6. Conclusions
6.2 Findings and Conclusions of Research Objective #2
Como o filme “Má Educação”, escrito e dirigido por Pedro Almodóvar, é uma representação do seu imaginário, faz-se importante, para contextualização de nossa proposta de estudo, uma visão do “lugar” do discurso do cineasta e a especificidade de sua obra artística.
O diretor e roteirista de cinema Pedro Almodóvar Caballero nasceu em Calzada de Calatrava, La Mancha, Espanha em 1951. É considerado, no mundo cinematográfico contemporâneo, como o diretor espanhol mais famoso e conceituado, desde Luis Buñuel e Carlos Saura.
Silva (1996) pontua que Almodóvar traduz em seu universo fílmico o espírito do seu tempo e do povo espanhol. Sua filmografia reflete e carrega as marcas dos desejos mais íntimos, reprimidos e sublimados da sociedade espanhola submetida por quatro décadas à ditadura franquista. Com a morte do ditador Francisco Franco em 1975, e o conseqüente fim do seu regime, o cinema de Almodóvar foi fortemente influenciado pelo confronto entre os ideais de salvação, anteriores à Guerra Civil Espanhola, e o ceticismo hedonista, no bojo da nova modernidade adquirida pelo fim do franquismo.
Assim, como pontua o autor, o cinema de Almodóvar nasce no limite do
Desejo, e através de seus caminhos tortos, os personagens vão sendo delineados e
surgindo dos seus roteiros e tramas. Neste clima de encantamento e resgate da liberdade entre os espanhóis, Almodóvar estréia em outubro de 1980 seu primeiro
filme de longa-metragem “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón”, considerado por estudiosos do cinema como inovador, criativo e renovador. Como bem explicita o autor:
“O Desejo que acredito pairar não só no horizonte pessoal, sexual e erótico dos personagens de Amodovar, mas também no campo social, cultural e histórico que eles refletem. Desejo que, nos seduzindo com sua ‘presença sempre ausente’, nos impulsiona adiante. Desejo que, na sociedade espanhola, nas décadas de 70 e 80, também se ‘fantasiou’ de liberdade; de autonomia; de democracia para alguns, socialismo para outros, alimentando sonhos, projetos e lutas. Alimentando a vida, mas também provocando mortes” (Silva, 1996, p. 82)
No cinema espanhol o tema das relações familiares é explorado de forma peculiar, abrangendo tanto seus aspectos sociais como os do imaginário individual. Cañizal (1996) tece considerações sobre as conseqüências da guerra civil e do regime franquista que, ao gerar uma deteriorização das relações sociais e restrição dos espaços coletivos de convivência, obrigou as famílias a se defrontarem com seus segredos, tabus e fantasmas. O autor refere que:
“Às vezes, as pretensas escabrosidades dos segredos familiares aparecem diluídas na representação de uma asfixiante atmosfera social para a qual concluem tanto as aspirações vindas da redução dos espaços da cidadania quanto as irradiações de traumas abafados nos enclausuramentos da família” (Cañizal, 1996, p. 25)
Assim, cineastas como Carlos Saura, Bigas Luna e Luis Buñuel, como forma de lidar com a forte censura nos meios artísticos, imposta pelo regime de Francisco Franco, desenvolveram uma poética da família construindo uma gama de recursos expressivos sutis para representar em suas obras os dramas e tramas familiares, que existem por trás de seu suposto poder sacrossanto, moral e legal. Almodóvar faz referências sobre a influência que sofreu dos diretores citados,
principalmente Luis Buñuel, representante do movimento surrealista e criador dos clássicos Um Chien Andalou, Viridiana e Belle de Jour.
Cañizal (1996), em sua análise sobre o primeiro filme de Almodóvar refere que o cineasta expressa, em sua primeira produção em longa-metragem, os conteúdos dos conflitos explorados por Buñuel em filmes como os acima citados, que nos remontam:
“a essa urdidura de sigilos que, no seio das relações familiares, esconde, em nome das muitas hipocrisias do pudor, traços reveladores da condição humana. É na exploração das subterrâneas correntezas desse veio que, na minha opinião, se situa Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón” (Cañizal,1996, p.19).
