O discurso não se refere a pronunciamentos, a um texto, a uma frase proferida nem à retórica ou a outras formas de uso da língua em contextos sociais diversos. Não obstante, ele não ser nem a língua, nem o texto, nem a fala, o discurso precisa dos elementos linguísticos para se materializar. Dessa forma, ele se encontra na exterioridade, no social, e envolve questões que não são, exatamente, de natureza linguística.
Nesse âmbito, Fernandes (2008, p.13), ao discorrer sobre discurso, comenta que, quando são pronunciadas, as palavras estão impregnadas de aspectos sociais e ideologias, sendo possível, dessa maneira, observarmos, no dia a dia, sujeitos em discordância sobre um mesmo assunto. Essas posições divergentes revelam-nos que eles assumiram lugares socioideológicos e que a forma material desses lugares é a linguagem. Portanto, percebemos que o discurso precisa da língua e da linguagem para se materializar, ou seja, para exteriorizar-se.
Diante desse contexto, Charaudeau & Maingueneau (2008, pp.170-172) comentam que o termo “discurso” tem sido muito propagado nas ciências da linguagem e que tal proliferação é o sintoma de uma modificação na maneira de se conceber a linguagem. Para eles, o “discurso” tem, implicitamente, uma posição contrária à concepção da linguagem e da semântica e essa alteração é resultado da influência de várias correntes da pragmática.
Consequentemente, Maingueneau (2008, p.15) diz que, devido à noção de discurso ser utilizada, com acepções distintas; para aproximar-se da perspectiva da AD, o discurso será entendido como uma dispersão de textos, cujo modo de inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades enunciativas. Esse conceito admite que o falante seja constituído como sujeito dentro do discurso.
A partir desse cenário, Maingueneau (2010, p. 26) e Charaudeau (2008, p.128) consideram que o discurso é ao mesmo tempo uma atividade condicionada (pelo contexto) e transformadora (desse mesmo contexto) dada a abertura da interação e, por isso, precisamos pensar além da oposição texto/contexto, pois a atividade linguageira é determinada pelo contexto e social e é em si uma prática social, sendo um fenômeno social.
Dessa forma, Fernandes (2008, p.13) afirma que as escolhas lexicais e seu uso revelam a presença de ideologias que se opõem e, além disso, revelam a presença de discursos diferentes, que expressam o posicionamento de grupos de sujeitos sobre um mesmo tema. Tais escolhas, inseridas em discursos específicos, ultrapassam os significados prescritos nos manuais, pois para os sujeitos os sentidos decorrem de sua ideologia, da maneira pela qual eles compreendem a realidade política e social da qual fazem parte. Então, para a constituição do sentido, que é integrante do discurso, a linguagem não deve ser vista como um suporte para transmitir informações.
Maingueneau (1997, p. 20) salienta, ainda, que ela permite construir e modificar as relações entre os interlocutores, seus enunciados e referentes. Para ele, a linguagem deve ser considerada como interação social, na qual o outro tem um papel fundamental na constituição do sentido. Essa concepção surgiu de uma dependência em relação às questões da enunciação e da pragmática, que apesar de diferentes, convergem para recusarem a concepção de linguagem, como sendo um simples suporte para transmitir informações e a aceitam como o que permite construir e modificar relações entre interlocutores, seus enunciados e seus referentes.
Isto posto, constata-se que o discurso, como vimos, constitui-se no social e implica uma exterioridade à língua, não sendo, somente, de natureza linguística, pois estão presentes nele aspectos ideológicos e sociais. Nesse âmbito, Fernandes (2008) comenta que, em diversas situações, o sujeito se posiciona, podendo haver, assim, posições divergentes, conflituosas e esses posicionamentos implicam diferenças quanto à ideologia dos sujeitos, dos grupos sociais em uma mesma sociedade. Em virtude disso, existem os conflitos, já que o sujeito, ao escolher inscrever-se em um espaço socioideológico e não em outros, enuncia a partir de sua inscrição.
Fernandes (2008, p. 17) ressalta que, nessa exterioridade, coexistem, concomitantemente, diferentes discursos, o que implica diferenças quanto à inscrição do sujeito em um espaço socioideológico e não em outro. Dessa escolha, por um e não por outro, surgem os conflitos, pois o sujeito, quando se mostra, enuncia a partir de sua inscrição ideológica; de sua voz surgem discursos que se
encontram na exterioridade. É interessante destacar que o que nos possibilita falar de discurso é o social e o ideológico que existem na história. Portanto, pensar os discursos, é pensar em seus processos histórico-sociais de constituição.
