2. TEORÍA
2.1. La lengua; variedades internas y su relación con la identidad
Cada cultura desenvolve um modo próprio de fazer a Guerra. Geoffrey Parker (2005a:1-11) salienta os pilares fundamentais do modo ocidental de fazer a Guerra, como a superioridade tecnológica, disciplina, agressividade militar, transformação das práticas militares de acordo com as necessidades e o poder de financiar essas alterações.
Os sistemas de armas modernos enquadram-se na longa tradição ocidental de fazer a Guerra segundo uma forte tendência tecnológica, procurando por um lado contrariar a inferioridade numérica, ao mesmo tempo que saciam a crescente aversão por baixas em combate.6 A análise mais detalhada de uma dessas culturas, a americana, proporciona o enquadramento essencial para compreender a sedução política pelo emprego do Poder Aéreo e em particular pelos UAS. Nesse sentido, expõe também algumas continuidades e tendências, que podem ser exploradas por futuros adversários. Dos temas centrais destacam-se a procura do emprego decisivo do instrumento militar; a centralidade da tecnologia como solução para os problemas estratégicos; o crescente custo das operações militares; a aversão às baixas; e a tendência de empregar a Guerra como uma atividade autónoma.
A procura de batalhas decisivas, conjugando aproximações de manobra e poder de fogo com ênfase na tecnologia, tem sido a marca registada do modo americano de fazer a Guerra. Os padrões históricos, registados por Russell Weigley (1973:xxii), demonstram a preferência americana por estratégias de aniquilação, numa tentativa de dizimar o poderio militar adversário através de batalhas convencionais. Todavia, outros contestam esta preferência e avançam com o favoritismo histórico por estratégias de atrição (Linn, 2002). Refletindo sobre a tradição de combater em conflitos de baixa intensidade e insurgências, Max Boot (2003) amplia esta discussão, argumentando sobre um novo modo americano de fazer a Guerra. Um modo que evita os confrontos
5 O termo “espaço de batalha” procura capturar a mudança do campo de batalha tradicional (terrestre e
marítimo) para a junção de novos ambientes de conflito, incluindo o ar, espaço e ciberespaço.
6 Para uma análise histórica profunda sobre a essência do modo ocidental de fazer a Guerra ver “The
sangrentos e procura uma vitória rápida, com menos risco, através da velocidade, manobra, flexibilidade e surpresa. Dando como exemplo a invasão do Iraque, salienta a função da tecnologia de informação, precisão, poder de fogo, forças especiais, operações psicológicas e atuação conjunta. Steven Metz (2000:viii) confirma a importância da velocidade, conhecimento e precisão, na redução de baixas e resolução rápida dos conflitos. No entanto, regista também que nos anos recentes estas qualidades não têm sido suficientes para providenciar um rápido sucesso estratégico (Metz, 2005).
A procura de uma solução tecnológica para os desafios estratégicos está profundamente enraizada no modo americano de fazer a Guerra (Zinni, 2006:23). Em parte, porque o fascínio na tecnologia assume que ela irá ditar o carácter futuro da Guerra (Mattis et al., 2005:18). Thomas Mahnken (2006:12) confirma a vantagem tecnológica avassaladora americana sobre os seus competidores diretos. Esta supremacia é revelada de forma dominante na arena militar, desde a função decisiva na 2ª Guerra Mundial, passando por uma vantagem qualitativa sobre a União Soviética durante a Guerra Fria, e atingindo o seu clímax nas Guerras convencionais dos anos 90. A realidade é que a era pós-11 de setembro veio trazer um cheque em branco para os gastos da defesa, sem providenciar uma recapitalização substancial das capacidades militares oriundas da era Reagan, que ainda mantêm de forma geral a sua superioridade relativamente ao resto do mundo. A corrida aos armamentos dos anos 80 introduziu uma nova geração de sistemas de armas que continuam a manter a sua preeminência: o tanque M1, o veículo de combate Bradley, os helicópteros Apache e Blackhawk, os navios Burke ou as aeronaves F-15 e F-16 (Gates, 2011). Esta tendência foi reforçada nos conflitos recentes onde a letalidade crescente, a precisão e alcance global confirmaram as promessas da tecnologia.
Por outro lado, parece não existir correlação entre a sofisticação da tecnologia militar e a letalidade do conflito, já que alguns dos maiores genocídios do século XX, como os que ocorreram no Camboja nos anos 70 e em África nos anos 90, foram perpetrados com as armas mais rudimentares, como espingardas, catanas e machados (Ferguson, 2006:61). Na realidade, a supremacia tecnológica pode ter-se tornado uma desvantagem estratégica ao contribuir para criar a perceção de que as Guerras são limpas, seguras e aceitáveis (Peters, 2005:104).
