Como estratégia de construção de marca e legitimação junto à opinião pública, as organizações têm empreendido ações de responsabilidade social e ambiental para se mostrarem preocupadas com os lugares nos quais atuam. As corporações complexas, como a Gerdau, que objetivam mercados globais e/ou concorrem com empresas transterritoriais, são as que melhor utilizam esta estratégia – por causa dos objetivos organizacionais, dos impactos
85 A entrevista com a Moradora se deu após a crise econômica iniciada no final de 2008 e por isso ela
ressalta os impactos da ação da empresa no mundo do trabalho. De todos os entrevistados, ela foi a mais lúcida em relação aos problemas criados na relação da população com a Gerdau no município. Suas falas são curtas mas ricas em sabedoria e percepção dos temores contemporâneos.
ambientais negativos dos processos de produção e, também, por serem as que mais têm condições de realizar ações coordenadas que envolvam todos os públicos. Como visto anteriormente, apesar de a Gerdau ser uma empresa transterritorial com foco na construção de uma imagem global, ela precisa desenvolver vínculos locais fortes, porque é no território que sua imagem pública se sustenta: tanto no dia-a-dia, por meio do trabalho de seus funcionários, como no cotidiano da cidade, por causa dos impactos causados pelo processo de produção. Nessa medida, a gestão da comunicação com os públicos externos também é estratégica para que a corporação alcance seu objetivo: ser uma empresa siderúrgica global86. De acordo com as diretrizes de comunicação da empresa, que norteiam sua relação com os públicos de interesse (sociedade, comunidade, cliente, acionista e colaborador), em Divinópolis a organização realiza projetos, que focam jovens e crianças carentes, voltados para a qualidade na educação, o empreendedorismo, a cultura e o esporte, educação ambiental, mobilização social e fundo pró-infância87. Em relação à conduta da Pains, a empresa mudou completamente sua postura com a cidade. Com os metalúrgicos, as diretrizes e novas formas de produzir, processo que forjou um novo trabalhador local: polivalente, flexível e mais qualificado (CORIAT, 1994; ANTUNES, 2005; 2006). Com a população e outras organizações sociais, ela empreende ações de responsabilidade social, controle dos impactos ambientais, apoio a projetos locais e criação de canais de comunicação, principalmente com as lideranças, para mostrar-se responsável e aberta ao “diálogo”. Como é uma das empresas mais importantes da região, nos relatos é possível perceber como, no dia-a- dia, o novo modelo de gestão mudou a vida no entorno da organização.
Olha o bairro eu acompanho desde pequena. Desde que a Pains era uma empresa que tinha um número muito grande de trabalhadores, né, que a gente via subir e descer em três turnos. Tanto trabalhadores uniformizados, né. Essa mudança aí é muito grande, porque hoje não tem mais isso, né. Lá hoje trabalha com o mínimo de pessoas e em termos de poluição eu acho que com a Gerdau melhorou. Melhorou porque aqui, o pó, a gente apanhava o pó em pá. Com a pá. Hoje a gente tem poluição sim, não vou negar, nós temos poluição, porém é bem menor. Colocação de filtros, o sistema deles modernizou alguma coisa. Embora nós temos aqui na escola um coletor de amostra da poluição do ar e ainda saem, o filtro ainda sai muito... muito escuro, muito poluído, sabe. Então a poluição existe e o coletor está aqui para provar, mas já mudou bastante, em termos de...de fazer mal a saúde. Eu me lembro que era normal na escola criança com coriza constante, hoje eu já não vejo mais (Diretora, 2008).
86 Para mais informações sobre as metas e objetivos da Gerdau, consultar as análises feitas no terceiro capítulo. 87 Dos 48 projetos, onze são de assistência social; quatro culturais; quatro esportivos; três de capacitação para o
mercado de trabalho; seis de educação ambiental e meio ambiente; um voltado para a população que mora próxima aos altos fornos, três para capacitação de lideranças locais, sendo dois deles são para divulgação e prestação de contas da empresa para a “comunidade”; um voltado para o público interno; um de apoio a biblioteca pública; um para o fundo pró infância e treze voltados para a educação (GERDAU, 2008a).
