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In document Nye naboer, Nye grenser (sider 30-35)

De 2007 para 2008, o conteúdo dos relatórios não apresenta variações em relação às diretrizes e políticas institucionais, o que muda se refere a aspectos relativos ao ano que passou. Os materiais são muito bem cuidados, da escolha das imagens aos textos. Apesar de ser um instrumento de prestação de serviço, que pode ser lido por qualquer público interessado nas ações da Gerdau, seu leitor ideal é o acionista. O material apresenta a empresa, suas diretrizes e políticas, ações institucionais e balanços financeiros. Os textos são objetivos e oferecem ao acionista informações que dão credibilidade a organização.

O relatório de 2007 traz na capa fotos de pessoas com biótipos diferentes, mostrando a diversidade dos trabalhadores do grupo em todo o mundo. Com o título “Crescendo com Pessoas”, o relatório toma a qualificação e a capacitação dos “colaboradores” como tema central, a equipe como diferencial da empresa. Historicamente, em 2007, o grupo havia feito a transição de diretoria e iniciado a aquisição de novas unidades no exterior, como estratégia para alcançar o objetivo expresso em sua “Visão”: “ser uma empresa siderúrgica global, entre as mais rentáveis do setor” (GERDAU, 2009a).

Em 2008, o pano de fundo é a crise econômica mundial, que teve início no segundo semestre do ano e afetou diretamente segmentos consumidores da siderurgia. Nesse sentido, a Gerdau muda o léxico e passa a focar idéias de dinamismo, flexibilidade e adaptação, associadas a credibilidade, experiência e tradição. Na capa aparece a foto da sólida fachada do Shopping popular inaugurado em Brasília e construído com perfis da Gerdau, e o título “Dinamismo” já apresenta a resposta da empresa em relação ao contexto econômico global.

Os relatórios exploram gráficos e tabelas comparativas, organogramas e fluxogramas que auxiliam a leitura e a compreensão das informações, principalmente quando se trata de valores e percentuais relativos à produtividade. As fotos que acompanham os textos, quando de áreas externas, sempre enquadram o horizonte dando a sensação de amplitude, perspectiva,

e remetem a marca Gerdau, que tem em seu logotipo a cor azul. As demais fotos funcionam como reforço dos textos.

O relatório de 2008 reitera as mensagens de 2007, que já tratava das estratégias para abertura de mercados, que se dá pela capacitação de pessoas e aquisição de novos negócios. Mas esse relatório se distingue daquele por ter a missão de convencer o leitor de que a empresa, apesar de ser diretamente atingida pelas oscilações mercadológicas, é altamente lucrativa e em momentos de instabilidade e incerteza em relação a saúde das organizações, também para os investidores, a Gerdau demonstra ser a opção de retorno certo.

Nossa experiência centenária e capacidade de rápida adaptação às oscilações do mercado nos ajudaram a manter a competitividade das nossas operações, em um ambiente marcado pelas incertezas em relação ao futuro da economia mundial[...]Graças ao nosso sólido sistema de gestão e à flexibilidade do processo industrial de nossas usinas siderúrgicas, tivemos condições de realizar esse ajuste nos volumes de produção de forma rápida. [...] Com base na nossa experiência de atuação em momentos de crise, continuaremos monitorando o comportamento dos distintos mercados e ajustando nossas operações ao atual cenário econômico. Nossa experiência centenária e flexibilidade para adaptação rápida às oscilações do mercado nos dá confiança na capacidade da Organização em superar as dificuldades impostas pela crise econômica mundial (GERDAU, 2008a, p.3-5, grifos nossos).

Nas expressões em destaque há pares de sentido como experiência/dinamismo; solidez/flexibilidade; tradição/flexibilidade, que demonstram o paradoxo com que a organização lida no seu cotidiano. Conforme discutido no primeiro capítulo, trata-se de uma empresa tansterritorial que deve ser flexível e dinâmica, estar atenta às mudanças ambientais, antecipando oportunidades e ameaças para manter-se globalmente competitiva. Dessa maneira, não se prende a questões territoriais, pois toma como premissa diretrizes universais que estão acima de práticas locais. Todavia, a empresa também deve ser sólida e tradicional e, apesar da oposição destas características, são estes traços que garantem sua capacidade de superar o momento instável. O emissor utiliza vocabulário que objetiva conquistar a confiança daqueles que não estão presos no espaço, os acionistas47. Nesse momento, é a