É um facto incontestável que os avanços tecnológicos introduzem assimetrias no campo de batalha (Lambakis, 2005:106). A cavalaria acelerou a queda do império
romano. O arco e flecha desafiaram o domínio dos cavaleiros. O telégrafo e o caminho- de-ferro deram às forças da União uma vantagem assimétrica de comunicação e logística durante a Guerra Civil Americana. O avião transportou a Guerra para a terceira dimensão, e a arma nuclear selou o fim da 2ª Guerra Mundial. O mesmo se aplica para o domínio espacial e cibernético. Infelizmente, onde uns vêem vantagens, outros descobrem vulnerabilidades. Efetivamente, essas vantagens têm sido temporárias e rapidamente equalizadas, quer por novas tecnologias ou táticas de combate. Por exemplo, os chineses e turcos foram os primeiros a usar a pólvora, mas perderam esta revolução. Os franceses e ingleses foram os primeiros a usar os blindados e mais tarde viram-se ultrapassados pelos panzers alemães (Singer, 2009b). Um exemplo de adaptação tática adversária ocorreu no Vietname onde, para conseguir negar a supremacia tecnológica americana, o adversário transportou o campo de batalha para ambientes complexos, como zonas urbanas, a selva ou as montanhas, evitando confrontar o adversário de forma direta (Scales, 2005:41). A história repetiu-se em conflitos recentes, em que os adversários puderam explorar a tecnologia comercial sem quaisquer restrições.7 Armados com um computador, um modem, e um número de cartão de crédito roubado, estes novos adversários apenas estão limitados pela sua imaginação (Hammes, 2004:196). E essa imaginação é bastante prolixa, como se pode constatar pelo ataque às torres gémeas, ou pela adoção de táticas simples, mas destruidoras, de emprego de dispositivos explosivos improvisados (IED)8 no Iraque e Afeganistão. Em suma, tal como expressado por Colin Gray (2005a:20), esta sedução pela tecnologia expõe as tendências passadas, presentes e futuras do modo americano de fazer a Guerra.
Diretamente relacionada com as proezas tecnológicas está a argumentação de que o sucesso americano em combate se tem ficado a dever aos gastos massivos com a defesa (Ullman, 2005:94). Em virtude da ambição de dominar as competências em todo o espetro de conflito, em qualquer parte do globo, os EUA estão obrigados a investir e inovar de forma simultânea em diversas áreas (Boot, 2006:461). Esta ambição acarreta custos elevados. Quando procuramos encontrar os custos da Guerra teremos de
7 Thomas Hammes (2004:200) menciona algumas das vantagens dos adversários atuais dos EUA. A
natureza da organização militar, fortemente hierarquizada e burocrática, impõe várias restrições que não se aplicam a potenciais adversários. A rápida exploração de tecnologias e serviços de informação comercialmente disponíveis (telemóveis, web 2.0, imagens de satélite) permite que um adversário tecnologicamente inferior possa estabelecer o ritmo das operações.
considerar a sua real dimensão humana, económica, social e política, bem como ambiental. Nesse sentido, o custo humano da Guerra é sempre elevado. Se por um lado, o número de baixas americanas ou aliadas tem sido substancialmente reduzido ao longo dos inúmeros conflitos desde a 2ª Guerra Mundial, o mesmo não se poderá dizer das perdas estimadas dos adversários, nomeadamente a sua população civil.
Ao tentarmos apurar o custo económico de uma Guerra, é difícil encontrar um número consensual, tendo em consideração as variáveis contabilizadas. O valor apresentado oficialmente pela administração Obama de 1,3 triliões de dólares9 (Harrison, 2011:vi) gastos na última década com as Guerras no Iraque e Afeganistão contrastam com os 3,7 tUSD estimados por um estudo académico (Costs of War, 2011). Porém, estas ordens de grandeza são suficientes para mostrar a dimensão do problema. Por exemplo, apenas em gastos com ar-condicionado, são estimados 20 bUSD por ano no Afeganistão e Iraque (Linkins, 2011). Por outro lado, a mais recente incursão aérea dos EUA na Líbia foi avaliada em 1,1 bUSD (The Washington Post, 2011).
