Os desafios sobre o mundo do trabalho foram relatados pelos funcionários em vários momentos das entrevistas. Mas, apesar disso, fez-se necessário questioná-los sobre os desafios da siderurgia em Divinópolis diante do cenário econômico global. E, para fins de análise, os relatos foram classificados em três tipos: desafios individuais; desafios coletivos e desafios para a unidade Gerdau na cidade.
Inicialmente tratar-se-á dos desafios coletivos, sendo importante perceber que cada um dos trabalhadores fala a partir do seu contexto histórico e de sua atividade. Mas todos ressaltam a precarização do trabalho e a necessidade de se garantir a integridade do trabalhador.
Primeiramente, atualmente é essa crise, né. Porque a mais afetada foi a, o ramo de siderúrgico né. Eu acho que o grande desafio no momento é esse. Porque tem empresas que estão mandando embora, tem empresas que, por exemplo, a Gerdau para não demitir ela, ela está dando o curso né. Igual, eu estou inserido nesse curso do SENAE por causa disso. Para não poder mandar ninguém embora, está tendo que fazer isso. Não só ela mas é toda grande empresa. Agora o grande desafio é poder manter os empregos do pai de família, hoje, atualmente. Não só aqui em Divinópolis mas eu acho que em toda a siderurgia do país, do mundo. Isso eu acho que é o grande desafio. E cada vez mais, dar condição para o funcionário trabalhar, né, numa área tão agressiva igual à siderúrgica. Isso eu acho que é um desafio (Novato, 2009).
O Novato fala da crise econômica, pois foi diretamente atingido por ela. Na época da entrevista, ele estava em curso no SENAI pelo Bolsa Qualificação. Mas para além do destaque dado à crise, ele também ressalta dois outros desafios. Um em relação a precarização do trabalho e a necessidade de se criar boas condições das atividades laborativas, que são relativas à segurança na atividade siderúrgica. O outro aspecto apontado é a preocupação com a empregabilidade e a vulnerabilidade das famílias dos trabalhadores.
O Líder também fala da crise econômica, mas ressalta que este é um problema cíclico e que o mais afetado é o trabalhador, pois as organizações que visam o lucro, não se preocupam com a estabilidade do trabalhador. Quando há alteração no mercado, quem paga o preço com as demissões e redução de salário é o funcionário da empresa. Mesmo a Gerdau fez demissões, reforçando sua lucratividade no mercado.
Hoje em termos de siderurgia, vamos falar de empresariado, vamos por aí. Hoje a siderurgia em Divinópolis, acho que não só em Divinópolis, vamos por aí em toda a região, eles costumam ganhar muito, tá. Eles acostumaram a ganhar 100%. Ou seja, ou eu ganho 100% ou eu fecho. Para o trabalhador isso é péssimo. Eu acho que, numa situação dessa que nós estamos vivendo hoje, com essa crise mundial aí, principalmente no setor siderúrgico atingiu muito, entende. Está havendo um sinal de melhora, a gente vê que eles estão fazendo filas para comprar carro né. Estão esperando até dois meses, então é um sinal de melhora. Na siderurgia em Divinópolis não é diferente, quer se ganhar muito e quando não se ganha muito fecha as portas. Para o trabalhador é triste. Porque hoje ele tem o seu feijão com arroz, por assim, bem aberto, feijão com arroz. Mas é melhor do que não ter. Porque o patrão quer ganhar muito e é verdade, isso aí não é de agora não, é de muitos anos. Toda crise que tem siderurgia fechou, mandou o pessoal embora. A guseira fechou, pessoal embora. Por quê? A matéria prima deles é quase toda exportada, que é o segmento que dá o aço, que é gusa, a maioria das siderúrgicas é essa. Então, está exportando, está exportando, está ganhando bem, está ganhando muito. O ano passado o que subiu isso aí menina, coisa escandalosa, então ganharam muito dinheiro, mas foi muito. Chegou esse ano veio essa crise, então tem crise. Não sequer barateia o preço para segurar o funcionário. Mas não quer, quer ganhar muito. Então, fecha-se as portas. Hoje a dificuldade da siderurgia em Divinópolis é essa. Não ter uma segurança para os seus trabalhadores. Mesmo a Gerdau sendo a empresa que é, que também ganhou muito o ano passado e não está deixando de ganhar esse ano, mas ganha mais pouco, tá. Não está ganhando igual, mas também não está deixando de ganhar. Talvez, uns poucos estão ganhando bem baixo, tá, até ela demitiu. Mas em vista de outras, ela, aqui no Brasil, ela foi uma das que atingiu mais pouco. Ouvi falar que lá fora foi mais gente (Líder, 2009).
