A Gerdau participa de diversas ações na cidade em parceria com instituições públicas, privadas e não governamentais. Ao total são 51 projetos no município, divididos conforme as cinco linhas de investimento social da empresa: Qualidade na Educação; Educação e Empreendedorismo e Competitividade; Educação pela Cultura e Esporte; Educação Ambiental; Mobilização Solidária. Todos os funcionários acham importantes as ações da organização e acreditam que ela é uma instituição preocupada com a cidade e seus públicos. Percebem a articulação das práticas sociais e de meio ambiente, mas falam delas separadamente. Em relação às ações de responsabilidade ambiental, destacam o controle dos impactos negativos pela organização (ruído, reaproveitamento de água, controle da emissão do pó) que são relativos à maior parte da reclamação da vizinhança. Já sobre as ações de responsabilidade social, destacam as ações de voluntariado, de apoio às escolas e aos bairros, bem como ao “Projeto Pescar”.
Diante da quantidade de projetos e atividades de controle dos impactos negativos, necessários para as certificações ISO 14000 e 14001, que são pré-requisito para a exportação e para o mercado de investimentos, os trabalhadores minimizam os impactos causados pela produção, como pode ser observado nos relatos.
A área de siderurgia não tem como não agredir o meio ambiente, não tem como. Infelizmente, eu não conheço, entendeu, ela pode gastar o dinheiro que for, ainda tem alguns probleminhas. Ela não tem, como se diz, ela não tem como enclausurar 100% de situação, não tem. A área metalúrgica é uma área muito agressiva, em qualquer lugar do mundo é assim. Não é só a Gerdau, não é só a Belgo, não é só. Então, quer dizer, em todo lugar do mundo o ambiente metalúrgico ele é agressivo. Mas ela tenta fazer de tudo, tá, de tudo, para que a sua comunidade vizinha não se torne tão agressiva assim para eles, tá. E vai gastando dinheiro e gasta, e gasta muito, investe muito tá, em meio ambiente, em... Isso tudo, como se diz, tudo que é bom, mas abolir esse troço. Eu acho que a dificuldade hoje da Gerdau é a localização dela que é central. Sabe, o quê pega é isso (Líder, 2009).
Então, quem está lá dentro, quem acompanha, quem vive a empresa não enxerga como alguém que não vive a empresa, é de outro segmento, é de outra parte e vê como, as vezes, empecilho, como uma poeira, como alguma coisa, vê um barulho, só se sente incomodado. Não está lá dentro, não sabe como é que é, com é que é uma empresa, como que funciona lá dentro. Muito mais fácil reclamar. Então, eles trabalham muito a reclamação do pessoal. Tanto é que o pessoal reclamava da
poeira, do barulho, do ruído, plantaram várias tipos de eucalipto, tamanhos diferentes, para montar o cinturão verde, entendeu. Compraram várias casas ao redor, que tinha muita gente perto, pavimentaram a rua que tinha, nas laterais circundando. Compraram terrenos para poder fazer o quê, diminuir a reclamação daqueles clientes. Eles ganharam, assim, valores que não esperavam pelo patrimônio. Ganharam, foi negociado, todo mundo viu vantagem na venda. E eles aumentaram o cinturão verde para quê? Ficar mais ali. Porque não tem como uma empresa não fazer ruído, num, num, não é que é poluir, mas gerar algum tipo de pequeno incômodo, alguma coisa. Então, eles trabalham lá dentro para diminuir poluição sonora, poluição ambiental, trabalham muito e é feito e é muito fiscalizado isso aí pela FEAM, pelo COPOM esse pessoal. E o pessoal da comunidade também eles ouvem, bastante, para diminuir o número de reclamações, isso é item de controle lá dentro, também. Eles trabalham muito isso, o índice de controle (Ex- Funcionário, 2009).
Os trabalhadores sabem que a empresa polui, mas contemporizam os impactos diante suas ações e controles, uma vez que, para eles, na siderurgia não há como não agredir. Eles saem na defesa da Gerdau. Na fala do Líder: [a Gerdau] “tenta fazer de tudo, tá, de tudo”, revela que, para ele, a empresa não é omissa em relação a sua responsabilidade junto a cidade, mas não há como controlar totalmente. Os trabalhadores sabem que a atividade siderúrgica é de alto impacto ambiental, mas que seu produto é necessário para a sociedade contemporânea. Eles também sabem que é a siderurgia a base econômica da região e, desse modo, é mister que a cidade negocie os impactos diante o produto fabricado pela organização e sua empregabilidade. Isso não quer dizer que a empresa está liberada para poluir, ao contrário, quer dizer que a empresa precisa controlar o máximo que for possível. Na visão dos trabalhadores isto é feito.
Ao serem inquiridos sobre a relação da Gerdau com a cidade os trabalhadores ressaltam as ações da empresa com ganhos sociais e econômicos para a cidade.
Apesar de muita gente falar que a Gerdau polui, e tudo mais, é, eu creio que já foi pior. Foi uma, é..., principalmente na antiga siderúrgica Pains. Isso aí no caso, por exemplo, hoje a Gerdau é a empresa que mais, é..., recolhe impostos da cidade. Se não for a maior é uma das maiores. Isso aí eu acho que é um ponto positivo para a cidade. Além de, igual, lá dentro da Gerdau hoje, provavelmente, ela deve estar com uns 1100 colaboradores lá dentro, incluindo próprios e terceiros. Então, só aí já é 1000 empregos a mais para a cidade. É... os próprios projetos sociais que é, que a Gerdau tem com a comunidade, eu vejo um lado bom também. E, e também em termos de economia né, os funcionários da Gerdau ganham re, para a região é relativamente bem e ajuda a estar movendo a economia da região. Essas aí são coisas boas (Novato, 2009).
