6 A New Policy Towards Sinai and the Bedouins?
6.5 Conclusion: Old Puzzle with New Pieces
Tudo começou em Picos, no ano de 1962, quando decidiu fundar uma escola particular, em parceria com a sua irmã, a professora Maria da Conceição Silva Albano, o Instituto Padre José de Anchieta. Segundo informações de Silva Albano (2017, p.423):
O Instituto Padre Anchieta funcionava na Rua Santo Antônio, na parte da manhã e à noite funcionava o Colégio Comercial. Depois, nós saímos e desmembramos. O Padre Anchieta foi lá para onde era a casa de doutor Alberto Monteiro. Em seguida, a gente
comprou um terreno aqui na Rua São Francisco. As séries que tinham era a alfabetização, 1º, 2º, 3º e 4º anos. O 4º ano já era em ritmo de admissão ao ginásio. As aulas de admissão ao ginásio foram dadas por mim e por Ozildo. [...] Ozildo foi a alma desta escola. Sem contar a parte financeira. Ele organizava o pastoril de natal, ainda temos a letra dessa música. Quando o Instituto Padre Anchieta funcionava na Rua São José, a gente mandou fazer uma quadra de cimento. Tinha a encenação de natal, tinha as quadrilhas. Ozildo organizava tudo. Ele gritava as quadrilhas e a parte de dramatizações. Era uma escola muito animada. O 7 de setembro tinha, mas já era aquele negócio que a gente tinha na cabeça, de militar. A gente ia, a representação do colégio ia, como os demais colégios. No entanto, eu achava tão cansativo botar aquelas crianças no sol quente. Setembro era o mês mais quente. [...] O Instituto Padre Anchieta funcionou até 1974. Eu fui terminando aos poucos. Ozildo saiu para a magistratura e também tinha o Rio Guaribas aqui perto.
O Instituto Padre José de Anchieta funcionou em três espacialidades, A saber: na Rua Santo Antônio, Rua São José e Rua São Francisco, onde passou a funcionar em estabelecimento próprio.
Foi um colégio de excelência e tinha a alfabetização, o ensino primário e, na quarta série, o ensino se voltava para a preparação dos alunos ao exame de admissão ao ensino ginasial. As aulas de admissão ao ginásio eram ministradas por Ozildo Albano e Conceição Albano. Ele também era responsável pela organização de todas as atividades culturais realizadas durante o ano letivo na escola.
Dentre os eventos que Ozildo Albano dirigiu, no Instituto Padre José de Anchieta, destacou-se o pastoril de natal que, segundo Oliveira (1995, p. 36),
[...] é composto de duas filas de pastorinhas com vestidos longos (saia e blusa), torço na cabeça e muitos colares, e algumas personagens como as Ciganas, a Florista ou a Borboleta. O cortejo sai pelas ruas e dança nas casas de família, no período de 23 a 6 de janeiro. Chegado à casa, a porta deve estar fechada e só abrirá depois do canto de chegada. As ciganas lêem as mãos das pessoas, a florista vende suas flores e as princesas vendem as fitas da cor de seu respectivo cordão. No fim, a dona da casa serve bolinhos e licores caseiros. Depois das „partes‟, isto é, dos diversos bailados, canta-se a despedida, e o cortejo parte para outra casa.
Ozildo Albano guardava com cuidado os escritos pastoris, para todos os anos levar ao público uma das mais importantes celebrações de canto, dança e louvações que faziam parte do ciclo das festas natalinas da região. Sobre isso, em forma de versos, O Terno de Sião, que organizou com os alunos na escola.
Terno de Sião (Pastorinhas) 1. O terno Da gente de Sião Que anuncia Com suma alegria O nascimento em Belém Do Redentor
Do Deus-Menino Jesus, filho de Maria Vinde ouvir, Cristãos, correi E vinde ouvir A anunciação do Salvador Do grande Rei Nascido
Para redimir a dor
E que da Cruz (bis) Para dar o amor
À humanidade e sua lei. 2.
Oh! de casa, nobre gente, Escutai e ouvireis:
Lá das bandas do Oriente São chegados os Três Reis Acordai e vinde ouvir
Somos de longe e queremos ir (bis) Já não se dorme em Belém
Senhores, é tempo já Eis na lapa para o bem Jesus, filho de Judá. Acordai e vinde ouvir
Somos de longe e queremos ir (bis)
3.
Somos filhas de Sião Do Oriente em jornada Procuramos um abrigo Abre, pois, a tua porta. Desperta do teu regaço Vem das Filhas de Sião Receber um terno abraço. 4.