É o desafio, eu diria que o desafio das siderúrgicas de Divinópolis não seja muito diferente do desafio da Gerdau Divinópolis. Basicamente se resume em custo, competitividade. Não tem outro caminho, porque a gente sabe aí em 2008, né, nesse bum que houve aí de consumo, o pessoal estava vendendo gusa a 800 dólares a tonelada, essas siderúrgicas, essas outras siderúrgicas, estavam vendendo, se não me engano, eu não estou muito por dentro, mas por alto, eu soube a 800 dólares, 900 dólares, uma tonelada. Hoje o mercado está pagando 200, 180. Então... E isso daí é gente nossa né. A situação das empresas de Divinópolis é um dente de serra, né. Essas empresas siderúrgicas em sua maioria, né. Roda pára, funciona pára, funciona pára. Ela não tem uma estabilidade. Então não é, eu acredito que o desafio dela, seja passar por todo esse processo de competitividade, começando do zero mesmo. Do básico, aliás. Que é a valorização do maior patrimônio que inegavelmente são as pessoas. Tem que criar esse ambiente, essa condição de prazer da pessoa, essa capacitação pra pessoa. Porque a pessoa tendo esse prazer, ela se sentindo dona do negócio é o ponto de partida para a empresa ela é, é, conseguir melhores resultados de produção, menor desperdício, menos perda e automaticamente, reduzir seus custos e também tecnologia. Não é, é muito difícil, pode ser que se consiga, mas aprimorar, sem aproveitar o avanço tecnológico também fica difícil de se conseguir uma estabilidade para se tornar competitivo. Para acabar com esse... quando o mercado está pagando bem eles funcionam, quando o mercado cai eles vão e desativam os fornos. Ela não consegue manter essa, um padrão né (Chefe, 2009).
Na entrevista com o Chefe é interessante observar que ele ignora a crise. É como se ela não o tivesse atingido e não o ameaçasse. Ele só reflete sobre a crise quando questionado
sobre os impactos que as questões econômicas globais causaram a unidade de Divinópolis – essa foi uma das últimas perguntas da entrevista. Seu relato parte de sua atividade cotidiana e de sua formação – administrador de empresas – , por causa disso, ele destaca que o desafio atual das organizações é manter a capacidade competitiva, que depende da produtividade e do custo da produção. Para tal, faz-se necessário planejamento por parte da empresa e, principalmente, a valorização do ser humano, para que o profissional se comprometa com seu trabalho. A partir do modelo Gerdau, ele destaca que é preciso promover um bom ambiente de trabalho para que o funcionário reduza perdas, custos e aumente o lucro da organização. Seu discurso é carregado dos valores do modelo toyotista com os quais dialoga por meio das práticas de gestão da organização, bem como de sua formação como gestor do capital.
Para a Assessora técnica os desafios de Divinópolis estão relacionados à prática cidadã, à formação e à capacitação dos representantes políticos e a questões ambientais, que pedem a intervenção do poder público.
Bom, se eu for falar assim do entendimento político né, eu acho que precisamos de políticos mais ... é... como que eu vou dizer...mais profissionalizados, né. Com mais conhecimento técnico do que simplesmente política. Vejo que as coisas têm mudado com relação, assim, aos nossos atuais, atuais políticos, assim, tem melhorado pela juventude também. A própria câmara quando você olha assim tem muitos jovens. A população também está mais consciente e cobra muito mais. Em Divinópolis eu acho que a questão do esgoto, do tratamento do esgoto é muito importante para a qualidade de vida. Eu acho que para mim seria o primordial para se pensar aí nos próximos, né, anos. A gente sabe que é um investimento caro. Mas uma cidade que não tem o tratamento de esgoto vai falar do resto? (...)Então no caso da separação da coleta seletiva, o quê é o mínimo, a gente fala muito aqui na Gerdau que a gente separa o nosso lixo todo, nosso lixo é doado. A gente tem tratamento de esgoto, tratamento da água, nossa água é toda recirculada. A Gerdau é a única empresa, até então, que eu saiba, que trata o esgoto que vai já limpinho para onde tem que ir. Então, se eu, só porque não tem coleta seletiva no município não faço a minha coleta em casa, como é que eu saio aí criticando um bando de político, um bando de empresa, se a gente também não tem a nossa contribuição (Assessora, 2009).
Em relação aos desafios individuais, toma-se como exemplar a fala do Novato, que fala de suas perspectivas de futuro no desenvolvimento da atividade siderúrgica, que oferece alto risco para o trabalhador.
