A Internet, por si só, não modificou as lógicas de produção das mídias audiovisuais, mas serviu como uma ferramenta de produção e consumo, em um universo que há tempos já se moldava para que a web se tornasse o que é atualmente. Ainda que o cenário audiovisual presente na Internet seja algo novo e objeto de estudos recentes, ele foi o resultado de alterações profundas – culturais, políticas e tecnológicas – que aconteceram gradativamente no decorrer dos anos.
Do cinema à televisão, as produções audiovisuais da grande indústria sempre obedeceram a uma lógica de divisão de trabalho bem definida, seja no momento da concepção da obra, quanto nos processos de produção, gravação, edição, montagem e distribuição. Cada qual, respeitando sua linguagem e as características de seu meio de distribuição, demandava de uma quantidade expressiva de profissionais especializados em cada área de produção, além de grande investimento em equipamentos técnicos.
Caminhando na contramão da indústria cultural tradicional, o desenvolvimento das tecnologias digitais teve um papel importante nos desdobramentos do cenário audiovisual atual. O barateamento e a facilidade de uso e acesso das tecnologias, que permitem realizar a captura, edição e montagem de vídeo, aliaram-se aos sites de compartilhamento gratuito de material audiovisual, trazendo um novo momento para a produção de conteúdo. Se antes os produtores independentes viviam à caça de espaços alternativos ou festivais para mostrar seu
produto para o público, hoje, tem-se, também, a opção de colocar suas obras na rede e compartilhar com todo o mundo58.
Shirky (2010, 42), com pensamento que se aproxima de Castells (2002) – compreende que o modelo de negócios apresentados por meios como a televisão, cinema e impressos segue a lógica criada juntamente com o desenvolvimento da prensa por Gutenberg, denominando esta lógica de ‘Economia de Gutenberg’. Segundo o autor, a introdução dos tipos móveis admitiu, no cenário intelectual europeu do século XV, uma abundância de livros que era inexistente anteriormente, levando ao barateamento da produção: enquanto um escriba produzia, por trinta florins, uma única cópia de livro de quinhentas páginas, uma gráfica, por valor semelhante, imprimia mais de trezentas cópias do mesmo livro. Outra limitação imposta pela ausência da tecnologia da prensa era a escassez de novos títulos: eram recopiados a Bíblia e autores clássicos. Após a impressão em grande volume também destes títulos, ainda havia a possibilidade de criar e produzir mais livros. O próximo passo dos impressores foi imprimir títulos novos.
O autor sublinha que foi neste momento que surgiu o problema do risco econômico em levar ao público obras que não fossem bem aceitas e ficassem encalhadas nas gráficas. A resposta a este obstáculo, foi transformar os tipógrafos em editores, responsabilizando-os pela escolhas e qualidade dos títulos a serem impressos. “Mas uma tipografia é cara: requer uma equipe de profissionais para mantê-la em funcionamento. E, como o material, precisava ser produzido antes da demanda, a economia das prensas colocava o risco no local da produção” (SHIRKY, 2010, p. 44). Nascia, portanto, fundamentada nesta lógica: a Economia de Gutenberg. A partir de então, os novos meios de comunicação que foram surgindo, seguiam uma lógica semelhante: a decisão do que produzir nas mãos dos donos das mídias, seguida dos riscos dos grandes custos de investimento, aliada ao gerenciamento dos meios de comunicação e de uma equipe de produção.
Após apresentar esta configuração mercadológica, Shirky (2010, p. 53) afirma que a
Internet é a primeira mídia a ter uma economia pós-Gutenberg. Primeiro motivo apresentado leva em conta sua estrutura digital e as informações composta por dados, o que diminui o conceito de cópia e original (todas as cópias são iguais ao original). Ao baixar um arquivo para o computador, ele é uma cópia eletrônica dos dados binários e não algo transposto para outro objeto físico. Os dados estão na rede, apenas se transportam para os equipamentos.
58 Importante salientar que a Internet não acabou com os festivais independentes, mas ajudou no trabalho de divulgação dos artistas.
Em segundo lugar, a posse das mídias digitais produz uma relação de produção e consumo simétrica. O custo de manter uma emissora de televisão é altíssimo, portanto, a aquisição de um televisor não implica no aumento de produtores, apenas de consumidores. Por outro lado, na compra de um tablet, celular ou computador, em teoria, tanto o número de produtores quanto de consumidores é aumentado em um. Mesmo que a produção seja estrutural e esteticamente inferior à de uma emissora de televisão. Em terceiro, as redes digitais também estão aumentando a fluidez de todas as mídias nas quais funções antes diversificadas em mídias diferentes – particulares, como o telefone, ou públicas, como o rádio e a televisão – convergem para um mesmo espaço e seus usos se dão de modo simultâneo em um único ambiente ou em múltiplas telas.
