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5. Opportunities and Obstacles for Interreligious Track-II Diplomacy

5.4 Formal Track-I Dynamics with the Heads of Religious Institutions

5.4.2 Lack of Distance from Government

De acordo com Gill (2002), a Análise de Discurso – AD – refere-se a uma gama de diferentes enquadramentos para o estudo de textos, originada em diversos meios teóricos e utilizada de forma especifica por inúmeras disciplinas e nos mais

diversos campos do saber. O ponto comum em todas as perspectivas teóricas que utilizam a AD refere-se à importância conferida ao discurso para a construção da vida social e à recusa em uma concepção da linguagem como um instrumento neutro para reflexão e descrição dos fenômenos humanos.

Dentre as diversas práticas teórico-analíticas, no âmbito das Ciências Sociais e Humanas, adotaremos, para o presente estudo, a Análise do Discurso de linha francesa. Utilizaremos a sigla AD para designar Análise do Discurso no âmbito deste trabalho.

O surgimento da AD ocorreu na França durante a década de 1960, a partir das críticas às Ciências Sociais ensejadas pelo teórico Michel Pêcheux, contrapondo-se à premissa da Análise de Conteúdo, que concebe a linguagem como transparente, um sujeito intencional e com capacidades plenas sobre a língua e os sentidos como conteúdos. A premissa da AD para Michel Pêcheux é o pressuposto de que o discurso se define como o “efeito de sentidos entre locutores”. Assim, para a AD, não é a fala, nem o texto ou a escrita, mas o discurso que torna- se um objeto teórico. Temos então que é no discurso e, através do discurso, que se constitui o sujeito e as palavras significam.

Pêcheux e Fuchs (1997), explicitam que a AD fundamenta-se epistemologicamente na articulação de três campos do saber cientifico, são eles:

“1- o materialismo histórico, como teoria das formações sociais e de suas transformações, compreendida aí a teoria das ideologias; 2- a lingüística, como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação ao mesmo tempo; 3- a teoria do discurso, como teoria da determinação histórica dos processos semânticos. Convém explicitar que estas três regiões são, de certo modo, atravessadas e articuladas por uma teoria da subjetividade (de natureza psicanalítica)” (Pêcheux e Fuchs, 1997, p. 163).

Assim, através da apropriação dos conceitos dessas disciplinas e seus deslocamentos, o dispositivo teórico da AD será construído culminando na “des- territorialização” descrita por Orlandi (2004) a partir desse deslocar dos conceitos de língua, historia, ideologia,metáfora, paráfrase, inconsciente.

Orlandi (1999, p. 16) explicita que é no discurso onde acontece a materialidade específica da ideologia e na língua, a materialidade do discurso. Sendo assim, o discurso é “o lugar em que se pode observar essa relação entre

língua e ideologia, compreendendo-se como a língua produz sentidos por/para os sujeitos”. Na AD, o texto é o exemplar do discurso, a marca fundamental de sua

materialidade como linguagem, funcionando como uma unidade de análise.

De acordo com a autora, o texto não se define por sua extensão, mas como uma unidade de sentido, um objeto simbólico e, sendo assim, não transparente, o que exige uma interpretação e evoca questões, onde as prováveis respostas não são os objetivos da AD. Seu objetivo maior é entender como o texto diz para a produção dos sentidos, como é a organização formal de seus elementos (análise lingüística), trabalhando assim a teoria e a análise para a compreensão dos gestos de interpretração que funcionam no texto. A AD volta-se para o funcionamento dos processos discursivos, para o modo como língua e ideologia são articulados na elaboração dos sentidos e para a constituição do sujeito, ou seja, como se dá a inscrição da língua na estória.

Assim, na AD essa noção do seu funcionamento é muito importante. Em sua análise discursiva, o analista não reduzirá seu trabalho na análise lingüística ou na análise do contexto sócio-histórico (ideológico/político), mas sobretudo:

“que escuta ele deve estabelecer para ouvir para lá das evidências e compreender, acolhendo, a opacidade da linguagem. A determinação dos

sentidos pela história, a constituição do sujeito pela ideologia e pelo inconsciente, fazendo espaço para o possível, a singularidade, a ruptura, a resistência” (Orlandi, 1999, p. 59).

