Dadas as novas técnicas de produção no campo, fruto da utilização de uma quantidade maior e mais diversificada de objetos e sistemas técnicos (maquinário, insumos agrícolas, mão-de-obra especializada etc.), parece-nos oportuno utilizar o termo “regiões agrícolas”, ao invés de “regiões rurais” (SANTOS, 1993) para
54 Para uma análise detalhada da coexistência de grandes e pequenas empresas no território brasileiro (no caso,
relacionada ao mercado de refrigerantes), ver Flávia Grimm (2002). Edison Bicudo Jr. (2006), por seu turno, traz uma análise dos circuitos espaciais da indústria farmacêutica. Marina Montenegro (2006) analisa ainda a evolução do chamado “comércio ambulante” (camelôs) na cidade de São Paulo.
55 Sobre a distinção entre serviços comuns e raros, ver o importante texto de Jean Labasse e Michel Rochefort
(1965). Para os autores (LABASSE e ROCHEFORT, 1965:57), um “serviço raro” seria aquele vinculado a uma “extrema especialização”, como é o caso do comércio de objetos de arte, salas de concerto para música clássica, hospitais com serviços de neurocirurgia, entre outros.
entendermos os novos usos do território passíveis de serem realizados, a partir da introdução desses sistemas técnicos no campo. Tanto há cidades que se voltam para seus respectivos entornos agrícolas, quanto há regiões agrícolas que se organizam para o abastecimento de seus respectivos centros urbanos. Esta é uma nova realidade, diferente daquela existente antes da expansão do meio técnico- científico no interior do território brasileiro (SANTOS, 1993).
Wladimir Lênin (1907, 1974) já notara em seu clássico estudo sobre a difusão do capitalismo na Rússia como passa a funcionar o meio agrícola em países que conhecem uma modernização de seus aparatos produtivos. Simultaneamente, vemos um aumento das quantidades colhidas (com mais rapidez que a própria área plantada), uma diminuição da população agrícola necessária para manter o sistema de ações produtivo, assim como uma elevação da “transformação técnica dos produtos agrícolas”(LENIN, 1907, 1974:235). Estes são alguns dos indicativos deste processo que em geografia pode ser entendido como a “cientifização da agricultura” (SANTOS, 1993; ELIAS, 1996; SILVEIRA, 1996).
Também o geógrafo Daniel Faucher (1953) atenta para o que chamou de “novos tipos de cultivo” permitidos – e mesmo catalisados – pela introdução de objetos técnicos nos processos agrícolas. Dado o aumento da demanda por produtos voltados para usos industriais, cada vez mais os cultivos tradicionais dão espaço para plantações que sirvam de insumo para processos de transformação dos mais variados tipos: “plantas têxteis” (como o algodão); oleaginosas; “plantas açucareiras”, entre outras. Assim, cultivos voltados para as necessidades tradicionais das regiões agrícolas dos países são cada vez menos priorizados (FAUCHER, 1953:269 e seguintes).
Um índice confiável para entendermos melhor esta “difusão espacial de inovações” (HÄGERSTRAND, 1953) ou “expansão do meio técnico-científico” no meio agrícola (SANTOS, 1993) é dado, segundo a geógrafa Soraia Ramos (2001), pela área artificialmente irrigada do território. Segundo a autora, apesar dos projetos
deste tipo terem sido tentados já no início do século XX (de forma pontual), é a partir dos governos militares instalados em 1964 que a irrigação se torna uma política sistematizada, fruto da necessidade de desenvolvimento do espaço agrícola nacional em moldes “técnico-científicos”. A tabela a seguir nos dá uma idéia mais próxima deste movimento do território:
Tabela 7: Brasil: Evolução da Área Irrigada no Território Brasileiro, por Grandes Regiões (em ha) (1960-1985)
1960 1970 1985
Total % Total % Total %
Norte 67 0,01 5.420 1,0 43.242 2,20 Nordeste 52.772 11,43 115.971 14,0 366.831 18,71 Centro- Oeste 2.027 0,44 14.579 2,0 63.220 3,22 Sudeste 116.285 25,19 185.183 23,0 599.564 30,59 Sul 290.399 63,00 474.663 60,0 886.963 45,25 BRASIL 461.100 100,00 795.815 100,0 1.959.824 100,00
Fonte: Censos Agropecuários (IBGE) - Adaptado de RAMOS, Soraia (2001:378)
Como podemos observar na tabela 7, a partir da década de 1960, houve uma aceleração da utilização dos sistemas técnicos voltados para a irrigação dos cultivos no território: de 1960 para 1970, a área irrigada na Região Norte cresce quase 100 vezes. No Centro-Oeste, este índice é também expressivo, já que ali o uso destes modernos sistemas aumenta em cerca de 619%. No Nordeste, sua utilização é praticamente triplicada, e nas regiões Sul e Sudeste (onde já havia uma utilização mais freqüente de métodos agrícolas modernos), as quantidades quase dobram.
