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Como já expus nos capítulos antecedentes, as variadas mudanças corporais após a ocorrência da lesão, assim como as práticas discursivas a que esse sujeito é submetido, a sexualidade é também um território em que o diferente, o disfuncional e o deficitário são deslocados, governados e suscitados por uma multiplicidade de discursos, enunciados e incitação ao dizer verdadeiro.

Foucault (1984, p. 11) revela que sua intenção e os objetivos relacionados a analisar a experiência da sexualidade do indivíduo moderno, a partir do século XVIII, gravitavam sobre o se produziu ao que ele denominou de “sujeito de desejo”. Entretanto, analisar a formação e o desenvolvimento dessa experiência a partir da própria modernidade constituiu-se em tarefa difícil. Para tanto, exigiu-se um deslocamento teórico, uma genealogia e “hermenêutica do desejo” por meio da análise do que fora designado como sujeito. Com esse intuito, focalizar nas técnicas e modalidades de relação “através das quais o indivíduo se constitui e se reconhece como sujeito”.

Para além do ato sexual, ao se problematizar a sexualidade, não como genitalidade, nem como meio de reprodução biológica nem como uma ciência de um mundo discursivamente construído como “oculto” ou reprimido, deve-se conceber ou analisar a sexualidade como um dispositivo que teve na confissão a técnica de fazer dizer a verdade do sexo, como também uma estratégia coercitiva de se estabelecer regras e injunções, logo, gerador de poder e produtor de saber. (Foucault, 1988).

Em nosso primeiro grupo de discussão, a descrição disso pode ser vista com a “cientificidade” inicial ou a verificação de que o sexo foi modificado e também está deficiente como se expressam os sujeitos adiante.

A: O que a lesão medular traz de dificuldade é o movimento dos membros. Tem alguma deficiência que os movimentos são preservados, né? Tem alguma lesão medular que não tem aqueles movimentos, queira ou que não queira, é uma barreira.

C: E de certos órgãos também. Intestino, bexiga, órgãos sexuais também. (Silêncio e olhares).

Como pesquisador, reabilitador e incitador desse discurso, porque atuo na área, sei do “saber” falar e do poder exercido e indago, antes que o silêncio seja a muralha ou “represente” a repressão sobre o sexo: Vocês, então, acham que a sexualidade também sofre interferência? Concordam com o que ele disse?

A: Claro, influi, faz parte dos movimentos. (Todos aquiescem com meneios de cabeça). S: Sim, sim, eu acho que é uma das primeiras coisas que vem nas cabeças das pessoas é isso. Já aconteceu comigo. [...] A pessoa chega perguntando como continua. Você responde daquilo que você vive, se é normal ou não. Se pode dar ou não?

C: As pessoas pensam que você não tem vida sexual ativa. E aí, tem mulher? Se é casado, se tem namorada. Às vezes elas (as mulheres) têm vontade de chegar pra você, te acham bonito, mas às vezes a pessoa acha que você não tem a capacidade de realizar o ato sexual, se sente constrangida.

Pesquisador: o tema da sexualidade vale a pena ser incluso em nossas discussões?

Todos concordam com a sugestão, que embora eu soubesse que viria à tona, não propositadamente a impus. A partir disso, percebo que a confissão como técnica de pesquisa e como dispositivo de poder-saber parece confirmar o que Foucault (1988, p. 68) reivindica sobre essa tal “sociedade confessanda” que se estendeu e fez do homem no Ocidente um “animal confidente”, produzindo uma verdade sobre o sexo.

Tal verdade ou vontade de verdade se multiplicará dando a esse dispositivo uma série de procedimentos para que esse sujeito ao falar de seu sexo corresponda ele mesmo ao seu enunciado. Com efeito, a confissão empreendida desde o ritual religioso, ao consultório médico ou ao psiquiátrico tornou possível, circulou e legitimou uma discursividade científica, a que Foucault alcunha de scientia sexualis.

Sobre o que foi expresso dos enunciados dos sujeitos, observa-se mais uma vez a questão da vergonha, constrangimento, correspondendo ao lugar-comum, tabu do sexo, ou da repressão-incitação dele. Decerto, aqui estão sujeitos que participaram de um programa de reabilitação que tiveram aulas dessa scientia sexualis e, por que não, de uma sutil ars erótica, conforme também definiu Foucault, à qual me reportarei subsequentemente.

