7. CONCLUSION
7.2 F INAL R EMARKS
O fenômeno da longevidade é algo complexo, por isso mesmo não pode ser visto como um fato isolado na sociedade. Esta complexidade implica a definição de políticas públicas em diferentes instâncias, envolvendo diretrizes em relação à Seguridade Social (Previdência Social, Saúde e Assistência Social), e também os mercados de trabalho e consumo, a estrutura familiar e particularmente a vida pessoal de cada idoso.
A constituição Federal de 1988, em seu Art. 230, estabelece que é dever do Estado, da sociedade e da família amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.
Antecedendo a Constituição Federal, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, estabelecida em 1948, mostrou que já havia uma preocupação com os direitos universais desse contingente da população. O Estatuto do Idoso, vigente no Brasil desde 2003, surge como importante instrumento para operacionalizar de todos esses direitos assegurados anteriormente.
No Brasil, dados demográficos demonstram que há um rápido aumento da população idosa, ao mesmo tempo em que há uma redução da taxa de natalidade. Neste sentido, conforme a previsão dos demógrafos, o contínuo e acelerado crescimento desse contingente até 2025, contribuirá para que o Brasil ocupe o 6º lugar no mundo em população idosa. O crescimento demográfico alterou a expectativa de vida dos brasileiros que hoje conta com mais de 18 milhões de pessoas igual ou superior a 60 anos, podendo chegar, segundo projeções do IBGE, a 64 milhões em 2050 (IBGE, 2010).
Desta forma, as reflexões realizadas ao longo deste estudo são baseadas nas representações sociais sobre o idoso decorrentes da análise documental dos livros didáticos de Língua Portuguesa e História, do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental, tendo como referência os textos e imagens contidas nesses livros. As entrevistas semiestruradas, realizadas com os professores participantes, objetivaram também identificar a concepção de longevo por meio das representações sociais.
O corpus teórico baseado na visão de vários autores e, fundamentalmente, na Teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici, permitiu compreender que o real significado de ser idoso é heterogêneo. Não se revela imediatamente nas questões biológicas, mas adquire sentido por meio da comunicação entre as pessoas e descobre possibilidades, na história e na cultura da sociedade nas quais se inserem. Minayo (2006) aponta que é
completamente diferente envelhecer na zona urbana e na zona rural; em uma família rica e em outra pobre; ou por ser mulher e por ser homem.
A análise documental revelou que os livros didáticos ainda trazem preconceitos e estereótipos sobre os idosos, sejam de forma explicita ou implícita. Na maioria dos livros estudados, tanto de Língua Portuguesa, como também de História, a representação social do longevo possui características negativas, como velho feio, triste, solitário, rabugento, doente, que está mais próximo da morte. Tais representações são contrárias aos princípios defendidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Constituição Federal e no Estatuto do Idoso e não estão condizentes com os princípios da educação para a cidadania, que estimula o convívio democrático entre as gerações, com respeito e dignidade.
Verifica-se, portanto, que o processo de avaliação dos livros didáticos, definido pelos órgãos governamentais, não foi suficiente para eliminar dos textos e das imagens, contidas nos livros apreciados, as representações sociais negativas do longevo.
Vale destacar que, às vezes, quando nos livros didáticos aparecem referências aos direitos dos idosos, exige-se do professor, além de uma postura positiva em relação ao idoso, um conhecimento teórico do fenômeno da longevidade e suas implicações no processo educacional, nem sempre presente na fundamentação teórica desse docente.
Com relação à análise das entrevistas, ficou evidenciado que os professores também apresentavam uma concepção negativa da velhice. Os dados revelaram que os professores consideravam que longevo era sinônimo de limitação, fragilidade e decadência física. Estas constatações são preocupantes, tendo em vista que os livros didáticos já trazem representações negativas sobre o idoso.
Um dado positivo evidenciado diz respeito ao posicionamento de todos os participantes da pesquisa, concordando que o idoso deva praticar qualquer atividade física. Contrário a este posicionamento positivo, alguns respondentes se mostraram inseguros quanto à capacidade do idoso em realizar atividades relacionadas à área intelectual.
