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6. Conclusions

6.3 Reflections and Recommendations

Para uma melhor compreensão do filme, na forma narrativa aqui transcrita, tornou-se necessário dividi-lo em seqüências de imagens, separando os diversos núcleos das tramas como se fossem capítulos de um livro.

Como os sujeitos-personagens Ignácio, Juan e Padre Manolo mudam de papéis e nomes no decorrer da história, é fundamental distingui-los, através da legenda a seguir, para que o corpus aqui transcrito não perca a coerência lógica do roteiro original.

LEGENDA:

Juan – interpreta os seguintes personagens: 1 – Irmão mais novo de Ignácio;

2 – Falso Ignácio quando procura o cineasta Enrique Goded;

3 – Zahara, que representa Ignácio como personagem do filme “A Visita”; 4 – Angel Andrade, pseudônimo que adota para tornar-se artista.

Ignácio Rodriguez – interpreta os seguintes personagens: 1 – Criança de 10 anos, dentro do filme “A Visita”; 2 – Travesti dependente de drogas.

Padre Manolo – interpreta os seguintes personagens:

1 – Professor-diretor e sacerdote no filme “A visita”; 2 – Sr. Berenguer, Ex-Padre Manolo.

Enrique Goded – interpreta os seguintes personagens: 1 – Criança de 10 anos, dentro do filme “A visita”; 2 – Diretor de cinema Enrique Goded.

IMAGEM 01

O filme abre com um close num poster que divulga um filme de Enrique Goded, na parede do seu escritório. Uma legenda faz referência ao ano de 1980 na cidade de Madrid, na Espanha. Escritório do sujeito-personagem Enrique Goded, diretor de cinema, em companhia do personagem Martin, produtor de cinema onde os dois, sentados um em frente ao outro numa mesa cheia de papéis, lêem notícias de jornal em busca de inspiração para roteiros cinematográficos.

DIÁLOGO

ENRIQUE GODED (lendo): A onda de frio que enfrentamos faz sua primeira vítima. Um motociclista morreu congelado na rodovia quatro e dirigiu sua moto por noventa quilômetros depois de morrer. Dois patrulheiros pediram que parasse e como não reagia, eles o perseguiram. Emparelharam e exigiram que mudasse de atitude. Como não mexia, perceberam que algo estava errado.

ENRIQUE GODED – É uma imagem maravilhosa. Um jovem morto pilota sua moto pela planície enregelada... escoltado por dois patrulheiros. Aqui me ocorre uma historia, vou cortar e guardar para ver se não me ocorre algo.

(Campainha da porta toca e Martin atende)

MARTIN – O que quer?

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Sou ator. Procuro Enrique Goded. MARTIN – Ele não está.

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Mas posso vê-lo, cara.

MARTIN – Ainda assim, não temos nenhum projeto no momento, então...

(Martin volta para a sala onde estava e dirige-se a Enrique Goded))

MARTIN – Disse que era amigo seu da escola. ENRIQUE GODED – Quem será?

MARTIN – Ignácio Rodriguez.

ENRIQUE GODED – Ignácio? Não pode ser. MARTIN – Foi o que ele disse.

(Martin encaminha-se para a porta e deixa Ignácio entrar)

ENRIQUE GODED – Ignácio, é você mesmo?

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Claro, Enrique. Fico feliz que lembre de mim. ENRIQUE GODED – Como podia não lembrar?

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Bem, já faz 16 anos que não nos vemos. ENRIQUE GODED – Tudo isso.

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Mais ou menos.

ENRIQUE GODED – Não iria te reconhecer com essa barba. Ficaria melhor sem ela. Venha até minha sala. Quer um café? Sente-se. O que o traz aqui?

ENRIQUE GODED – Grupo Besouro.

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Companhia independente. “El Retablio de San Cristobal” de Garcia Lorca. “O Diário de Adão e Eva” de Mark Twain.

ENRIQUE GODED – Mark Twain, Garcia Lorca. Só os melhores no Grupo Besouro. Você não escreve mais?

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Não, parei há tempos. Mas como sabia que iria gostar, trouxe minha última história. “A Visita” de Ignácio Rodriguez

ENRIQUE GODED – “A Visita”.

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – A propósito, quando vai começar seu próximo filme? Faço qualquer coisa.

ENRIQUE GODED – Não sei... Fico olhando notícias pra ver se ocorre algo. Cara, me pegou no meio de uma crise criativa.

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Que chato. Leia minha história quem sabe terá alguma idéia.

ENRIQUE GODED – Do que se trata?

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Uma parte é baseada em nossa infância e a outra não, quando os personagens são adultos. Isso é ficção.

