KAPITTEL 2: Avhandlingens teoretiske rammeverk
2.1 Begrepshistorie
2.1.2 Begrepshistoriens modernitetstese
Outra categoria importante para os geógrafos é o conceito de paisagem. Os filósofos não se interessaram por essa categoria em suas reflexões. Diferentemente
do conceito de lugar a respeito do qual se podem colher subsídios na filosofia, sobre o conceito de paisagem buscamos apenas na geografia.
Em geografia, segundo Cavalcanti (1998), esse conceito tem se destacado uma vez que essa ciência define seu campo de estudo nos aspectos e fenômenos que concorrem para modelar, organizar e modificar materialmente o espaço. Não poderíamos, portanto, deixar de mencionar essa definição em nossa tese, pois é geográfico, nesse sentido, aquilo que tem influência sobre a paisagem como expressão e forma desse espaço.
Para iniciar as considerações a respeito desse conceito científico, buscamos no dicionário Houaiss (2001) definições de paisagem. São elas: (1) extensão de território que o olhar alcança num lance; vista; panorama; (2) pintura, desenho, gravura, fotografia etc. em que o tema principal é a representação de formas naturais, de lugares campestres. Assim, verificamos que o significado de paisagem está relacionado tanto a um ponto de vista como a um desenho.
Para a geografia, no entanto, paisagem tem sentidos diferentes. Assim como Cavalcanti (1998), também recorremos ao “Dicionário de Geografia” (SAMALL, MICHAEL, 1992, p.191) para definir paisagem:
Termo usado para descrever o aspecto global de uma área. A paisagem física refere-se aos efeitos combinados das formas de terreno, vegetação natural, solos, rios e lagos, modificações feitas pelo homem (vegetação “cultivada”, comunicações, povoações, minas a céu aberto, pedreiras etc.). Há que se observar nessa definição as referências ao fato de associar paisagem a formas: terreno, vegetação, solos, rios, lagos e também a tipos de paisagens cultural e natural.
A primeira referência diz respeito às origens da definição de geografia, segundo as formulações da Geografia Tradicional. Nesta perspectiva, a paisagem foi tomada por alguns teóricos como o próprio objeto dessa ciência. Conforme essa concepção, a pesquisa geográfica “se ocuparia em descrever a natureza visível e os traços objetivos dos lugares”. A veracidade da explicação geográfica estaria centrada na capacidade do próprio observador ao descrever o mais objetivamente possível a paisagem observada (CAVALCANTI, 1998, p. 58).
De acordo com esses pressupostos teóricos, a função do geógrafo seria posicionar-se diante de uma paisagem para estudá-la, procurando descobrir as harmonias e os traços dominantes em cada área, com a finalidade de compreensão da totalidade da paisagem.
Ao estudar a paisagem, no entanto, os profissionais geógrafos não levavam em conta todos os aspectos e, sim, selecionavam os mais significativos, tendo em vista que a descrição estaria guiada por um pensamento que procurava certos traços típicos para a explicação (CRISTOFOLETTI, 1982). Assim, metodologicamente, a posição do geógrafo era singular: diante da paisagem, esse profissional elaborava descrições e explicações para dada realidade que, embora individuais, eram consideradas como plausíveis e objetivas já que partiam do concreto.
Em razão das contribuições teóricas da Nova Geografia a respeito da cientificidade e objetividade das observações e descrições, houve acirradas críticas à Geografia Tradicional. Surgiram, então, novos métodos de análise conhecidos como revolução teorético-quantitativa, na década de 1950, impondo limites à utilização da paisagem como paradigma dessa ciência.
Corrêa (1995) afirma que a despeito das críticas à geografia teorético- quantitativa, é preciso reconhecer que a partir de sua existência é que a geografia passou a ser considerada como ciência social e também espacial. O espaço, desde então, pela primeira vez na história do pensamento geográfico, apareceu como conceito-chave da disciplina. O conceito de paisagem foi deixado de lado. Cristofoletti (1982 b, p. 81) afirma que:
A noção de paisagem tornou-se insatisfatória para preencher os requisitos do paradigma contemporâneo da Geografia, sendo substituída pela noção de sistema espacial ou organização espacial, compreendendo a estrutura dos elementos e processos que respondem pelo funcionamento de qualquer espaço organizado.
O que se pode depreender desse ponto de vista é que essa substituição de paradigmas teve como objetivo superar a abordagem da descrição da paisagem para a busca de estrutura e processos responsáveis por um sistema espacial.
Essa perspectiva, segundo Cristofoletti (1982 b), além de focalizar as organizações espaciais, engloba as tradicionais relações entre o homem e o meio e sobre a diversidade regional. Destacou-se, desse modo, o ponto central de considerar a paisagem como elemento concreto e objetivo que expressava essa relação, para salientar a atuação humana.
O uso indistinto dos termos “lugar e paisagem” é explicado por Sauer (1983, p.325). Segundo ele, os fatos da geografia são os fatos do lugar (place facts), que associados, dariam origem ao conceito de paisagem que trata de uma união... ”das qualidades físicas da área que são significantes para o homem e nas formas como ele utiliza a área”. Estas qualidades da área, para o autor, constituem a paisagem cultural.
