República para referir-se à compreensão da natureza divina de forma racional e, na teologia, o cristianismo concebe-se a si próprio como uma religião de comunicação: um Deus que se comunica com os homens por meio do logos (palavra, verbo). Jesus Cristo seria o “logos” encarnado (Cfr. Jo. 1,1,ss). O conhecimento teológico (a teologia) parte de uma relação dialógica. No estudo da relação comunicação e teologia, é preciso fazer referência a uma das obras mais importantes em Teologia que marcou toda a Idade Média e ainda hoje continua

59 “Teos + logos” – . São palavras gregas que tomaram outro significado na teologia cristã. A incorporação do termo "teologia" pelo cristianismo teve lugar na Idade Média com o significado de conhecimento e saber cristão acerca de Deus. De acordo com a definição hegeliana, a teologia é o estudo das manifestações sociais de grupos em relação às divindades. Como toda área do conhecimento, possui então objetos de estudo definidos. Como não é possível estudar Deus diretamente, pois somente se pode estudar aquilo que se pode observar e se torna atual. O objeto da teologia seriam as representações sociais do divino nas diferentes culturas. A teologia pode referir-se a várias religiões. Existem, portanto, a teologia hindu, a teologia judaica, a teologia budista, a teologia islâmica, a teologia cristã (incluindo a teologia católica-romana, a teologia protestante, a teologia mórmon e outras), a teologia umbandista e outras. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia. Acesso em: 2 mar. 2014.

com sua atualidade. Trata-se da “Suma Teológica”60, de São Tomás de Aquino, utilizada nas universidades medievais europeias (Escolástica) entre os séculos XI a XV. Nela, Tomás de Aquino procura conciliar afécristã com um sistema de pensamento racional, especialmente o da filosofia grega. A Escolástica colocava uma forte ênfase na “dialética”61 para ampliar o conhecimento por inferência e resolver contradições.

A “Suma Teológica” é vista pelos filósofos como exemplo maior da escolástica para responder a questões da relação dialógica entre o homem e Deus, partindo da revelação de Deus ao homem. Para Barros (2013), no artigo sétimo da primeira questão da Suma Teológica, São Tomás de Aquino coloca Deus como sujeito da teologia. Ao perguntar se Deus é o sujeito da Teologia, a resposta é sim. A teologia, conforme indica a própria etimologia da palavra, pretende ser “um discurso sobre Deus”, e o sujeito dessa ciência é o próprio Deus.

Nos seus estudos sobre a Suma Teológica, Campos (2013) afirma Deus como sujeito da teologia, estruturada em duas “teologias”: a natural (elaborada pela razão); e a revelada (advinda do dogma). Na “natural” é a razão, partindo de suas próprias faculdades, que se eleva a Deus por meio das coisas criadas. Na “revelada”, é Deus mesmo que revela ao gênero humano certas verdades da “sua vida íntima” que excedem a razão natural e são, por isso mesmo, criadas e não demonstradas. “Tomás queria saber quem era Deus e queria comunicá- lo aos outros”.

Quanto ao objeto material, esses dois modos de conhecimento dizem respeito às coisas divinas, mas no objeto formal, existe uma diferença notável entre as duas ordens: no conhecimento natural sobre Deus, é o homem, por meio unicamente de suas faculdades naturais, quem chega a conhecer certas verdades acerca de Deus, e isso pode ser demonstrado; no conhecimento pela fé, é Deus quem propõe ao homem verdades que podem não ser passíveis de demonstração e, por isso, são cridas.

De acordo com Campos (2013), a esses dois modos de conhecer Deus correspondem duas ordens de verdades: uma que excede a capacidade da razão (exemplo: Deus Trino); outra

60 Suma Teológica – É a obra de São Tomás de Aquino, teólogo dominicano e santo da Igreja Católica. A obra é um corpo de doutrina que se constitui numa das bases da dogmática (dogma) e considerada uma das principais obras filosóficas da escolástica. Foi escrita entre os anos de 1265 e 1273. Nessa obra, Aquino trata da natureza de Deus, das questões morais e da natureza de Jesus. Encontra-se dividida em três partes, com 512 questões. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Suma_Teol%C3%B3gica. Acesso em: 13 Ago. 2013

61 Dialética - é um método de diálogo cujo foco é a contraposição e a contradição de ideias que levam a outras ideias e que tem sido um tema central nas filosofias ocidental e oriental desde os tempos antigos. A tradução literal de dialética significa "caminho entre as ideias”. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dial%C3%A9tica. Acesso em: 26 Nov. 2013.

que a própria razão pode provar (exemplo: existência de Deus). Dessas duas ordens de verdades procedem, por sua vez, duas teologias.