ENRIQUE GODED – Ah, não te apresentei. Ignácio, Martin.

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Por falar nisso, agora não me chamo mais Ignácio. Sou Angel.

ENRIQUE GODED – Por quê isso?

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – É meu nome artístico. Um ator não pode se chamar Ignácio Rodriguez.

ENRIQUE GODED – Não pode? MARTIN – Claro que não.

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Angel Andrade! Todos me chamam assim, até mesmo minha mãe. Obrigado.

ENRIQUE GODED – Ignácio, era... Bem, Ignácio antes de tornar Angel era, é um amigo de escola. Martin é meu diretor de produção.

MARTIN – E criado para tudo.

ENRIQUE GODED – Bem, Ignácio. Fico feliz em vê-lo. Logo que tiver um projeto... não sei... me dê seu telefone, te ligo.

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Não tenho telefone. Mas eu ligo pra você. Quer que deixe outra foto?

ENRIQUE GODED – Não, não se preocupe. Bem, Angel, foi ótimo revê-lo.

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Então, tenho de ir embora? Posso ajudá-lo a recortar? ENRIQUE GODED – Não, muito obrigado. Está com uma cara ótima!

IGNÁCIO (JUAN-ANGEL) – Você também. Leia “A Visita” e me diga. ENRIQUE GODED – Ótimo. Até mais. Estou morrendo de curiosidade.

MARTIN – Que chato! Achei que não iria embora nunca. É mesmo amigo seu? ENRIQUE GODED – Não o vejo desde o colégio. Éramos muito íntimos. Bem, ele foi meu primeiro amor. Mas ele mudou muito. Não o reconheci.

MARTIN – Pensa em vê-lo de novo? Me pareceu que gostou de revê-lo.

ENRIQUE GODED – Não. Não há nada menos erótico do que um ator em busca de trabalho.

IMAGEM 02

O sujeito-personagem Enrique Goded encontra-se em sua casa sentado com o exemplar do texto “A Visita” e, durante sua leitura, a narrativa do texto começa a ser representada numa das três tramas que o filme apresenta, o que o torna um filme dentro do filme.

Neste bloco os cenários se intercalam entre a casa de Enrique Goded e a cidade do interior onde aparece a fachada de um cinema com letreiro Cine Olympo e diversos pedaços de cartazes antigos e rasgados. Há um close no cartaz: “A Bomba”, na parede de um bar onde se vê o personagem Enrique Serrano jogando cartas e bebendo. Ato contínuo ele levanta e se dirige para o salão interno, palco de um show, em que Zahara, (Juan-Angel/Ignácio) travestida como Sara Montiel, faz uma performance com a música “Quiçás, qui çás, quiçás”.

Ao final do show, Zahara (Juan-Angel/Ignácio) e Enrique se encontram no estacionamento do cassino, onde este, alcoolizado, procura as chaves da moto. Acontece então o reencontro entre os amigos de escola Enrique Serrano e Ignácio Rodriguez.

DIÁLOGO

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) (voz em off) – Desde que começamos a excursão do show: “A Bomba” espero por este momento. Hoje nos apresentamos na cidade onde estudei. Não vou mencionar seu nome para não promovê-la. Minhas melhores lembranças são do Cine Olympo... que hoje está em ruínas.

PAQUITO (Apresentando Zahara no show) – Ela se define como uma mistura do deserto, do acaso e cafeteria. Ela é uma grande artista e uma grande amiga minha. Com vocês, nosso próximo ato, o mistério e a fascinação da autêntica e inimitável Zahara!

(No estacionamento do Bar, após o show)

PAQUITO – Então?

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Te vejo na pensão. PAQUITO – Você tem tempo para tudo, bicha!

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Olá. O que houve? ENRIQUE SERRANO – Não encontro minhas chaves.

(Zahara e Enrique vão para a pensão, onde se envolvem sexualmente. Zahara, ao sair, deixa uma carta para Enrique)

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) (voz em off) – “Querido Enrique, sou eu, Ignácio. Quantas vezes sonhava com este momento. Ainda que anos tenham se passado, nunca o esqueci. Temos de nos ver de novo, mas quando não estiver bêbado. Quero falar da minha vida e saber da sua enquanto comemos um doce na doceira Mallol como quando saíamos da escola nos finais de semana. Não vou complicar sua vida. Sei que está casado e tem um filho. Sei que mora na cidade vizinha, e é um duro. Gostaria de te ajudar. No momento, estou trabalhando numa coisa mas te explicarei tudinho lá na doceria. Te espero entre às 6 e 7 horas. Venha, por favor! Te adoro. Ignácio.”

