A trajetória da SNI, no Brasil, iniciou em 1932, quando um imigrante japonês
recebeu a Revista Seicho-No-Ie12 e a distribuiu para algumas pessoas. Em 1933,
Daijiro Matsuda, lavrador japonês, residente perto de Duartina, interior de São Paulo,
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A revista pode ter chegado com outros imigrantes japoneses e ter se disseminado no Brasil, timidamente, já que Kobe, a cidade das primeiras manifestações dessa doutrina, possui o maior porto do Japão e é o local de onde partiu o primeiro navio de imigrantes japoneses em 1908, assim, como os demais até os idos de 1941. A imigração de japoneses, para o Brasil, tem como marco oficial 18 de junho de 1908, quando o navio Kasato-maru aportou em Santos. No período de 33 anos, até 1941, cerca de 1.500 japoneses chegaram ao Brasil com o propósito de enriquecerem, rapidamente, para assim regressarem à terra natal. Cabe ressaltar, que esses imigrantes japoneses partiram de um Japão, cujo cenário político-religioso caracterizava-se pelo retorno do poder imperial, com o término do regime feudal e pela proclamação do Xintoísmo como religião do Estado e da Nação, pelo imperador Meiji, dessa forma, o budismo deixou de ter liberdade de ação sobre a sociedade. Nesse período, que compreende de 1904 a 1941, Osaki (1999) diz que os santuários e as celebrações de cultos eram de total responsabilidade do governo, o cristianismo era perseguido e a crise econômica se lastreava, por conta de embargos e gastos com guerras.
após a leitura do livro A Verdade da Vida (Seimei no Jissô), disse ter sido curado de disenteria amebiana. Ele e o irmão Miyoshi Matsuda entraram em contato com a SNI, do Japão, para obterem uma assinatura da revista. A partir de então, eles começaram a tratar das doenças de seus vizinhos e a disseminarem o movimento, atraindo japoneses da região.
Os originais das primeiras revistas que aportaram, no Brasil, eram em japonês. Com isso, a leitura feita, por esses primeiros imigrantes, não sofre com as interferências de uma tradução para outra língua, sem ter, portanto, as marcas locais e temporais da língua portuguesa.
Vale ressaltar que a primeira revista foi editada no Japão, em 1930, portanto a distância temporal entre o produzido e o publicado é pequena, de dois anos, o que nos faz pensar sobre uma concomitância de tempos entre o Brasil e o Japão, quanto à difusão dos ensinamentos de Taniguchi, pela SNI, nesses países.
Devido aos exemplares chegarem sem tradução e à difusão dos ensinamentos ser fruto de uma iniciativa individual desses primeiros irmãos japoneses, Albuquerque (1999) ressalta que, no início, os imigrantes japoneses eram o público principal e que não havia a supervisão da sede, no Japão. As regiões
de Gália e Duartina13 se tornaram o centro de difusão e os divulgadores que surgiam
interpretavam, livremente, os ensinamentos sem receber orientação da matriz. No entanto, as reuniões organizadas pelos pregadores retraem-se, durante a Segunda Guerra, e o contato com a doutrina restringe-se à leitura das revistas, pois ocorre um desligamento da sede nesse período. Não obstante, ocorre, nesse momento, a
formação de novos grupos de adeptos ao movimento14.
13 Os dois municípios de Gália e Duartina, respectivamente, tornaram-se unidades administrativas, em 1928 e
1930, eles juntos somam 10.000 habitantes. O reconhecimento público, dessas cidades, coincide com a ida de imigrantes japoneses para a região que, apesar de serem poucos, trabalhavam na produção de seda e no desenvolvimento da agricultura nessas cidades.
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Em relação ao Brasil, a SNI surge, em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. Dentre as diversas características do Estado brasileiro, salientamos aquelas que coibiram as práticas da difusão da doutrina japonesa, com a perseguição ao comunismo, no Brasil, principalmente, no campo, onde a política era latifundiária. Com a Segunda Guerra Mundial, os adeptos, ainda, enfrentavam dificuldades na chegada de novas revistas da SNI.
Por conseguinte, Osaki (1990, p.18), ao estudar o surgimento das religiões
japonesas no Brasil, lembra a existência de três momentos históricos15 que
mudaram a vida religiosa do povo japonês. Aqui, destacaremos o terceiro momento, marcado pela derrota do Japão, na Segunda Guerra Mundial (1938-1945) e pela divulgação da nova Constituição que decretou a liberdade de culto no país, bem como a separação entre religião e Estado e a oficialização das ‘novas religiões japonesas’. Dentre essas novas religiões que surgiram, no Brasil, Osaki (1990) destaca a Instituição Religiosa Perfect Liberty (PL), a Igreja Messiânica do Brasil, a Tenrikyo, a Sokagakkai, a Oomotokyo, a Sukyo Mahikari, no entanto, a SNI, por ser a pioneira, conseguiu o maior número de seguidores.