A essas duas formas de se conhecer Deus correspondem também duas formas de comunicação, duas formas de entrar em relação com Deus, mas é, sobretudo, a “revelação” que interessa de forma especial à teologia da comunicação. Segundo Díez (1997), a “revelação judaico-cristã”62 (manifestação de Deus a seu povo e comunicação de Deus com seu povo) refere-se não somente aos conteúdos revelados, mas também ao próprio fato e ato da revelação. Por isso, pode-se afirmar que a “revelação cristã” apresenta um “autêntico modelo de comunicação”. A revelação oferece uma “verdadeira pedagogia divina” (DV. Nº5).

A “teologia narrativa”, utilizada em certas regiões da América Latina e da África é o modelo que melhor se adapta à cultura contemporânea, porque centrada e orientada para a experiência humana da comunicação. É uma relação de acontecimentos e experiências históricas de salvação, compartilhadas na comunidade.

A teologia narrativa utiliza um modelo de comunicação mais de acordo com a cultura contemporânea. Ela é uma teologia com maior capacidade comunicativa. Como já demonstraram a Teologia da Libertação na América Latina, a teologia contextual na África (...) é uma teologia menos elitista e mais próxima à história ou às histórias do povo. (DÍEZ, 1997. p. 61).

A teologia narrativa passa pela análise e pela reflexão da experiência humana quando interpretada à luz da revelação. A teologia, para Campos (2013), é um discurso que perpassa a comunicação na perspectiva da fé e da revelação. Partindo de Deus, do sobrenatural, obedece melhor à ordem real: parte do que é anterior (Deus, “princípio e fim de todas as coisas”) para o que é posterior (as criaturas: seus efeitos). Se a filosofia se submetesse à teologia, estaria seguindo a ordem natural, mesmo não abdicando da sua lógica e seus próprios métodos. Em outras palavras, embora distintas, a teologia natural e a teologia revelada não entram em desacordo; elas se comunicam. Há uma comunicação dialógica. “A ciência do aluno preexiste na

62 A revelação judaico-cristã - A revelação no conteúdo da religião judaico-cristã não é um acontecimento, um livro ou um texto isolados, mas toda a trama histórica que os envolve, dando-lhes significado. Trata-se de uma "categoria", de um "processo", e não de um "conceito", pois a revelação judaico-cristã compreende uma série de elementos diversos, mas estreitamente ligados por um desígnio divino, que se vai revelando por etapas, acompanhando a evolução cultural da humanidade, desde os primórdios da Criação, passando pela história de Israel, alcançando a sua plenitude na Encarnação do Verbo, mas prosseguindo em sua explicitação pela Igreja, rumo à Escatologia, elementos esses que só são percebidos como "reveladores" mediante uma reflexão de tipo sapiencial sobre os acontecimentos humanos confrontados com uma Palavra de Deus. PIAZZA, Valdomiro O. A Revelação Cristã na Fenomenologia Religiosa. Revista Perspectiva Teológica. Vol. 11, nº 23. 1979.

ciência do mestre que o ensina”63. “Os princípios naturalmente evidentes foram infundidos no homem por Deus, porque Deus é o criador da natureza”.64

A Constituição Dei Verbum65, do Concílio Vaticano II, insiste no caráter pessoal da revelação. “Através da revelação divina, Deus quis manifestar-se a si mesmo e aos eternos decretos da sua vontade a respeito da salvação dos homens, para comunicar-lhes os bens divinos que superam totalmente a compreensão da inteligência humana” (DV. nº6). Por isso, a história da revelação pode ser definida como a história de um encontro e um diálogo progressivos entre Deus e o homem. A Bíblia demonstra um momento fundador de toda comunicação, que é a revelação do nome. Deus revelou seu nome a Moisés: “Javé” (=aquele que é) (Ex. 3, 14). “Esse é meu nome para sempre, e assim eu serei lembrado de geração em geração” (Ex, 3, 15). Não é revelação definitiva de Deus. É um nome que destaca a transcendência divina, mas que não faz de Deus um ser disponível ao homem. É um nome que permite a comunicação pessoal, dirigir-se a Deus pessoalmente, nomeá-lo de “geração em geração”. Entre Deus e o povo de Israel, estabeleceu-se uma relação de comunicação, de proteção e de propriedade.

O cristianismo concebe-se a si próprio como uma religião de comunicação: um Deus que se comunica com os homens, mas também um anúncio, uma “boa notícia” (Evangelho) que deve ser difundida, proclamada a toda a humanidade. O anúncio do nascimento do menino Jesus aos pastores começou com essa palavra: “Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova, que será alegria para todo o povo” (Lc 2,10). Ao terminar sua presença entre os homens, Jesus enviou os seus discípulos: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.” (Mc 16,15).

