5.1 Password Attacks
5.1.4 Social Engineering
O acréscimo de novos objetos técnicos no território iria permitir às atividades industriais de geração de energia e de transportes um novo leque de possibilidades de organização. O território brasileiro se torna também mais atraente para as grandes multinacionais e, em vários ramos de atividade, corporações estrangeiras, grupos empresariais nacionais e Estado passam a atuar conjuntamente (EVANS, 1980).
No Brasil, essa nova base técnico-científica informacional permitiu a instalação das primeiras indústrias ligadas à produção de equipamentos para a automação bancária de nosso sistema financeiro. A partir do início dos anos 1970 passam a ser realizados pesados investimentos do Governo Federal para que fossem desenvolvidas empresas nacionais dinâmicas no ramo da automação bancária (FASSY, 1981; DIAS, 1995).
O fato é que o aumento das necessidades de circulação de dinheiro no território vai requerer também a renovação dos sistemas técnicos bancários, com a introdução de novos sistemas de objetos informacionais, como redes de computadores, de caixas eletrônicos, sistemas de transmissão de dados etc. Segundo Hindemburgo Pires, “o crescimento dos volumes de depósitos e de transações financeiras, a partir de meados dos anos 60, passou a requisitar a utilização da tecnologia dos CPD´s (Centros de Processamento de Dados)” (PIRES, 1997:5), por exemplo. Era o sinal de um novo período que se abria no sistema bancário brasileiro, um sistema que gradualmente adquiria importância maior no País.
Neste período, assevera Leila Dias, “o poder dos bancos cresce de maneira impressionante”(DIAS, 1995:106). Um dos elementos que aumentou a importância do sistema bancário no comando dos usos do território brasileiro foi justamente a evolução contínua da utilização de modernas técnicas bancárias. Com esta evolução tecnológica e organizacional, os atores financeiros tornam-se mais eficientes – aumentando o desempenho de sua rede de drenagem de recursos no território nacional – assim como é possibilitado o controle mais centralizado do sistema, por um número menor de atores.
No que diz respeito ao processo de evolução dos sistemas técnicos bancários para este período, podemos dividi-lo em quatro principais fases67:
1ª. Fase (1965-1970): gênese da automação bancária
Do ponto de vista do funcionamento das agências, as formas tradicionais de contabilidade (manuais, escritas) são gradualmente substituídas pela utilização de cartões e máquinas de contabilizar, que permitem uma maior agilidade no “fechamento das contas” diário dos bancos. Essas novas formas de organização do trabalho bancário possibilitavam ainda uma redução dos custos do processamento das informações. O grande número do aumento dos depósitos e das transações financeiras exigia objetos técnicos mais sofisticados, que dessem conta dessa velocidade e quantidade inaudita de informações e recursos que o sistema financeiro passaria a receber68.
Neste subperíodo, pode-se dizer que havia duas fases no processamento de dados por parte dos bancos: numa primeira fase, os saldos das contas eram relacionados em listagens nas agências, e modificados (se necessário) durante o expediente, sem preocupação contábil. Após esse processo, os Centros de Processamento de
67 Esta subperiodização foi estabelecida principalmente através da análise dos trabalhos de André Accorsi
(1990) e Hindemburgo Pires (1997).
68 “São os enormes volumes de lançamentos na conta depósito, surgidos após 1964 que exigiriam a criação
dos centros de processamento de dados (CPD´s). O processamento ocorria durante a noite para que no dia seguinte as agências pudessem abrir com o saldo do cliente atualizado”(ACCORSI, 1990:34).
Dados (CPD´s) eram alimentados nos períodos noturnos, “tentando centralizar as informações de todas as agências”(ACCORSI: 1990:34).
No que diz respeito aos fluxos de informações entre as unidades de cada rede bancária, podemos dizer junto de Hindemburgo Pires (1997:3) que, “as informações e decisões eram centralizadas em CPD´s e grandes mainframes, instalados de modo preferencial nos centros de gestão territorial” que, nesta época, eram basicamente São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. Vale destacar ainda que as instituições financeiras utilizavam neste período a rede nacional de Telex para garantir a transmissão de informações entre suas agências.
2ª. Fase (1970-1976): A introdução dos computadores nos sistemas de ação bancários
Neste subperíodo os próprios agentes do sistema financeiro (principalmente os grandes bancos nacionais) são chamados a investir no desenvolvimento de sistemas técnicos que permitissem um processamento cada vez mais informatizado dos dados de cada instituição. Como nos lembra Leila Dias (1995:114 e seguintes), o Banco Brasileiro de Descontos (Bradesco) é uma das instituições financeiras nacionais que investe fortemente neste processo de automação.
O principal objeto técnico que vai permitir uma multiplicação enorme das possibilidades do “fazer bancário” é o computador, que cada vez mais se torna parte essencial das instituições financeiras. Como lembra André Accorsi (op. cit:35), “o computador passou a ser o único a processar as informações, integrando contabilmente as agências, abandonando-se o sistema de controle de cartelas nas agências”69.
69 A grande vantagem da introdução do computador, no que diz respeito à organização bancária, é o fato dela
permitir em definitivo a substituição dos métodos contábeis mais antigos, passando a prevalecer o que Accorsi denominou de “órgãos para-contábeis”, isto é, parcelas das atividades bancárias muito mais relacionadas com o controle da informação, que se produzia em níveis cada vez mais vultosos. A modernização concomitante dos sistemas de objetos utilizados pelos bancos permitiu ainda uma eficiência jamais vista na manipulação e transmissão geográfica destas informações, evitando “a distorção criada pela distância entre a origem do fato e seu registro efetivo na data correta”(ACCORSI, op. cit.: 35).
