• No results found

5 Freedom and Justice Party’s Policy

5.1 Plan of Action

5.1.2 No Investment Will Come When People Are Killed

Como pesquisador, Ozildo Albano abriu caminhos que possibilitaram o conhecimento do passado da história de Picos. Como homem de ação, soube tratar com sabedoria e diplomacia a gente simples dos interiores por onde garimpou os seus conhecimentos. Segundo a ex-aluna Sinval (2016, p.430-431):

A marca de Ozildo era a simplicidade. Ele era intelectual e simples demais. Um homem que sabia conversar com o doutor e com o matuto. Ele era culto. Quando eu viajava com ele, no projeto de alfabetização, ele viajou comigo umas duas vezes. Ele não tinha negócio, não. Eu dizia: - Ozildo, vamos viajar, vamos para tal lugar?. Nesses interiores, ele ali, sentado comigo, enquanto as professoras davam as aulas. Aí, o matuto estava lá na rede, o dono da fazenda. Ele sentava ali e conversava e, no fim, saia um grande almoço. Ele conversava tantas coisas, naquele método vulgar, como se diz, empírico. Empiricamente ele conversava, coisas que aprendi com ele na época. Eu nunca me esqueci de um caso, quando eu estava sentada e ele de frente ao matuto, fumando aquele cigarrão e Ozildo puxando conversa. Aí, o homem disse: - fulano de tal, vai deixar o gado em tal roça. E o outro disse: - não, o boi que vai ser abatido essa semana, bota de trás da roça, o que vai ser abatido na outra semana, daqui a tantos quilômetros. Eu não prestei muito atenção. Aí, eu disse: - Ozildo, tu aguentou aquela história daquele matuto?. Ele disse: - Tu não prestaste atenção? Oh! servir pra ti, o matuto disse que as vacas que vão ser abatidas agora vão pra perto, pra carne não endurecer. As vacas que vão ser abatidas, não sei quando, vão pra longe pra engordar, as carnes vão ficar dura porque elas vão caminhar. Então, tu não prestas atenção às coisas. E agradeci aquilo.

Atento aos valores e aos costumes de sua época, Ozildo Albano foi coletando as histórias que faziam parte do saber empírico da vivência interiorana do homem do campo. Assim foi registrando e catalogando as coisas do sertão, da natureza e os inúmeros fatos pitorescos que faziam parte do cotidiano da cidade e das localidades próximas.

A preocupação com a preservação das manifestações de cunho folclórico fazia parte do discurso de Ozildo Albano. Em vista disso, tomou para si a responsabilidade de resgatar, dentre outros, o reisado, o bumba-meu-boi, rodas de

São Gonçalo, danças caipiras, o pastoril, os batuques, os desafios e o cavalo piancó. Conforme Moura (2016, p.474),

Ozildo Albano foi fundo nas nossas raízes folclóricas. Ele, mesmo jovem, tinha uma maturidade de conviver com pessoas idosas que passavam para ele toda essa história do pastoril, do São Gonçalo, do reisado, do folclore. Ozildo se identificava muito com isto. Ele era uma pessoa muito popular. [...] Ozildo viu que a cultura popular estava, aos poucos, sendo esquecida e tinha receio de que um dia isso seria extinta.

Pela história narrada acima, percebe-se que Ozildo Albano se identificava com as suas raízes culturais e via que tudo poderia um dia cair no esquecimento. Lutou o quanto pode para divulgar os conhecimentos sobre a cultura popular nos jornais locais e nas feiras culturais que realizou em Picos e outras cidades do Piauí.

O homem culto que era não se permitia ser identificado por isso. Aproximava-se das pessoas de forma a deixá-las à vontade, sem se intimidarem com seu capital cultural. Gostava de aprender e, para isso, sabia que a melhor forma era se fazer acessível a todos.

Em diversos textos publicados nos jornais de Picos, mostrou a importância de colocar em evidência aspectos particulares que diziam respeito à construção da identidade das gentes de sua terra. Aproveitava para discorrer sobre os saraus, em casas particulares, onde se realizavam cantos e modinhas, seguidas por instrumentos musicais, as rodas de calçadas onde se cantava, brincava de prendas e colocava os assuntos em dia.

