A configuração territorial brasileira na década de 1990 tem já parcela considerável de sua extensão composta por um meio técnico-científico informacional bastante desenvolvido. Este tipo novo de meio geográfico ocorre principalmente na Região Concentrada do território, como vimos, mas também em seu litoral, e nos belts e
fronts agrícolas modernos do interior do País (SANTOS e SILVEIRA, 2001). Estes novos conteúdos, ricos em técnica e informação, perenizaram-se em grande parte em função do esforço realizado pelos sucessivos planos de integração material e imaterial do território, como vimos no capítulo 5.
Um exemplo desse avanço atual na incorporação da variável “informação” ao território é dado pelos “serviços telemáticos” (CASTILLO, 1999) que passam a ser oferecidos por empresas de telecomunicações, ampliando as possibilidades de circulação de mensagens, imagens, dados, por praticamente toda a extensão do territorial nacional. Também a “agricultura cientifizada”, que tem na informação um de seus insumos principais, é que permitiu a incorporação de várias regiões pouco habitadas, numa divisão territorial do trabalho em moldes capitalistas contemporâneos (SANTOS e SILVEIRA, 2001:118 e ss.).
De maneira esquematizada, podemos dizer que os dois principais componentes desta base técnica atual são as “redes de informação” (DIAS, 1996) e os chamados “sistemas técnicos orbitais” (CASTILLO, 1999). A conjugação destes dois novos componentes do espaço nacional é que permite uma eficiência maior de parte significativa das ações de grandes empresas no território.
Estes novos sistemas de engenharia que aumentam a quantidade e a velocidade dos fluxos infomacionais no país a partir da década de 1990 aprofundam alguns processos iniciados na década de 1970. Leila Dias (1996:127) nos lembra que a rede TRANSDATA, por exemplo, aumentou a velocidade de transmissão de dados que era de 9.600 bits/segundo naquele período, para 48 kilobits/segundo, no ano de 1990. O geógrafo Rubens Toledo Jr. (2002) nos chama a atenção para a difusão das redes de fibra ótica, principalmente na Região Concentrada do território brasileiro. As infra-estruturas instaladas recentemente ligaram principalmente as cidades de São Paulo/Rio de Janeiro/BeloHorizonte, aumentando a densidade informacional desta região que já era uma das mais dinâmicas em termos de sua dotação de sistemas de engenharia modernos91.
Duas das principais empresas atuantes na extensão das redes de fibra ótica no Brasil são:
1) Embratel: responsável pela instalação da rede em bases nacionais (une de São Luiz até Porto Alegre), e que possuía em 2002 cerca de 24 mil quilômetros espalhados, em redes interurbanas de comunicação deste tipo; 2) Eletronet: atualmente com cerca de 16.000 quilômetros de fibras óticas
instaladas, responde também pela interligação de importantes cidades da
Região Concentrada, com municípios das Regiões Nordeste e Centro-Oeste do país.
As ações destas empresas são dois exemplos de como novas redes-suporte foram incorporadas ao espaço brasileiro, permitindo que outras formas geográficas e organizacionais se instalassem.
Também no que diz respeito às redes de telefonia, os avanços quantitativos são de grande monta na década de 1990. Segundo dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), a telefonia fixa passa de 10,3 milhões de aparelhos instalados
91 O desenvolvimento expressivo da rede de fibras óticas nesta região levou a mesma a ser conhecida também
como “Triângulo de Cristal”, em referência ao vidro, um dos principais insumos utilizado na confecção das fibras (TOLEDO Jr., 2002).
no ano de 1990 para nada menos que 38,3 milhões no ano de 2000; em 2004, o número de telefones no território é de 42,3 milhões. Outra novidade digna de nota passa a compor a realidade de nossa rede de telecomunicações no mesmo período: a telefonia celular. De 755.200 linhas existentes no ano de 1994, o Brasil passa a contar com nada menos que 23,2 milhões no ano de 2000. Um crescimento, portanto, ainda impressionante: num período de apenas seis anos, o número de telefones celulares aumenta em 2.972% (ANATEL, 2001:18). Ao final de 2006, a quantidade de aparelhos em uso é ainda mais surpreendente: são nada menos que 99.918.621 telefones deste tipo fazendo parte do moderno sistema de telecomunicações do território (ANATEL, 2006).
Além desses sistemas técnicos mais banalizados, dos quais boa parte da população brasileira faz uso, cresceram também no período alguns circuitos que possibilitaram uma melhor performance para as empresas instaladas no território: as chamadas “redes corporativas” (DIAS, 1995; CASTILLO, 1999). Estas redes englobam aqueles conjuntos de linhas e pontos de geração de informação que são utilizados com exclusividade por empresas mais modernas, nacionais ou globais. Elas podem também ser consideradas como “redes hegemônicas” (SILVEIRA, 1996), já que se prestarão ao uso por uma parcela muito pequena e elitizada das corporações privadas atuantes no território brasileiro.
Conforme buscamos mostrar no capítulo 5, a partir do início da década de 1980 a Empresa Brasileira de Telecomunicações (EMBRATEL) disponibiliza o sistema
Transdata para ser utilizado pelas grandes firmas, na veiculação de mensagens e informações internas. Também oferece, no mesmo período, a Rede Nacional de Comunicação de Dados por Comutação de Pacotes (RENPAC), esta baseada na infra-estrutura telefônica já instalada (DIAS, 1995; 1996). Pareceu-nos importante destacar estas duas modalidades de “serviços telemáticos” que são incorporados no espaço nacional, pois eles permitem novas formas de uso do território pelas grandes empresas, em particular pelos bancos aqui instalados. Como nos lembra também Castillo (1999:186),
“Percebemos que o RENPAC e o TRANSDATA são sistemas que, além de formar uma vasta rede de comunicação de dados do território, ainda permitem a conexão destas redes com redes similares de abrangência mundial. Possibilitaram a construção das primeiras redes eficientes de comunicação de dados no território brasileiro, permitindo a expansão territorial das empresas, sobretudo bancos, e contribuindo largamente para o aumento exponencial de fluxos informacionais (ordens, comandos, controle, acesso a banco de dados etc.) entre as principais cidades de um país de dimensões continentais, inaugurando os serviços telemáticos no Brasil”.
Através da descrição de alguns dos sistemas técnicos informacionais que passam a ser parte constitutiva do espaço nacional, podemos entender um pouco melhor como se torna possível uma maior centralização das atividades econômicas desenvolvidas no território, assim como são aumentadas as formas de ligação da economia nacional com a economia mundial. Como lembra Barney Warf (2006:1), tanto as tecnologias dos satélites, quanto as das fibras óticas aumentaram o poder das grandes empresas globais, assim como catalisaram o processo de “desregulação” pela qual passam as economias nacionais, desde meados dos anos 1980.