Esse momento de transformação, pelo qual o Japão passou, refletiu na organização da colônia japonesa que se estabelecia no Brasil, pois, após a Segunda Guerra, os imigrantes dividiram-se em dois partidos: os que aceitavam a derrota do Japão e os que consideravam o Japão invencível.
De acordo com Davis (1990), essa divisão provocou vários conflitos, com vítimas fatais, porém, com o término dessa situação, a maioria dos imigrantes preferiu permanecer no Brasil a voltar para o Japão e sofrer as consequências da Guerra. Esse, portanto, foi o momento ideal para as ‘novas religiões’ agirem em favor desses estrangeiros.
Os encontros são reiniciados, em 1946, e o centro das atividades da SNI é transferido para a cidade de São Paulo, devido o movimento migratório dos japoneses para a capital e o aumento de imigração de estrangeiros, em decorrência dos conflitos no Japão, no final da II Guerra Mundial.
14 No primeiro momento, século VII, houve a introdução e domínio do Budismo, no país, que resultou na fusão
xintô-budismo. O poder era militar e a figura do imperador não se destacava, trata-se do regime feudal que teve a duração de seis séculos. No segundo momento, de 1908 a 1941, houve o retorno do poder imperial com o término do regime feudal e a proclamação do Xintoísmo, como religião do Estado e da Nação pelo imperador Meiji e, assim, o Budismo deixou de ter liberdade de ação sobre a sociedade. Nessa época, os santuários e as celebrações de cultos eram de total responsabilidade do governo e o cristianismo era perseguido. No terceiro momento, o Xintoísmo deixou de ser a religião oficial, ocorrendo o ressurgimento das religiões, que eram oprimidas pelo governo imperial. O Cristianismo teve seu espaço conquistado e o Budismo pôde reabrir seus templos. Nesse cenário, da reforma Meiji, houve o surgimento de várias novas religiões japonesas – dito, anteriormente, sobre a oficialização de outras denominações, como a própria Seicho-No-Ie.
Nesse sentido, conforme Albuquerque (1999), em 1951, a matriz japonesa reconhece a sede brasileira e envia o representante, Katsumi Tokuhisa, para a unificação dos grupos existentes. Nesse período, é estabelecida a Sociedade Religiosa Seicho-No-Ie do Brasil, na cidade de São Paulo. As atividades começam a ser supervisionadas pela sede nipônica e esse intercâmbio aumenta. São habilitados 39 pregadores regionais e, após treinamento, Miyoshi Matsuda - irmão de Daijiro Matsuda, curado em 1933 - retorna do Japão com o título de “Pregador Residente”.
Diante desse aspecto, segundo Castilho (2006), em agosto de 1952, o governo brasileiro, ao reconhecer a SNI como sociedade religiosa, impulsiona a propagação dos ensinamentos da SNI aos não-descendentes de japoneses. Sobre isso, Albuquerque (1999, p.22) lembra que a instituição, até então, configurava-se no Brasil como uma religião voltada para o patrimônio étnico-cultural da comunidade nipônica e que, com sua oficialização no país, ela iniciou sua abertura para a sociedade brasileira.
No período, de 1950 a 1960, houve iniciativas de integração com a sociedade brasileira que enfatizavam o patriotismo com a intenção de preservar os valores na colônia japonesa. Em 1955, foi criada a Academia de Treinamento Espiritual, em Ibiúna, interior de São Paulo e a Associação de Moços (Seinen-Kai). Em 1956, realizou-se o primeiro Congresso Nacional da Associação das Senhoras (Shirohato- Kai) e, a partir de 1958, houve a preocupação de se traduzir as sutras e as revistas. Notamos que, nessa época, os preletores pregavam, ainda, em língua japonesa, os ensinamentos doutrinários sistematicamente.