Eles, o pessoal que mexe na área social divulga isso. Tem reuniões. Às vezes mesmo tem reclamações de vizinhos. Pessoal vai lá e explica e tal e eles tentam fazer o possível para melhorar. São isso aí tudo com comunicação. E outra, ela esta tentando fazer assim, se tem casa muito próxima ela tenta comprar para evitar que certas pessoas sejam prejudicadas, né. Então ela compra essa casa, num valor até acima, do mercado que é, simplesmente para ajudar a pessoa e por outro lado se ajudar (Líder, 2009).
Porque a Gerdau com seus colaboradores contribui com o FIA, que é uma lei e a Gerdau nos incentiva e faz a capacitação do nosso dinheiro do imposto de renda e repassa para o fundo e a gente gerencia isso. Então assim é a forma que a gente tem, então, poxa vida, hoje com exceção dos vizinhos que muitos deles não participam né
da vida comunitária com seu líder comunitário, as vezes eles não conseguem enxergar as nossas ações. Então ele vê o quê, “a Gerdau polui, a Gerdau faz barulho, a Gerdau faz isso”. E a gente também está aqui para ouvir isso. E a gente também, por exemplo, hoje de manhã, eu já fui hoje em seis residências. Porque tivemos a reclamação, a reclamação foi tratada, reuniu o comitê para tratar. No momento estava muito evidente o quê eles reclamaram e tinha procedimento, fomos lá, tomamos as ações, voltamos para saber se tinha melhorado, já tem uma semana. Aí o que a gente fez, “vamos voltar hoje para saber como é que correu essa semana”. Então, até nisso eu acredito, na minha avaliação agora pessoal tá, até nas reclamações eles sabem do nosso compromisso, da nossa seriedade que a gente não foge. A gente nunca vai negar que eles estão, que isso não é nosso. Estamos te ouvindo, a gente vai no local para ver, nos retomamos aqui, a gente avalia tudo para ver o quê que pode ter acontecido. E a gente volta e dá o retorno para eles (Assessora, 2009).
A empregabilidade em destaque na fala do Novato é, para ele, um fator muito importante para a cidade, pois afeta diretamente a vida de mil famílias e, indiretamente, a vida da cidade por meio da movimentação econômica. O papel da comunicação, do diálogo da empresa com a cidade, é destacado no relato do Líder e da Assessora. Criar canais de comunicação e esclarecimento geram afinidades entre a organização e as lideranças locais, minimizando conflitos, pois esclarece e soluciona os problemas da relação empresa-cidade. A Gerdau se comunica com os líderes de opinião para disseminar suas práticas e sua imagem. Espera-se, assim, que a população compreenda sua atuação no município e amenizem as reclamações. Por causa disso, os entrevistados, com exceção dos sindicalistas, se incomodam quando há reclamações da população em relação à empresa. Sobre este aspecto, a fala da Assessora chama a atenção. Ela toma como premissa que todo cidadão participa das discussões sobre o seu bairro, ou participa de algum movimento social. Para ela, aquele que não participa não é cidadão, pois não exercita sua cidadania. O não cidadão é o estereótipo daquele que reclama da Gerdau e o faz porque desconhece o papel social da empresa. Mas a empresa vai ouvi-lo assim mesmo e, se houver fundamento na reclamação, ela não faltará à sua responsabilidade. Para além da mensagem de compromisso da organização emitida pela Assessora, vê-se em sua fala que o vizinho inativo não merece crédito, já que ele é menor do que aqueles que participam das ações sociais da cidade e reclama porque há o hábito de reclamar.
Contudo, é importante destacar que, para além do incômodo em relação às reclamações e a manutenção do estigma de poluidora, a Assessora faz ver uma realidade local: a falta de ação política da população que enfraquece as ações de exercício da cidadania e de solidariedade.
Olha eu vou te dizer, Divinópolis não está preparado ainda para fazer a parte, onde eu faço parte. Né, você vai, você entendeu o que eu disse. Por exemplo, por quê que eu tenho que pintar a escola, se é papel do município pintar a escola. Por quê que eu preciso, trabalhar, fazer o mutirão nos sábados se não é meu dia de trabalho? Então
hoje, eu vou te dizer assim, numa escola que tem aí 120 pais e nos nossos mutirões do dia “D” que a gente faz, se a gente tiver a participação de dez, 15, é muito. Ainda é pouco, não se sente parte. E aquele que vai acredita. É o pai que está realmente preocupado com a educação do filho, com a melhoria do espaço em que ele está. Então, assim, é pequena ainda. Infelizmente tá. É espera pelo político, aí é melhor eu acreditar que o político vai me dar do quê eu fazer. Do que eu trabalhar, do que eu articular (Assessora, 2009).
O tipo de cidadania exercido hoje no país, de transferência de responsabilidade e enfraquecimento da ação política, faz com que as ações privadas de responsabilidade socioambiental se destaquem, pois são as empresas que conseguem com mais eficiência se organizar e unir esforços para resolver problemas públicos, sociais e até mesmo ambientais, quando são de seu interesse. Diante da imobilização social, a empresa aparece como única alternativa para as organizações públicas ou não-governamentais realizarem seus projetos. Não há problemas na parceria entre organizações públicas e privadas, ou não-governamentais e privadas, e da parte da empresa trata-se de excelente estratégia de construção de imagem e relacionamento com os públicos de interesse. O problema é que, diante a inação participativa, não aparece um contra-argumento à lógica do capital e o discurso mercadológico alcança instâncias de solidariedade que esvaziam o sentido coletivo de resistência, reforçando a lógica dominante.