A mensagem, a “boa notícia” (Evangelho) e a comunicação fazem parte da essência do cristianismo. São Paulo (Paulo de Tarso)66 resume essa necessidade intrínseca na expressão “Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (I Cor. 9,16b). Nesse anúncio da boa nova

63 “Além disso, na ciência do mestre está contido o que ele infunde na alma do discípulo (...)”.AQUINO, Tomás de. Suma Contra os Gentios. Suma Teológica. I, VII, 3 (44). São Paulo: Loyola. 2001.

64 “Ora, o conhecimento dos princípios naturalmente evidentes é infundido em nós por Deus, pois Deus é o autor da natureza.” AQUINO, Tomás de. Suma Contra os Gentios. I, VII, 3 (44). São Paulo: Loyola. 2001.

65 Dei Verbum – Constituição Dogmática sobre a revelação divina. Documento completo disponível: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html. Acesso em 14 set. 2013.

66 Paulo de Tarso – Filho de família nobre que vivia na Ásia menor. Formou-se nas Faculdades Hebraicas. Viveu num contexto cultural helênico (Escola de Gamaliel e Alexandria). Depois de uma experiência mística, converteu-se ao “movimento Jesus de Nazaré”. Sua missão de anunciador do Evangelho se concretizou no mundo helênico e romano. Por isso, teve que traduzir seu anúncio evangélico em termos de símbolos e de mitos das “novas culturas” (pagãos). Por isso se diz que Paulo conseguiu articular uma nova teologia evangélica a partir dessas culturas. (Cfr. Fl. 3, 1-18). Também chamado de Apóstolo Paulo, Saulo de Tarso e São Paulo, foi um dos mais influentes escritores do cristianismo primitivo, cujas obras compõem parte significativa do Novo Testamento. A influência que exerceu no pensamento cristão, chamada de “paulinismo”, foi fundamental por causa do seu papel como proeminente apóstolo do Cristianismo durante a propagação inicial do Evangelho pelo Império Romano. Acesso disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_de_Tarso Acesso em 17 ago. 2013.

(evangelização) têm sido, ao longo da história, utilizados todos os meios, estruturas, estratégias, plataformas de comunicação: desde as “reuniões secretas das catacumbas” até aos púlpitos das catedrais; desde a linguagem mais popular (os evangelhos foram escritos num grego popular designado como koiné67 até à linguagem mais culta e erudita das universidades. O cristianismo fez tudo, utilizou todos os meios para que a mensagem fosse conhecida. São Paulo resume isso na citação da Bíblia que pode ser lida a seguir:

Embora livre de sujeição de qualquer pessoa, eu me fiz servo de todos para ganhar o maior número possível. Para os judeus fiz-me judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, fiz-me como se eu estivesse debaixo da lei, embora o não esteja, a fim de ganhar aqueles que estão debaixo da lei. Para os que não têm lei, fiz-me como se eu não tivesse lei, ainda que eu não esteja isento da lei de Deus - porquanto estou sob a lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm lei. Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos. (I Cor 9, 19 - 22).

O cristianismo não se limitou apenas a falar “todas as línguas” ou a usar todas as plataformas para a transmissão da mensagem, mas também se foi adaptando à linguagem e à cultura dos povos que recebiam a “boa nova”. Essa reflexão está embasada no documento Evangelii Nuntiandi (EN)68 nos Números: 29 a 31 no item III que trata do “Conteúdo da Evangelização”, insistindo na perspectiva de uma libertação integral, palavra já presente em Medellín (1968), em que se relatam a evangelização e a promoção humana – desenvolvimento, libertação – existem de fato laços profundos: laços de ordem antropológica, dado que a pessoa humana que há de ser evangelizada não é um ser abstrato, mas sim um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos; laços de ordem teológica, porque nunca se pode dissociar o plano da Criação do plano da Redenção já que um e outro abrangem as situações bem concretas da injustiça que há de ser combatida e da justiça a ser restaurada; laços daquela ordem eminentemente evangélica, ou seja, a ordem da caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo sem promover na justiça e na paz o verdadeiro e autêntico progresso humano? É impossível aceitar que a obra da evangelização possa ou deva negligenciar os problemas extremamente graves, agitados sobremaneira hoje em dia, pelo que se refere à justiça, à

67 Koiné - "koiné helenístico" ou "koiné grego", também conhecido como "o dialeto comum". É a forma popular do grego que emergiu na pós-antiguidade clássica (300 a.C.– 300 d.C.). O koiné foi o primeiro dialeto comum suprarregional na Grécia e chegou a servir como uma língua francesa no Mediterrâneo e no antigo. Foi também a língua original do Novo Testamento da Bíblia e da Septuaginta (tradução grega das escrituras judaicas). O koiné é o principal ancestral do grego moderno. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Koin%C3%A9 Acesso em: 18 ago. 2013.