Povos e Reis, adorai É nascido o Redentor
Veio viver e sofrer na terra
Veio morrer por nosso amor (bis) 5.
Escutai em voz canora A palavra do eterno
Eis que vem livrar o homem Do cativeiro do inferno. 6.
Cantemos hinos
Humildemente (bis) Mil graças demos
A Deus clemente 7.
Sou uma pobre pastora Filha dos montes de além Vos convido, companheiras, Para o berço de Belém. Convido a Pastora a flor
Para esta festa de amor (bis) Deixei os campos risonhos As belas serras azuis Para vir dançar na Lapa Do terno e meigo Jesus Convida a Pastora a flor
Para esta festa de amor (bis) As aves todas em festa
Cheias de santa alegria Cantaram que já nasceu Jesus, filho de Maria. Convida a Pastora a flor
Para esta festa de amor (bis) 8.
Trago nos olhos bailando As dores vagas da várzea Vive em minha alma cantando O valor das filhas da Ásia 9.
Cantigas, minhas cantigas. Filhas de minha saudade Sois sempre ternas amigas De minha felicidade
10.
Tornemos as vossas plagas Bem sei que tristes voltamos Por deixar o Redentor Olhem, porém, os labores. De volta, difíceis estradas. O tempo que já passamos
Que nos traz forte calor (bis) Como é belo esse tempo
Como sopra a viração É, pois, hora de partir. Companheiras, vamos, pois, Entoando nossos cantos
Cantando nos despedir (bis) 11.
Alegres são nossos cantos Quando vem rompendo o dia E o gorjeio saudoso
Do pequeno, do pequeno rouxinol. Cantemos, todas, cantemos, Com prazer e alegria
Por nascer o Deus menino
Jesus, filho de Maria. (bis) Uma esmola, meu senhor,
Para o filho de Maria. Nasceu em berço de palha, Onde surgiu a alegria. Abençoado será Quem boa esmola fizer Por Maria, Mãe Divina, Por Jesus e por José.
Ao longo dos versos, tem-se uma mensagem religiosa para todos. Ali estava o educador, mas também o homem que fora talhado pelas penas do catolicismo e que, inevitavelmente, levou para suas práticas educativas, um pouco do que aprendeu e viveu, tanto no Seminário quanto na formação familiar. Sobre o pastoril natalino, Moura (2016, p.477-478) relembrou que:
Ozildo Albano chegou a fazer um pastoril em Picos com Conceição Albano, sua irmã. Ela foi das pastorinhas. Naquele tempo, existia assim, como a gente não tinha teatro, não tinha cinema, tinha os bailados, fazia os bailados nas casas, por época, daí, tinha as pastorinhas no natal. Ozildo com a Conceição Albano se dedicavam, tinha a letra com a partitura. [...] Eles organizavam pra
época de natal. Inclusive, Ozildo organizava o presépio, era a coisa mais bonita. Ele organizava para dinamizar o natal. Isso causava emoção nas pessoas, muito emotivo para as pessoas que eram religiosas.
Os eventos educacionais realizados pelos irmãos Albano mobilizavam a comunidade escolar e pessoas da sociedade local que se interessavam pelos temas apresentados. E, embora não dispusessem de suportes artísticos requintados, pois a própria época e o município não dispunham, conseguiam, com um cenário simples e figurino modesto, atingir os objetivos pretendidos.
Os alunos ensaiavam na quadra próxima ao Instituto e, no dia da apresentação, deslocavam-se da escola com destino às suas casas e às das famílias que os convidavam.
A dinâmica da apresentação ficava a cargo dos brincantes e do dirigente que conduzia a pastorinha de forma a preservar o enredo cultural que tal dramatização possuía. Ozildo Albano agia, assim, como um intelectual que se enquadrava no conceito de mediador cultural que, segundo Sirinelli (2003, p. 242), localiza-se na acepção ampla e sociocultural de intelectual, como se posiciona abaixo:
[...] é preciso, a nosso ver, defender uma definição de geometria variável, mas baseada em invariantes. Estas podem desembocar em duas acepções do intelectual, uma ampla e sociocultural, englobando os criadores e os „mediadores‟ culturais, a outra mais estreita, baseada na noção de engajamento. No primeiro caso, estão abrangidos tanto o jornalista quanto o escritor, o professor secundário como o erudito. Nos degraus que levam a esse primeiro conjunto, postam-se uma parte dos estudantes, criadores ou „mediadores‟ em potencial, e ainda outras categorias de „receptores‟ da cultura. É evidente que todo estudo exaustivo do meio intelectual deveria basear-se numa definição como esta.
Como mediador cultural, Ozildo Albano levou, não apenas aos alunos conhecimentos educativos e culturais, mas também à sociedade em que estava inserido. Foi homem-ponte que entendeu a necessidade de dar melhores condições educacionais aos picoenses, enfrentando a aridez dos dados oficiais de analfabetismo de sua época, do atraso da chegada das informações e de acesso à cultura e olhou para os diversos campos em que se encontrava e fez desses campos possibilidades de exploração e de divulgação da cultura.
Em relação às condições educacionais no campo da instrução pública, deve- se considerar os dados censitários das décadas de 1940, 1950 e 1960, abaixo expostos:
Quadro 01 - População de fato de Picos e dados da instrução (1940) POPULAÇÃO SABIAM LER E
ESCREVER
NÃO SABIAM LER E ESCREVER
INSTRUÇÃO NÃO DECLARADA
40.414 6.671 25.998 48
Fonte: IBGE – Recenseamento Geral de 1940 - Piauí
Conforme consta no quadro 01, quando se observa a população de fato, entre 05 anos e mais, em Picos, segundo o censo de 1940, no aspecto individual instrução, tinha-se uma população de 40.414 pessoas que declararam saber ler e escrever, não sabiam ler e escrever e não declararam sua instrução.
Ao todo, 6.671 pessoas declararam-se como sabendo ler e escrever, porém havia um total de 25.998 pessoas que não sabiam ler e escrever. O censo de 1940 não trouxe o mapeamento especificando a localização da população na zona urbana ou rural, assim, tem-se os dados gerais, apenas.
O quadro 02 apresenta a situação da população picoense, no aspecto instrução, de 05 anos e mais, conforme o censo de 1950.
Quadro 02 - Pessoas presentes, de 05 anos e mais, por instrução - Picos (1950)
LOCAL POPULAÇÃO SABIAM LER E
ESCREVER
NÃO SABIAM LER E ESCREVER
Piauí 860.074 185.335 673.666
Picos 44.233 9.559 34.660
Fonte: IBGE – Recenseamento Geral de 1950 – Piauí
No censo de 1950, entendia-se como sabendo ler e escrever a pessoa que fosse capaz de ler e escrever um bilhete simples, em qualquer idioma, não sendo mais considerado quem soubesse apenas assinar o nome.
Deve-se informar que o Piauí possuía uma população de fato de 1.045.696 pessoas e Picos 54.713. O quadro 02 traz apenas dados considerando a população de 05 anos e mais, a partir da categoria instrução. Assim, Picos possuía uma população de 44.233, sendo que 9.559 pessoas sabiam ler e escrever e 34.660 não sabiam ler e escrever.
No quadro 03, faz-se a apresentação da situação da instrução, na população de 05 anos e mais, considerando sua localização na cidade e na zona rural.
Quadro 03 - População presente com indicação da instrução por pessoas de 05 anos e mais em Picos (1950) POPULAÇÃO TOTAL (PICOS) POPULAÇÃO COM 05 ANOS E MAIS (PICOS) CIDADE QUADRO RURAL SABIAM LER E ESCREVER Cidade Rural NÃO SABIAM LER E ESCREVER Cidade Rural 54.713 44.233 4.568 50.145 1.824 7.735 2.050 32.624
Fonte: IBGE – Recenseamento Geral de 1950 - Piauí
Considerando apenas a população de cinco anos e mais, 44.233, havia 3.874 pessoas morando na cidade e 40.359 na zona rural. A partir dessa informação pode-se entender a distribuição censitária do quadro 03.
Na categoria sabia ler e escrever, na cidade, existiam 1.824 e na zona rural, 7.735. Na categoria não sabiam ler e escrever, havia 2.050 pessoas na cidade e 32.624 pessoas na zona rural.
Resta explicar que a população de fato de Picos era de 54.713 habitantes, sendo que 4.568 residiam na cidade e 50.145 na zona rural.
Considera-se importante apresentar os dados censitários de 1960, para melhor acompanhamento da situação da realidade de acesso à escolarização e do nível de analfabetismo do município e do Estado.