Por conseguinte, Albuquerque (1999) observa que, a partir da década de 60, do século XX, a instituição empenhou-se em aumentar o número de adeptos e a diversificar suas atividades. Em virtude disso, houve um crescimento significativo no número de pessoas que se filiavam à SNI: de aproximadamente 8.500 adeptos, em 1961, para 15.630, em 1966. A maior parte deles é da classe média, mulheres e jovens, brasileiros e nisseis, sendo a maioria, ligados ao espiritismo kardecista e à
teosofia16. Devido a essa demanda, a instituição começou a organizar reuniões,
16
Teosofia se constitui na sabedoria presente nas grandes religiões, filosofias e nas principais ciências da humanidade. Pode ser encontrada, em maior ou menor grau, na origem dos variados sistemas de crenças ao longo da história (BLAVATSKY, 2004).
especialmente, para esse público e criou o Departamento de Divulgação em Português. Essas ações mostram que esses novos membros eram importantes para o movimento.
Nesse âmbito, Albuquerque (2001) e Castilho (2006), ao tratarem das formas usadas pela SNI, para ganhar espaço no Brasil, dizem que a instituição utilizou três estratégias em períodos distintos para alcançar seu objetivo. A primeira, de 1950 a 1960, em que se adotou uma postura nacionalista, durante e após a Segunda Guerra, no Brasil e no Japão, além disso, foi priorizado o alinhamento à situação política brasileira pós-1964: elogiando o governo militar e o apoiando, em suas publicações, como sendo fonte de estabilidade e ordem social – tal qual a doutrina fazia no Japão. Essa postura se tratava de uma maneira de buscar a legitimação na sociedade brasileira, tendo em vista que a instituição começava seu trabalho de expansão, no Brasil e, por isso, precisava negociar, com as autoridades, o desenvolvimento de suas atividades.
A partir daí, André (2008, p. 7) ressalta que esse aspecto se diferencia do que acontecera, na primeira metade do século XX, quando o Estado Novo de Getúlio Vargas empreendeu uma política repressiva em relação aos imigrantes japoneses, considerados súditos do eixo comunista.
A segunda estratégia era do ponto de vista doutrinário e consistia em publicar, na revista Acendedor, traduções de artigos de Taniguchi que tratavam de temas cristãos comuns aos brasileiros, como, por exemplo, os significados da cruz, da ressurreição, da Páscoa etc. Nesse âmbito, Castilho (2006) afirma que, no período de1970 a 1980, intensificaram-se, as traduções e os seminários em língua portuguesa e que, além disso, a SNI permitia que as pessoas tivessem duas religiões, o que era comum no Japão, porém, pouco praticado e/ou assumido no Brasil.
Sendo assim, conforme os estudos de Waragai (2008), acerca das interferências culturais, na tradução de textos das religiões nipônicas, da mesma forma que aconteceu com os missionários jesuítas, os missionários japoneses encontraram dificuldades para propagarem sua religião para além dos imigrantes do
Japão e de seus descendentes. Eles perceberam que mudar o idioma – do japonês para o português – não era suficiente, pois, mesmo com essa mudança idiomática, as mensagens não tinham sentido, uma vez que contextualizavam o universo japonês.
Diante disso, para resolver esse problema, foi decidido que, para ultrapassar essa barreira, seria necessário adaptar os textos religiosos para o contexto dos brasileiros sem ascendência japonesa. Para Waragai (2008), assim como os jesuítas, esses missionários, para atingirem seus objetivos, tiveram que abrir concessões como, por exemplo, criar ou suprimir ritos para atender às necessidades dos adeptos.
Waragai (2008), ao discorrer sobre os textos traduzidos da SNI, afirma, ainda, que os tradutores, sempre, estão atentos ao contexto brasileiro e que, apesar de, muitas vezes, a tradução não ser feita de maneira literal, há a preocupação em se manter o cerne dos ensinamentos, adaptado à realidade do Brasil.
A terceira estratégia foi adequar a doutrina aos problemas e demandas locais, para que se adaptasse ao contexto brasileiro, a partir de 1990. Diferentemente, de outras religiões orientais, que não se abriam para os brasileiros, a SNI executou muitas ações, com o intuito de buscar a aproximação e a identificação com quem não tivesse familiaridade com a cultura do Japão ou com brasileiros e não- descendentes de japoneses, dentre elas destacamos: a tradução de trechos que implicam a compreensão dos ensinamentos, como Jissô (Imagem Verdadeira), a entoação do canto da Shinsokan (meditação) em língua portuguesa, deixando de ser obrigatório em japonês, em 2004, a inauguração da Academia de Treinamento Espiritual, em Curitiba, Paraná e a iniciativa de trabalhos sociais e filantrópicos.
