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Påstander om Tyrkias forhold til Irak og til kurderne:

Em seus estudos de semiótica, Peirce (1972) conceituou linguagem como a capacidade humana de produzir conhecimentos a partir de códigos, que podem ser sonoros, visuais, táteis, gestuais, entre outros, a serem partilhados entre os indivíduos, não possuindo carater estático e acabado, mas em constante processo de produção e reelaboração de sentidos. A linguagem é essencial à comunicação, pois é por meio dela que os sujeitos expressam seus pensamentos, sentimentos e emoções acerca do mundo e o percebem ao seu redor. Portanto, não pode ser

percebida como prática individual, mas social, ocorrendo entre interlocutores que possibilitam a existência dos significados.

Assim, mesmo que alguns conceitos do termo linguagem estejam orientados a fundamentos de práticas orais ou escritas, é importante percebê-la também por intermédio das múltiplas manifestações e códigos produzidos pela humanidade, independentemente do tipo de elementos que constituiem o texto (imagens, sons, cores, luzes etc.). Neste sentido, infere- se que a linguagem é o meio pelo qual os indivíduos revelam seu conteúdos internos, tanto de modo sistematizado pela oralidade e escrita protocolar, como também artisticamente, utilizando-se das gramáticas que compõem cada expressão artística. Pensando em uma definição simples para caracterizar a linguagem audiovisual, como um todo, Bravo (2006, p. 27) apresenta a seguinte definição: “[...] o conjunto das formas de organização artificial da imagem e do som que utilizamos para transmitir ideias ou sensações, ajustando-o à capacidade humana de percebê-las e compreendê-las”.

Rossini (2007, p. 168) leciona que a primeira linguagem audiovisual – o cinema – carregou consigo hibridismos das manifestações artísticas anteriores a ela: pintura, teatro e literatura Para montar seu repertório, foi necessário aperfeiçoar e adaptar os recursos, que então existiam, para usá-los de modo adequado às suas necessidades de construção narrativa e tecnologias de produção. Apesar de parecer simples, se forem considerados os diversos meios audiovisuais existentes e que cada meio audiovisual (cinema, televisão e Internet) possui elementos próprios e característicos (momentos de recepção, técnicas de produção, formatos, gêneros etc.) que incidem diretamente na feitura do produto, dos quais dependem a fruição da obra, pressupõe-se a possibilidade de que não existe apenas uma linguagem audiovisual, mas cada suporte possui a sua própria, com recursos e procedimentos específicos, mesmo que semelhantes umas às outras em muitos aspectos.

Machado (1993, p. 08) abordou esta questão quando problematiza a necessidade da elaboração de um conceito para o que seria a linguagem audiovisual, no que toca os produtos realizados para o vídeo eletrônico – como a televisão e a videoarte –, considerando que o termo “linguagem”, de inspiração linguística, pode dar ideia de uma enganosa aproximação às chamadas línguas naturais, de extração verbal. Tal associação pode engendrar “[...] uma compreensão equivocada do vídeo enquanto sistema significante ou enquanto processo de comunicação”. O autor explica que as regras formais, “[...] no universo do vídeo, não são tão exatas e sistemáticas como nas línguas naturais. A gramática do vídeo, se existir, não tem o mesmo caráter normativo da gramática das mensagens verbais”: os valores de certo e errado dentro das estruturas semânticas das linguagens verbais não possuem equivalência no

audiovisual, que opera segundo os sentidos construídos por seus produtores de modos plurais e aleatórios.

Machado (1993, p. 09) classifica o vídeo como um sistema híbrido, que se constitui de códigos significantes distintos “[...] parte importados do cinema, parte importados do teatro, da literatura e do rádio e mais modernamente da computação gráfica”, que se caracteriza por sua natural impureza que “[...] reprocessa formas de expressão colocadas em circulação por outros meios, atribuindo-lhes novos valores, e a sua ‘especificidade’, se houver, está, sobretudo na solução peculiar que ele dá ao problema da síntese de todas essas contribuições”.

No terreno dos meios audiovisuais, para o autor, as linguagens não são fenômenos naturais, como são as línguas verbais, são fenômenos culturais, decorrentes de um “[...] certo estágio de desenvolvimento das técnicas e dos meios de expressão, das pressões de natureza socioeconômicas e também das demandas imaginárias, subjetivas, ou, se preferirem, estéticas de uma época ou lugar” (MACHADO, 1993, p. 09-10). Desta maneira, deve-se considerar que, no mundo audiovisual, a construção do significado liga-se intimamente ao que a obra propõe esteticamente. Os códigos videográficos não possuem a mesma consistência ou estabilidade das línguas verbais: a linguagem audiovisual já é “um produto ou um aspecto da intervenção artística”.

