No texto Codificação/Decodificação, Stuart Hall (2003) apresenta o processo de comunicação como um espaço de produção, apropriação e reprodução de sentidos, no qual a recepção tem papel ativo, pois além de consumir, também produz sobre o que consome. O texto de Hall dialoga – em seus exemplos – com a produção televisiva, usando referências e direcionando seus argumentos para esta mídia. No entanto, ao aplicar este texto para a
Internet, pode-se perceber claramente os movimentos de apropriação e reprodução de significados por parte da recepção. No ambiente online, o público pode se tornar produtor de conteúdos midiáticos e a leitura de textos – com os quais teve contato – vão além de se tornarem práticas sociais, mas promovem a criação de novos conteúdos midiáticos.
Neste meio superlotado de conteúdos que se multiplicam diariamente, espaços como
YouTube oferecem um ponto de disseminação de vozes e discursos, em que qualquer usuário pode montar seu canal e expor seus pensamentos para toda a rede. E isso pode ocorrer não apenas o YouTube, mas todo ambiente web é propício para as trocas simbólicas, de modo que é praticamente impossível estar na rede e não ser afetado pelos discursos que a permeiam. Isso se dá, principalmente quando se é usuário das redes sociais (YouTube, Facebook, Twitter etc.) que possuem recursos de recomendação de conteúdos, fazendo-os aparecer em sua página pessoal.
Desde modo, os produtores do Porta dos Fundos, ao perceberem os conteúdos do cotidiano que ocupam intensamente a rede, são também receptores. Seus esquetes, são constituídos por movimentos de decodificação e codificação. Ao se apropriar dos conteúdos e significados de discursos e imagens presentes nas redes ou na grande mídia, eles realizam o processo de leitura e decodificação destes conteúdos. Ao organizar sua narrativa segundo suas relações com esses conteúdos, eles são novamente codificados e postos ao alcance do público, que segue com o movimento espiral de produção-consumo-produção, conforme será apresentado a seguir.
Apesar de parecer simples, estes processos (codificação/decodificação) envolvem outros elementos, considerados por Hall, que precisam ser mais bem delimitados e explicitados, para então buscar-se o entendimento da relação dos conteúdos do Porta dos
Fundos com o cotidiano social em que se insere.
Ao contrário de muitos modelos, que sugerem o processo comunicativo de forma linear e em momentos separados (produção–emissão–recepção), mas dependentes entre si, Hall (2003, p. 365) propôs pensar este processo “[...] em termos de uma estrutura produzida e
sustentada através da articulação de momentos distintos, mas interligados – produção, circulação, distribuição/consumo, reprodução”, ou seja: o processo apresentado como “uma ‘estrutura estruturada de dominância’, sustentada através da articulação de práticas conectadas, em que cada qual, no entanto, mantém sua distinção e tem sua modalidade específica, suas próprias formas e condições de existência”. Deste modo, o processo de comunicação aconteceria em partes específicas e relativamente autônomas, mas que se inter- relacionam e são interdependentes umas das outras, em um movimento que não se encerra quando a ‘mensagem’ chega ao receptor, mas que é realimentado.
A abordagem apresentada por Hall (2003, p. 365), “[...] homóloga à que forma o esqueleto da produção de mercadorias apresentada nos Grudrisse de Marx e em O Capital”, permite entender o processo comunicativo como um contínuo circuito – produção- distribuição-produção – em que seja destacado e analisado cada momento do processo e suas especificidades e elementos característicos, além de suas relações e influências nos demais, sabendo que cada momento não determina, tampouco garante a eficácia dos seguintes.
Entretanto, diferentemente dos produtos das indústrias tradicionais – que produzem carros, computadores, panelas etc. – o que se tem é a produção discursiva:
O ‘objeto’ de tais práticas é composto por significados e mensagens sob a forma de veículos-signo de um tipo específico, organizados, como qualquer forma de comunicação ou linguagem, pela operação de códigos dentro da corrente sintagmática de um discurso (HALL, 2003, p. 366).
No momento da produção/circulação as relações, práticas e aparatos da configuração do discurso engendram-se em veículos simbólicos que se moldam dentro das regras de “linguagem”, para então realizar a circulação do produto.