Atentando-se para C: As pessoas pensam que você não tem vida sexual ativa, pode-se entender a enunciação, também no restante desse relato, da incitação, o constrangimento, a invasão do mundo privado dos órgãos sexuais, do ato, principalmente, quando se trata da virilidade, da comprovação da masculinidade, da prática discursiva da normalidade. Essas questões circundam esses sujeitos, como os outros com quem já pude conviver. Como se diz de outros deficientes, aqui não estão seres ou corpo “assexuados”, mas submetidos a um olhar da sexualidade como eixo entre a normalidade médico-científica e o discurso da incapacidade como meio mutilador das práticas eróticas.

No programa de reabilitação, existem encontros em que muitas questões sobre as mudanças e complicações são abordadas, incluindo às de “ordem sexual”. Tive a oportunidade de participar por mais de 05 anos desses encontros quinzenais, que geralmente é realizado com a participação de dois profissionais: enfermeiro e psicólogo. Sucintamente, apresentamo-nos e a proposta do encontro, solicitamos que se apresentem e que falem de suas causas e tempos de lesões, que informem seu estado civil, se têm relacionamentos afetivos, se pretendem ter filhos ou se já os têm. Procuramos dizer que falaremos de sexualidade e não somente de sexo, de ato sexual, mas também que esclareceremos dúvidas, partilharemos experiências.

Após as apresentações, solicitamos que relatem alguma dúvida, mito ou tabu que possa ali “ser desmistificado”. Anotamos em um quadro e damos seguimento falando das alterações fisiológicas, que resumidamente, englobam a disfunção erétil, a ejaculação retrógrada (retorno do esperma para a bexiga), alteração na fertilidade por inviabilidade dos espermatozoides e aumento da temperatura do escroto, diminuição ou ausência da sensação do orgasmo em virtude da diminuição ou ausência da sensibilidade abaixo do nível da lesão (lesões completas, p. ex.). (LIN et. al, 2010; DEFORGE et. al., 2006).

Das medidas usualmente utilizadas para dirimir os inconvenientes dessas alterações e promover uma atividade sexual mais satisfatória, abordamos quanto ao uso de medicações orais, injetadas no próprio pênis ou na uretra; da implementação de medidas não invasivas como os anéis penianos, bombas a vácuo e em casos mais refratários, pode haver indicação de implante cirúrgico de próteses penianas. Quando há ejaculação retrógrada (grande parte dos casos, principalmente em lesões completas), o método mais utilizado, além da estimulação manual, é a vibroestimulação peniana (emissão de ondas sobre a glande do pênis). (LIN et. al, 2010; DEFORGE et. al., 2006).

Didaticamente, fazemos a scientia sexualis circular, porque nossa fundamentação teórica é biomédica, logo, solicitamos/interpelamos a “confissão”, como “especialistas- confessores da ciência da reabilitação que somos”. Ainda assim, promovemos discussões sobre a questão do homem pouco conhecer o próprio corpo, da demonstração do viril, das questões de gênero, do machismo, do ser homem. No caso das mulheres, é realizado um grupo em separado em que outras questões são discutidas (lubrificação vaginal diminuída, zonas erógenas, gravidez).

No caso dos homens com lesão medular, abrangemos o fato de serem, em sua maioria, nordestinos, focando as noções e constituições históricas e culturais que eles devem levar em consideração, e o que o discurso da normalidade e da deficiência tem a ver com isso, com a sexualidade que deve também ser dita. Conversamos sobre casos de paternidade após a lesão, apresentando exemplos de outros sujeitos que participaram de outros encontros e programas.