Nossa Senhora, minha filha, a Pains não é aquela Pains mais não. Acabou. (...) Diminuiu muito né. Acabou aquele movimento. Apesar de que, deve que eles expandiram mais. Porque oh, eles estão indo até ali no outro bairro. Eles já vai comprando tudo aqui oh. A minha irmã mesmo já morou numa rua que já está dentro da Pains, sabe. Eles já estão lá no Interlagos (...). Eles lá vai abrangendo tudo. Parece que eles diminuíram os empregados mas eles melhoraram de situação. (...) Oh, não tinha restaurante, não tinha cantina. Já tem restaurante, já tem cantina, sabe. É tanto que aqueles bar ali no redorzinho não estão tendo quase nada (Moradora, 2009)88.
Eu trabalhei lá. Então você nota que teve um nível, a própria linguagem dos funcionários de hoje, é uma linguagem assim, até, erudita, você vê os funcionários. Antes, todo mundo era tachado de pião. Você não vê mais essa linguagem num fator de distinção social. Então você vê, por exemplo, que o próprio pessoal que está trabalhando na área de recursos humanos, que pede, inclusive, para você trabalhar em uma empresa como a Gerdau hoje, que já melhorou muito e melhorou lá na fonte, com um empregado mais bem preparado. Então eu acho que melhorou e melhorou muito. Tem muito tempo que eu não escuto este termo como, por exemplo, chão de fábrica, peão. Isso acabou. (...) A linguagem do chão de fábrica, né. Peão, isso acabou. Hoje você pode ver a própria simbologia dos uniformes, né. Então, por exemplo, mudou muita coisa, mudou muita coisa (Vereador, 2008)89.
As falas revelam a negociação local com a nova maneira de produzir da siderúrgica. Para a Moradora “a Pains não é aquela Pains mais não”. A fala é nostálgica, indicando que as novas formas de trabalho da Gerdau mudaram o ritmo e os fluxos do dia-a-dia da população. “Acabou aquele movimento”. Os moradores viram as ruas ficarem mais tranqüilas, sem o volume de pessoas nas trocas de turno90. A redução do número de trabalhadores interferiu diretamente no “movimento” local. Os impactos das transformações no aparelho produtivo da unidade atingiram indiretamente o comércio do entorno, “aqueles bar ali no redorzinho não estão tendo quase nada”. E diretamente as famílias que perderam postos de trabalho. Se antes a Pains era vista como empresa próspera devido ao número de funcionários, o mesmo critério não pode ser usado com a Gerdau. Porque apesar da redução dos postos de trabalho, a população sabe que a siderúrgica prosperou. “Parece que eles diminuíram os empregados mas eles melhoraram de situação”. Nessa medida, apesar dos impactos sociais negativos do novo modelo de gestão, a Gerdau se torna uma empresa modelo que deve ser seguida, como discute Antunes (2006):
No apogeu do taylorismo/fordismo a pujança de uma empresa mensurava-se pelo número de operários que nela exerciam sua atividade de trabalho, pode-se dizer que na era da acumulação flexível e da ‘empresa enxuta’ merecem destaque, e são citadas como exemplos a ser seguidos, aquelas empresas que dispõem de menor contingente de força de trabalho e que apesar disso têm maiores índices de produtividade (ANTUNES, 2006, p. 52).
88 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada com “Moradora”, no bairro Porto Velho, em 10 fev. 2009. 89 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada com “Vereador” de Divinópolis, morador do bairro Porto
Velho, realizada em 18 ago. 2008, no gabinete do vereador, durante campanha eleitoral de reeleição.