Acerca do discurso visto como uma ação social do sujeito, Orlandi (2010, p.16) observa que ele (o discurso) é um objeto sócio-histórico em que o linguístico intervém como pressuposto, por conseguinte, estudá-lo, na perspectiva da AD, implica pensar o sentido, saber como um texto, como uma música, por exemplo, produzem efeitos sentidos. Para ela, é preciso ver como eles estão investidos de significância para e por sujeitos e não, somente, analisar o significado de palavras, já que implica interpretar os sujeitos em ação, produzindo sentido em suas atividades sociais.
Esses sentidos são produzidos devido aos sujeitos ocuparem lugares sociais diferentes e, por isso, uma palavra ou uma figura, por exemplo, pode ter sentidos diferentes em conformidade com o local ocupado por aqueles que a usam.
Dessa forma, Fernandes (2008, p.19) explica que a noção de sentido é interligada ao lugar de onde o sujeito enuncia e é compreendida como um efeito de sentidos entre sujeitos em interlocução. Conforme a posição assumida pelos sujeitos, a enunciação tem um efeito de sentido e não outro, dessa forma, o sentido é um efeito de sentido da enunciação entre A e B, é o efeito da enunciação do enunciado. Isto, considerando que A e B representam diferentes sujeitos em interlocução, inscritos em espaços socioideológicos específicos.
Diante desse aspecto, constatamos que o discurso, para produzir sentidos, insere-se na história e a constrói. A análise de um discurso, na língua materializada, visa, portanto, identificar os sentidos dos discursos, considerando suas condições sócio-históricas, ou seja, as condições de produção. O analista tem que ultrapassar as estruturas linguísticas para chegar ao discurso, a outros espaços, para que possa compreender do que se forma essa exterioridade. Para Maingueneau (2008, p. 20), não se deve analisar o discurso por si mesmo, mas o espaço de trocas entre vários discursos, convenientemente, escolhidos, ou seja, o interdiscurso.
Fernandes (2008, p. 19) explica que os sujeitos enunciadores31 do discurso
estão em lugar histórico-social que envolve o contexto e a situação e intervém a título de condições de produção do discurso. Esse lugar se trata de um objeto imaginário socioideológico e, não de uma realidade física e o sujeito mencionado não é o ser empírico, com existência particular, mas um ser social.
Assim, o discurso, utilizado pelo sujeito, revela o seu lugar social e transmite outros discursos que fazem parte de uma realidade histórica e social. Dessa forma, para compreendermos o sujeito discursivo, é preciso entender quais são os discursos utilizados para sabermos sua inscrição socioideológica.
Logo, quando o sujeito faz uma escolha lexical, ele integra um conjunto de sujeitos cuja natureza ideológica revela seu posicionamento. Esses sujeitos se opõem a um outro conjunto de sujeitos dispersos, no âmbito social, contrários ao seu posicionamento, estes, por conseguinte, utilizarão outra palavra para mostrar sua posição. Notamos, assim, que o sujeito discursivo é heterogêneo.
Desse modo, Maingueneau (2011, pp. 53-55) e Charaudeau (2008, pp. 170- 172), ao discutirem essa noção de discurso, enumeram oito características essenciais. A primeira, é que o discurso supõe uma organização que se situa além da frase, pois ele mobiliza estruturas de outra ordem, não se manifestando somente por sequências de palavras de dimensões superiores à frase. Os discursos, enquanto unidades transfrásticas, submetem-se a regras de organização, vigentes em um grupo social determinado: regras para produção de uma narrativa, de um diálogo etc.
A segunda característica é que o discurso é “orientado” não apenas porque é concebido em função de uma perspectiva assumida pelo locutor, mas por se desenvolver no tempo em função de uma finalidade, podendo, supostamente, chegar a algum lugar. Ele, também, pode se desviar durante o seu curso, retomar a direção inicial, fazer antecipações e retomadas, evidenciando, assim, um locutor que monitora sua própria fala. Todavia, esse desenvolvimento acontece em condições
31 Enunciação, aqui, é tratada como posição ideológica no ato de enunciar e que integra a enunciação, lugar
sócio-histórico-ideológico de onde os sujeitos dizem e marcam o momento e ato de dizer (ORLANDI, 2010, p. 20). Enunciação, na concepção discursiva, é um acontecimento, em um tipo de contexto, apreendido na multiplicidade de suas dimensões sociais e psicológicas (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2008, p. 193).
diferentes: se o enunciado é dito e controlado por um único enunciador, ele é monologal, se o enunciador se inscreve em uma interação na qual possa ser interrompido, ele é dialogal.