O processo, desta maneira, requer, do lado da produção, seus instrumentos materiais – seus “meios” – bem como seus próprios conjuntos de relações sociais (de produção) – a organização e combinação de práticas dentro dos aparatos de comunicação. Mas é sob a forma discursiva que a circulação do produto se realiza, bem como a sua distribuição para diferentes audiências. Uma vez concluído o discurso deve então ser traduzido – transformado de novo – em práticas sociais, para que o circuito ao mesmo tempo se complete e produza efeitos. Se nenhum “sentido” é apreendido, não pode haver “consumo”. Se o sentido não é articulado em prática, ele não tem efeito. (HALL, 2003, p. 366)
Para Hall (2003, p. 367), a abordagem proposta valoriza a independência e articulação de cada momento dentro do circuito, sendo necessário ao todo, mas sem garantir a execução do próximo ao qual se encadeia, pois cada qual possui suas próprias modalidades e condições de existência, podendo agir na ruptura e interrupção da passagem dos discursos, ou seja, do fluxo que a produção efetiva – reprodução – depende. Hall infere que a forma discursiva, então, está em “uma posição privilegiada na troca comunicativa e que os momentos de
‘codificação’ e ‘decodificação’, embora apenas ‘relativamente autônomos’ em relação ao processo comunicativo como um todo, são momentos determinados”.
Hall (2003, p. 367) prossegue e leciona que um dos momentos determinados é a forma-mensagem: necessária “forma aparência” do evento na sua passagem da fonte para o receptor. O processo de produção da forma-mensagem depende da modelagem de um acontecimento/discurso em um texto que será apresentado segundo regras de linguagem e as ideologias sociais e políticas que o envolvem.
A produção, nesse caso, constrói a mensagem. Em um sentido, então, o circuito começa aqui. É claro que o processo de produção não é isento de seu aspecto ‘discursivo’: ele também se constitui dentro de um referencial de sentidos e ideias: conhecimento útil sobre rotinas de produção, habilidades técnicas historicamente definidas, ideologias profissionais, conhecimento institucional, definições e pressupostos, suposições sobre a audiência e assim por diante delimitam a constituição do programa através de tal estrutura de produção. Além disso, embora as estruturas de produção da televisão originem os discursos televisivos, elas não constituem um sistema fechado. Elas tiram assuntos, tratamentos, agendas, eventos, equipes e imagens da audiência, ‘definições da situação’ de outras fontes e outras formações discursivas dentro da estrutura sociocultural e política mais ampla da qual são uma parte diferenciada. (HALL, 2003, p. 367)
Por outro lado, de acordo com Hall (2003, p. 367), o momento de consumo, ou recepção, da mensagem midiática também é parte do processo de produção, caracterizado como o ponto de partida para a concretização dos sentidos do texto. “Produção e recepção da mensagem televisiva não são, portanto, idênticas, mas estão relacionadas: são momentos diferenciados dentro da totalidade formada pelas relações sociais do processo comunicativo como um todo”. Neste sentido, para que a mensagem ‘provoque um efeito’ é preciso ser decodificada pelo receptor:
Antes que essa mensagem possa ter um ‘efeito’ (qualquer que seja sua definição), satisfaça uma “necessidade” ou tenha um ‘uso’, deve primeiro ser apropriada como um discurso significativo e ser significativamente decodificada. É esse conjunto de significados decodificados que “tem um efeito”, influência, entretém, instrui ou persuade, com consequências perceptivas, cognitivas, emocionais, ideológicas ou comportamentais muito complexas. (HALL, 2003, p. 369)
Os sentidos obtidos por meio da decodificação, então, são apropriados e transformados em práticas sociais: “em um momento ‘determinado’ a estrutura emprega um código e produz uma ‘mensagem’; em outro momento determinado, a ‘mensagem’ desemboca na estrutura das práticas sociais pela via de sua decodificação”. Hall (2003) sublinha que esta transformação de significados em práticas sociais
[...] não pode ser entendido em termos simplesmente comportamentais. Os processos típicos identificados na pesquisa positivista sobre elementos isolados – efeitos, usos e gratificações – são eles próprios ordenados por estruturas de compreensão, bem como são produzidos por relações econômicas e sociais, que moldam sua
“concretização” no ponto final da recepção e que permitem que os significados expressos no discurso sejam transpostos para a prática ou a consciência. (HALL, 2003, p. 370)
Assumindo que os momentos de codificação e decodificação são articulados, mas independentes – uma não depende do outro – e que o sentido construído pela decodificação pode se afastar completamente do pretendido no momento da codificação – não havendo qualquer correspondência –, Hall (2003, p. 370) propõe pensar nas várias articulações que podem ser combinadas e identifica “três posições hipotéticas a partir das quais a decodificação de um discurso” (televisivo) pode ser construída.