IMAGEM 03

Zahara (Juan-Angel/Ignácio) e Paquito estão na escada do Cine Olympo programando o reencontro com Padre Manolo na Igreja da Escola. Utilizam cocaína e iniciam a caminhada para a igreja onde Padre Manolo está rezando uma missa. DIÁLOGO

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Vimos os primeiros filmes de Sara aqui. E “Bonequinha de Luxo”. Enrique e eu nos tocamos pela primeira vez aqui. Meus joelhos tremem só de pensar nisso. Vou encontrar com ele às 6 na Doceira.

PAQUITO – Não tenha ilusões, Zahara. Lembre-se, está casado.

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Se Padre Manolo não tivesse nos separado. PAQUITO – O que ele tem a ver com isso?

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Muito, tudo. Aquele padre me deve muito e chegou a hora dele pagar.

(Os dois entram na igreja onde Padre Manolo reza a missa. Paquito prepara-se para roubar as peças do altar)

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – É o Padre Manolo. Parece tão velho. PAQUITO – Criança é que não é. Claro. Zahara, isso é uma loucura!

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Está dando para trás, sua filha da puta!

PAQUITO – Mas a capela é tão pequena, não há onde se esconder. Quando aparecermos ele vai fazer o que Cristo fez com os vendilhões do templo. Os expulsou com um chicote, e ele era Jesus Cristo! Então esse homem que, como você diz, é tão imperfeito.

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Se demorar na sacristia não me espere. Nos encontramos na pensão para almoçar, querida.

(Zahara entra na sacristia.)

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Bom dia, Padre Manolo. PADRE MANOLO – O que quer? Não pode entrar aqui.

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Sou irmã de um ex-aluno seu, Ignácio Rodriguez. Não lembra dele?

PADRE MANOLO – Ainda assim não pode entrar aqui! Por aqui passam muitos alunos.

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Mas poucos como Ignácio com certeza. Trouxe um recado importante dele.

PADRE MANOLO – Ele pode me dar o recado ele mesmo.

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Não pode. Morreu num acidente. PADRE MANOLO – Sinto muito. Agora, por favor, vá embora! Vá embora! IMAGEM 04

Zahara sai da igreja e procura Padre Manolo em sua sala na escola, onde ele observa uma foto de Ignácio aos dez anos, com roupa de coroinha, que estava

em sua gaveta particular. Neste momento da trama, quando o Padre Manolo começa a ler uma carta entregue por Zahara, o cenário é transferido para a escola, onde o passado começa a ser retratado, evidenciando o abuso sexual sofrido por Ignácio e sua amizade com Enrique Goded.

DIÁLOGO

PADRE MANOLO – Disse para que saísse! O que está fazendo aqui?

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – O mesmo que você. Me lembrando de Ignácio. PADRE MANOLO – Saia!

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Precisamos conversar, Padre. Só vai levar um minuto.

PADRE MANOLO – Diga o que quer dizer e vá embora. Não quero que a vejam! ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Vamos conversar no escuro? Não me importo. Estou acostumada a trabalhar no escuro.

PADRE MANOLO – O que queres?

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Uma vida melhor... e um corpo melhor. PADRE MANOLO – E o que eu tenho a ver com essas melhorias?

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Poderia me ajudar a financiá-las.

PADRE MANOLO – Não acredito que Ignácio tenha morrido ou que seja sua irmã. Nem acredito que seja uma mulher. (Dirige-se à porta e a tranca)

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Vai me trancar aqui dentro?

PADRE MANOLO – Não quero que ninguém entre por engano. E agora quer me dizer de uma vez por que está aqui?

ZAHARA (JUAN-ANGEL/IGNÁCIO) – Ok. Vou direto ao ponto. É uma história que Ignácio escreveu. Sim, ele ouviu seus conselhos e continuou a escrever. Tenho um amigo que trabalha no “Diário 16”. Ficou muito interessado em publicar essa história.

Mas antes queria a sua opinião. Já que além de ser professor de literatura de Ignácio você é um dos personagens principais da história. Leia aqui.

IMAGEM 05

Aqui é representada a cena do abuso sexual perpetrado pelo Padre Manolo contra o aluno Ignácio. A cena acontece em um lugar campestre, às margens de um lago onde os alunos nadam, enquanto Ignácio canta a música “Moon River” acompanhado por Padre Manolo ao violão. Os dois estão sentados em frente a uma moita de bambus, local onde Padre Manolo irá consumar o ato do abuso. Na seqüência, Ignácio sai correndo, tropeça e fere a testa, de onde um filete de sangue começa a escorrer.