A incorporação dos valores mercadológicos também aparece no entendimento sobre as práticas de responsabilidade socioambiental, havendo a naturalização da lógica individualista, por meio de uma ação “coletiva”. No início deste capítulo, viu-se que os sujeitos que atuam na siderurgia são trabalhadores de famílias economicamente desfavorecidas, que não tinham formação básica quando iniciaram sua carreira profissional e que por meio de sua atividade na empresa puderam mudar sua condição econômico-social. Estes indivíduos se fizeram pela conformação à realidade do mundo do trabalho para garantir sua sobrevivência e resistir.
Nas entrevistas, observa-se que o que é narrado sobre as ações socioambientais coincide com os valores e a proposta ideológica da organização em relação às práticas de produção do trabalho. Nesse sentido, observa-se que as ações socioambientais reforçam, alimentam e são exaradas pelas demais práticas comunicativas da empresa. Por um lado,
80 Ver entrevista em no Apêndice II.
como resultado da excelência da empresa na organização de seus fluxos comunicativos, os discursos da Gerdau são homogêneos, independente do público a que se destina. Por outro lado, os valores que regem o capital, a lógica do lucro, ultrapassam os muros da empresa e hibridizam com valores de cidadania e solidariedade por meio das ações de responsabilidade social e ambiental da organização e de seus discursos.
Todos os funcionários da empresa falam da importância das ações sociais da Gerdau na cidade que “ensina a pescar e não dá o peixe”. Em outras palavras, para eles, ela oferece condições e “incentiva” todos a melhorar, seja funcionário ou a “comunidade”. A partir desta ajuda, só não avança na vida quem não quer. Isso pôde ser visto em relação às práticas de capacitação e formação superior, e reaparecem nos relatos sobre as práticas voltadas para a cidade e para a realidade ambiental da organização.
Isso chamaria de, (...), sustentabilidade né. Essas pessoas mais a frente não ficar dependentes de outros, né. Mas com os conhecimentos adquiridos poder se auto, ir para frente aí, né. (...) É igual eles fala, “pescar o peixe e dar o peixe”, é ensinar a pescar. Essa aí é a função da Gerdau, a função e a intenção da Gerdau dentro da comunidade onde ela está inserida (Novato, 2009).
Eu sou suspeito para falar né, mas pode ser algo difícil de acreditar. É, Gerdau ela tem, ela tem um trabalho muito grande, muito forte, direcionado ao social. (...) Então ela tem todo um trabalho de ajuda a creches, a escolas da região. Ela tem, ela tem um programa, onde ela foi na comunidade selecionou, parece que 32 adolescentes em parceria com algumas entidades da cidade. Essas pessoas ficam lá dentro, vão ficar lá um ano, já estão lá há meses. Elas vão no horário do almoço, elas almoçam lá dentro, receberam todo o material e elas ficam lá dentro da empresa, numa sala, recebendo toda uma capacitação, reforço escolar. Às vezes as pessoas da empresa mesmo, os engenheiros, os facilitadores, vão lá ministrar algum treinamento para essas pessoas. Ou seja, essa pessoas vão ficar lá durante um ano, esses adolescentes, vão ficar lá um ano sendo capacitados. Eles vão sair de lá já direcionados para empregos na cidade, aí, em parceria com essas, ACID82, essas entidades aí. Então, é, chama aí “Projeto Pescar”. Então, é, ou seja, “Projeto Pescar”, ensina a pescar não dá o peixe, né. Está capacitando essas... E são jovens pré-selecionados conforme renda familiar mesmo. A gente vê que são pessoas carentes, que são selecionadas para participar disso (Chefe, 2009).
Os trabalhadores tomam para si a lição sobre o “ensinar a pescar” e esta lógica norteia suas ações e posição no dia-a-dia, tanto nas relações cotidianas na empresa como fora dela.