Ao observar este cenário, Albuquerque (1999) ressalta que, com o intuito de validar suas práticas e de obter maior adesão, houve uma grande dedicação em campanhas de distribuição de revistas em repartições públicas, em delegacias, no Corpo de Bombeiros, em hospitais, entre outros, que teve como lema o agradecimento aos serviços prestados. Ademais, a SNI fundou a Liga dos Novos Educadores para atingir os professores e procurou inserir, na política, pessoas formadas por ela.
A SNI, também, tentou atrair mulheres e empresários, organizando seminários. Para eles, os temas abordados eram sobre prosperidade, para elas, os assuntos discorridos considerados importantes se organizavam em temas relacionados à culpa sexual dos cônjuges, à finalidade da mulher, entre outros.
Nesse sentido, Albuquerque (1999) e Castilho (2006) lembram que o desenvolvimento, junto aos brasileiros, foi marcado por visitas da liderança da sede japonesa, do fundador, com sua esposa (em 1973) e do sucessor, seu genro, Seicho Taniguchi (em 1970 e em 1977). Houve, também, a adesão dos primeiros preletores brasileiros, em 1978, a inauguração das Academias de Treinamento Espiritual em Santa Tecla, no Rio Grande do Sul, em 1982 e em Santa Fé, na Bahia, em 1989. Aconteceu o lançamento da revista Pomba Branca, em 1985, ano da morte do fundador, e houve a 1ª Convenção Nacional de Educadores, em 1989.
Dessa forma, Paiva (2005), ao pesquisar sobre a fenomenologia da pertença à SNI, em jovens e adultos brasileiros de ambos os sexos, verificou que aqueles são atraídos, conscientemente, para essa ‘nova religião’ pela libertação da culpa e do clima de pecado. Já os adultos, mais especificamente, os homens, foram atraídos pela ampliação da visão religiosa, enquanto as mulheres tinham interesse de melhorarem interiormente. Após analisar as informações obtidas, ele descreve, resumidamente, o adepto brasileiro como sendo:
alguém outrora mortificado e diminuído pela consciência de ser pecador; essa consciência é aguçada pela repre- sentação de um Deus exterior, distante e arbitrário. Ser pecador inclui não só um profundo sentimento de culpa, mas também a desestima pessoal. Nos jovens, esse sentimento se prolonga em desânimo […]. Nos adultos, o sentimento se revela na crítica ao negativismo católico perante a vida (PAIVA & NAKANO, 1987, p. 56 apud Paiva, 2005).
Ele explica, ainda, que as diferenças constatadas decorrem de motivações particulares: os jovens, aparentemente, procuram uma elevação da autoimagem; os homens, por outro lado, estão em busca da verdade e as mulheres buscam a solução de problemas pessoais e familiares.
Diante dessa realidade, Paiva (op.cit., p.212) comenta que não foi encontrada nessa ‘nova religião’ a xenofilia, que disporia os convertidos a aceitarem, positivamente, ‘coisas do Japão’, não foi encontrada nenhuma predisposição particular favorável à cultura japonesa.
Assim como no Japão, a SNI sincretizou elementos da cultura e da sociedade, na qual estava inserida, por serem necessários para o desenvolvimento da doutrina, para a tradução dos textos e para a compreensão dos conceitos difundidos. Para esta modalidade de sincretismo, que vai muito além da religião, como explorado anteriormente, Paiva (op.cit., p.215), em seu estudo sobre a inserção das novas religiões no Brasil, sob a perspectiva da psicologia, afirma que o sincretismo favorece à
produção de novos insights, a partir do encontro entre culturas, capazes de favorecer a expansão da personalidade, a tolerância entre os grupos e a diversidade de modos de ser.
Nesse âmbito, sobre o conceito de sincretismo, assim como Clarke (2008, p. 4), entendemos que não seja, apenas, uma mistura. Em seus estudos acerca das diversas formas de sincretismo e antissincretismo praticadas pelas religiões japonesas, no Brasil, ele acredita que a definição de sincretismo como mistura requer mais explicações, por não dar conta do que ocorre quando as religiões se encontram e participam dos rituais umas das outras ou quando chegam a se respeitar e, de certa forma, compartilhar as mesmas crenças. Para ele, do ponto de vista dos atores envolvidos geralmente não existe a intenção de simplesmente reunir, sem uma atenção cuidadosa, diferentes crenças.