Por fim, o autor pontua que a nova mídia trouxe uma mudança econômica na indústria de bens culturais: explicando que, quem tem acesso à rede – e paga por esse acesso –pode utilizá-la como bem desejar. Inclusive, para difundir conteúdos produzidos por seus usuários, pois a infraestrutura, apesar de não pertencer aos usuários, está ao alcance deles. Para Shirky (2010, p. 54), “[...] essa transferência para a economia pós-Gutenberg, com suas perfeitas versões intercambiáveis e suas capacidades de conversação, com sua produção simétrica e seu baixo custo, fornece os recursos para grande parte do comportamento generoso, social e criativo que presenciamos”.
Apesar da consistência e validade das proposições de Shirky (2010), é importante problematizar qualquer afirmação tecnocrática que posiciona a Internet como uma mídia superior e autônoma das outras, colocando-a, então, como elemento de mudanças e sobreposição, distante de todo ecossistema midiático e pensá-la como componente de uma nova configuração: um diálogo que resulta de processos de evolução histórica no qual as novas mídias passam a promover novos ambientes para contínuas negociações de sentido, conforme Gitelman (2006), pois nenhuma mídia é desenvolvida de forma culturalmente isolada das outras.
Neste sentido, pensando a partir do contexto da introdução das mídias digitais nos países da América Latina, ainda no começo do século XXI, Orozco Gómez (2006, p. 84) infere que “[...] todos os meios, velhos e novos, assim como as diversas tecnologias videoeletrônicas e digitais que os tornaram possíveis, coexistem, conformando ou não convergências em sentido estrito, porém constituindo ecossistemas comunicativos cada vez mais complexos”, pontuando que “[...] a chegada de um novo meio ou tecnologia não supõe necessariamente, nem tampouco imediatamente, a suplantação do anterior.”
Para argumentar suas percepções, Orozco Gómez (2006, p. 84-85) apresenta seis razões baseadas em suas observações quanto ao universo digital: I) “Cada meio ou tecnologia é muito mais que isso. Sua transformação então envolve outros fatores, além dos estritamente técnicos ou instrumentais”; II) “Cada tecnologia demanda um tempo de aprendizado à apropriação por parte dos usuários.”; III) “As tecnologias demandam uma atenção diversificada para gratificar seus usuários.”; IV) “Cada tecnologia atende melhor à satisfação de uma ou mais necessidades que as anteriores, mas não de todas.”; V) “Cada nova tecnologia provoca outras mudanças subsequentes, que também requerem reajustes e reacomodações variados por parte dos usuários.”; VI) “simplesmente não há poder aquisitivo para acompanhar o desenvolvimento tecnológico que é oferecido no mercado”.
Os pontos apresentados por Orozco Gómez (2006) revelam muito das relações sociais existentes com a mídia digital quanto ao seu estabelecimento e solidificação, pois envolvem o poder econômico para adquirir novos aparatos tecnológicos, o aprimoramento de potencialidades técnicas e cognitivas que permitam a interação com os recursos oferecidos pelas mídias digitais, assim como o seu reordenamento no cotidiano preenchido pelas mídias que se estabeleceram anteriormente. É importante trazer à discussão que no momento em que o texto de Orozco Gómez (2006) foi apresentado, a web ainda não dispunha de muitos dos recursos que existem nos dias atuais, nem a difusão dos computadores, tablets e smartphones era tão ampla. Contudo, corroboram com o argumento de que a Internet passou por um processo e não apenas se apresentou como uma mídia revolucionária.