A população sabe que a empresa expandiu-se porque ruas desapareceram e áreas que antes eram habitadas foram cercadas por muros ou pelo cinturão verde de contensão. A infra- estrutura melhorou, pois “não tinha restaurante, não tinha cantina. Já tem restaurante, já tem cantina”, a siderúrgica “vai abrangendo tudo”, já alcançou outros bairros, o que significa que a produção aumentou. Nesse aspecto, a visão local é de que errada estava a prática da Pains, que não otimizava o processo de produção e isto podia ser visto nos impactos ambientais no seu entorno. A Gerdau, como empresa enxuta, resolveu o problema. O quintal das casas do entorno ficou mais limpo graças à atualização tecnológica, visto que “o sistema deles modernizou alguma coisa”. E os pés já não ficam mais “pretinhos”. A poluição deixou de ser vista, “a gente apanhava o pó em pá”. Hoje é preciso do coletor de amostras da poluição atmosférica para quantificar a poluição91. Apesar de ainda existir pó, a população avalia que houve ganhos para a qualidade de vida local, pois “já mudou bastante, em termos de...de fazer mal a saúde”. Como não pode mais ser visto e já não parece fazer mal à saúde, o problema com a poluição atmosférica perdeu sua relevância comparativamente ao temor ao desemprego e à violência urbana. Problemas gerados pela nova lógica de mercado que, no entanto, não foram relacionados à empresa pela maioria dos entrevistados, como será discutido adiante.
As falas mostram como é complexa a relação local com a grande empresa. Por um lado, o controle ambiental, a modernização dos processos, a qualificação do trabalhador92. Apesar de a lógica de exploração e alienação do trabalho se manter, para a população o novo operário informacional tem mais valor do que o operário braçal, que executa atividades repetitivas, porque “participa” mais da empresa e conhece melhor o processo de produção. A lógica da qualidade total força a empresa a controlar os impactos negativos no entorno e a garantir a integridade física do funcionário. Por outro lado, as mudanças administrativas geraram redução dos postos de trabalho, o aumento do desemprego, da concorrência local, da reserva de força de trabalho para o mercado e, consequentemente, o aumento da violência urbana e da desigualdade social. Mas, apesar da redução do número de trabalhadores, a cidade tem orgulho de ter uma empresa multinacional, porque a presença da corporação significa, materialmente, o aumento da movimentação da economia, arrecadação de impostos e, ainda assim, geração de empregos. Mais rica, a cidade atrai novos prestadores de serviço e melhora
91 O sistema de controle das partículas de poeira na cidade, geradas pelas siderúrgicas, foi implantado pelo
Ministério Público em parceria com o governo local, por meio de termos de ajustamento de conduta (TAC) com as siderúrgicas. A TAC objetiva reduzir a poluição atmosférica e garantir a qualidade do ar na cidade. Para mais informações conferir as entrevistas com o Promotor e o Secretário de meio ambiente.
a qualidade de vida da população em relação às dificuldades das áreas rurais. Simbolicamente, Divinópolis tem a oportunidade de se modernizar, se preparando para o futuro. Com a grande empresa, a população tem a chance de criar raízes urbanas e afastar-se da cultura rural, usufruindo das beneficies que o progresso trouxe para a vida do ser humano (CASTELLS, 1999). Apesar dos impactos para os trabalhadores, a chegada da Gerdau ao município é vista como sinal de prosperidade para a população, porque não há por parte do governo local articulação de vontades para se criar opções produtivas para o desenvolvimento da cidade.
A rigor, as iniciativas no desenvolvimento de arranjos produtivos, que tornem o município mais competitivo, se limitam quase às associações patronais. No entanto, essas iniciativas, que não têm como organizador o governo municipal, não buscam mobilizar a sociedade local como um todo, mas apenas convencer o empresariado de que é necessário unir vontades para manter-se no mercado. Como o objetivo do empresariado é defender seus interesses privados, por meio de arranjos produtivos que beneficiem suas próprias áreas de atuação, não há consenso em relação à vocação da cidade e a concorrência entre os empreendedores se prevalece sobre os interesses da cidade93. Além disso, como a iniciativa parte das associações patronais e não do governo local (que, em defesa dos interesses públicos nos arranjos produtivos, deveria privilegiar o trabalhador, que é quem efetivamente produz), sem a participação das demais organizações da sociedade civil, e tendo como centralidade a lógica da acumulação de capital, a exploração dos recursos naturais e humanos permanece vigorando.
Há na história da cidade casos de empresas que abandonaram o município porque não viram como lucrativa sua permanência. Em todos os casos houve grande comoção com a perda de empregos, arrecadação de impostos e movimentação da economia. No entanto, apesar de vivenciar o temor do desemprego, sempre que uma empresa deixa o município ou quando crises econômicas atingem o setor da siderurgia (como aconteceu no final do ano de 2008), que tem grande relevância para economia local, não há por parte da sociedade civil mobilização social para criar alternativas solidárias que permitam a classe-que-vive-do-
trabalho (ANTUNES, 2005) ter autonomia em relação à sua atividade. Ao contrário, o que se
vê é que o discurso do medo promove o conformismo da população, que conforme Heller (2004) , é
quando o indivíduo não aproveita as possibilidades individuais de movimento, objetivamente presentes na vida cotidiana de sua sociedade, caso em que as motivações de conformidade da vida cotidiana penetram nas formas não cotidianas
de atividade, sobretudo nas decisões morais e políticas, fazendo com que essas percam o seu caráter de decisões individuais (Heller, 2004, p. 46).
Assim, em vez de construir um planejamento estratégico participativo de desenvolvimento para a cidade frente aos desafios das transformações do mundo do trabalho, a população, resignada, sujeita-se a qualquer tipo de exploração, como meio de resistir a pobreza estrema (CHAUÍ, 1987). Por isso, em nome da modernização, a cidade negocia com os impactos da siderúrgica para alcançar “a recompensa prometida”94. No entanto, quanto mais a cidade corre para alcançá-la, mais ela se afasta da cidade como pode ser visto no diálogo entre a Moradora e sua irmã.
Moradora: Mas menina, e como a gente acha ruim sem esse pó preto, porque o povo tudo pára, sabe. Eu já prefiro o pó preto do que uma roupa ...
Irmã: Eu já falei né. Porque a gente fica com dó dos pais de família que precisam do emprego.
Moradora: É. Eu prefiro o pó preto.
Irmã: Nós preferimos o pó preto, mas eles têm emprego. Então é preferível eles terem o emprego e nós termos o pó preto (Moradora, 2009).
Tendo em vista que a lógica da qualidade total empreendida na unidade de Divinópolis diz respeito a otimização do processo de produção, e não a durabilidade do produto, objetivando “reduzir o tempo de vida útil dos produtos, visando aumentar a velocidade do circuito produtivo e desse modo ampliar a velocidade da produção de valores de troca” (ANTUNES, 2006, p. 50), a modernização da empresa cria um permanente estado de novidade, no qual o novo se basta em si mesmo. Dito de outra maneira, como discute Martin- Barbero (2000), o novo rompe com o ciclo da história, perdendo seu valor subversivo e sua potência de ruptura como transformação social e passa a ser o discurso de um sistema mercadológico que coopta os sujeitos para justificar o novo.
As mudanças estimuladas com a chegada da Gerdau se transformam na fabricação do presente, que coloca em risco a projeção de futuro que pareciam garantir. A Moradora mostra- se consciente do que está em jogo com a chegada da grande empresa, mas nas entrevistas percebe-se que a maioria dos entrevistados não tem a mesma visão. A pesquisa revela que dos entrevistados que conviveram com a Pains e que vivenciaram os impactos da redução dos postos de trabalho, apenas a Moradora trata o fenômeno das transformações no mundo do trabalho como problema. Os demais entrevistados tocam no assunto, mas estão conformados de que se trata de um processo de mudança natural. Todavia, frente à falta de responsabilidade
94 Freud (1997) discute sobre a revolta da natureza, segundo a qual o homem se engaja e controla a natureza para
alcançar a recompensa prometida pela civilização. No entanto, quanto mais domina a natureza mais longe ele fica da recompensa.
do empresariado local e, como ver-se-á adiante, a omissa atuação do poder público, a população negocia com a grande empresa para resistir a realidade local.