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Vedlegg 1 1: Litteraturmatrise

10. Vedlegg

10.1. Vedlegg 1 1: Litteraturmatrise

Considerando o crescente interesse nas “pequenas narrativas”, como afirmou

Castellanos (2014), que nos remete ao micromundo das histórias do cotidiano, e tendo em

vista nosso “objeto” de estudo que é a compreensão das experiências de crise dos sujeitos em

sofrimento psíquico, dialogaremos doravante com uma perspectiva das narrativas que tratam dos processos de saúde-doença-cuidado, denominadas de narrativas de doença-Illness

narratives (KLEINMAN, 1988).

Compreendendo a doença, seja ela física ou psíquica, de um modo geral como um momento de fragilização do sujeito, de ruptura de um continuum da vida, de alteração da

temporalidade, de diferenças no seu jeito de “andar a vida”, de interferências, muitas vezes,

até na dimensão corporal, percebeu-se que eram momentos que evocam novas formas de se dizer, a partir de eventos desencadeadores de mudança.

Hydén (1997), tendo como fio condutor as narrativas de doenças e articulando os elementos narrador-narrativa-doença, propõe três tipologias básicas para se compreender

essas experiências: “Doença como narrativa”, na qual narrativa, narrador e doença estão intrinsecamente imbricados; “Narrativas sobre doença”, na qual se enfatizam conhecimentos,

concepções e noções gerais dos sujeitos adoecidos sobre sua doença; e “narrativa como

doença”, que traz a perspectiva de que a narrativa pode ser afetada em um processo de

adoecimento.

Alguns autores clássicos das narrativas sobre adoecimento crônico compreendem esse momento da doença como uma “ruptura biográfica” (BURY, 1982) que possibilitam novas

“reconstruções narrativas” (WILLIAMS, 2001), na medida em que essa experiência afeta a elaboração do sentido da vida e do viver. Denzin (1989) traz o conceito de “ponto de mutação” para explicar o momento de uma experiência que provoca um giro na forma como

se vive a vida.

Sobre essas narrativas Castellanos (2014) comenta:

[...] as narrativas de adoecimento crônico podem agenciar processos de

ressignificação da experiência cotidiana, “reparando” eventos disruptivos que

ameaçam as relações entre mente, corpo e mundo, ao apoiar o restabelecimento dessas relações em novos termos e contextos (p. 1073).

Kleinman é considerado um dos principais autores no tema de narrativa de doença com seu livro: The illness narrative: suffering,healing and the human condition publicado em 1988. O autor em sua obra demarca algumas diferenças conceituais entre os termos Illness, Disease e Sickness. O primeiro faz referência à experiência humana de adoecimento em suas dimensões individuais e coletivas, os sintomas de sofrimento relacionados a esse momento diferente na vida do sujeito e como as experiências de adoecimento são culturalmente moldadas; em Disease são consideradas as alterações do corpo (anatomicamente e fisiologicamente) percebidas pelos profissionais de saúde treinados para tal; e Sickness faz referência à desordem em sentido genérico.

Esse mesmo autor traz a importância da interpretação das narrativas da experiência da doença como uma tarefa central no trabalho da terapêutica, uma vez que “damos voz” aos

sujeitos, antes denominados “pacientes”, o que retira dos profissionais de saúde o lugar de prescrição “daquilo que é correto” e nos convida mais ao exercício de ser ouvinte.

Ao se colocar nesse lugar de terapeuta (não necessariamente de psicoterapeuta), o sujeito conta sua história, expõe suas angústias, sofrimentos e medos, (re) formula o vivido diante de um processo de adoecimento. Dessa forma, no seu desenrolar, as narrativas de si, muitas vezes, acabam sendo narrativas terapêuticas. Em um processo de acompanhamento clínico e terapêutico no qual o sujeito pode expressar suas percepções e compartilhar suas

experiências através da narrativa cria-se possibilidades de construção “contra narrativas”, que vão no sentido oposto à forma como o sujeito costumava se narrar.