Quadro 04 - Pessoas de 05 anos e mais, alfabetizadas e que estudam – Picos (1960)
LOCAL POP. TOTAL POP. De 05 ANOS E MAIS POPULAÇÃO URBANA POPULAÇÃO RURAL SABIAM LER/ESCREVER ESTUDANTES PIAUÍ 1.249.200 1.029.828 292.422 956.778 284.494 105.210 PICOS 49.801 41.061 8.080 41.721 10.796 2.556
Fonte: IBGE – Recenseamento Geral de 1960 - Piauí
Em um universo populacional abrangendo pessoas de cinco anos e mais, no censo de 1960 tem-se a informação de que Picos possuía uma população de 41.061 pessoas, dessas, 8.080 residiam na zona urbana e 41.721 na zona rural.
Observando o desenho da instrução, observa-se que 10.796 pessoas foram catalogadas como sabendo ler e escrever e apenas 2.556 eram estudantes em algum nível escolar.
Os dados acima tornaram-se necessários para melhor esclarecimento acerca do papel de Ozildo Albano como mediador cultural em Picos. Suas práticas educativas favoreciam acesso a enredos culturais em um contexto de alto índice de analfabetismo.
A ilustração da realização do pastoril de natal exemplifica uma de suas práticas educativas, no campo cultural. Realizou o pastoril não apenas em Picos, mas em Pio IX, município em que também lecionou. Em relato feito pela ex-aluna, a senhora Custódia Matutina de Alencar, disponível em Albano; Silva (2011, p.125),
[...] Por ocasião de um Natal, naquela época, organizou um Pastoril, composto de um grupo de pastorinhas que chamou a atenção de toda a população da cidade. Elas cantavam e dançavam em visita às residências, fato que nunca mais se repetiu.
Pela narrativa da ex-aluna, percebe-se a contribuição cultural deixada por Ozildo Albano, nos lugares por onde passou. Em Pio IX, além de ter se dedicado à magistratura, assumiu a direção e foi professor de língua portuguesa do Ginásio Francisco Suassuna de Melo.
Para promoverem mais eventos culturais no Instituto Padre José de Anchieta, Ozildo Albano e a sua irmã, Maria da Conceição Silva Albano, resolveram fazer uma quadra de cimento para colocarem em prática todas as atividades que iriam ser realizadas na escola.
A partir daí, realizaram-se outros eventos. Durante as festas juninas, Ozildo Albano procurou envolver os alunos e tudo saía organizado e pensado em conformidade com a festividade, os alunos se vestiam conforme o evento.
O espaço da quadra do Instituto Padre José de Anchieta, onde aconteciam as festividades juninas, recebia a ornamentação necessária para fazer os ensaios e a apresentação da quadrilha. Ozildo Albano animava as quadrilhas e ensinava a cada aluno os detalhes que fazia parte da dança, para que tudo fosse apresentado da melhor maneira possível.
Ilustração 27 – Fotografia: Quadrilha organizada por Ozildo Albano (1964)
Fonte: Museu Ozildo Albano
A ilustração 27 apresenta o momento em que os alunos do Instituto Padre José de Anchieta estavam com o professor Ozildo Albano, na quadra da escola, para a apresentação da quadrilha junina. Destaca-se o figurino usado pelos alunos, todos com roupas de caipira e chapéu na cabeça, além da presença dos instrumentos musicais próprios da festividade, a saber, sanfona, zabumba e triângulo, usados por três alunos.
Ilustração 28 – Fotografia: Quadrilha organizada por Ozildo Albano (1964)
Na ilustração 28, tem-se a presença de Ozildo Albano, Conceição Albano e outros professores do Instituto Padre José de Anchieta com a turma de alunos a postos para a quadrilha junina. Todos caracterizados para a festa e acompanhados por instrumentistas.
Ao ter ancorado o objeto de pesquisa no campo epistemológico da Nova História Cultural, tornou-se possível a entrada em cena de lugares da memória como fotografias, jornais e o museu Capitão-Mor João Gomes Caminha que atravessaram a história de vida de Ozildo Albano.
No dizer de Le Goff (1995, p.13), “[...] a história se afirma como nova ao anexar novos objetos que até agora lhe escapavam e se situavam fora de seu território”. Assim, ao se lançarem fora da história positivista do século XIX, os novos objetos historiográficos passaram a fazer parte do campo de ação do historiador.
Naturalmente, a trajetória do homem é de interesse da própria história. Onde ele se encontra e tenha deixado as suas marcas mais singulares, aí está a escrita da história coletiva de um povo. Conforme Bloch (2001, p.79), “[...] Tudo que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica, tudo que toca pode e deve informar sobre ele”.
Diante disso, todas as fotografias ao longo do texto informam sobre Ozildo Albano, tocam na matéria social e projetam os reflexos de uma fração de tempo vivido em diferentes contextos. Fornecendo, assim, as provas cabais de que ele esteve ali e que deixou as suas marcas.