Ao geógrafo, caberia selecionar categorias genéricas da paisagem de acordo com sua perspectiva particular. Desse modo, essa seleção implica uma redefinição da relação do homem com seu ambiente. Assim, o meio ambiente vai se modificando e sendo reinterpretado a cada mudança de hábito. O autor afirma que hábito e cultura envolvem atitudes e preferências que podem ser criadas ou adquiridas.
As idéias de Sauer (1983) acerca de atitudes e preferências por certas paisagens tiveram ressonância na década de 1960 nos trabalhos de Lowenthal que realizava pesquisas sobre as preferências individuais e coletivas de ingleses por determinadas paisagens. Lowenthal (1968, p. 61) concluiu que : “as paisagens são formadas pelas preferências paisagísticas. As pessoas vêem seu entorno por meio das lentes das preferências e costumes e tendem a moldar o mundo a partir do que vêem”.
Não podemos deixar de falar sobre as proposições de Dardel (1990, p. 44) sobre a definição de paisagem: “paisagem não é em sua essência feita para ser considerada, mas antes é uma inserção do homem no mundo, um sítio da luta pela vida, a manifestação de sua existência e das dos outros”. A paisagem nesse sentido é entendida como implemento, o que quer dizer que é conhecida por meio do uso e reponde, por isso, em termos de sua utilidade. Por essa perspectiva, a matéria e as formas tendem a retrair-se para uma posição secundária. A utilidade, nesse caso,
representa muito mais que valor de troca ou recurso potencial; inclui, portanto, tudo o que tem relação com a manutenção de nossas vidas diárias e com tudo o que tem significância para nós porque estamos diretamente envolvidos com ela.
Continuemos com Dardel (1990, p. 44): “a paisagem é um conjunto, uma convergência, um momento vivido. Uma ligação interna, uma impressão que é capaz de trazer em si uma união de todos os elementos”. Essa impressão não se limitaria, segundo ele, a um ato contemplativo, pois a paisagem não é, em sua essência, composta pelo que é visto, o homem encontra-se inserido nela, ela constitui o lugar de luta pela vida em que o homem manifesta suas vontades, enfim é a base social do ser.
Tuan (1983, p.125) corrobora as idéias de Dardel (1990) ao definir paisagem como a ordenação da realidade em diferentes ângulos:
A visão vertical encara a paisagem como um domínio, uma unidade de trabalho, ou sistema natural, necessário para a vida humana em particular e para a vida orgânica em geral; a visão lateral encara a paisagem com um espaço onde as pessoas agem, ou um cenário para as pessoas contemplarem.
Mais recentemente, paisagem reaparece como conceito importante no estudo da geografia da percepção. Na visão dessa geografia, há um conjunto de signos que estruturam a paisagem, segundo o próprio sujeito (CAVALCANTI, 1998). Assim, a paisagem seria: “uma composição mental resultante de uma seleção e estruturação subjetiva a partir da informação emitida pelo entorno, mediante o qual este se torna compreensível ao homem e orienta suas decisões e comportamentos” (MENDOZA, 1988, p132).
Enfim, Relph (1979) enfatiza que as bases fenomenológicas da realidade geográfica estão ancoradas em três pilares: espaço, paisagens e lugares, na medida em que são diretamente experienciados como atributos do mundo vivido. As relações com essas experiências e entre os três pilares foram denominadas de “geograficidade” (geographicité) por Dardel (1990, p. 7-8) que, assim, tece considerações sobre esse vocábulo: “ um relacionamento definido liga o homem à terra – uma geograficidade do homem que é o seu modo de existência e seu destino”.
Assim, cremos que a geograficidade se refere aos diferentes modos através do quais sentimos e conhecemos os diferentes ambientes, refere-se ao nosso relacionamento com os espaços e paisagens construídas e naturais:
Geograficidade é, assim, um termo que encerra todas as respostas e experiências que temos dos ambientes nos quais vivemos, antes de analisarmos e atribuirmos conceitos a essas experiências. Todos devem conhecer lugares, responder aos espaços e participar na criação (ou destruição) da paisagem, meramente para ficar vivo; desta maneira a geograficidade é central nas experiências como, por exemplo, em admirar o pôr-do-sol ou cenário agradável, em conduzir um carro através das ruas da cidade, ou em escolher uma área na qual comprar uma casa. (DARDEL, 1990, p.9)
Fica claro, portanto, que qualquer trabalho fenomenológico da geograficidade revelaria seguramente não apenas uma riqueza de experiências pré-científicas, mas, também, uma riqueza de significados.
A realidade geográfica requer, desse modo, um envolvimento do indivíduo com suas emoções, seu corpo, seus hábitos. Quando os resultados dessas experiências são positivos e agradáveis dizemos que são experiências de topofilia, mas quando são repulsivas, desagradáveis e negativas, elas são experiências topofóbicas. E delas trataremos mais adiante.
Todo o aporte conceitual utilizado nesse item de estudo, apesar de representar apenas uma pequena fração dos estudos referentes a espaço, lugar e paisagem pelos fenomenólogos nos dá uma idéia da complexidade do tema. No entanto, ele é extremamente importante para a nossa investigação que busca contribuir para a compreensão dos aspectos topo-biofílicos presentes na exuberante paisagem rural, que se manifestam no convívio de estudantes e servidores da Escola Agrotécnica Federal de Uberlândia.
3 A NATUREZA EXPERIENCIADA: DA TOPOFILIA/TOPOFOBIA À