Melo (1996) chama atenção para o fato de que Almodóvar participou e foi fortemente influenciado pelo movimento de contracultura denominado Movida
Madrileña, cuja inspiração estética fundava-se no pop e punk europeu e norte-
americano. Propunham uma transformação da mentalidade social espanhola que encontrava-se no bojo do processo de democratização, com o fim do regime franquista.
A forte censura cinematográfica, principalmente no que se referia aos conteúdos e imagens de cunho sexual, foi extinta no ano de 1977, culminando em uma explosão sociocultural de atitudes e comportamentos que se refletiam na moda, na sexualidade, nas artes, no uso de drogas e em hedonismo, o que gerou um forte contraste com a tradição, além do anacronismo artístico, político e moral da sociedade espanhola. O diretor foi considerado o rei da Movida e o melhor representante da arte espanhola dos anos 1980.
A autora, em sua analise sobre o cinema de Almodóvar, tece considerações sobre a caracterização dos personagens do diretor que sofrem a
influência de suas experiências pessoais, sua observação da realidade e de uma soma de influências da cultura popular, cinema americano e dos movimentos de vanguarda. Em seus estudos sobre os filmes de Almodóvar, tece considerações importantes ao analisar a obra Pepi, Luci e Bom y Otras Chicas del Montón, afirmando:
“Pepi, Luci, Bom...representa uma significativa abertura à inúmeras possibilidades de prática sexual. Almodóvar trata homens e mulheres heterossexuais, travestis, transexuais e homossexuais com a mesma naturalidade, de modo que, dificilmente a platéia se dá conta que está ‘participando’ de um jogo pelos labirintos do proibido. É nas mãos dos seus personagens marginalizados que o diretor põe toda a possibilidade de mudança e luta contra a opressão e inércia sociocultural” (Melo,1996, p.252).
Após sua primeira estréia, Almodóvar vem mantendo uma extensa filmografia, fiel às tramas metafóricas de sua urdidura de sigilos. Obedecendo a uma ordem cronológica temos: Pepi, Luci e Bom y Otras Chicas Del Montón – 1979/
1980; Laberinto de Pasiones – 1982; Entre Tinieblas – 1983; Qué He Hecho Yo para Merecer Esto!! – 1984; Matador – 1985/1986; La Ley Del Deseo – 1986; Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios – 1987; Átame! – 1989; Tacones Lejanos – 1991; Kika – 1993; La Flor de mi Secreto – 1995; Carne Trémula – 1997; Todo Sobre Mi Madre – 1999; Habla com Ella – 2002; La Mala Educación – 2004. Não
destacaremos sua produção de filmes de curta-metragem, que compreende o período de 1974 a 1978.
O filme “Má Educação”, objeto do presente estudo, causou grande polêmica desde sua primeira exibição. Um resumo das críticas cinematográficas referentes a esta obra, quando do seu lançamento no mês de maio de 2004, o qualificaram como um filme: complexo, obsceno, tragédia romântica, narcisista,
escandaloso, frio, homófono, realista, triste, cruel e radical (no sentido de, ou se ama ou se odeia).
Surgiram especulações e debates sobre o fato de ser autobiográfico ou não. O próprio diretor em entrevistas no festival de cinema de Cannes (2004) declarou: “É um filme muito íntimo, mas não exatamente autobiográfico. Obviamente
minhas lembranças foram importantes na hora de escrever o roteiro, afinal eu vivi nos cenários e nas épocas em que a trama se desenvolve”.
Para o presente estudo, as questões de autenticidade dos fatos autobiográficos são secundárias, pois esta película foi escolhida por retratar o fenômeno do Abuso Sexual Infantil, de um modo sutil e, paradoxalmente denso, dramático e cruel, que encontra ressonância com a realidade. O drama, representado pelo filme, é verossímil com pesquisas e na experiência clínica.