Numa análise do orçamento de defesa para 2012 (Harrison, 2011:v) é possível constatar que o crescimento, relativamente ao ano anterior, se situou em 3%, num total de 703 bUSD (incluindo 118 bUSD para gastos nas Guerras do Afeganistão e Iraque). Este orçamento foi o maior desde a 2ª Guerra Mundial, ultrapassando o pico de gastos da Guerra Fria (531 bUSD). No entanto, devido ao crescimento da economia, os gastos com a defesa americana estão, em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), no ponto mais baixo dos últimos 50 anos. No ano fiscal de 2011 atingiram 3,5% (4,5% se incluídas as despesas com as Guerras do Iraque e do Afeganistão). Para 2012, o esforço da despesa militar total atingiu os 4,7% do PIB, e cerca de 19% da despesa federal, mas foi ainda menor do que o realizado no período pós-2ª Guerra Mundial. Por exemplo, nos anos 60, durante o mandato do Presidente Eisenhower, os gastos da defesa consumiam mais de metade do orçamento federal e cerca de 9% do PIB (Gates, 2011).
Apesar do custo por sistema de armas ter aumentado exponencialmente, a promessa de aumento de eficiência com menores forças e equipamentos, torna a Guerra um instrumento político preferencial (Rosenthal, 2004:93). Contudo, a crescente competição por fundos, a espiral de custos referentes a novas capacidades, os atrasos no
9 Ao longo do estudo adotámos o sistema de numeração americano para apresentar valores monetários
(escala curta). Assim, doravante usamos os seguintes acrónimos: tUSD (triliões de dólares americanos); bUSD (biliões de dólares americanos); mUSD (milhões de dólares americanos).
desenvolvimento e substituição de sistemas antigos, assim como a obrigatoriedade de reduzir o défice federal, refletida numa proposta de redução nos próximos 12 anos de 400 bUSD nos gastos com a segurança (Harrison, 2011:vi), são fatores que colocam restrições adicionais ao orçamento de defesa, no sentido de reduzir o número de sistemas de armas produzidos ou pela aceitação de redução de capacidades operacionais. O acordo para reduzir o limite do défice americano prevê um corte no orçamento do Pentágono de 15%, cerca de 6 tUSD até 2021. Mesmo assim, os EUA continuam a despender mais de 40% dos gastos militares mundiais, mantendo uma supremacia considerável para qualquer combinação de rivais (Preble, 2011).10 Contudo, por maiores que sejam os custos financeiros associados à Guerra, parece verificar-se uma tendência de considerá-los aceitáveis na medida em que estes se traduzam num aumento de precisão, letalidade e baixas reduzidas.
Outro dos temas dominantes do modo americano de fazer a Guerra é a aversão às baixas, tanto amigas como colaterais. Existe uma dupla racional para esta postura. Em primeiro lugar, reflete a tendência das sociedades modernas, avessas ao risco, em que famílias mais reduzidas demonstram uma menor tolerância para perda dos seus jovens (Luttwak, 2007). Em segundo lugar, resulta da melhoria de precisão e letalidade do modo de combate, criando expetativas irrealistas de uma Guerra com zero baixas (Luttwak, 1995). Estas tendências fazem diminuir a probabilidade das sociedades desenvolvidas combaterem entre si, a não ser que estejam convencidas que a Guerra possa ser travada com menores forças e com baixas reduzidas. Para alguns, esta é uma fraqueza que merece ser explorada. Por exemplo, a intervenção americana na Somália em 1993, revelou uma aproximação cautelosa ao uso da força, dando a oportunidade aos adversários de explorarem a aversão americana a baixas, tendo o mesmo se repetido nos conflitos do Iraque e Afeganistão.
Todavia, deveremos colocar esta sensibilidade a baixas em contexto. Quando uma sociedade perceciona que interesses vitais estão em jogo, então a sua tolerância a baixas aumenta. O registo histórico de morte e destruição causadas pelo Poder Aéreo é confrontado com a sua relativa ineficácia em quebrar a vontade das nações. Pelo contrário, em certas ocasiões contribuiu mesmo para aumentar o sentimento de união
10 Os 10 países com maior orçamento militar em 2010 gastaram 75% do total mundial. Apenas os EUA
foram responsáveis por 43% (693 bUSD) dos gastos totais, ficando a China num distante segundo lugar com apenas 7% (119 bUSD) estimados (SIPRI 2011:9).
das populações atacadas. Assim se passou com Londres durante o Blitz, com os bombardeamentos sobre a Alemanha, a campanha incendiária sobre Tóquio, Coreia do Norte, Vietname, e mesmo com os ataques do 11 de setembro, em que a população americana se uniu sob a liderança de George Bush. Seguindo este raciocínio, poderemos questionar-nos por que motivo é que as pessoas das zonas rurais do Afeganistão e do Paquistão se comportarão de forma diferente quando sujeitas a uma campanha moderna de bombardeamento? No entanto, existe uma distinção crucial entre os exemplos apresentados. Enquanto no século XX as populações eram os alvos diretos do bombardeamento, em resultado de estratégias aéreas de punição, nos conflitos deste século e segundo o modo americano de fazer a Guerra, o sofrimento imposto sobre as populações resulta de danos colaterais, uma vez que existe uma preocupação extrema em efetuar ataques de precisão.