Este é, portanto, um índice de modernização do espaço agrícola brasileiro, que permite ver como novos sistemas de objetos se instalam nas áreas produtivas, aumentando os índices de produtividade das regiões agrícolas. Esta incorporação de ciência e técnica nos circuitos gera mais excedentes nas regiões, fato que terá um duplo impacto no sistema bancário: a) serão necessários cada vez mais recursos creditícios para o financiamento e a manutenção dessas infra-estruturas; e b) cada vez mais será necessário também no interior do país a abertura de agências, para a realização dos depósitos desses excedentes dos produtores agrícolas.
O mesmo raciocínio pode ser feito para outros importantes sistemas técnicos que vêm sendo introduzidos com força no espaço agrícola brasileiro, desde meados da década de 1960: os tratores e implementos agrícolas. Vejamos a tabela a seguir, que nos dá a evolução da área cultivada, o número de tratores existentes em território nacional e o “índice de tratorização” do país (relação entre a área de cultivo/número de tratores):
Tabela 8: Brasil: Evolução da Frota de Tratores e do Índice de Tratorização do Território Brasileiro (1960-1980)
1960 1965 1970 1975 1980
Área de Cultivo (em mil ha)
25.673 31.637 34.912 41.811 47.641
Número de Tratores 62.684 76.691 97.160 273.852 480.340
Índice de Tratorização 410 413 359 153 99
Fonte: Anfavea e Censos Agropecuários, Vários Anos; Adaptado de COGO, Carlos (2006) extraído de http://www.agr.unicamp.br/ em 03/10/2006
Podemos notar também que, a partir da década de 1970, cresce substancialmente o número de tratores utilizados no meio agrícola brasileiro assim como, por conseqüência, aumenta também a quantidade de tratores utilizados por hectare56. A modernização do espaço agrícola, portanto, é um processo decorrente desta complexificação dos insumos utilizados na agricultura, que altera ainda os sistemas de ações que cuidam dos cultivos. Como nos lembra a geógrafa Rosa Ester Rossini (1988:123), “com o processo de modernização que ocorreu no período, a terra foi reduzida à sua condição de meio de produção, e expulsou o trabalhador do campo”; este é também um dos resultados desta racionalização do espaço agrícola brasileiro.
56 Duas ilações podem ser feitas a partir destes dados: a) com a introdução dos tratores no meio agrícola,
podemos dizer que diminui a velocidade de expansão da área agricultável, já que aumentam os índices de produtividade das áreas já cultivadas; ocorre, como demonstraram Milton Santos e María Laura Silveira (2001:132), uma diminuição da “arena de produção”, com aumento da “área de produção”. Nas palavras desses autores: “Estradas, silos, frigoríficos, portos com terminais de uso exclusivo e tantos outros objetos indicam a força dos capitais fixos no território. Mas esse arranjo de objetos não funciona sem um acréscimo contínuo de máquinas de plantio e colheita, tratores, sementes híbridas e fertilizantes, isto é, um capital constante (orgânico) que, por sua vez, precisa de energia e informação, que são também normas (calendários agrícolas, instrutivos de utilização dos produtos etc.). A provisão de todos esses insumos e a presença dos especialistas para realizar um trabalho extremamente dividido aumenta a necessidade de movimento. Cresce a espessura dos fluxos de produtos, insumos, pessoas, ordens e, sobretudo, dinheiro” (SANTOS e SILVEIRA, 2001:132).
Esse processo de racionalização, que Max Weber denominaria como um enorme “desencantamento do mundo” diz respeito principalmente ao aumento da racionalidade técnica, imposta aos ritmos de trabalho nas áreas agrícolas. As colheitas – e seu sucesso – passam a ser creditadas a ações calculadas, planejadas intencionalmente, e não mais aos desígnios “encantados”, “mágicos” dos elementos climáticos e sazonais dos lugares; este é um dado iniciado com força no período que por ora nos detemos.