Ao refletir acerca das divergências das tendências de perspectivas tecnocêntricas ou sociocêntricas do pensamento em relação às mídias digitais, Orozco Gómez (2006, p. 82) reconhece que o momento é de “dissolução de alguns dos critérios, tanto de produção quanto de circulação e consumo, que enquadram o conhecimento. Sobretudo dos critérios cognoscitivos e de legitimidade e autoridade que se encontram perturbados”. As mídias digitais trazem consigo o desafio de adaptação a novos reordenamentos cognitivos:
Como afirma Martín-Barbero (2000), confrontamo-nos agora com novas condições do conhecimento, principalmente com novas ‘figuras de razão’, em que algumas fronteiras se dissolvem ao mesmo tempo que se erigem outras. Em frente ao computador não estamos mais somente de uma máquina, mas, sim, em uma relação com uma ‘tecnicidade’ diferenciadora, distinta de todas as anteriores, pela qual se torna possível uma vinculação direta entre informação e cérebro, e independente de si, a linguagem é sonora, visual, escrita ou multimídia. (OROZCO GÓMEZ, 2006, p. 83)
Pensando nas mudanças trazidas pela inserção da tecnologia digital na sociedade contemporânea, Vilches (2003, P 70), ao estudar os processos de migração digital e
convergência multimidiática, aponta que os efeitos da Internet estão essencialmente relacionados ao entendimento de tempo e espaço, já que “as tecnologias modificam a percepção e os limites espaço-temporais da sociedade”. Para o autor
A grande mudança que as tecnologias da informação está criando na sociedade ultrapassa a simples convergência entre os meios (informática, televisão, telefone, monitores e páginas impressas). O que movimenta o mundo é a migração simbólica entre espaço e tempo; não as tecnologias, mas seus conteúdos culturais. (VILCHES, 2003, p. 71-72).
As mídias digitais propuseram, portanto, um reordenamento espaço-temporal no qual nossos corpos e mentes estão – virtualmente – em diversos lugares e nossas relações com o consumo midiático foram ampliadas e potencializadas.
O advento da Internet também permitiu a distribuição, em larga escala global, dos bens culturais: tanto os produzidos pelas grandes corporações da indústria cultural quanto a produção alternativa ou amadora. Neste cenário, a ‘pirataria digital’59 possibilitou o acesso a
obras que antes eram limitadas a quem possuía capital financeiro para comprá-las60. Apesar
de ser uma atividade ilegal e combatida, não se pode negar que o recurso teve papel importante na ampliação do acesso aos bens culturais.
Para driblar a aquisição ilegal de bens culturais, foram criados espaços que permitem o acesso, via streaming61, de diversos filmes, séries de TV ou músicas, a um valor acessível e
por assinatura mensal, como o Netflix62 e o Spotify63. Assim como serviços que possibilitam a
comprar um produto para download64 no computador. Por outro lado, alguns produtores
oferecem a opção de deixar o preço em aberto para que o público possa escolher o valor que deseja pagar na obra e, então, realizar o download. Mesmo com estas opções, alguns produtores optam por disponibilizar gratuitamente suas obras. Alternativas como estas permitem perceber a ação direta da Internet na ampliação do mercado de consumo de bens
59 Consiste na divulgação e distribuição não autorizada de conteúdo com propriedade intelectual, como músicas, filmes, séries, jogos etc. O material é disponibilizado, na maioria dos casos, através de sites de compartilhamento de arquivos e redes P2P. Os compartilhamentos destes conteúdos ocorrem, geralmente, de modo gratuito. 60 Mesmo antes da chegada e disseminação da Internet, era possível adquirir cópias não originais de álbuns musicais ou filmes por meio de mercados informais e vendedores ambulantes.
61 Streaming é um meio de distribuição de informação e conteúdo audiovisual (imagem som e vídeo) por meio de uma rede, na forma de pacotes de dados. Em streaming as informações são transmitidas e não ficam arquivadas nos dispositivos dos usuários.
62 Site que disponibiliza milhares de títulos audiovisuais para o consumo de seus assinantes e que será discutido nos próximos itens deste trabalho.
63 Serviço semelhante ao Netflix, mas que disponibiliza músicas para seus assinantes <https://www.spotify.com/br/>
64 Download (baixar, em uma tradução simples) corresponde à ação de transferir dados de um computador remoto para um computador local. Esta transferência pode ser realizada a partir de servidores dedicados (como FTP, por exemplo) ou pelo acesso a uma página da Internet.
culturais, promovendo o intercâmbio entre diversas culturas e facilitando o acesso a uma ampla quantidade de obras artísticas.
Anteriormente, o intercâmbio entre bens culturais de diversas partes do mundo acontecia por meio de mídias, como rádio, TV, revistas e jornais, pelos quais os produtos de grandes conglomerados eram distribuídos por todas as partes de globo, em formato de filmes, séries, álbuns musicais, entre outros. A web veio, portanto, para somar com as outras mídias, além de configurar-se como um local de disponibilização de material cultural em que coabitam pequenos e grandes produtores, apresentando seus conteúdos para o restante do mundo.