47 A crise econômica de 2008 foi gerada pela ação extraterritorial de investidores (especulação em bolsas

mundiais), que comprometidos com seus ganhos individuais, criaram um momento de instabilidade econômica global. Como trata Bauman (1999, p. 16), “a mobilidade adquirida por ‘pessoas que investem’ – aquelas com capital, com dinheiro necessário para investir – significa uma nova desconexão do poder face a obrigações, com efeito uma desconexão sem precedentes na sua radical incondicionalidade: obrigações com os empregados, mas também com os jovens e fracos, com as gerações futuras e com a auto-reprodução das condições gerais da vida; em suma, liberdade face ao dever de contribuir para a vida cotidiana e a perpetuação da comunidade. Surge uma nova assimetria entre natureza extraterritorial do poder e a contínua territorialidade da ‘vida como um todo’ – assimetria que o poder agora desarraigado, capaz de se mudar de repente ou sem aviso, é livre para explorar e abandonar as conseqüências dessa exploração”. A ação hiper móvel das “pessoas que investem” deixou as mazelas para os enraizados (as populações e os trabalhadores) que estão sujeitos as decisões de outrem – o Estado - e no cotidiano sofreram restrições para garantir os ganhos das corporações que ajustaram o quadro funcional com a justificativa da crise. Ou seja, o trabalhador, que efetivamente gera a riqueza, foi sacrificado diante a atual formula de enriquecimento virtual. E a crise foi justificativa para redução de salários e pessoal, apesar da manutenção do volume de produção. A Gerdau, por exemplo, teve crescimento de 2007 para 2008

história e a experiência, o que tem raízes e é sólido, que pode garantir o lucro e a

rentabilidade da empresa que aparece como vítima das políticas econômicas internacionais. Em momentos de incerteza, mesmo os desenraizados recuam para não perder (BAUMAN, 1999). Nesse sentido, o Relatório 2008 indica as medidas administrativas adotadas para a “adaptação” organizacional e, como trata da projeção de futuro da organização, os textos apontam os investimentos feitos para garantir seu progresso.

Os reflexos da crise, entretanto, foram sentidos em diferentes níveis, de acordo com o segmento de atuação e a região geográfica das nossas operações. Como consequência, antecipamos paradas para manutenção em distintos países e concedemos férias coletivas. Essas medidas buscaram, também, reduzir a necessidade de ajuste nos quadros funcionais das unidades, o que, infelizmente, em alguns casos, precisou ser feito. Ao longo do ano, realizamos investimentos importantes para o aumento da competitividade de nossas operações, assim como para sua expansão e atualização tecnológica. Também realizamos aquisições para assumir importantes posições de mercado (GERDAU, 2008a, p.4, grifos nossos).

É preciso salientar um elemento nesta passagem: a palavra demissão não aparece; é o termo ajuste que vem à tona, e eles ainda procuraram reduzir tais “ajustes”. Dito de outra maneira, competitividade se ganha com redução de mão de obra, aumento do ritmo de trabalho e incorporação tecnológica. As ações de “adaptação” à crise em todos os mercados foram feitas às custas do trabalhador – demissões, férias coletivas e redução de salário – e com a Gerdau não foi diferente. Desse modo, a atitude da empresa correu dentro do “natural”. O texto retórico faz um sutil jogo de linguagem. Não houve demissões, já que a corporação fez “ajustes nos quadros funcionais”. Ajustar, demitir são lexemas que promovem conotações diferentes para a ação da empresa. Demitir é uma palavra muito pejorativa, carregada de valores negativos que remetem a idéia de cortar, dar fim a uma situação, diminuir o crescimento. Ajustar por sua vez significa organizar, colocar em ordem, adaptar.

Na relação retórica-manipulação ajustar causa menos impacto ao leitor e maior aceitação (BACCEGA; CITELLI, 1987). A Gerdau explicita nos textos que sabe o que tem que ser feito para continuar a crescer: cortar gastos – que refletiu no trabalho – e investir em novas aquisições e tecnologia. Em outras palavras, ela reduz a mão de obra, aumenta o ritmo de trabalho e realiza incorporações tecnológicas. Apesar da incoerência entre demitir, reduzir e investir, no mundo corporativo estas ações são distintas e, por vislumbrarem objetivos a longo prazo, não se confrontam.

A necessidade de ajuste nos quadros funcionais das unidades, o que, infelizmente, em alguns casos, precisou ser feito. Ao longo do ano, realizamos investimentos importantes para o aumento da competitividade de nossas operações, assim como para sua expansão e atualização tecnológica (GERDAU, 2008a, p.4).

batendo valores recordes de lucro. “Em 2008, a produção de aço bruto (placas, blocos e tarugos) das empresas Gerdau totalizou 19,6 milhões de toneladas, 9,4% superior à do ano de 2007” (GERDAU, 2008a, p. 58).

O relatório também constrói a imagem de que a empresa se organiza no seu cotidiano para ser competitiva. Tal imagem vai ser construída por meio dos discursos sobre o ambiente e a cultura organizacional, e suas práticas comunicativas de trocas de experiência tanto para os públicos internos quanto externos da organização.

In document Nye naboer, Nye grenser (sider 30-35)