Porém, e acordo com o autor supracitado, por ser um fenômeno de comunicação, no qual uma mensagem é transmitida de uma comunidade de produtores/emissores para uma comunidade de consumidores/receptores, suas “[...] certas estruturas significantes são inteligíveis a todos, sejam eles emissores ou receptores, ou porque todos são sensíveis a ela”. Algo, portanto é transmitido e comunicado: “esse algo que se transmite, mesmo não sendo rígido como uma lei, nem estável como uma língua natural, é suficientemente sistemático para garantir a eficácia da comunicação e a inserção do meio como um canal de expressão dentro da sociedade”. (MACHADO, 1993, p. 09-10). Então, enxerga a possibilidade de se falar de uma linguagem audiovisual, mas com ressalvas:

Podemos chamar a isso linguagem ou sistema significante, como se queira, desde que tenhamos em mente que se trata, como se costuma dizer na física contemporânea, de um sistema caótico, ou seja, um sistema que manifesta incoerência em cada obra particular, mas não tem valor universal ou normativo, não pode ser reduzido a um conjunto de leis básicas de articulação, quando muito apenas a um repertório geral de tendências. (MACHADO, 1993, p. 10)

Estas tendências diferenciam e aproximam as mídias audiovisuais e podem ser estabelecidas por questões tecnológicas, estéticas, culturais e socioeconômicas. Algumas já

foram mencionadas no capítulo anterior ao se expor as relações entre a estética e a tecnologia de produção e recepção do vídeo.

Ao falar do estabelecimento da linguagem televisiva, França (2006, p. 13) concorda com Machado (1993) em diversos aspectos: ao afirmar que “a televisão é um meio que vem se recriando continuamente enquanto linguagem, passível de diferentes usos, alojando práticas distintas, acolhendo múltiplos discursos”. A autora expõe que esta mídia, em sua constituição,

[...] se distingue do rádio, pela presença da imagem; se distingue da fotografia, pela presença do som e da imagem em movimento; também se distingue do cinema, pelo tipo de imagem (eletrônica) e, sobretudo, por sua forma de veiculação: à distância, para múltiplos aparelhos receptores, e imediata (geração e recebimento a domicílio). (FRANÇA, 2006, p. 19)

Assim como Machado (1993), França (2006) também coloca o vídeo – no caso a televisão – como uma prática comunicativa, entendendo que esta afirmação possui implicações epistemológicas, que compreendem uma forma de perceber a televisão como uma linguagem:

Primeiramente, entendemos que ela é uma prática, uma ação humana e social – e práticas são criadoras, são lugar de fazer: é por meio de suas intervenções, reciprocamente referenciadas que os sujeitos sociais se constituem enquanto tal, e constituem o mundo à sua volta. E televisão é uma prática comunicativa; uma relação mediada simbolicamente, que se efetiva através da criação e partilhamento de discursos. [...] Portanto, é uma linguagem em processo, que se faz/se refaz continuamente – donde a mobilidade de suas formas e gêneros. Como toda linguagem, orienta tanto quanto é constituída pelas falas que a efetivam. (FRANÇA, 2006, p. 32)

Por ser prática comunicativa, a linguagem televisiva é construída diariamente, na interação “[...] com seu público e com a dinâmica da vida social; daí a diversidade de gêneros, temáticas e o permanente movimento e hibridação de suas formas”. (FRANÇA, 2006, p. 36)

Ao se pensar em linguagem como processo de estruturação de significados partilhados, composta por elementos que moldam e são moldados pelos discursos construídos, “[...] podemos, sim, falar de uma linguagem geral da TV, enquanto um quadro amplo de referências e determinações que orientam a maneira como se constroem os diferentes produtos televisivos”. Neste sentido, o fato de um produto ‘ser da’ ou ‘estar na’ televisão implica em estruturas específicas em sua constituição que demarcam a presença da linguagem televisiva. (FRANÇA, 2006, p. 34)

Consequentemente, ao investigar as características possíveis de uma linguagem audiovisual de Internet, percebe-se similaridades desta com a linguagem televisiva, principalmente quanto ao hibridismo e a impureza: a própria linguagem presente na web se

constrói a partir de diálogos diretos com a televisiva, e herda dela elementos estéticos e estilísticos de composição e montagem de quadros e ambientes. Também herda do vídeo a característica que Machado (1993) colocou como a sua essencial: a habilidade de fazer funcionar de modo colaborativo os hibridismos que a compõem. O ambiente rodeado por telas, links e hiperlinks é inerente à Internet, o que resulta em uma constante competição pela atenção do receptor, além da presença permanente da interatividade.

São as estruturas da linguagem audiovisual que colocam em marcha os elementos de composição narrativa que trabalham juntos em prol da construção do conteúdo que será levado ao público. Dentre os componentes que influenciam esta construção estão também o gênero e o formato. A grade de programação televisiva é inteiramente organizada a partir destes dois elementos. A Internet, apesar de não possuir uma grade de programação, ao levar um conjunto de elementos da TV para compor seu repertório, também carregou estes dois itens em sua bagagem. Sabe-se que a ideia de Gênero não é natural da televisão87, mas ela o

trabalhou para que funcionassem segundo as outras variantes de sua linguagem, adequando-o aos formatos que desenvolveu. A Internet, de certo modo, fez o mesmo.

Portanto, este capítulo propõe observar elementos da linguagem televisiva que foram absorvidos para a construção da narrativa do Porta dos Fundos, principalmente no que se refere ao humor. Para tanto, serão expostas as questões de gênero e formato televisivo, para então entrar-se em dois assuntos importantes: o histórico do gênero humorístico e seriado no audiovisual brasileiro e a análise das similaridades e diferenças do humor do Porta dos

Fundos e o televisivo, quanto a construção das narrativas e seus elementos textuais. Contudo, antes, é necessário apresentar alguns conceitos e teorias que abordam o cômico e o humor.