Como este estudo pretendeu fazer uma análise do discurso verbal e não- verbal do filme Má Educação, são importantes as contribuições de Orlandi (1992, 1995) a partir dos seus estudos sobre o silêncio, uma vez concebido como o não- dito, percebido a partir do interior da linguagem. O silêncio não é reduzido a um vazio sem sentido, tendo significância própria. Torna-se a possibilidade para o sujeito trabalhar sua contradição constitutiva que o coloca nas relações da unicidade com multiplicidade.

Compreendendo o filme com um meio que abrange o verbal e o não- verbal, deve-se estar atento ao fato de que os mecanismos utilizados para a apreensão do não verbal, valendo-se dos modos utilizados na análise verbal, poderão revelar um efeito ideológico de apagamento produzido nos diferentes sistemas significantes.

Souza (1998) explicita que pensar a imagem descrevendo-a através do verbal, leva a descrever a imagem, o que gera um efeito de segmentação. Através da palavra, a imagem pode ser descrita, traduzida e falada, mas não é revelada em sua materialidade. Assim, para a análise de imagens não cabe o raciocínio de que uma imagem tem um valor maior do que milhares de palavras, uma vez que é a própria visualidade da imagem que a torna real e não sua co-relação com o verbal.

De acordo com a autora, nada impede que a imagem seja objeto de leitura, simplesmente pelo fato de não estar correlacionada com o verbal. Desta forma, como sua referencialidade está fundamentada em sua propriedade de representatividade, a imagem pode ser lida e torna-se uma linguagem específica. Não apenas em função dessas características mas em função de sua

especificidade, a imagem constitui-se em um texto, um discurso. No contexto dos modos de significação a imagem deve ser inserida buscando um entendimento de como ela será constituída em discurso e como se dá sua utilização com a finalidade de referendar discursos de textos verbais.

Assim, de acordo com Souza (1998):

“procuramos entender como uma imagem não produz o visível; como torna-se visível através do trabalho de interpretação e ao efeito de sentido que se institui entre a imagem e o olhar. Um olhar que trabalha diferente quando da leitura da imagem. Enquanto a leitura da palavra pede uma direcionalidade (da esquerda para a direita), a imagem é multidirecionada, dependendo do olhar de cada ‘leitor’. O trabalho de interpretação da imagem, como na interpretação do verbal, vai pressupor também a relação com a cultura, o social, o histórico, com a formação social dos sujeitos. E vai revelar de que forma a relação imagem/interpretação vem sendo ‘administrada’ em várias instâncias” (Souza, 1998, p. 5)

Fundamental para a nossa análise é a distinção pontuada por Orlandi (1989) na diferenciação sobre o silêncio, que não deve ser confundido com a questão do implícito. Nesse sentido, o implícito (não-dito) ganha seu significado em relação ao que foi falado/revelado anteriormente, enquanto o silêncio significa por si mesmo; revela-se por em si mesmo, não necessitando ser dito.

Ainda de acordo com a autora, o silencio será determinado pela forma como será produzido. As duas formas de silencio explicitadas pela autora são assim definidas: o silencio imposto que é definido pela exclusão, dominação. Seu correlato é a censura, muito utilizada pelas formas de poder autoritários. As palavras cujos sentidos podem ser “perigosos” para tal sistema, deverá ser silenciada, proibida. Um efeito de sentidos produzido por este tipo de silencio é o medo. Em sociedades ditatoriais, o imaginário do silencio se revelará através dos efeito de sentidos provocados por tal sentimento.

O segundo tipo é o silencio proposto que se origina no individuo oprimido e se revela como um modo de resistência, auto-proteção e defesa. Nos dois modos de silencio há uma ruptura que se produzirá de forma esperada por ambos atores do discurso nos papeis do opressor e do oprimido.

Em síntese: para a autora o silencio não é apenas um acessório da linguagem, ou ausência desta, mas tem significância em si mesmo, torna-se essencial para a significação e não está meramente “entre” as palavras, sobretudo ultrapassando-as e atravessando-as.

Tendo o filme como “corpus” da pesquisa, os discursos verbais e não- verbais foram retirados da história fílmica para a AD. O filme “Má Educação” foi transcrito em toda a sua narrativa textual através das legendas em português encontrada na versão comercial do filme. Os discursos não-verbais, compreendidos nas imagens do filme, foram analisados também através do uso do recurso de recortes fotográficos da cenas pertinentes aos objetivos da pesquisas, por sua vez representadas neste trabalho por meio de 17 figuras.