Mas o que importa destacar com mais ênfase, para efeito de nosso estudo, são as conseqüências deste acréscimo de novos sistemas de objetos e de ações em sua relação com as novas necessidades de financiamento. Como lembram Milton Santos e María Laura Silveira (2001), as áreas cultivadas a partir deste território mais integrado e cientifizado exigem também somas maiores de recursos financeiros para que as estruturas se mantenham funcionando:
“(...) assim, a economia e o território não se organizam nem funcionam sem grandes somas de dinheiro nas suas formas de crédito, empréstimos, numerário vivo, financiamentos, hipotecas, commodities, seguros e tantos outros instrumentos. Cria-se dessa forma uma dependência do sistema financeiro, que acaba invadindo todas as etapas da produção em sentido amplo, pois todas “precisam” dele e todas constituem modos de acumulação de mais-valia.” (SANTOS e SILVEIRA, 2001:132).
Os novos conteúdos agrícolas do território vão assim chamar a necessidade de novas operações financeiras, por parte de praticamente todos os atores envolvidos com as atividades agrícolas modernas. Maria da Conceição Tavares (1978:133) lembra também que na agricultura que se inicia a partir dos anos 1960, “sempre que eram utilizadas técnicas mais intensivas que exigissem insumos não- convencionais ou equipamentos, a demanda adicional de recursos se exercia sobre as mesmas fontes supridoras de crédito” (...),”em particular o Banco do Brasil, que possui a maior rede de agências de crédito agrícola”.
A essa expansão do fenômeno do crédito para além das áreas urbanas do território, incorporando as finanças nos circuitos de produção agrícola, o geógrafo
Milton Santos (1993:42 e ss.) qualificou de “creditização do território”. A própria difusão do assalariamento, assim como as novas necessidades de aquisição de maquinário e insumos de todos os tipos trazem a “necessidade maior de capital adiantado, o que vai explicar a enorme expansão do sistema bancário”(SANTOS,
op. cit:42) no território. Daí sua creditização.
Este fenômeno pode ser melhor entendido quando analisamos os índices de acesso ao crédito rural por parte dos produtores agrícolas neste período, que crescem em proporções significativas. Para o intervalo 1969-1976, o crescimento do crédito é de cerca de 23,8% ao ano, “várias vezes superior ao crescimento real do produto agrícola, situado em torno de 5,5% a.a.”(DELGADO,1985: 79).
Do ano de 1969 até o ano de 1980, a evolução da concessão de crédito rural assim se comportou no território brasileiro:
Tabela 9: Brasil: Evolução do Crédito Rural Concedido e Outros Indicadores (em milhões de cruzeiros de 1977) (1969-1890) 1969 1972 1975 1978 1980 Crédito de custeio 25.873,8 29.610,7 79.480,2 80.437,0 113.720,9 Crédito de investimento 15.649,8 23.522,7 56.683,5 42.122,4 37.700,9 Crédito comercial 14.176,8 24.384,5 45.172,5 46.108,5 49.558,9 Crédito rural total (índice de valor real) 100,0 170,49 433,76 403,45 481,11
Fonte: Elaboração própria a partir de DELGADO (1985:81).
As informações da tabela 9 nos permitem concluir que aumenta sensivelmente a
financeirização dos circuitos agrícolas, com aceleração visível do processo na passagem do ano de 1972 para o ano de 1975. Como demonstra o “índice de valor real” (que correspondia a 100 no início da contagem da tabela), saltamos de um valor próximo aos 170 em 1972 para nada menos que 433 no ano de 1975.
Os processos acima descritos, destarte, nos ajudam a compreender como a alteração dos conteúdos agrícolas do território é também responsável por novas necessidades de crédito. Estas novas necessidades, por seu turno, viriam a requerer também uma nova organização do sistema bancário nacional, como veremos no item 6.2.
Concomitantemente ao processo de urbanização e de creditização do meio agrícola, crescem também as necessidades de integração das diferentes regiões produtivas, que se formavam a partir de uma nova divisão territorial do trabalho. Ungidos pela “Doutrina da Segurança Nacional” (COUTO E SILVA, [1967]1981), os diversos sistemas de ação do Executivo Federal imprimem políticas públicas de integração e desenvolvimento do território, fundadas principalmente na modernização dos sistemas de movimento e de telecomunicações, além da expansão de certos sistemas de engenharia (industriais, energéticos e de geração de tecnologia) nacionais.