Quando visualizadas, os leitores de imagens têm em mãos um documento de uma época e a força significativa que paira sobre as imagens captadas pelas lentes mecânicas da câmera fotográfica.
Cada fotografia aciona inúmeras lembranças, guardam a memória coletiva na sua moldura e é nesse espaço em que o leitor de imagens, munido de um saber culturalmente vivenciado em grupo ou da sua própria bagagem enciclopédica, faz com que ocorra um reexperimentar de acontecimentos passados.
De acordo com Nora (1993, p.07), os “[...] lugares onde a memória se cristaliza e se refugia [...]” dão a certeza de que o passado não se apagou, ficaram vestígios da escrita do homem.
Buscou-se ilustrar a trajetória de Ozildo Albano a partir de fotografias que informam um pouco de seu cotidiano e práticas. A História Nova deu margens de possibilidades para a escrita historiográfica e o uso de fotografias não ficou de fora. Como bem afirmou Le Goff (1988, p.29), “a história vive hoje uma „revolução
documental‟”. E, sendo assim, a fotografia passou à condição de “[...] documento de primeira ordem”. Documento que capta um instante único e singular da realidade social.
Cada fotografia apresentada no decorrer do texto representou um fragmento do passado em que esteve Ozildo Albano. Com elas, tornou-se possível apresentar as narrativas que aconteceram durante o movimento de uma vida. Conforme assinala Sontag (1981, p.71), “uma fotografia é apenas um fragmento, e com o passar do tempo suas amarras se desprendem. À deriva, vai-se transformando em passado difuso e abstrato, aberto a qualquer tipo de leitura (ou combinação com outras fotografias)”.
Nas poses fotográficas e nas imagens urbanas, a presença de um tempo vivido por Ozildo Albano, de uma realidade que também foi partilhada por outros sujeitos históricos. Seguindo as lições de Burke (2017, p. 24), “[...] imagens nos permitem „imaginar‟ o passado de forma mais vívida”. Ao se usar as fotografias do acervo particular de Ozildo Albano, oportuniza-se ao leitor por-se diante de imagens que enredam sobre dados pessoais e familiares do biografado, assim como acontecimentos locais. E, nisso, residem algumas das complicações na hora de se interpretar uma fotografia, como assinala Burke (2017, p. 214), “leitores de imagens que vivem em uma cultura ou período diferentes daqueles no qual as imagens foram produzidas se deparam com problemas mais sérios do que leitores contemporâneos à época da produção”.
Mesmo não se tendo um vocabulário visual comum para todos os leitores, as fotografias contempladas foram criteriosamente selecionadas e analisadas para que não se perdessem as informações contidas dentro da moldura simbólica que envolve as imagens captadas. Mesmo assim, cabe a cada leitor utilizar do seu campo interpretativo para mergulhar livremente nas imagens presentes no texto.
Assim como as “imagens podem testemunhar o que não pode ser colocado em palavras”, como salienta Burke (2017, p.51), o leitor de imagens também tem a liberdade de buscar significado para aquele momento que ficou suspenso no tempo e que jamais voltará a acontecer.
Sendo a fotografia o memento mori da existência humana, tudo nela representa a cristalização de um instante, do seu referente que estava ali e que foi tocado pelas lentes de uma câmera fotográfica.
Desse processo mecânico, surgiu a cópia da imagem de uma realidade que se esvaiu no exato momento em que a mesma foi tirada para, posteriormente, ser reexperimentada por todos aqueles que, de uma forma ou de outra, estiveram lá. Segundo Sontag (1981, p.22),
A câmera atomiza a realidade, torna-a dócil e opaca. É uma visão do mundo que renega a interconexão, a continuidade, mas que confere a cada momento um caráter de mistério. Toda fotografia contém múltiplas significações; com efeito, ver algo em forma de fotografia é deparar-se com um objeto potencialmente fascinante. A grande lição da imagem fotográfica está em poder afirmar: “Ali está a superfície. Agora pense – ou melhor, sinta, intua – no que possa estar do outro lado dela, e como seria a realidade se fosse assim”. A fotografia, na verdade, incapaz de explicar o que quer que seja, é um convite inexaurível à dedução, à especulação e à fantasia.
O convite proposto por Sontag (1981) ao leitor é que faça a leitura de uma fotografia utilizando-se da imaginação, mas que também se proponha a sentir e intuir no que poderia haver além da imagem captada na superfície social. Por ser