De acordo com os depoimentos, os idosos não são respeitados, nem na sociedade nem pela família. Esta constatação está baseada nas informações veiculadas pela mídia e por experiência própria dos participantes de que os idosos são vítimas de violência e maus-tratos. Ficou claro que a concepção dos professores é influenciada pela representação social que circula na sociedade, considerando a velhice como um período de inatividade e improdutividade. Desta forma, o idoso é considerado uma pessoa descartável. Em pleno século XXI, esses depoimentos são surpreendentes tendo em vista a discussão por meio da mídia falada e escrita sobre o fenômeno da longevidade.
Outra evidência “espantosa” foi que, dentre os 16 professores participantes, quase metade deles (sete), afirmou não ter visto, nos livros didáticos pesquisados, textos que apresentam referências sobre o idoso. Isto demonstra a necessidade ainda premente de uma formação continuada dos professores, buscando sua atualização nas diferentes áreas do conhecimento.
Um dos pontos cruciais da educação é a formação do professor. Como destaca Libâneo (2005), o professor precisa estar preparado para os desafios contemporâneos da prática pedagógica que vão além da sala de aula. A partir da concepção de ensino que considera o aluno como sujeito de sua aprendizagem e o professor como orientador desse processo, a relação dialética e dialógica entre o professor e os seus alunos torna-se condição imperativa para a melhoria de sua prática educacional.
Tendo em vista os resultados obtidos, convém apontar algumas sugestões que não têm qualquer pretensão de esgotar a temática. Faz-se necessário que, além da implantação de políticas públicas que deem suporte à concretização do que se pretendeu nesta pesquisa, se desenvolva, por meio de projetos e programas, um enfoque atualizado sobre o envelhecimento e especificamente sobre o idoso em consonância com a realidade social contemporânea. Neste sentido, é importante a reformulação do currículo, propondo uma concepção de educação mais atualizada que atenda aos princípios da dignidade humana e, neste caso, em particular, envolva questões sobre o fenômeno da longevidade.
Outro fato importante é a realização de uma avaliação mais criteriosa dos livros didáticos, introduzindo critérios mais objetivos de seleção. No caso em foco, a promoção de textos e imagens positivas relacionadas ao longevo é imprescindível para a escolha do livro didático, considerando que ele se coloca como um importante instrumento de trabalho do professor e, muitas vezes, o único instrumento que o aluno da escola pública tem para estudar. No processo de avaliação do livro didático é preciso considerar também que o pensamento científico atual, influenciado pelos grandes cientistas contemporâneos, entre eles, Einstein e sua Teoria da Relatividade; Heisenberg, com o Princípio da Incerteza; Niels Bohr, com a Lei da Complementaridade , e Prigogine e seu conceito de Estruturas Dissipativas, não concebe mais a ciência como "dona da verdade". Nesta nova visão, o conhecimento científico é construído, desconstruído e reconstruído permanentemente pelo sujeito histórico, que está interconectado com seu objeto do conhecimento, e ambos estão imbricados em uma realidade dinâmica, mutável, um todo relacionado. Por isso mesmo é necessário que haja mais pesquisas sobre o livro didático para os alunos não receberem livros que ainda veiculem preconceitos sobre os longevos.
Além disso, Moraes e Valente (2008) destacam que o princípio ético deve permear toda ação educativa na contemporaneidade, traduzido no respeito às diferenças de cada sujeito, na solidariedade, na cooperação e na preservação da cultura ética.
No entanto, tais sugestões só se tornarão possíveis, se tiverem o apoio de todos os envolvidos neste processo, tais como o governo, os editores, os avaliadores. Os diretores de escola e professores, comprometidos com uma educação que atenda aos anseios da sociedade em geral e dos indivíduos em particular, são personagens fundamentais para a concretização de um processo educacional capaz de construir uma sociedade mais justa e igualitária para todos e, especialmente, para os longevos.
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