68 Evangelii Nuntiandi (EN) – Documento de Exortação Apóstólica do Papa Paulo VI sobre a evangelização no mundo contemporâneo. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_exhortations/documents/hf_p- vi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi_po.html Acesso em: 30 abr. 2014.

libertação, ao desenvolvimento e à paz no mundo. Se isso porventura ocorresse, seria ignorar a doutrina do Evangelho sobre o amor para com o próximo que sofre ou se encontra em necessidade69.

Centenas de exemplos (com referências na Bíblia), de ontem e de hoje, podiam ser relatados, mas isso não é o objetivo desta dissertação. Não se pode, no entanto, esquecer o prólogo do Evangelho de São João, o mais conhecido e paradigmático: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.” (Jo 1, 1-3). Segundo “Notas da Bíblia” (2001), a palavra “Verbo” traduz aqui a palavra grega “logos” 70.São João está falando não para os judeus que não compreendem tal linguagem, mas para os pagãos ou cristãos oriundos do paganismo, majoritariamente de cultura helênica dominante durante vários séculos no mundo ocidental.

“Logos” era um conceito filosófico muito presente no tempo em que João escreveu.Um dos mais conhecidos representantes dessa corrente filosófica é Heráclito (535 a.C.), que considerava o logos como a razão dominadora do universo, tornando possível a ordem e a regularidade dos acontecimentos. Os estoicos, (301 a.C.), posteriores a Heráclito, afirmaram “que todo o universo é corpóreo e governado por um logos divino (noção que os estoicos tomam de Heráclito e desenvolvem). A alma está identificada com esse princípio divino, como parte de um todo ao qual pertence. O “logos” (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele; graças a ele o mundo é um kosmos (termo que em grego significa "harmonia") visto que o homem buscava intensamente a harmonia e a tranquilidade de vida.

Centenas de exemplos (com referências na Bíblia), de ontem e de hoje, podiam ser relatados, mas isso não é o objetivo desta dissertação. Não se pode, no entanto, esquecer o prólogo do Evangelho de São João, o mais conhecido e paradigmático: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.” (Jo 1, 1-3). Segundo “Notas da Bíblia” (2001), a palavra “Verbo” traduz aqui a palavra grega “logos”.São João está falando não para os judeus que não compreendem tal linguagem, mas para os pagãos ou cristãos oriundos do

69 PAULO VI, Evangelii Nuntiandi, Nº 31. Esta mesma intuição já estava presente em Medellín: “Assim como Israel, o antigo Povo, sentia a presença salvífica de Deus, quando da libertação do Egito, da passagem pelo Mar Vermelho e conquista da Terra Prometida, assim também nós, o Novo Povo de Deus, não podemos deixar de sentir seu passo que salva quando se dá o verdadeiro desenvolvimento, que é, para todos e cada um, a passagem de condições menos humanas a condições mais humanas’”. CELAM, Medellín, Introdução, no. 6.

paganismo, majoritariamente de cultura helênica dominante durante vários séculos no mundo ocidental.

“Logos” era um conceito filosófico muito presente no tempo em que João escreveu.Um dos mais conhecidos representantes dessa corrente filosófica é Heráclito (535 a.C.), que considerava o logos como a razão dominadora do universo, tornando possível a ordem e a regularidade dos acontecimentos. Os estoicos, (301 a.C.), posteriores a Heráclito, afirmaram “que todo o universo é corpóreo e governado por um logos divino (noção que os estoicos tomam de Heráclito e desenvolvem). A alma está identificada com esse princípio divino, como parte de um todo ao qual pertence. O “logos” (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele; graças a ele o mundo é um kosmos (termo que em grego significa "harmonia") visto que o homem buscava intensamente a harmonia e a tranquilidade de vida.

São João (evangelista) 71 vai “batizar” esse conceito e dizer que o “logos” é Jesus Cristo. É ele o princípio e a origem de tudo, mas pode-se afirmar que ele também é a palavra, a comunicação, a mídia de Deus com os homens. Separar ou retirar comunicação da teologia cristã é esvaziá-la de seu conteúdo e fonte. Para o cristianismo, a comunicação por excelência é aquela que Deus estabelece como homem por meio de Jesus Cristo, sendo ele o mediador por excelência. “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas” (Heb. 1,1-2).

Nesse sentido, a Teologia da Libertação é a versão atualizada daquela que foi a prática da Igreja nos seus primórdios. “É para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou. Ficai, portanto, firmes, e não vos submetais outra vez ao jugo da escravidão.” (Gl. 5, 1) disse São Paulo aos Gálatas. Livres da escravidão, do analfabetismo e do jugo do poder político, dirá a Teologia da Libertação em 1980.

71 São João – Autor do “Evangelho de São João” e do livro “Apocalipse”. Tradicionalmente é identificado São João Evangelista. Disponível:http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Jo%C3%A3o_Evangelista Acesso em: 16 set 2013.

CAPITULO 3 - A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO A PARTIR DA ÓTICA DA ANÁLISE