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2 Historical and Regional Background

2.1 The Sinai Peninsula

2.1.1 Regional Background

Recorreu-se como matrizes conceituais aos estudos de Bourdieu (1983, 1996, 2003, 2004a, 2004b, 2004c, 2006, 2007) em torno do campo de produção simbólica, do habitus e do capital cultural para se entender o conceito de mediador cultural debatido por Sirinelli (1998, 2003) e sua aplicação na construção biográfica

de Ozildo Albano e como esse, na condição de educador, conseguiu desempenhar sua prática educativa.

Com Ozildo Albano, o que se pode anotar é que o seu conhecimento adveio não só do capital cultural institucionalizado, mas também de auto-constituição em uma escala cultural crescente, oriunda do consumo de bens culturais enciclopedicamente diversificados que propiciou a ele a entrada no grupo seleto da intelligentsia piauiense.

Ao ter construído um capital cultural, passou a ser uma referência no campo da intelectualidade picoense e foi desse campo que ele fez a mediação cultural e, consequentemente, realizou as suas práticas educativas intervindo na vida de diversas pessoas que conviveram com ele e que foram por ele impactados. É oportuno destacar à noção de campo proposto por Bourdieu (2004b, p.20-21) como sendo:

[...] espaço relativamente autônomo, esse microcosmo dotado de suas leis próprias. Se, como o macrocosmo, ele é submetido a leis sociais, essas não são as mesmas. Se jamais escapa às imposições do macrocosmo, ele dispõe, com relação a este, de uma autonomia parcial mais ou menos acentuada.

Ter adentrado o campo da intelectualidade só foi possível por que Ozildo Albano detinha um volume acentuado de capital cultural e gozava de notoriedade na sociedade. Esse microcosmo social, que produz regramentos próprios, sofre influências e se apoiam irremediavelmente ao macrocosmo social.

Mesmo com autonomia parcial, cada campo específico de produção simbólica propicia, a quem o detém, prestígio e poder. Conforme Nogueira (2004, p.40), “os indivíduos que, de alguma forma, se envolvem com bens culturais considerados superiores, ganham prestígio e poder, seja no interior de um campo específico, seja na escala da sociedade como um todo”.

A reconhecida bagagem intelectual de Ozildo Albano, por parte das sociedades por onde exerceu o magistério, deu a ele o capital simbólico indispensável para levar à frente o seu projeto de mediação cultural. Segundo Nogueira (2004, p.51),

O capital simbólico diz respeito ao prestígio ou à boa reputação que um indivíduo possui num campo específico ou na sociedade em geral. Esse conceito se refere, em outras palavras, ao modo como um indivíduo é percebido pelos outros.

De posse desse capital simbólico, Ozildo Albano tornou-se o porta-voz do homem picoense e da sua cultura e passou a ser reconhecido como o guardião da memória para agir em nome do grupo social a que pertencia.

Ozildo Albano detinha um poder simbólico que propiciou a ele intervir na sociedade através do incremento de práticas educativas e culturais. Nas lições de Bourdieu (2004c, p.188),

O poder simbólico é um poder que aquele que lhe está sujeito dá àquele que o exerce, um crédito com que ele o credita, uma fides, uma auctoritas, que ele lhe confia pondo nele a sua confiança. É um poder que existe porque aquele que lhe está sujeito crê que ele existe. Credere, diz Benveniste, „é literalmente colocar o kred, quer dizer, a potência mágica, num ser de que se espera protecção, por conseguinte, crer nele‟. O kred, o crédito, o carisma, esse não-sei- quê pelo qual se tem aqueles de quem isso se tem, é o produto do credo, da crença da obediência, que parece produzir o credo, a crença, a obediência.

O poder simbólico se materializa pela cumplicidade daqueles que depositam uma confiança ou, mais precisamente uma fé, em alguém que ostenta uma autoridade no interior de um determinado campo de produção simbólico específico.

Um poder literalmente mágico que faz com que aquele que o detém passe a ter o equivalente ao que se “[...] obtém através da força física ou econômica”, conforme Bourdieu (2004c, p.14). É com esse poder que o produtor de bens culturais adquire o capital de autoridade no campo e que passa a ter o crédito, o devido carisma.

Ozildo Albano obteve a legitimação social para atuar no seu campo de produção simbólica e assim o fez. Produziu bens culturais e fez chegar aos inúmeros sujeitos históricos, que com ele mantinham contato, ou que o presenciaram no exercício de suas atividades.

Efetivamente, as práticas sociais realizadas por Ozildo Albano foram resultado do conjunto de vivências e de conhecimentos incorporados das estruturas do mundo social, ao longo do tempo. Desse processo, entre as estruturas sociais e as suas práticas individuais, foram mediadas pelo que Bourdieu (1983, p.65) chama de habitus – entendido como um:

[...] sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações – e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas [...].

Como se vê, o habitus é a matriz das estruturas sociais que se prolongam no tempo e que, em cada nova experiência vivenciada pelo sujeito histórico, soma-se a ele novas estruturas objetivas que tendem a ser reproduzidas.

E quando reproduzidas, trazem consigo as marcas da posição social de quem a produziu, uma vez que “[...] essas marcas tornaram-se parte constitutiva de sua subjetividade”, segundo Nogueira (2004, p.30).

Para Bourdieu (2003, p.79), “[...] o habitus [...] é o produto de toda a experiência biográfica ( o que faz que, como não há duas histórias individuais idênticas, não haja dois habitus idênticos [...]”. Respaldado nisto, intui-se que todo o conjunto da escrita de vida de Ozildo Albano trouxe consigo o habitus que o tornou único.

Sua trajetória biográfica foi construída seguindo uma rede de relações sociais em que estava inserido. Somente com essa compreensão, tornou-se possível juntar os fragmentos do tempo em diferentes matrizes sociais em que ocupou um capital específico de consagração. Isso reforça a tese de Bourdieu (1996, p.292), para quem:

Tentar compreender uma carreira ou uma vida como uma série única e em si suficiente de acontecimentos sucessivos sem outro elo que não a associação a um „sujeito‟ cuja constância não pode ser mais que a de um nome próprio socialmente reconhecido é quase tão absurdo quanto tentar explicar um trajeto no metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações.

Toda trajetória social deve ser compreendida como uma maneira singular de percorrer o espaço social, onde se exprimem as disposições do habitus [...].

A metáfora do metrô empreendida por Bourdieu (1996) leva a uma reflexão sobre a escrita de uma vida, uma vez que não se pode compreender o trajeto social de um sujeito histórico vista apenas por uma unidade particular. Ao contrário, deve- se abrir um leque de acontecimentos e de escritas sociais por onde se moveu o biografado.

Buscou-se isso fazer quando se colocou o sujeito biografado Ozildo Albano em movimento, em diferentes passagens das estruturas objetivas da sociedade por onde ocupou uma posição de destaque, no campo educacional.

A incorporação das estruturas sociais objetivas propiciou a Ozildo Albano “[...] um conjunto de vivências típicas que tenderiam a se consolidar na forma de um habitus adequado à sua posição social”, conforme pontua Nascimento (2004, p.29).

Assim, essa matriz ou habitus passou a estruturar as ações e representações sociais em torno de Ozildo Albano. Posteriormente, através de suas práticas sociais, passou a “[...] reproduzir as propriedades do seu grupo social de origem e a própria estrutura das posições na qual ele foi formado”, como assinala Nascimento (2004, p.29).