Por inclinar-se à democracia de circulação de informações, a Internet firmou-se como espaço de múltiplas negociações de sentido e discursos. E estas negociações, muitas vezes, são apropriadas e transformadas em novos discursos que são relançados na rede, produzindo um sistema de realimentação constante de discursos. A Internet perpassa a vida social contemporânea. Independentemente do grau de envolvimento de cada um com a rede, poucos são os que não possuem alguma questão de sua vida ligada a ela. Há quem declare que não estar na rede é como não existir (CASTELLS, 2006, p. 08). Pensando desta forma, empresários de grandes corporações do mundo digital – como Google65 e Facebook66 – têm
concentrado esforços em pesquisas de projetos que possam levar a Internet a todos os cantos mundo. Seja em razão de trabalho, escola, lazer ou para realizar burocracias diárias, a Internet vem substituindo as interações que antes eram realizadas por meios físicos: o e-mail substituiu as cartas; o Whatsapp Messenger67 sucedeu às ligações telefônicas; e raros são os
consumidores que compram CDs e DVDs físicos.
Martín-Barbero (2006, p. 54), ao observar os processos que estão transformando radicalmente o lugar da cultura nas sociedades contemporâneas, apresenta a revitalização das identidades e a revolução das tecnicidades como os dois motores fundamentais desta
65 A empresa Google tem desenvolvido o Projeto Loon, que pretende ampliar o sinal de Internet em todo o mundo por meio de balões que flutuam na estratosfera. Site do projeto: <https://www.google.com/intl/pt- BR/loon/>.
66 “A rede social construiu um drone gigante que pode voar a uma altura de até 27,5 quilômetros, para levar a
Internet a áreas remotas do planeta. O projeto está integrado na iniciativa Internet.org, através da qual o
Facebook quer facilitar o acesso à Internet nos países em desenvolvimento”. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-07/facebook-anuncia-drone-gigante-para-levar-
Internet-areas-remotas-do>. Acesso em: 20 set. 2015.
67 Aplicativo para celulares que permite a troca de mensagens de texto e ligações telefônicas, além de vídeos, fotos e áudios, de modo gratuito, por meio de uma conexão à Internet.
mudança. A revitalização das identidades culturais (étnicas, de gênero, idade etc.), suscitada pelo desenvolvimento da globalização econômica e informacional, tendem a se mostrar um movimento de enfrentamento e afirmação local frente ao avanço do global. Por outro lado, a revolução das tecnologias não está trazendo, somente, uma renovação dos equipamentos tecnológicos,
[...] mas, sim, um novo modo de relação entre os processos simbólicos – que constituem o cultural – e as formas de produção e distribuição dos bens e serviços: um novo modo de produzir, confusamente associado a um novo modo de comunicar, transforma conhecimento numa força produtiva direta. [...] O lugar da cultura na sociedade muda quando a mediação tecnológica (J. Echeverría) da comunicação deixa de ser meramente instrumental, para espessar-se, condensar-se e converter-se em estrutural: a tecnologia remete hoje, não a alguns aparelhos, mas, sim, a novos modos de percepção e de linguagem, a novas sensibilidades e escritas. (MARTÍN- BARBERO, 2006, p. 54)
Para Martín-Barbero (2006, p. 67), atualmente, a relação entre o público e o comunicável está cada vez mais estreita e mediada, principalmente, por imagens: cartazes, quadrinhos, grafites, televisão etc. Esta relação, por muitas vezes, foi vista como ambígua e criticada por ser associada ou, até mesmo, plenamente reduzida a males e vícios que podem provocar no público. Por outro lado, o autor propõe que este cenário seja abordado “em direção a uma compreensão do que a mediação das imagens produz socialmente”, pois é o único modo de entender este processo em profundidade.
Pois essa hegemonia-imagética se acha associada ao fato de que hoje o “reconhecimento recíproco” (H. Arendt) desenvolve-se especialmente no direito de ser visto e ouvido, que equivale ao de existir/contar socialmente tanto no terreno individual quanto no coletivo, no das maiorias quanto no das minorias. Direito que nada tem a ver com o exibicionismo vedetista dos políticos em seu perverso afã de substituir sua capacidade perdida de representar o comum pela quantidade de tempo no vídeo. (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 67)
“O que nas imagens se produz é, em primeiro lugar, a saída flutuante, a emergência da crise que o discurso da representação sofre desde seu próprio interior (P. Flores d’Arcais)”. (Martín-Barbero, 2006, p. 68). Pelas imagens, podem passar, tanto espetacularização de um mundo, levando a confusão por meio de farsas, mas também podem apresentar “uma construção visual do social, na qual essa visibilidade toma o deslocamento da luta pela representação da demanda de reconhecimento”. Desde modo, “o que os novos movimentos sociais e as minorias – as etnias e as raças, as mulheres, os jovens ou os homossexuais – demandam não é tanto ser representados, mas, sim reconhecidos: fazerem-se visíveis socialmente em sua diferença. O que dá lugar a um modo de exercerem politicamente seus direitos”.
Neste sentido, a inserção das redes em quase todas as esferas da vida em sociedade tem provocado reordenamentos profundos nos relacionamentos dos sujeitos com o mundo ao seu redor. Reordenamentos de ordem cognitiva, cultural e política
O uso alternativo das tecnologias e de redes de informáticas (R. Kroes, S. Finquelevich, J. L. Molina) na reconstituição da esfera pública passa, sem dúvida, por profundas mudanças nos mapas mentais, nas linguagens e nos desenhos de políticas, exigidos todos eles pelas novas formas de complexidade que revestem as reconfigurações do público e do privado. (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 69) Portanto, o autor percebe que “[...] a convergência da globalização e da revolução tecnológica configura um novo ecossistema de linguagens e escritas”, que, por um lado, se ligam a uma reordenação das figuras de razão que “remetem ai estatuto cognitivo que a digitalização procurou na imagem”, e, por outro, “a emergência de uma visibilidade cultural convertida em palco de uma decisiva batalha política entre a ordem/poder da letra e as oralidades e visualidades culturais que enlaçam as memórias com os imaginários no palimpsesto”. (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 70)
A Internet se posiciona como uma mídia de importância fundamental na sociedade contemporânea, pois permite que os sujeitos falem por si, que mostrem as imagens produzidas por quem as conhece em seu mais profundo significado, proporcionando debates sobre representações e realidades sociais, não mais apenas orientados por quem possuía os meios de comunicação – como rádio e televisão – mas por todos os grupos sociais. Não que tenha mudado o cenário social como todo, transformando-o em um ambiente completamente democrático, mas contribui para a reconfiguração das arenas de discussões.
Por apresentar novas configurações e colocar-se em diálogo com as outras mídias já estabelecidas, para entender as particularidades da Internet é interessante sua comparação com a mídia que se estabelece como a principal, na maioria dos lares, e ainda hoje – mesmo com o aumento do acesso à Internet – é o predominante meio de informação em muitas regiões do mundo: a televisão.