C: [...] Não é fácil. Mas fica mais fácil, porque você vai ter uma pessoa que já te compreende, né. Porque você tem uma lesão e nunca ter tido ninguém, e pela primeira vez, você fica muito inseguro. [...] No começo foi muito assim esquisito, né, porque a gente não sabe o que fazer, como fazer no geral (desenha no ar posicionamentos), do começo ao fim de uma relação. Tem sensibilidades também que mudaram, né. Certas partes do corpo que são mais sensíveis

E suas histórias/dúvidas/mitos se remetem a “se vai funcionar ou não”, que as pessoas lhes questionam na rua, que nunca mais “tentaram”, que amigos, colegas, familiares lhes interrogam se “ainda são homens”. Às vezes, insurgem pilhérias, risos e troca de novos relatos; outras vezes, muitos condicionam o fato de não darem tanta atenção à mudança nas

funções sexuais e reprodutivas, em detrimento à paralisia, à incontinência urinária e outras complicações.

A sexualidade fica nas sombras, mas será incitada no percurso de suas vidas, no afrontamento de sua incapacidade com as estratégias e discurso da “reabilitação” e na experiência de novas “técnicas” pedagogicamente transmitidas, mas condicionadas, não esqueçamos, nas práticas da normalidade e da deficiência.

Embasados em seus depoimentos e experiências, tentamos falar da sexualidade como vivência, partilha, companheirismo, busca de novos métodos, posicionamentos, conversas e orientações com as parceiras ou parceiros, os quais, em alguns casos, participam dos encontros. Assim, aconselhamos sobre novas zonas erógenas, posições, o próprio uso da cadeira como artifício para as descobertas pelo casal e pelos solteiros. “Descobrir-se”, sempre enfatizamos.

Essa scientia sexualis, desenvolvida ao longo do século XIX, medicalizou a confissão como técnica de extrair e produzir a verdade sobre o sexo no Ocidente. Em seu contraponto, Foucault (1988) cita outra modalidade de produzir tal verdade, a ars erótica. Essa arte, explica o filósofo, tem a verdade extraída na experiência do próprio prazer, praticada e difundida em outras sociedades (árabes, indianas, chinesas, gregas, romanas). Como analisa Foucault, nossa sociedade civilizou-se ou doutrinou-se basicamente por meio da scientia sexualis, e que em primeira instância não apresenta nem vive uma ars erótica.

Nesse âmbito, considerando tais modalidades e suas constituições históricas, Foucault (1988, p.77) enfatiza que nossa sociedade, circunscrita na discursividade científica médica, higiênica, moral, rompeu, praticamente, com “as tradições da ars erótica” e constituiu o saber-poder da scientia sexualis, correlato da prática discursiva a que se passou a alcunhar de “sexualidade”.

Essa sexualidade foi se definindo e se desenvolvendo como “um domínio penetrável por processos patológicos, solicitando, portanto, intervenções terapêuticas ou de normalização” (FOUCAULT, 1988, p. 78). Para dizer a verdade do sujeito, então, se faz necessário confessar, regular, instaurar um saber, um aparato, proliferar discursos que estejam atinados com relações de poder. Poder sobre o sujeito com ele mesmo, do sujeito com seu

corpo, do sujeito no âmbito familiar, enfim, o sujeito não é o fim, mas o efeito e reverberador dessas práticas.

Nessa senda, inclinando-se sobre essa dualidade entre scientia sexualis e ars erótica, que o sujeito com lesão medular pode ser problematizado. É no ancoramento do dispositivo da sexualidade que seu corpo-deficiente enuncia a sua sexualidade, posto que tal dispositivo tem como razão de ser: “o proliferar, inovar, anexar, inventar, penetrar nos corpos de maneira cada vez mais detalhada e controlar as populações de modo cada vez mais global.” (FOUCAULT, 1988, p. 118). Está vinculado à “intensificação do corpo, à sua valorização como objeto de saber e como elemento nas relações de poder.” (idem, p. 118).

Não obstante a ars erótica não tenha sido expandida ou discursivamente dispersa, tampouco tenha sido pouco praticada, Foucault (1988, p. 81) reformula a noção de ruptura nas experiências e dos procedimentos da civilização ocidental. Ele afirma que se “não fomos capazes de imaginar novos prazeres”, inventamos, apesar disso, “o prazer da verdade do prazer [...] prazer específico do discurso verdadeiro sobre o prazer [...] o formidável ‘prazer na análise’.”