Antes de prosseguir com a análise, é importante ressaltar que o “Projeto Pescar”, que aparece no relato dos trabalhadores como valor fundante da cultura da Gerdau, foi na verdade concebido pela “Fundação Projeto Pescar”, organização não-governamental, sem fins lucrativos, que tem sede em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul e núcleos avançados de trabalho pelo país, inclusive em Minas Gerais. O projeto tem como foco, desde 1995, difundir o modelo de Franquia Social e objetiva, conforme informações do site da Fundação, “sensibilizar e envolver organizações no resgate da cidadania e na preparação de adolescentes
em vulnerabilidade social por meio do exercício de uma profissão, promovendo assim sua inclusão social” (QUEM..., 2009). Para tal, as empresas abrem espaço em suas dependências para a formação profissional e pessoal de jovens selecionados em oito áreas: indústria, comércio, comunicação, construção civil, gestão, informática, turismo e hospitalidade e imagem pessoal. Após o período de 8 a 11 meses de qualificação profissional e a formatura na Unidade Pescar, estes jovens são encaminhados para o mercado de trabalho. A Gerdau, que é uma das mantenedoras da Fundação, firmou parceria com a Associação Comercial de Divinópolis para encaminhar os jovens locais ao mercado de trabalho.
Com base nas informações sobre o Projeto e diante a fala dos entrevistados, destaca-se o foco na população de baixa renda e no estigma de inclusão dos jovens em “situação de risco”. Sem desmerecer o Projeto, e diante da realidade contemporânea de capacitação e especialização cobrados pelas empresas, é importante criar condições de capacitação e acesso às ferramentas para a geração de conhecimento principalmente daqueles que têm menor acesso aos meios que podem ajudá-los a mudar sua condição de vida. No entanto, a proposta de inclusão do Projeto é carregada da ideologia do mercado, a começar pela idéia de “franquia social”, termo comercial adaptado para as práticas de solidariedade. Além disso, quando a organização se apropria dessa prática e dissemina no seu ambiente de trabalho a importância de “ensinar a pescar”, a partir de seus interesses mercadológicos, há um reforço da crença no
self made man.
Os entrevistados reiteram o discurso que os oprime e faz com que sejam mais flexíveis e polivalentes sem ter consciência desta ação. Reforçam a lógica do processo de produção capitalista que dissemina a idéia de que as condições para se competir são as mesmas para todos e que cada indivíduo pode se fazer por si mesmo, basta se esforçar. Nesse sentido, aqueles que estão dispostos a se preparar, que são atentos às mudanças ambientais e que fazem sacrifícios, são premiados com o sucesso. Só não alcançam o sucesso os que não querem ou não se preparam para isso e, por esse motivo, não merecem a recompensa. Desse modo, a lógica opressora e desigual da competição torna-se um processo natural, em que os mais fortes vencerão os mais fracos, porque isso depende da capacidade de cada um. Nesse discurso não há a problematização sobre a diferença das condições para a disputa no mercado, ao contrário, a responsabilidade de um sistema desigual é transferida para o indivíduo. E os trabalhadores, ao valorizarem a prática do “ensinar a pescar” a partir da matriz mercadológica, não percebem que alimentam o status quo e a realidade que os desumaniza.
Com base nesta análise, percebe-se que o programa na Gerdau apesar de fomentar a prática de voluntariado, não reforça práticas de cidadania, como acreditam seus funcionários,
pois o valor central de sua prática é mercadológica e individualista – você se faz por si mesmo – e não de solidariedade. Além disso, as ações não preparam os sujeitos para a atuação cidadã autônoma, mas para serem trabalhadores com um tipo de atividade técnica que é valorizada pelo mercado e não quer dizer que valoriza o trabalhador.
Por fim, o “Ensinar a Pescar” se posiciona em relação às práticas sociais governamentais como o “Bolsa Família”83 que é vista pelos empresários e pelos grandes grupos midiáticos como “dar o peixe”, quando se trata de política pública de amparo às famílias em situação de pobreza. O Estado assume sua responsabilidade junto a famílias carentes para que elas garantam minimamente o direito de se alimentar e, a partir daí, pensar em perspectivas para o futuro, pois sem o atendimento às necessidades básicas, não há como criar condições de mudança da sua própria condição social. Pode-se questionar que o que está em jogo no Bolsa Família é o “ensinar a pescar”. E é verdade. Porém, a lógica que norteia as ações governamentais tem como matriz a polis, o público, a cidadania. Já a lógica que norteia uma empresa é privada, individual. Desse modo, se o Estado parte da premissa do público, as ações realizadas por empresas ou Estado objetivam resultados distintos. Entretanto, como se discutiu no primeiro capítulo e se discutirá adiante, se o Estado toma o mercado como regulador, perde-se o valor público que o diferencia e a lógica privada, individualista,passa a ser o valor comum. Dessa maneira, perde-se o sentido de solidariedade que tende a ser substituído por uma lógica centrada na formação de massa trabalhadora.