Apesar disso, a expetativa para uma vitória rápida e decisiva, se bem que irrealista, é uma imagem que os americanos desejam e exigem (Cordesman, 2004:vi). Nesse sentido, numa era de ciclos noticiosos cada vez mais instantâneos, associada a uma miopia estratégica dos regimes democráticos, cativos dos ciclos eleitorais, torna-se difícil liderar e justificar uma Guerra prolongada sem que exista um perigo iminente (Peters, 2006). Finalmente, vários autores concordam com o argumento de Antulio Echevarria (2004) de que o modo americano de fazer a Guerra reflete uma sugestiva aproximação militar que se concentra em ganhar batalhas em vez de guerras.11 Ao empregar o instrumento militar de forma desconexa de outros instrumentos de poder, reflete diferentes esferas de responsabilidade, uma para diplomacia e outra para combate (Echevarria, 2004:vi). Colin Gray (2006b) reforça esta tendência, sugerindo a necessidade de esforços adicionais no sentido de determinar as capacidades necessárias para transformar os sucessos de combate em resultados estratégicos favoráveis.
Perscrutando a história verificamos uma insistência em aplicar de forma universal os sucessos de várias batalhas, descurando o contexto e as lições aprendidas das derrotas. Esta síndrome intencional de esquecimento, tem revelado as fraquezas do modo americano de fazer a Guerra, em particular quando confrontado com métodos irregulares de combate. Esse foi o caso da Guerra do Vietname onde as lições aprendidas foram ignoradas e deliberadamente esquecidas. Segundo John Nagl
11 Para os argumentos que apoiam a tese de Echevarria ver Gray (2005c:34), Hoffman (2007:24), Record
(2002:205), embora o Exército americano estivesse consciente das deficiências da campanha de contrainsurgência (Counter-Insurgency - COIN), não conseguiu estabelecer um consenso sobre as lições do Vietname. Colin Gray (2005c) explica este comportamento pelo facto de que qualquer sociedade nunca conseguirá ter um bom desempenho em missões estratégicas profundamente desconhecidas e indesejadas. Também Jeffrey Record (2006:4-5) expressa esta frustração em Guerras limitadas, especialmente de COIN, que não colocam uma ameaça vital aos interesses nacionais americanos. Sempre que esses interesses vitais não estejam em risco, não existirá apoio público para despender “sangue e tesouro”.
A história demonstra também que as intervenções militares americanas têm uma tendência de se tornarem permanentes (Hebert, 2011:4). Mais de duas décadas após a primeira intervenção no Iraque, forças americanas ainda permanecem no território.12 Os combates no Afeganistão duram há mais de uma década. Simultaneamente, a USAF ainda ajuda a defender a Coreia do Sul, mais de 60 anos após o conflito na Península. Todavia, não podemos esquecer que na Guerra raramente se conseguem retornos elevados com um investimento reduzido. A obsessão do modo americano de fazer a Guerra em impor a vontade sobre os adversários, a uma distância segura e com sacrifícios limitados, não oferece os resultados esperados em todos os conflitos (Biddle, 2011). Este modus operandis constitui um Centro de Gravidade (CoG)13 americano que pode ser afetado por adversários, tecnologicamente menos evoluídos, mas que em contrapartida lutem por interesses vitais, como se pode constatar nos conflitos prolongados do Afeganistão e Iraque.
A perspetiva de um mundo sem Guerra é sustentada pelas promessas de que as inovações tecnológicas tornem o combate obsoleto (Millet, 2003). A questão fundamental não é quão tecnologicamente avançada é uma sociedade, mas antes do mais, o que faz com essas tecnologias. A letalidade, precisão e alcance global do modo americano de fazer a Guerra transfiguraram o carácter do combate moderno, permitindo que os EUA combatam com reduzidas baixas. Esta tendência criou uma assimetria militar que expressa a eficácia limitada do combate convencional contra o poder avassalador das forças militares americanas. E em nenhum outro domínio essa superioridade é mais avassaladora do que no Poder Aéreo.
12 Em 17 de dezembro de 2011, pelo primeiro dia em mais de 20 anos, a USAF não efetuou qualquer voo
no espaço aéreo iraquiano (Schwartz, 2012).