3ª. Fase (1976-1980): A descentralização do processamento das informações bancárias
A evolução dos sistemas de telecomunicações possibilitou também uma nova organização das operações internas aos bancos. Neste terceiro subperíodo da automação bancária, as ligações dos Centros de Processamento de Dados (CPD´s) dos bancos com sua rede de agências já “era feita por linha privada da telefonia”(ACCORSI, 1990:35).
As infra-estruturas técnicas instaladas pela EMBRATEL no território trazem novas possibilidades organizacionais para os agentes financeiros. Fala-se numa “descentralização do processamento das informações” pois são instalados minicomputadores em várias agências no interior dos principais estados, de acordo com a quantidade de informações geradas por cada região (PIRES, 1997:3). Podemos destacar ainda que essa descentralização tinha como principal característica a “digitação remota, a transmissão do dado digitado, o processamento centralizado, a transmissão do dado processado e impressão remota dos dados necessários à abertura da agência”(ACCORSI, 1990:35).
Essa evolução da utilização da nova “base material das telecomunicações” (SANTOS e SILVEIRA, 2001:73) permitiu ainda que os bancos se regionalizassem de maneira distinta dos padrões anteriores. Se numa determinada área de atuação de um banco houvesse a geração de um número grande de informações processáveis, criava-se um “centro de processamento regional”, para tornar mais eficiente a ação da instituição financeira em questão. Este processo passa a se dar também na escala das próprias agências70.
70 “Basicamente havia duas opções na descentralização: a nível de região e a nível de agência. No primeiro caso
criaram-se sub-centros de processamento que passaram a remeter dados consolidados para o CPD, que tinha a função maior, gerencial e de consolidação da contabilidade. No segundo caso tínhamos agências, de grande movimento, com equipamento de pequeno porte transmitindo informações consolidadas ao CPD”(ACCORSI,
4ª. Fase (início em 1980): Processamento instantâneo das informações bancárias
Este quarto subperíodo expressaria, por fim, uma maior unicidade do sistema bancário brasileiro, além de representar um aumento expressivo das possibilidades de transporte de informações. A instantaneidade, por seu turno, aumenta ainda a velocidade da circulação do dinheiro no território, imprimindo nos lugares conectados às redes bancárias novos ritmos de funcionamento.
A partir do ano de 1980 os “processamentos em lote dos dados” (chamado “processo batch”) são substituídos pelo processamento on-line das informações. Em todas as agências bancárias são instalados terminais de computadores para a entrada de dados dos clientes que, por sua vez, alimentariam ininterruptamente o CPD das matrizes. Os terminais, portanto, passam a oferecer aos clientes também instantaneamente informações atualizadas sobre suas contas, aumentando a possibilidade de consulta e manipulação dos valores trabalhados com os bancos.
Vale destacar ainda que o processamento “on-line” permitiria a eliminação da chamada “flutuação dos valores”, isto é, a alteração da riqueza em poder dos bancos pelo processo inflacionário da época. A “flutuação” é eliminada naturalmente com a introdução deste processamento, “uma vez que o lançamento contábil completo se dava no momento em que o fato ocorre, com o aproveitamento direto da digitação realizada na agência” (ACCORSI, 1990:35).
As principais novidades organizacionais e tecnológicas deste subperíodo seriam as seguintes:
a) é aumentado sensivelmente o porte dos sistemas técnicos em termos de capacidade de processamento das informações bancárias. Essa maior dependência da organização do sistema bancário em relação às novas técnicas informacionais vai criar também uma demanda maior por serviços técnicos, executáveis somente por pessoal qualificado para operar e prestar manutenção aos sistemas instalados;
b) passa a ser possível um controle mais centralizado das organizações bancárias, por parte de suas estruturas dirigentes. A centralização das informações conseguida com a evolução dos sistemas técnicos bancários permite uma visão global sobre os processos de cobrança, de controle das contas-corrente, dos depósitos, de controle de custos, antes impossíveis. Ao passo que ocorre uma descentralização das informações e das funções de cada agência, concretiza-se a possibilidade de comando/tomada de decisões centralizadas a partir delas;
c) assistimos a uma “aceleração dos ritmos econômicos” (DIAS, 1995:106) do território, sob hegemonia da temporalidade do sistema financeiro. As instituições bancárias ganham esta primazia pois passam a trabalhar com uma nova concepção de tempo, instantânea e interdependente. Nas palavras de André Accorsi (op. cit.:36), as ações dos bancos passam a ser “temporalmente interdependentes”, já que esta instantaneidade coloca os diferentes agentes de cada instituição em contato mais direto uns com os outros.
Estas são, portanto, as características basilares do processo de transformação dos sistemas técnicos e das formas de organização do trabalho nos bancos, permitido pela chamada “automação bancária”. Apesar de todas as instituições financeiras se engajarem neste processo, as diferenças se darão na capacidade de cada ator em acompanhar a internalização destes novos dados do período técnico-científico informacional.
Vale lembrar ainda que, a par da política governamental voltada para a informatização da atividade bancária, o Estado brasileiro trabalhava também claramente para a diminuição do número de bancos operando no território, como nos lembram Ary Bouzan (1972) e Natermes Teixeira (2000). Esta “concentração bancária”, por sua vez, está diretamente relacionada com os novos conteúdos normativos do território instalados pelo que se convencionou chamar de “Reforma Bancária”, ocorrida nos anos de 1964 e 1965.
6.2. Os novos conteúdos normativos do território: a reforma bancária de