A terceira característica é que o discurso é uma forma de ação, já que falar é uma forma de agir sobre o outro e não somente uma maneira de representar o mundo. Nesse sentido, Maingueneau (2005) diz que foi difundida a ideia, na década de 60 do século XX, pelos filósofos Austin e Searle, de que toda enunciação constitui um ato que visa a modificar uma situação. Esses atos, em um nível superior, integram-se em discursos de um gênero que tem como objetivo provocar uma mudança no destinatário. De forma mais ampla, a própria atividade verbal encontra-se relacionada com atividades não verbais (MAINGUENEAU, 2011, p. 53).
A quarta característica é que o discurso é interativo, tendo em vista que são mobilizados dois parceiros (coenunciadores). Mesmo que não haja destinatário (co- enunciador), toda enunciação é marcada pela interatividade constitutiva, uma troca implícita ou explicita, em que se admite a presença de uma outra instância de enunciação, a que produz o próprio discurso. Os estudiosos ressaltam que, nessa perspectiva, a conversação é um dos modos mais importantes de manifestação do discurso, não sendo considerado o discurso propriamente dito.
A quinta característica é que o discurso é contextualizado, pois ele existe somente dentro de um contexto e contribui para defini-lo, podendo modificá-lo.
A sexta característica é que o discurso é assumido por um sujeito que se põe como fonte dos pontos de referência pessoais, temporais, espaciais, remetendo-se a um eu (o enunciador) e, indicando, concomitantemente, a atitude a um tu (o seu co- enunciador). Estudar essa subjetividade presente nos discursos é um dos diferenciais da AD.
A sétima característica é que o discurso tem normas, denominadas de leis do discurso. Portanto, todo ato de linguagem implica determinadas normas particulares, até mesmo uma pergunta envolve regras; dessa forma, todo ato de enunciação deve ser elaborado, justificando seu direito de apresentar-se da maneira como se apresenta. Trata-se de um trabalho de legitimação indissociável do exercício da palavra.
A oitava característica é que o discurso é assumido no interdiscurso, já que ele só adquire sentido no interior de um universo de outros discursos, por meio do qual ele constrói seu sentido. Todo enunciado é interpretado na relação com todos os outros tipos de enunciados, que estão sendo parafraseados, citados, comentados. Situar um discurso em um gênero implica colocá-lo em relação com a infinidade de outros discursos, ou seja, implica uma atividade interdiscursiva.
Assim, os discursos, por se constituírem na heterogeneidade, somente, são apreendidos pelo confronto (embate/polêmica) estabelecido com outros discursos. Logo, para compreendermos melhor a constituição do discurso, entenderemos sua origem, que se dá no interior do interdiscurso.
Para a AD, o falante se inscreve em lugares sociais nos quais alcança sua identidade e as escolhas de suas palavras revelam seu lugar e seus posicionamentos (formações discursivas) em que coexistem diversos posicionamentos, aparecendo, assim, o interdiscurso. Por estar relacionado à memória, esse espaço de trocas permite que o que já foi dito tenha sentido em suas palavras, pois o sujeito não é a fonte de seu dizer e o discurso, somente, adquire sentido, ao se relacionar com outros discursos em uma relação de confronto/embate/polêmica. Daí ser impossível definir exterioridade entre o sujeito e seu discurso.
Diante desse aspecto, Maingueneau (2008, p. 31), para estudar o discurso, elabora sete hipóteses, das quais destacamos a primeira: o primado do interdiscurso, que está inscrita na perspectiva de uma heterogeneidade constitutiva, que amarra o Mesmo do discurso e seu Outro, e se aproxima do princípio dialógico de Bakhtin que revela o caráter constitutivo da interação enunciativa, ou seja, o discurso como interação entre sujeitos. Para o autor, propor esse tipo de primado é:
incitar a construir um sistema no qual a definição da rede semântica que circunscreve a especificidade de um discurso coincide com a definição das relações desse discurso com seu Outro. No nível das condições de possibilidade semânticas, haveria, pois, apenas um
espaço de trocas e jamais de identidade fechada (MAINGUENEAU, 2008, pp. 35-36, grifos do autor).
Assim, ao afirmar que a interdiscursividade é constitutiva do discurso, reconhece-se, também, que todo discurso resulta de um trabalho sobre outros discursos. O “outro” é o não-dizível de um discurso é aquela parte de sentido que foi necessário sacrificar para constituir a própria identidade (MAINGUENEAU, 2008, p.37).
Nesse sentido, Maingueneau explica, ainda, sobre essa interação, que cada discurso:
introduz o Outro em seu fechamento, traduzindo seus enunciados nas categorias do Mesmo e, assim, sua relação com esse Outro se dá sempre sob a forma do “simulacro” que dele constrói (MAINGUENEAU, op.cit., p. 21).
