Conforme já exposto, os programas de paródia são caracterizados por humorísticos que fazem rir ao satirizar ou ironizar outros programas da mesma emissora, (telenovelas, telejornais, programas de auditórios etc.), mas também podem parodiar momentos históricos ou pessoas famosas. Este formato já existia no rádio, com a PRK-30 e no cinema, com a segunda fase das chanchadas. Na televisão, um dos pioneiros no formato foi o TV0-TV1 (1966-1969), exibido pela TV Globo, dirigido por Augusto Cesar Vanucci e apresentado por Paulo Silvino e Agildo Ribeiro. O humorístico realizava sátiras dos programas de sucesso da época, como programas de auditório (Biscoiteca do Chapinha, Bebe Camargo Show), musicais (Oh! Que Tolice de Show!), programas de entrevista (O Homem do Sapato Quase
Branco), outros humorísticos (A Praça da Alergia) e as telenovelas, como a Gata de Vison (1968), que se transformou em Gaita de Vison, estrelada pelos atores fictícios Myoná
Magalhães e Tarcísio Mieira.
Na década de 1970, foram produzidos dois programas que parodiavam a grade televisiva: Satiricom (1973-1975) e O Planeta dos homens (1976), ambos exibidos pela TV Globo. Satiricom apresentava quadros curtos compostos pela participação fixa de comediantes como Jô Soares, Renato Côrte Real, Luiz Carlos Miéle, Berta Loran e Agildo Ribeiro, que faziam críticas aos mais variados meios de comunicação por meio de sátiras a telenovelas, clássicos do cinema, programas de auditório, telejornais e programas radiofônicos. O programa era escrito por Max Nunes e Haroldo Barbosa, os mesmos redatores do humorístico
TV0-TV1 (1966).
O humorístico O Planeta dos Homens (1976 -1982) apresentava quadros com esquetes que propunham a sátira de costumes, crítica social e, principalmente paródias aos programas de rádio e televisão. O programa surgiu da ideia de parodiar o clássico do cinema Planeta dos
Macacos. Com direção de Paulo Araújo, foi escrito por autores como Max Nunes, Haroldo Barbosa, Jô Soares, entre outros.
Até então, toda a constituição do humor televisivo estava amparada pelos profissionais e estrutura trazidos do humor radiofônico, do teatro e cinema. Neste sentido, apesar de tentativas de desenvolver uma linguagem unicamente televisiva, estas influências sempre apareciam de alguma forma: personagens fixos que repetiam rotinas, bordões e piadas pontuadas pelas gargalhadas produzidas pela claque96. A própria estética do vídeo e dos
96 Consiste em um grupo de espectadores presente no estúdio que são incutidos ou combinados para rir, aplaudir ou vaiar o espetáculo ou intérprete em momentos determinados. Também conhecido como risada enlatada.
cenários ainda carregava o ranço dos primeiros anos da produção humorística. Foi somente na década de 80 que as primeiras mudanças na elaboração dos programas de humor começaram a despontar.
Observa-se que, no formato paródia televisiva, a TV Pirata (1988-1992) foi a resposta a estes anseios de renovação da linguagem do humor na TV. Dirigida por Guel Arraes, com texto de Mauro Rasi, Luis Fernando Veríssimo, Patrícia Travassos, Pedro Cardoso, Reinaldo Bussunda, Cláudio Paiva, Cláudio Manoel, Hélio de La Peña, Beto Silva e Marcelo Madureira, o programa parodiava a grade de programação televisiva, desde os comerciais, as novelas, jornais e programas infantis. (CAMINHA, 2007, p. 42).
TV Pirata reunia, em sua produção, novos profissionais e uma maneira diferente de fazer humor na televisão. Segundo o site Memória Globo97, o elenco do programa era
composto por atores de teatro e televisão, mas nenhum deles possuía o perfil tradicional de comediante: Marco Nanini, Louise Cardoso, Ney Latorraca, Débora Bloch, Diogo Vilela, Claudia Raia, Guilherme Karan, Cristina Pereira, Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães.
TV Pirata satirizava a própria programação televisiva: as telenovelas, os telejornais, os programas de entrevistas, os seriados, os programas esportivos, os videoclipes, os shows, os anúncios comerciais e as mensagens de utilidade pública. A Globo era, evidentemente, o alvo principal. [...] A sátira da televisão era o pretexto para que TV
Pirata falasse da realidade brasileira e de temas como violência urbana e infantil, crime organizado e a situação nos presídios. Os quadros variavam a cada semana, com predominância de esquetes cômicos e vinhetas, além dos quadros fixos. (Site: MEMÓRIA GLOBO)
Neste segmento, Casseta & Planeta, Urgente! apresenta-se como outro programa que trouxe para televisão novidades no modo de fazer humor. O humorístico estreou em 1992 como um programa mensal exibido na Terça Nobre. Dirigido por José Lavigne, escrito e interpretado pelos humoristas do grupo Casseta&Planeta98, Reinaldo Bussunda, Cláudio
Paiva, Cláudio Manoel, Hélio de La Peña, Beto Silva e Marcelo Madureira, ele começou parodiando o formato jornalístico e fazendo humor com o que era notícia durante a semana. O grupo possuia o lema “jornalismo-mentira e humorismo-verdade”, que estabelecia a postura de realizar paródias ao jornalismo convencional, assim como com toda a grade televisiva: novelas, seriados, musicais, comerciais, programas de audiotório, filmes etc. O programa era composto por inúmeros quadros e esquetes, apresentanto também personagens fixos. Fizeram sucesso as figuras Seu Creyson, Carlos Massaranduba, os Babacas do Samba, entre outros.
97 Disponível em: < http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/humor/tv-pirata.htm>
98 Os humoristas se conheciam dos tempos em que comandavam a revista Casseta Popular e o jornal Planeta
Diário, duas publicações que ajudaram a renovar o humor brasileiro nos anos 1980. Eles já haviam participado de programas da Rede Globo, escrevendo esquetes para o Fantástico, TV Pirata e Dóris Para Maiores.
Mais recente, em 2014 foi ao ar o Tá no Ar: a TV na TV, que apesar de ser classificado – dentro do site Memórias Globo – como um seriado, por conter apenas oito episódios, é realizado nos mesmos formatos que os humorísticos de paródia ao satirizar a programação televisiva em quadros e esquetes: telejornal, reality show, videoclipe, seriado policial, documentário, discurso eleitoral e novela. Os produtores do programa fazem parte de uma geração nova da televisão. Entre eles, Marcelo Adnet, redator do programa, no início de sua carreira apresentou programas cômicos no canal MTV Brasil. Tá no Ar faz paródia da televisão contemporânea, que se distância da grade parodiada pela TV Pirata e Casseta &
Planeta, Urgente!, tanto no que diz respeito ao conteúdo, quanto ao contexto social e tecnológico em que se insere.