5. DEMOCRATIC ORGANISATION OF THE NICARAGUAN STATE
5.3 I NCREASING P OPULAR C ONTROL AND P OLITICAL E QUALITY IN N ICARAGUA
Para Farr (2000), Moscovici desenvolveu sua teoria sobre representações sociais no final da década de 60, com base principalmente nos estudos de Durkheim sobre as representações coletivas. Na concepção de Farr, a teoria sobre as representações sociais de
Moscovici está classificada como uma forma sociológica de psicologia social. Moscovici ainda modernizou o conceito de representações, substituindo a concepção de
‘coletivo’, estática, mais ligada à cultura e à noção de teoria, pela concepção dinâmica, fluida de ‘social’, ligada à noção de ‘redes’ de ideias, imagens, mais adequada ao mundo moderno, mundo este caracterizado pelos novos meios e formas de comunicação de massa, gerando novas possibilidades de circulação de ideias.
Estas ideias podem influenciar socialmente a criação de uma forma específica de representação, que reivindica sua própria legitimação. Uma vez legitimadas, as ideias não- familiares passam a ser familiares e engendram comportamentos e ações dos indivíduos em sociedade (MOSCOVICI, 2009). Nas palavras do autor, “[...] a dinâmica das relações é uma dinâmica da familiarização, onde os objetos, pessoas e acontecimentos são percebidos e compreendidos em relação a prévios encontros e paradigmas.” (MOSCOVICI, 2009, p. 55). Por isso, para Moscovici (2009), interessa explorar a variação e a diversidade das ideias coletivas, o que reflete justamente a heterogeneidade nas sociedades modernas, gerando uma heterogeneidade de representações.
Na visão de Moscovici (2009, p. 46), as representações sociais devem ser vistas como fenômenos específicos, “uma maneira particular de compreender e comunicar” o que já se sabe. Então, não se podem separar as representações da comunicação. O autor considera, dessa forma, as representações sociais como estruturas dinâmicas que agem e criam um conjunto de interações e de comportamentos que tenham um significado. Dependendo do contexto social em que estão inseridas, essas representações também podem desaparecer e, com elas, todos os comportamentos até então aceitos pelo senso comum. Para ele, as ideias, as representações são sempre filtradas através do discurso de outros, das experiências vividas, das coletividades a que se pertence (MOSCOVICI, 2009).
Moscovici (2009) destaca que as representações sociais têm duas funções: a primeira, fazer com que os objetos, pessoas ou acontecimentos sejam convencionados. As representações sociais dão forma aos objetos (coisas ou pessoas), colocando-os em uma categoria e em um modelo determinado que seja compartilhado por um grupo de pessoas. Mesmo quando um novo objeto não é adequado a determinado modelo, é forçado a entrar em uma categoria sob pena de não ser compreendido. Mas “[...] nenhuma mente está livre dos efeitos de condicionamentos anteriores que lhe são impostos por suas representações, linguagem ou cultura.” (MOSCOVICI, 2009, p. 35)
A segunda função é que as representações sociais são ‘prescritivas’, isto é, elas impõem sobre as pessoas uma força ‘irresistível’, que é resultado de uma combinação entre o
que está presente, antes mesmo que os indivíduos comecem a pensar, além de uma tradição que decreta o que deve ser pensado. Segundo o autor, isto pode ser observado “nos gestos”, “na afeição”, “nas histórias em quadrinho”, “nos textos escolares”, “nas conversas com os colegas de aula” (MOSCOVICI, 2009, p. 36).
Para explicar como as representações são geradas, Moscovici (2009, p. 61) destaca dois processos sociocognitivos, relacionados entre si: o primeiro é a ‘ancoragem’ e o segundo, a ‘objetivação’. No primeiro processo, o autor explica que ancorar “é classificar e dar nome” a algo, coisa ou pessoa. As coisas que não têm nome são, ao mesmo tempo, estranhas e ameaçadoras. Dar nome, segundo Moscovici, resulta em três consequências: 1) quando o indivíduo nomeia algo, coisa ou pessoa, este algo adquire certas características e tendências; 2) de posse do nome e por meio das características que lhe são atribuídas, a pessoa ou coisa torna-se diferente das demais; e 3) esse algo se torna objeto de uma ‘convenção’ compartilhada entre os que a adotam e a partilham.
Portanto, dar nome não é apenas uma operação mental, mas está relacionado com as atitudes dos indivíduos em sociedade, pois, quando o indivíduo dá nome a algo, ele inclui esta coisa ou pessoa em uma matriz de identidade de sua cultura, que lhe é familiar, passando a agir dentro desse contexto.
Assim, duas consequências são trazidas pela Teoria das Representações: a primeira é a exclusão de uma ideia ou pensamento que não tenha passado pelo processo da ‘ancoragem’; e a segunda é que, ao classificar e dar nome, os indivíduos não estão simplesmente rotulando e, sim, facilitando o processo de interpretação e formando opiniões que serão a base das suas atitudes cotidianas (MOSCOVICI, 2009).
Em relação à ‘objetivação’, considerado o segundo processo sociocognitivo para explicar como as representações são geradas, o indivíduo transforma o que é abstrato em algo quase concreto, ou seja, transfere o que está na sua mente para o mundo físico. Dessa forma, “objetivar é reproduzir um conceito em uma imagem.” Para o autor, “a materialização de uma abstração é uma das características mais misteriosas do pensamento e da fala” (MOSCOVICI, 2009, p. 71).
De acordo com Moscovici (2009), as imagens se misturam com elementos diversos que reproduzem, no plano visual, um complexo de ideias. A este movimento o autor denomina de ‘núcleo figurativo’ ou paradigma que, uma vez aceito pela sociedade, permite que se fale dele e o use em várias situações sociais. Vale ressaltar que as representações sociais não são criadas por uma pessoa isoladamente e, sim, por pessoas e grupos que as criam no processo de comunicação e de cooperação (MOSCOVICI, 2009).
Em síntese, ancorar é fazer com que as ideias estranhas, não-familiares sejam reduzidas a “categorias e a imagens comuns”, colocando-as em um contexto familiar. E objetivação é a transformação de algo abstrato em quase concreto (MOSCOVICI, 2009, p. 61). Desta forma, as representações sociais são formadas com a finalidade de tornar familiar o estranho e para tornar possível a comunicação entre os grupos. Então os elementos da representação social são construídos através da comunicação, ao mesmo tempo, em que se relacionam pela comunicação (MOSCOVICI, 2009).
Para Jovchelovitch (2000), é por meio da objetivação e da ancoragem que as representações sociais estabelecem mediações, “trazendo para um nível quase material a produção simbólica de uma comunidade e dando conta da concreticidade das representações sociais na vida social” (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 81).