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Assistimos nas décadas de 1960 e 1970 um incremento sensível do processo de urbanização do território brasileiro. Fruto tanto do crescimento demográfico natural da população, quanto da atratividade que as cidades passam a exercer nas populações rurais, este incremento é ainda resultado do avanço do meio técnico- científico nas áreas rurais do país (SANTOS, 1993:35-47). A introdução de modernos objetos técnicos nos cultivos agrícolas (como veremos no item 5.2) aumenta as quantidades de capital e tecnologia no campo, dispensando parcelas grandes de mão-de-obra, que acabarão por migrar para áreas urbanas do espaço nacional.

A julgar pelos números envolvidos no processo de urbanização, vemos que de fato a década de 1960 é um momento de mudança no padrão de ocupação do

território: se em 1950 o índice de urbanização da população era de 36,16%, em 1960 ele passa a 45,5%, para chegarmos no ano de 1970 com 56,8% da população brasileira urbanizada (SANTOS, 1993:29).

Esta evolução dos conteúdos demográficos do território mostra uma concentração da população em pontos selecionados do espaço, isto é, nos meios urbanos. Para qualificarmos melhor este processo, porém, pareceu-nos ainda necessário chamar a atenção para dois outros fenômenos que balizaram a urbanização no período: a) a formação de cidades médias e b) a metropolização da vida no território (SANTOS e SILVEIRA, 2001:202 e seguintes)53.

Como notam Milton Santos e María Laura Silveira (2001), crescem com vigor nesse período ao menos três tipos de aglomerações no território: as “cidades locais” (com mais de 20 mil habitantes), as “cidades médias” (com mais de 100.000 habitantes) e as metrópoles (cidades com mais de 1.000.000 de habitantes). Porque é necessário chamar a atenção para essa nova forma de distribuição da população no espaço nacional?

Em primeiro lugar, é importante destacarmos o crescimento das cidades locais e médias neste período pois é nelas que novas funções urbanas são geradas; forma- se, por exemplo, um contingente considerável de postos de trabalho em atividades burocráticas, voltadas para as necessidades de organização administrativa local (prefeituras, autarquias). Com relação às atividades privadas, surgem com mais força as chamadas “profissões liberais”, isto é, um contingente de trabalhadores voltados para a prestação de serviços médicos, de assistência jurídica, na área da construção civil etc. A chamada “classe média”, isto é, esses contingentes de população tipicamente urbanos, vendedores de sua força de trabalho, é que vai

53 Data deste período também a expansão do processo que a geógrafa Maria Adélia de Souza qualificou de

verticalização das metrópoles brasileiras. Esta expansão deu-se principalmente através da ação dos “incorporadores urbanos”, com suas variadas alianças com o Estado nas dimensões nacional e municipal. A partir deste período, “produzir cidades, metrópoles ou megalópoles passou a ser um grande negócio”(SOUZA, 1994:236).

impulsionar demandas por novos consumos, bastante vinculados ao incremento da industrialização, e do reforço do próprio processo de urbanização.

Para o geógrafo Milton Santos (1993:73), é importante também destacar o processo de formação das cidades locais e médias do país nesse período pois, nelas, os seguintes processos passam a compor a reprodução cotidiana da vida das pessoas:

1) São expandidas e diversificadas as necessidades de consumo;

2) São elevados os níveis de renda da população, em comparação ao que ocorria no meio rural;

3) São criados e difundidos nestes centros urbanos novos meios e novas infra- estruturas de transporte;

4) Ocorre uma divisão do trabalho mais acentuada, com aumento da produtividade dos processos econômicos, e maior excedente de riqueza gerado;

Processo semelhante, em escala maior, se dá com as chamadas cidades milionárias (com mais de 1.000.000 de habitantes), ou metrópoles. Na década de 1960 elas eram apenas duas no território nacional (Rio de Janeiro e São Paulo), passam a cinco na década de 1970, e chegam a 10 nos anos 1980 (SANTOS, 1993; SANTOS e SILVEIRA, 2001). As metrópoles são também um fenômeno novo e importante para entendermos o território pois:

a) elas entretêm, na verdade, vários municípios em áreas contíguas, aumentando as necessidades de investimentos em órgãos de planejamento, em redes de transportes metropolitanos (trens urbanos, metrô, ônibus municipais e intermunicipais), entre outras infra-estruturas típicas de grandes aglomerações (SOUZA, 1988); e

b) nas metrópoles é que a riqueza e a pobreza também passam a conviver cada vez mais próximas, com repercussões em diversos aspectos do cotidiano urbano (SILVEIRA, 2004; 2005); nas atividades comerciais (o surgimento dos “camelôs”, ao lado dos grandes “shopping centers”); nas atividades de transformação (surgem tanto

grandes indústrias modernas, quanto uma dispersão enorme de pequenas fabriquetas para os consumos básicos das populações de menor renda54); na prestação de serviços de uma maneira geral (escolas públicas, privadas, universidades, postos de saúde, hospitais com serviços e equipamentos “raros” 55 etc.).

Este quadro, ainda que sumariamente descrito, nos dá uma idéia de como o tamanho e a distribuição da população têm repercussões diretas na organização social e econômica do espaço geográfico. O que se procurou destacar é que o incremento da vida urbana do território aumenta todos os tipos de consumo possíveis: consumos dos setores empresariais (por insumos, financiamentos),

estatais (consumos materiais e imateriais para a prestação eficiente dos serviços urbanos), e ainda os consumos individuais e familiares. Nas palavras do geógrafo Milton Santos, difundem-se novas formas de consumo consumptivos como

produtivos (1993:50).

Se há uma nova geografia urbana, há também uma nova geografia agrícola em gestação no território. Além de ser um elemento decisivo para o incremento do próprio processo de urbanização, a profusão de novos objetos técnicos no meio rural cria automaticamente novas necessidades de crédito para os sistemas de ação agrícolas, como veremos.

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