Apesar de isso parecer óbvio em algumas áreas como a Psicologia, por exemplo, que

se utiliza tradicionalmente da escuta e do ato de narração do sujeito como forma de “acessá- lo”, no campo da Saúde Coletiva isso ainda merece destaque uma vez que esse campo ainda

traz os resquícios de um modelo no qual prevalece a linguagem dos órgãos e tecidos em detrimento do discurso do paciente.

Nunes, Castellanos e Barros (2010) ao realizarem um estudo sobre a vivência de sujeitos e seus enfrentamentos dos problemas das doenças com usuários de um centro de saúde, contextualizando o adoecimento na história de vida dos sujeitos, enfatizaram a importância da narrativa biográfica, como um recurso importante para reflexão e atuação sobre o cuidado prestado aos pacientes.

Para esses autores, as narrativas autobiográficas contribuem para pensar a singularidade do caso e para estabelecer relações com contextos e problemáticas mais amplas, podendo, dessa forma, serem assimiladas na lógica de organização dos atendimentos clínicos dos serviços de saúde.

Cabe lembrar, porém, que mesmo com a mudança de postura dos profissionais dos serviços de saúde, o próprio discurso do paciente costuma ser carregado de conceitos médicos e diagnósticos bem detalhados, uma vez que eles também partilham dos discursos que circulam na sociedade, que atualmente dá muito espaço para falar sobre sua saúde ou sobre determinado tipo de saúde, apenas.

No campo da Saúde Mental, no qual se inclui nosso estudo, é bastante enfatizado, como abordado no capítulo sobre as crises, a necessidade de ir para além de se falar de um diagnóstico. Roberts (2000) afirma que é essencial para uma possível recuperação do enfermo, mesmo que parcial, conseguir construir um sentido sobre si separado do diagnóstico. Além disso, no campo Saúde Mental se busca romper também o caráter histórico preconceituoso que o diagnóstico imprimia nos sujeitos.

Entretanto, concordamos com Valentim (2011) ao afirmar que o diagnóstico acaba sendo um nome que circula no repertório interpretativo dos profissionais da Saúde Mental e que na relação com os usuários possibilita também uma comunicação da sua condição de enfermo. Além disso, seria uma forma de integrá-lo ao corpo social na medida em que é

Stone (2004) lança outro elemento importante ao indagar se uma experiência tão

diferente como a do “adoecimento mental” pode ser expressa pela forma tradicional da

narrativa, um discurso aparentemente racional, ordenado em torno de uma trama histórica, e que se desenvolve em um espaço e em um tempo.

Considerando as ideias expostas e aproximando-nos do nosso foco de estudo caberia nos perguntar: A narrativa seria suficiente para dar sentido a uma experiência de crise? Ou há algo nas crises que extrapolaria o narrável?

Sobre esse aspecto, Grandesso (2006) nos diz que:

“Algumas experiências são rudimentares, no sentido que simplesmente não

entendemos o que estamos experimentando, ou porque essas experiências não são narráveis, ou porque carecemos de recursos representativos e narrativos, ou porque

nos falta vocabulário” (p.208).

Ao trabalhar com narrativas vítimas do Holocausto, Langer (citado por Salmon e Riessman, 2008) concluiu que em casos de sofrimento intenso pode surgir uma desordem na vivência temporal da vida. Em decorrência disso, surgem dificuldades em narrar as histórias de vida a partir de uma linha cronológica, considerando a experiência do sofrimento e os acontecimentos posteriores a essa. Percebe-se que as narrativas nessas situações parecem retratar uma dupla existência ou uma vida cindida.

Nesse sentido, Frank (1997) aponta que essas experiências de sofrimento intenso fazem parte do que pode ser entendido como uma “narrativa de caos”, que é considerada uma anti-narrativa, marcada por momentos que podem ser mais vividos do que narrados.

Sobre o adoecimento mental, esse autor afirma que esse só pode ser realmente

compreendido se adentrarmos imaginativamente em um “mundo sem propósito” ou, como

afirma Bohram e Hoyward (apud SALMON; RIESSMAN, 2008), que o preconceito sofrido pelo doente mental está calcado na sua dificuldade de apresentar sua vida como um projeto social coerente e inteligível.