A primeira hipótese refere-se à combinação de posição hegemônica-dominante, na qual o receptor se apropria do sentido de um texto de forma direta e integral, e “decodifica a mensagem nos termos do código referencial no qual ela foi codificada” (p. 377.), operando dentro do código dominante. O código dominante é construído pela ordem cultural dominante, que busca impor suas classificações de mundo social, cultura e político, no qual um texto é elaborado segundo regras que buscam reforçar ou preferir um domínio semântico a outro, incluindo ou excluindo itens para que os sentidos estejam de acordo com os significados pretendidos. (HALL, 2003, p. 377)
A segunda hipótese é identificada como código negociado e é atravessada por contradições, pois carrega elementos de adaptação e de oposição: “[...] reconhece a legitimidade das definições hegemônicas para produzir as grandes significações (abstratas), ao passo que, em um nível mais restrito, situacional (localizado), faz suas próprias regras – funciona como exceções à regra”, ou seja, o receptor percebe o sentido dominante presente na codificação do texto, mas negocia sua interpretação segundo a maneira que seu entendimento conceber como conveniente. (HALL, 2003, p. 379)
Por fim, conforme Hall (2003, p. 379), opera-se o código de oposição, no qual o receptor pode compreender perfeitamente a codificação dos sentidos presentes em um discurso, mas decodificar a mensagem de modo globalmente contrário. “Ele ou ela destotaliza a mensagem no código preferencial para retotalizá-lo dentro de algum referencial alternativo”. A produção de significados na decodificação é realizada por meio da contestação, provocando a assimetria entre o conteúdo proposto e a sua apropriação.
Nem todo usuário de Internet que se apropria de sentidos, após a leitura dos códigos apresentados, o transforma em novo conteúdo que pode vir a circular na rede, seja por comentários, compartilhamentos ou produção de textos ou vídeos. Mas os que fazem, agem assim a partir das suas perspectivas em relação ao texto oferecido anteriormente. Ou do
conjunto de vários textos. Algumas narrativas do Porta dos Fundos apresentam claramente seu diálogo – leituras de outros textos – com assuntos demarcados e pautados pela mídia (como o esquete Cura, que debate um assunto discutido na mídia tradicional e nos meios alternativos, como as redes sociais) ou questões subjetivas, que não são pautas do momento, mas estão em constante debate na sociedade (como o esquete Princesa, que tem raízes nos discursos de gênero e comportamentos) apresentando seu modo de apropriar-se desses códigos e transformá-los em prática social. Portanto, para este trabalho, o Porta dos Fundos não é considerado apenas produtor – pois estar na rede infere em estar conectado aos outros nós da mesma, servindo como ponto de entrada e saída de informação, mesmo que em níveis diferentes de contatos –, mas também é um receptor dos conteúdos midiáticos ao seu redor, que visivelmente fazem parte de suas narrativas.
Ao falar a respeito da comunicação, apropriação de sentidos e vida cotidiana, Thompson (1998, p. 41) inicialmente critica os estudos de mídia que, ao terem como objeto aos textos da cultura midiática, apenas os estudam por influências estruturalistas e semióticas, “[...] sem referência aos objetivos e recursos daqueles que os produzem, por um lado, e às maneiras que são usados e entendidos por aqueles que os recebem, por outro lado”, deixando escapar da vista o contexto social de produção, circulação e recepção.