Em uma siderúrgica em si já é muito dificultoso trabalhar, porque é um ambiente muito, muito, podemos dizer, agressivo, né: poeira, ruído. Aonde eu trabalho, principalmente, caloria muito grande. Essa em termos de profissão é uma das mais difíceis, né, de agüentar. Agora, o que eu vejo também, por exemplo, eu, individualmente, eu gostaria de subir muito lá dentro da Gerdau, só que eu vejo uma dificuldade nisso, porque é o seguinte, tem muitas pessoas lá hoje que estão fazendo o curso de engenharia de produção. Não só da produção, mas mecânica, civil, e eu acho que esse aí, esse fator, vai ser um grande, um grande empecilho para esse acontecimento. Só que é o seguinte, eu acho que ali, nem todos vão ficar. Porque ninguém vai querer ficar enfrentando essas dificuldades de siderurgia com um curso de engenharia, com o diploma de engenheiro na mão. Aí eu acho que e com certeza não vai ter oportunidade para todos, porque eu acho que são muitos que estão fazendo. Esse aí eu acho um ponto de dificuldade na minha carreira (Novato, 2009).
O Novato é engajado nas políticas da empresa. Diferentemente dos demais metalúrgicos entrevistados, é o único que já trabalhou em outra grande corporação, a Vale do Rio Doce. Ele sabe, assim como os demais, o que é necessário para alcançar o sucesso nestas corporações. Tem feito sua parte, nesse sentido, cumprindo com o pré-requisito básico que é a formação: faz os cursos de auto capacitação e estuda engenharia de produção para criar novas condições para si. Todavia, ele revela ter consciência de que não há garantias de que terá qualquer tipo de oportunidade na Gerdau, pois há concorrência entre os trabalhadores e poucas oportunidades. E ao dizer que “ninguém vai querer ficar enfrentando essas dificuldades de siderurgia com um curso de engenharia, com o diploma de engenheiro na mão”, ele revela que tem consciência do valor de seu “passe” no mercado de trabalho. Assim, o curso superior aparece para o entrevistado como ferramenta para seu crescimento pessoal, sua “autonomia”. Ele objetiva crescer na Gerdau e tenta criar condições para este crescimento, seja na empresa ou fora dela.
Já em relação aos desafios para a unidade Gerdau em Divinópolis, também aparece como problema a concorrência interna da corporação, como narra o Chefe.
Talvez, o maior desafio da unidade de Divinópolis eu diria que seja, basicamente, interno. Porque o nome no mercado ele é bem consolidado, ele tem muita força. Mas, porém, existe uma, entre aspas, uma disputa, porque o produto que é feito aqui é feito em outras unidades que também dão lucro. Então tem unidades maiores do que essa aqui. Então existe toda uma relação de custo benefício. Ou seja, existe, entra tudo comandado, tudo coordenado por São Paulo né, que é a sede. Que é onde se faz o PO, que a gente chama de planejamento operacional. Então, converge para o escritório em São Paulo esses pedidos e de acordo com o desempenho de cada unidade, a disponibilidade e a capacidade é que esses pedidos são direcionados. Então se uma unidade está lá com seus custos operacionais muito elevados, aqueles pedidos não vão para ela. Então, automaticamente, ela tem que trabalhar isso aí. E Divinópolis enfrenta uma dificuldade em relação a algumas unidades aqui do Sudeste, né, como Rio e São Paulo. Porque a maior usina mesmo em termos de volume é no Rio. É... e São Paulo também, é a segunda maior, que faz os produtos que tem aqui em Divinópolis. E essas duas empresas tem ali uma facilidade muito grande com relação a Porto. Então, Divinópolis tem esse custo a mais de deslocar o material de Divinópolis até Vitória, Rio, Santos. Então seu custo fica mais alto do que as outras nesse item. O que ela compensa de outra forma, porque essa unidade de Divinópolis é a número um do grupo em termos de custo. É a que tem o menor custo. Essa unidade é a unidade que tem o melhor desempenho, é a unidade que tem um número maior de atendimento a normas. Então Divinópolis é, é, os olhos, a menina dos olhos né, do grupo, é Divinópolis (Chefe, 2009).
Esta fala do Chefe desvela a realidade cotidiana da unidade em Divinópolis. Nela a empresa não parece tão feliz. Os funcionários competem entre si pela empregabilidade e as unidades competem pelo cliente Gerdau. Com a ajuda do mito de que a produção mineira é mais cara do que a dos Estados a beira mar, encarecendo o produto a ser exportando, os trabalhadores se vêem pressionados a serem mais criativos e engajados às diretrizes políticas da corporação para tornar a unidade mais lucrativa e garantir sua sustentabilidade. Apesar de a
permanência da empresa na cidade ser uma decisão mercadológica, com o mito do custo de produção, o trabalhador assume para si a responsabilidade pela continuidade da empresa na cidade. Ou seja, a unidade tem que ser lucrativa e isso depende do engajamento do trabalhador. E, segundo o Chefe, os trabalhadores locais respondem ao chamado da organização, alcançando índices de controle de qualidade que outras unidades não conseguem alcançar e, por causa disso, a unidade divinopolitana se tornou a “menina dos olhos do grupo”.