O autor, ao postular que o interdiscurso precede o discurso, propõe a análise de um espaço de trocas entre diversos discursos, adequadamente, escolhidos. Para ele, o discurso não se origina sozinho; por isso, deve ser posto em relação com outros, além disso, os diversos discursos, que compõem o espaço de troca, constituem-se de forma dependente uns dos outros e adequada no interior do interdiscurso.
Como o discurso se constrói em uma rede de outros discursos, Orlandi (2010, p. 33) afirma que interdiscurso é todo conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos. A autora esclarece que para as palavras terem sentido, é preciso, que elas já façam sentido. Sendo assim, o interdiscurso está relacionado à memória, uma vez que ele permite que os dizeres, que já foram ditos, tenham sentido em nossas palavras. Notamos, então, que o discurso se manifesta
em outra dimensão que ultrapassa o som, a sintaxe, o texto escrito, não sendo, dessa forma, apreendido, concreto, palpável.
Devido ao discurso ser atravessado por outros discursos, ele, dificilmente, será homogêneo e a manifestação dessa heterogeneidade discursiva pode ocorrer de duas maneiras: por meio da heterogeneidade mostrada e da heterogeneidade constitutiva. Conforme explicam Charaudeau & Maingueneau (2008, p. 261), a primeira é localizável, de fácil apreensão, ou seja, são deixadas ou não, marcas na superfície linguística como, por exemplo, as aspas entre as palavras, o discurso citado. A segunda não deixa marcas de sua relação com outros enunciados, não sendo, então, apreendida linguisticamente, o discurso é dominado pelo interdiscurso [...] ele se constitui através de um debate com a alteridade.
Portanto, Maingueneau (2008), ao associar o interdiscurso à gênese do discurso, considera a existência de um já dito que se constitui no outro do discurso. Dessa forma, todo discurso faz circular o que já foi enunciado, ou seja, o primado do interdiscurso pressupõe a presença do Outro, que se manifesta por meio da heterogeneidade enunciativa. O postulado do primado do interdiscurso tem como diferencial considerar as condições sócio-históricas de produção.
Consequentemente, para a orientação dialógica não se limitar somente aos enunciados que se referem a citações, Maingueneau (op.cit. p. 37) diz que é preciso ir além da distinção de heterogeneidade mostrada e constitutiva é preciso revelar a relação com o Outro, independentemente, de qualquer forma de alteridade marcada. O Outro, que não precisa ser localizável, encontra-se na raiz de um Mesmo que não tem plenitude autônoma. Esse Outro é a unidade de sentido que o discurso sacrificou para constituir sua identidade.
Dessa forma, para que o interdiscurso não se inscreva na perspectiva de uma heterogeneidade constitutiva, como postula Bakhtin, Maingueneau propõe um quadro metodológico, para que se entenda melhor essa noção, substituindo o termo pela tríade universo discursivo, campo discursivo e espaço discursivo.
A noção de universo discursivo refere-se ao conjunto de formações discursivas que interagem em um momento dado, à totalidade dos discursos, ao conjunto de todos os discursos existentes. É de pouca utilidade para o analista, pois
representa um conjunto finito e, por isso, serve para definir o horizonte, a partir do qual serão construídos domínios possíveis de serem estudados, os campos discursivos (MAINGUENEAU 2008, p. 33).
Campo discursivo é definido como um conjunto de formações discursivas que se encontra em concorrência. Trata-se de um recorte feito pelo analista, de acordo com seus objetivos. Devido aos campos discursivos não serem evidentes, delimitá- los implica operar com escolhas e enunciar hipóteses. Por exemplo, se pensássemos no discurso religioso, poderíamos colocá-lo no interior de um campo do discurso publicitário, já que se trata de uma abstração. Nesse sentido, Maingueneau (2008, p. 34) explica que:
é no interior do campo discursivo que se constitui um discurso, e levantamos a hipótese de que essa constituição pode deixar-se descrever em termos de operações regulares sobre formações discursivas já existentes. O que não significa, entretanto, que um discurso se constitua da mesma forma com todos os discursos desse campo; e isso em razão de sua evidente heterogeneidade.
Como o campo discursivo não existe sozinho, porque todo enunciado do discurso dialoga com outro, é impossível analisá-lo em sua totalidade, sendo necessário, assim, que o analista isole, no campo, os espaços discursivos.
O espaço discursivo, por sua vez, é um subconjunto de formações discursivas que o analista põe em relação, da maneira que julgar importante, para confirmar ou não as hipóteses levantadas por ele.