Por conseguinte, Clarke (op.cit., p.25) defende que, muito mais que ‘misturar’, as religiões descobrem similaridades subjacentes muito significativas, que tornam, assim, as diferenças irrelevantes ou que mantêm o compartilhamento de rituais como algo separado da aceitação intelectual que diz respeito à doutrina, não ocorrendo, nos adeptos, nenhuma mistura em nível intelectual, em suas mentes, pois eles sabem quando alguma prática não tem a ver com a sua doutrina.
À vista disso, Verger (apud Clarke, 2008, p.35), ao discorrer sobre esse envolvimento, considera-o mais como um processo de “justaposição” do que como sincretismo e cita, para exemplificar, os praticantes do Candomblé, religião afro- brasileiras, pertencentes, por exemplo, das tradições católicas, que se esforçam em não misturar o que consideram católico com o que consideram ser de origem africana, por terem consciência das diferenças entre o catolicismo e sua religião.
Assim sendo, o crescimento fenomenal dos adeptos das novas religiões japonesas, entre as décadas de 70 e 80, do século XX, segundo Clarke (2008) começou a diminuir, no início dos anos 90 e, em meados dessa década, começaram aparecer sinais visíveis de declínio. A partir daí, vieram novas maneiras de se pensar a questão do recrutamento e da expansão, já que algumas das novas religiões se reformularam para aparentarem ser mais budistas do que antes, pois acreditavam que essa nova imagem seria mais atraente, agora, aos brasileiros, enquanto outras, despiram suas roupagens budistas ou xintoístas.
A SNI, da mesma forma que muitas novas religiões japonesas, não quer que o movimento se descreva como uma religião, sob o argumento de o termo religião ter sido, conforme Clarke (op.cit., p.42), corrompido pelo uso que dele fizeram os sucessivos governos, desde os tempos de Meiji (1868-1912) até o fim da II Guerra Mundial. Para o estudioso, isso torna a identidade da SNI no Brasil ambígua, permitindo, assim, uma maior flexibilidade no que diz respeito ao recrutamento e filiação. Pessoas de outras religiões sentem-se à vontade ao ouvir ou praticar o que é ensinado, no entanto, ele afirma que, seguramente, a ambiguidade pode, também, afugentar aqueles que estão buscando, logo de início, uma identidade religiosa, claramente, definida.
Diante desse aspecto, para se aproximar mais dos brasileiros, atualmente, a SNI utiliza o rádio, a televisão, a internet e as redes sociais como o orkut, o facebook
e o twiter para a divulgação de seus ensinamentos, sendo a única, das novas religiões japonesas, a usar a mídia no cenário religioso brasileiro. Essa visibilidade atrai um público variado e aumenta o desafio da organização que é o de estar atualizada para auxiliar as pessoas que a procuram, sem perder a conexão com a base da doutrina: despertar a natureza divina, por meio da palavra, a fim de manifestar a perfeição da vida, a imagem verdadeira, o Jissô.
Existem regionais, núcleos e associações locais que divulgam a doutrina na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, além de estar presente em São Paulo e no interior, a SNI atua em, aproximadamente, 20 estados e tem como diretora-presidente, a preletora Marie Murakami. Em todos esses locais, assim como na sede, há livrarias para que os adeptos ou os visitantes adquiram as diversas publicações ou outros produtos como pingentes, broches, adesivos, entre outros.
Sobre a distribuição de adeptos, ela é sentida na posição que a SNI ocupa em
alguns censos. Considerada uma ‘religião oriental’, em alguns casos17, é a mais
popular dentre a Soka Gakkai e a Igreja Messiânica Mundial, possuindo 27.784
adeptos. Somando essas informações com os dados do censo de 2000 e 201018,
constatamos um aumento na diversidade religiosa, no Brasil, de 462 mil adeptos dessas ‘novas religiões’, nesse período. Desse modo, percebemos que esse crescimento tem uma peculariedade: a grande quantidade de não-japoneses e de mulheres – o que desperta o nosso interesse em analisar uma coluna dedicada a
esse público feminino19.
17
Segundo o Novo Mapa das Religiões (2011), análises feitas pela FGV em 2011. In: <http://www.cps.fgv.br/cps/bd/rel3/REN_texto_FGV_CPS_Neri.pdf >. Acessado em 20 de janeiro de 2013.
18
IBGE / Censo 2000 e 2010. In: <http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?sigla=sp&tema=censodemog2010_relig>. Acessado em 20 de
janeiro de 2013.
19
Dados do censo 2000, pela primeira vez, mostraram a presença de cerca de 151 mil brasileiros que se autodeclararam fiéis de seis “novas religiões japonesas”: da Igreja Messiânica, 109.310 pessoas; da Seicho-No-