A preocupação em tudo registrar, estava associada à idéia de preservação da história e da cultura. Com o crescimento da cidade e a sua inevitável modernização, muitas famílias se deslocaram da zona rural em busca de melhores condições de vida, na zona urbana. Por isso, preservar as práticas folclóricas na cidade se tornava mais difícil. Então, conhecer para preservar, nem que fosse através de escritos, foi a saída encontrada por Ozildo Albano para não deixar desaparecer a cultura imaterial local.

Ozildo Albano buscou informações sobre a cultura popular em conversas informais com pessoas idosas que traziam na memória as raízes culturais herdadas de seus antepassados. No relato da sua amiga Moura (2016, p.470-471):

Podemos afirmar que Ozildo Albano foi um dos nossos maiores arautos da cultura picoense, porque toda a história de Picos, todas

as nossas raízes culturais, nós só tomamos conhecimento de sua existência através das pesquisas de Ozildo Albano. Ozildo garimpou as raízes culturais nossa, em termos de danças, folguedos, toda essa questão cultural das ceramistas, das que faziam as bonequinhas de artesanato de feira, as que trabalhavam com artesanato de palha, de couro, tudo isto ele pesquisou e incentivava. Inclusive, Ozildo foi o idealizador do Grupo Mutirão Arte e Cultura. Ele era o nosso líder [...]. Ozildo queria resgatar toda essa história, trazer à tona, porque estava esquecido, era o pastoril, o São Gonçalo, essas danças mais antigas, ele queria resgatar, trazer. Então, através do Grupo Mutirão Arte e Cultura nós conseguimos levar esses grupos para apresentações na Praça, faziam exposições artesanais de couro, de palha, de madeira, de cerâmica e as pessoas vendiam seus produtos. Era uma feira linda que a gente fazia. Aí, participava Albano, eu, Dona Olívia, José Osvaldo, Erivan Lima, Ozildo Batista de Barros, Belinha, a irmã de Ozildo Batista de Barros, Vilebaldo. Eram muitas pessoas que integravam. Então, a gente mantinha um recital, na praça.Heraldo Santos lançou um livro e outros que lançaram livros também, naquela época. Vilebaldo declamava os poemas, José Osvaldo também, dona Olívia e todos nós fazíamos essas apresentações, nessas feiras culturais.

A preocupação em registrar os dados da cultura local também fez de Ozildo Albano um historiador local com preocupação voltada para anotações de dados culturais da comunidade picoense. As pesquisas sobre danças e folguedos, os ceramistas locais que produziam suas peças e vendiam na feira livre semanal, no centro de Picos e que embelezavam o espaço da feira com peças diversificadas, das panelas aos potes de uso doméstico, assim como as artesãs de bonecas de palha e da arte em couro com seus produtos diversos a serem usados pelo trabalhador rural.

Ilustração 15 – Fotografia: Arte em cerâmica sendo vendida na feira livre, em Picos (s/d)

Na ilustração 15, vê-se um garoto, possível filho de ceramista, ao lado de potes de cerâmica, vendidos na feira livre. Este era e é um dos retratos da cultura e da economia local picoense, em que os artesãos produzem sua arte e a vendem na feira local, especialmente nos sábados.

Uma das iniciativas culturais empreendidas por Ozildo Albano foi a organização do movimento educativo Mutirão Arte e Cultura, em 1985, que contou com a participação de diversas pessoas da sociedade que se preocupavam com a preservação das raízes culturais picoenses e com a promoção da cultura em suas várias faces, sobretudo na luta pelo tombamento do Grupo Escolar Coelho Rodrigues, para a transformação deste em uma Casa de Cultura.

Das muitas atividades culturais realizadas pelo Mutirão Arte e Cultura, destacaram-se a realização de exposições de peças artesanais em couro, tecido, palha, cerâmica dos artesãos locais, assim como recitais de poesias por poetas picoenses, danças, músicas e outros.

O movimento Mutirão Arte e Cultura, sob a liderança de Ozildo Albano, promoveu a realização de práticas educativas diversas em Picos, abrindo espaço para pessoas simples apresentarem seu trabalho cultural e, assim, repassarem às gerações presente e futuras marcas da identidade local.

2.10 Atravessando a vida política: Ozildo Albano no contexto do Departamento