Thompson (1998, p. 42), então, expõe a importância de se pensar a recepção aliada ao cotidiano, atentando-se para a existência do caráter mundano da atividade receptiva, no qual entende-se que a atividade de recepção dos produtos da mídia é algo rotineiro, sendo considerada “[...] uma atividade prática que muitos indivíduos já integram como parte de suas vidas cotidianas”. O autor propõe que se veja a recepção como uma atividade
[...] prática pelas quais os indivíduos percebem e trabalham o material simbólico que recebem. No processo de recepção, os indivíduos usam as formas simbólicas para suas próprias finalidades. [...] Mesmo os indivíduos que tenham pequeno ou quase nenhum controle sobre os conteúdos das matérias simbólicas que lhe são oferecidas, eles podem usar, trabalhar e reelaborar de maneira totalmente alheias às orientações ou aos objetivos dos produtores. (THOMPSON, 1998, p. 42)
Ao considerar a recepção dos produtos da mídia como um processo hermenêutico, Thompson (1998, p. 44) a observa como um momento ativo e criativo, no qual “[...] o intérprete inclui uma série de conjecturas e expectativas para apoiar a mensagem que ele procura entender” que podem ser das ordens pessoais, sociais, culturais, políticas, históricas etc. Neste sentido, entende-se que as leituras da recepção variam de um indivíduo para o outro, de um contexto social para outro:
Como acontece com todas as formas simbólicas, o ‘significado’ de uma mensagem transmitida pela mídia não é um fenômeno estático, permanentemente fixo e
transparente para todos. Antes, o significado ou o sentido de uma mensagem deve ser visto como um fenômeno complexo e mutável, continuamente renovado e, até certo ponto, transformado, pelo próprio processo de recepção, interpretação e reinterpretação. (THOMPSON, 1998, p. 44)
Além disso, o autor sublinha que: “[...] ao interpretar as formas simbólicas, os indivíduos as incorporam na própria compreensão que têm de si mesmo e dos outros. Eles as usam como veículo para reflexão e autorreflexão, com base para refletirem sobre si mesmos, os outros e o mundo a que pertencem” (THOMPSON, 1998, p. 45). O sujeito, então, apropria- se da mensagem e se apodera de um conteúdo significativo para torná-lo próprio, assimilando e incorporando-a à sua própria vida.
A apropriação das formas simbólicas – e, em particular, das mensagens transmitidas pelos produtos da mídia – é um processo que pode se estender muito além do conteúdo inicial da atividade de recepção. As mensagens da mídia são comumente discutidas por indivíduos durante a sua recepção e depois; elas são, portanto, elaboradas discursivamente e compartilhadas com círculo mais amplo de indivíduos que podem ter participado (ou não) do processo inicial de recepção. Desta e de outras maneiras, as mensagens podem ser retransmitidas para outros contextos de recepção e transformadas através de um processo contínuo de repetição, reinterpretação, comentário, riso e crítica. Este processo pode acontecer numa variedade de circunstancias – em casa, ao telefone, no lugar de trabalho – e pode envolver uma pluralidade de participantes. Pode fornecer estruturas narrativas dentro das quais os indivíduos relatam seus pensamentos, sentimentos e experiências, tecendo aspectos de suas vidas com mensagens da mídia e com suas respostas às mensagens relatadas. Através deste processo de elaboração discursiva, a compreensão que um indivíduo tem das mensagens transmitidas pelos produtos da mídia pode sofrer transformações, pois elas são vistas de um ângulo diferente, são submetidas aos comentários e à crítica dos outros e gradualmente impressas no tecido simbólico da vida cotidiana. (THOMPSON, 1998, p. 45)
Fundamentado nas reflexões de Thompson (1998), entende-se que a recepção acontece no cotidiano da vivência na web, a partir de um universo de significados que habitam tanto dentro quanto fora da Internet e que a atravessam. Sabe-se que o Porta dos Fundos é composto por um coletivo de pessoas que determinam os conteúdos que serão produzidos. São indivíduos que, por depender da web como trabalho, precisam estar constantemente atualizados com as ondas de temáticas que se movimentam entre os usuários da rede. Estes movimentos carregam as mensagens que são compreendidas segundo as bagagens de vivências destes produtores, acarretando na interpretação de si e do outro, nas ações de reflexão e autorreflexão que serão transformadas em novos conteúdos. As interpretações podem variar de um indivíduo para o outro, mas o trabalho coletivo demanda consenso: interpretações, decodificações e consenso que se percebem nas escolhas das temáticas e seus tratamentos dos assuntos que pairam acerca do cotidiano.