Entre sexo e prazer, estão interpostas as técnicas mencionadas, as práticas de poder-saber, a subjetivação desse corpo sexuado, lugar de encontro da análise e intervenção científica, da produção do discurso da sexualidade como ciência e vontade de verdade, além do prazer de exibir, saber, fascinar a própria fazer-dizer essa verdade (dispositivo), como se referiu Foucault (1988). Conquanto a scientia sexualis pareça ser o fio condutor de nossa abordagem, analiso que a arte erótica também está envolvida nessas abordagens.

Com a lesão medular, o sujeito está nesse perímetro da carne, da fascinação, da descoberta, da terapêutica e da invenção. Sim, invenção, se Foucault (1988) considera ainda resquícios ou retalhos da ars erótica, analiso que o sujeito lesionado vive a intensificação dessa busca por esses espaços e linhas que não apenas seja aprendizado técnico-pedagógico, psicológico, biomédico, mas que seja do prazer do prazer da busca, o prazer pelo prazer, para além das refrações que o prisma do dispositivo de sexualidade possam criar. Uma nova ars erótica? Cabível, problematizável, analisável, dentro dessa circunferência de poderes, saberes e discursos incitados, coagidos, corrigidos, encorajados a tentarem a costurar uma erótica por eles mesmos, à sua maneira.

Em nosso terceiro encontro, como planejado, conversamos sobre a experiência dessa sexualidade após a lesão. Destaco abaixo, alguns enunciados importantes ao que já me referi e busquei problematizar. Ressalto, como externou Foucault (1988), a questão das duas modalidades de dizer a verdade do sexo (scientia sexualis-ars erótica) e a noção do prazer como o caminho para uma nova erótica, uma descoberta, mas inserida nas práticas e técnicas mencionadas anteriormente.

C: Porque ali é momento de prazer. Se você for com tensão, nervoso, preocupado, não rola nada.

S: [...] a pessoa precisa se conhecer pra poder se encaixar...

S: É. Exatamente. Não é uma coisa banal, passageira, isso é uma coisa pra pessoa levar pra vida.

C: Creio que sim uma descoberta, porque a gente tá sempre querendo melhorar, aperfeiçoar mais. [...] um beijo, um abraço, o tocar. Eu acho que sim, eu não tenho nada a reclamar, não. Poderia ser 100%, mas já que não é, eu vivo bem da minha forma. Seria pior se eu não pudesse nem beijar, pegar, abraçar.

S: Eu fui descobrindo coisas praticamente sozinho, porque não tinha toda essa reabilitação, por conta do lugar onde eu morava e tal. [...] a gente vai descobrindo, como uma readaptação à cadeira e tal, essa foi uma coisa que eu fui descobrindo aos poucos, até lendo, gostava muito de ler, internet, buscar assuntos, pra saber, né. Pra mim, com pouco tempo foi melhorando, depois que eu vim morar aqui, casei, tal. (Mineiro, conheceu a mulher cearense pela internet). Pra mim, a aceitação da minha esposa foi muito boa, ela entendeu a situação, assim, a gente vive bem.

C: Tem um momento ali na relação que você vai aprimorando, vai como dá certo, assim não dá, assim dá. Com o passar dos anos você vai ver de que jeito é melhor pra você tá tendo prazer, bem dizer 100%.

S: [...] A pessoa vai conversando com outras pessoas, e vai vendo que é um mundo possível, dentro daquilo que é permitido.

Reiterando aquilo que afirmei: a busca da nova erótica, a tentativa de um mundo possível, descobrir no corpo não só as estratégias da técnica a ser aprimorada para uma vida sexual ativa e eficiente, mas do prazer como governo de si, sobre as limitações do corpo, sobre as inovações e usos de dispositivos como a própria cadeira de rodas. Entendo, portanto, que essa nova erótica não é escavar o que estava oculto, porém, focar a experiência desse sujeito consigo como um caminho para uma ética, uma trilha para a relação consigo, um modo de subjetivação. Como diria Foucault (1982, p. 11), para sustentar o que eu estou trazendo como análise: “Penso que a relação que devemos ter conosco, quando fazemos amor, é uma ética do prazer, da intensificação do prazer.”

5.2 Dirigindo-se a uma hermenêutica do sujeito na experiência da lesão medular: