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In document Budsjettforslag 2023 (sider 38-53)

Apesar de a SNI não ser vista como religião, notamos a presença da religiosidade em seu discurso, ou seja, encontramos uma disposição para abordar temas religiosos e para usar elementos de diversas religiões. Essa tendência se justifica, pois segundo Masaharu Taniguchi (2007c, p. 16):

a Seicho-No-Ie não defende o sectarismo, opondo-se a outras religiões. Para ela o xintoísmo é ótimo, o budismo é ótimo, o cristianismo também é ótimo [...]. Vindo à Seicho-No-Ie, qualquer pessoa sendo, budista ou xintoísta, passa a entender a essência de sua respectiva religião.

Por não ser considerada uma religião sectária, essa religiosidade é legítima e atraente para sua atuação. Essa estratégia está relacionada às relações de poder, já que seus representantes se tornam livres para criarem meios que a legitima. Ademais, ao serem utilizados temas que fazem parte do universo religioso, são definidos os modos de produção de sentido de seu discurso.

Taniguchi (2007c) explica que recorre aos ensinamentos de várias religiões, pois todas são vistas como luzes de salvação irradiadas de um único Deus. Assim, na Judéia, irradiou-se há dois mil anos a luz da salvação, nascendo Jesus; e na Índia irradiou-se essa mesma luz há três mil anos, nascendo Sakyamuni (TANIGUCHI, op.cit., p. 17).

Tendo como característica, essa aceitação religiosa, são comuns, nas obras, em palestras e em cerimônias referências à Kojiki (mitologia japonesa), à Bíblia, às escrituras budistas, aos ensinamentos e as práticas de seitas japonesas como Shin, Zen, Shingon. Conforme Taniguchi (2008, p. 21), devido a esse “acolhimento”, não se deve falar mal delas, pois a SNI se funde com a essência de todas as religiões.

Como exemplo dessa identidade religiosa, foi publicado, em 1960, o livro Preleções sobre a interpretação do Evangelho segundo João: à luz do ensinamento da Seicho-No-Ie. Nesse livro, há a transcrição de várias preleções, sobre o Evangelho de João (Novo Testamento), feitas na Academia de Treinamento Espiritual em Akasaka, Tóquio.

No prefácio dessa obra, o autor afirma que o Evangelho segundo João deve ser lido dezenas e centenas vezes, para que se compreenda os ensinamentos e a personalidade espiritual de Cristo. Além disso, ele comenta que apesar de não pertencer a nenhuma igreja cristã, ele leu a bíblia, sob inspiração divina, e apreendeu sobre a Vida de Cristo, e complementa, afirmando que as pessoas que pertencem às igrejas tradicionais, talvez, não estejam conseguindo apreender a Vida de Jesus.

Consequentemente, conforme Taniguchi (2009) argumenta, muitas religiões cristãs ocultam o valor da Vida de Jesus e, por isso, movimentos, como a SNI, pregam o valor intrínseco de Cristo, ou seja, pregam a Verdade comum a todas as religiões. Além disso, ele adverte que a SNI não deve ser considerada uma miscelânia de religiões, já que:

a sua doutrina se baseia em interpretações inéditas que se manifestaram em forma de revelações divinas e que

dão vida à Bíblia como também às escrituras budistas (TANIGUCHI, 2009, p. 255).

Assim sendo, para o autor (op.cit., p. 239), por exemplo, é uma blasfêmia dizer que o homem, um impuro filho do pecado, seja filho de Deus. Ele faz referência ao ensinamento cristão, que se baseia no antigo testamento (Gênesis 3:23), que afirma que o homem passou a ter o pecado original desde a expulsão de Adão e de Eva do paraíso. Ele afirma que o homem não é descendente de Adão e Eva, que desobedeceram às ordens de Deus para não comerem o fruto proibido e postula que o homem não é pecador, pois nasceu de Deus e é filho de Deus e que, portanto, nesse ensinamento cristão, a relação homem/Deus está comprometida, devido a ambos estarem separados.

Taniguchi (2007, p. 155) comenta que devido a essa ideia de pecado original a humanidade passou considerar o ser humano “pó da terra” - um mero corpo material - e a considerar o mundo um aglomerado de elementos materiais, sendo essa crença, a origem do sofrimento das pessoas.

Sobre a materialidade, na SNI, ensina-se que o homem não é matéria, pois ele é espírito, é a Imagem Verdadeira (Jissô) e que, por isso, ele é perfeito, é harmônico, é saudável, é feliz, é livre de sofrimento e de dor. Essa convicção é decorrente da seguinte interpretação do primeiro texto da Bíblia - Gênesis:

o primeiro capítulo de Gênesis refere-se à Imagem Verdadeira perfeita do homem espírito. Já o segundo capítulo vê o homem como uma criatura imperfeita, formada do pó da terra. Isso constitui a primeira ilusão da humanidade, o primeiro pecado (TANIGUCHI, 2007, p. 155).

Dessa forma, para o fundador, as religiões cristãs não cumprem o papel de

conhecimento, o ser humano não conseguirá iniciar o processo de modificação de sua realidade exterior. Para ele, o não reconhecimento dessa natureza espiritual do ser humano, implica cometer o mesmo pecado praticado por Adão e por Eva. Nessa perspectiva religiosa, a relação homem/religião estaria comprometida, por não desempenhar o seu papel.

No entanto, para Taniguchi, o homem não precisa abrir mão de suas convicções religiosas, para praticar o que lhe é ensinado. As pessoas devem incorporar os seus ensinamentos ao cotidiano. Notamos, assim, a presença do sincretismo, da pluralidade, que nos remete à heterogeneidade.

Nessa interação com um público que possui credos distintos ou na divulgação da ideia de um convívio harmonioso entre todos, com suas diferenças e/ou semelhanças, percebemos a forma pela qual é representado o sincretismo na SNI, pois ao igualar o “nós” e os “outros”, preconiza-se que não há separação entre as pessoas, mas uma continuidade, uma parte de nós e, por isso, não ocorre a categorização de raças nem de religiões.

Sobre a palavra religião, etimologicamente, ela vem do latim relegere (reler) e quer dizer aqueles que cumpriram cuidadosamente com todos os atos de culto divino e, por assim dizer, os reliam atentamente (ABBAGNANO, 2001, p. 814). Esse vocábulo pode ter sua origem da palavra religare (religar, ligar novamente) ligar novamente valores religiosos dos quais as pessoas haviam se afastado em meio às diversas opções oferecidas pela realidade (WILGES, 1994, p.15).

Nessa perspectiva, na SNI, é explicado que as religiões, ao pregarem a existência de um único ‘eu’, separado do ‘outro’, transmitem a existência de uma única cultura, de uma raça, de um único Deus, o que impossibilita o convívio com a diversidade, principalmente, com o vasto campo religioso.

Para que ocorra a interação, é ensinada a necessidade de se reconhecer a existência do outro como sendo um ser criado por Deus e a sua semelhança. Dessa forma, prega-se que o ‘eu’ e o ‘outro’ somos um. Deus e eu somos um (TANIGUCHI, 2009, p. 43). Ao ser feita essa afirmação, todas as pessoas são igualadas, dando a entender que não há separação entre nós e os outros, mas uma continuidade. Sendo assim, prega-se que os homens estão perpassados uns pelos outros.

Percebemos, dessa maneira, que a instituição se caracteriza pelo não seguimento restrito das doutrinas das demais religiões, no entanto, em seu discurso, é criado um efeito de sentido que, leva o leitor a inferir um sincretismo.

Além disso, as orientações espirituais e a relação com Deus não são tratadas de forma autoritária (Deus manda), pois o homem é ensinado a não ser ver como um ser inferior ao Criador, mas como alguém que consegue interagir com Deus de maneira livre, sem as ‘ameaças’ concretizadas pela figura do inferno, de castigo, de punição, caso a doutrina não seja obedecida.

Ademais, ensina-se que o homem deve controlar, racionalmente, sua vida e, com esse “ideal libertário”, deve enxergar a possibilidade de se reconhecer como uma nova criatura, sem culpa, livre, independente, enfim, deve-se enxergar como criador e não como criatura, já que é filho do Criador.

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