3.4 Flernivåanalyse: Modell 1
3.4.4 Betydning av aggregerte elevkjennetegn: elevsammensetning ved skolen 76
Robert Jesse Stoller, psiquiatra e psicanalista estadunidense, por meio de seu livro “A experiência transexual”, tornou-se referência obrigatória para aqueles que desejam investigar o fenômeno da transexualidade, sendo seu livro referência teórica na seara da psicanálise.
Em sua obra, ele busca apontar as causas da transexualidade, especialmente a que se manifesta em indivíduos biologicamente do sexo masculino. Sua teoria, nas palavras de Elimar Szaniawski, “leva em consideração as influências ambientais em que o indivíduo vive. Parte a teoria da verificação de uma regressão evolutiva do desenvolvimento libidinal a níveis pré-edipianos, como consequência da identificação com a figura maternal” (1999, p. 59).
Segundo sua teoria, a transexualidade seria um fenômeno passível de análise desde a primeira infância, e sua origem se fundaria na dinâmica relacional entre a criança e sua mãe. Stoller acreditava que a mãe do transexual seria uma mulher que sentia inveja dos homens e possuia um desejo inconsciente de ser um, razão pela qual, ao dar à luz a um filho do sexo masculino, transferia para ele seu desejo de ser homem, criando, assim, uma exacerbada ligação entre ela e seu filho, o que impedia o complexo de Édipo13 de se
estabelecer (BENTO, 2006, p. 137). A respeito do impedimento da formação do conflito edipiano na teoria psicossexual, discorre Rafael Kalaf Cossi (2010, p. 63):
No menino transexual, tal conflito não aparece, assim como, consequentemente, a masculinidade não se desenvolve. Ele não toma sua mãe como objeto heterossexual desejado e não entra em batalha com um rival masculino pela posse dela. A mãe, ele já a possui, é como ela, e nunca se viu ameaçado de perdê-la. O pai não interfere nesta relação, separando mãe e filho. Finalmente, a mãe não é tomada como objeto sexual pelo filho, e o pai não é tomado como objeto de identificação.
Dessa forma, entende-se que, sob essa ótica, a mãe, devido aos cuidados excessivos com o filho e à inveja incontrolável do falo, símbolo de masculinidade, exclui a figura paterna, representada por um pai fraco ou ausente, não permitindo o desenvolvimento normal da criança, com a instauração do conflito de Édipo.
De acordo com sua teoria, a função do terapeuta seria induzir o conflito de Édipo para que uma feminilidade ou masculinidade “normal” pudessem surgir. Um indicativo de que o tratamento obteve êxito seria o nascimento, na criança, de hostilidade em relação a sua mãe, bem como ao sexo feminino, de uma forma geral.
Stoller afirma que, em casos de indução bem-sucedida, os meninos começam a valorizar seus pênis e a atacar fisicamente mulheres, passando a se engajar em brincadeiras mais intrusivas, “tais como atirar e acertar bolas em suas mães e em outras mulheres” (STOLLER, 1982, p. 29, apud BENTO, 2006, p. 142).
Ele levantou a hipótese, ainda, de que, caso não sejam tratadas por um terapeuta logo na primeira infância, as crianças que apresentam características comportamentais do
13 O complexo de Édipo é um “conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança sente em relação aos pais. Sob a sua forma dita positiva, o complexo apresenta-se como na história de Édipo-Rei: desejo da morte do rival que é a personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Sob a sua forma negativa, apresenta-se de modo inverso: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto. Na realidade, essas duas formas encontram-se em graus diversos na chamada forma completa do complexo de Édipo. Segundo Freud, o apogeu do complexo de Édipo é vivido entre os três e os cinco anos, durante a fase fálica; o seu declínio marca a entrada no período de latência. É revivido na puberdade e é superado com maior ou menor êxito num tipo especial de escolha de objeto. O complexo de Édipo desempenha papel fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano. Para os psicanalistas, ele é o principal eixo de referência da psicopatologia” (LAPLANCHE; PONTALIS, 1992, apud SOUZA, 2006, p.136).
sexo oposto, ao chegarem à fase adulta, tornar-se-ão indivíduos transexuais, o que inviabilizaria o tratamento pela via psicanalítica, ao alegar que nenhum adulto transexual teve tal quadro revertido.
Conclui-se, portanto, que, a partir da ideia esposada por Stoller, a transexualidade é algo a ser tratado por meio de análise, de forma que o indivíduo, ao final, encontre a “cura”. Tal visão é partilhada por diversos psicanalistas, tais quais aqueles de orientação lacaniana, como Catherine Millot (1992) e Henry Frignet (2002), os quais destacam, em suas obras, a relação entre a transexualidade e a psicose.
Contrapondo a ideia de que a origem da transexualidade seria psicológica, tendo forte influência parental, originada, assim, devido ao desenvolvimento da criança em um ambiente familiar não sadio, tem-se a visão de Harry Benjamin (1999, p. 09), tendo ele destacado (tradução livre):
Influências desfavoráveis na infância podem ser igualmente encontradas em pessoas que, mais tarde, tornaram-se adultos perfeitamente normais, sem nenhuma aparente divergência entre o sexo psicológico e o físico. Logo, um fator constitucional14 (além de eventos ocorridos na infância) deve agir, de forma a ser uma fonte para o futuro estado mental futuro.15
As visões de Benjamin acerca do fenômeno transexual contrapõem diretamente aquelas dos psiquiatras e psicólogos que creem que esses indivíduos podem ser curados por meio de terapia.
A teoria de Harry Benjamin, endocrinologista e sexólogo americano que alçou a denominação “transexualismo” à terminologia científica e, posteriormente, a termo médico (SZANIAWSKI, 1999), desempenhou papel importantíssimo nas proporções que a transexualidade tomou perante a sociedade.
Para Benjamin (1999), existem inúmeros conceitos e manifestações diferentes de sexo, sendo eles: o cromossômico, o anatômico, o legal, o gonodal e o psicológico. Dentre os diversos tipos de sexo apresentados, o psicológico seria o mais flexível, podendo estar em oposição a todos os demais. É esta oposição – entre o sexo psicológico e todos os outros – que caracterizaria o indivíduo transexual.
14 Fator constitucional, na medicina, pode ser compreendido como uma característica inerente do paciente, geralmente um defeito sistêmico. Em: <http://medical-dictionary.thefreedictionary.com/>. Acesso em 16 de agosto de 2015.
15 No original: [...] equally unfavorable childhood influences can be traced back in persons who later grew into perfectly normal adulthood with no apparent split between the psychological and the physical sex. Therefore a constitutional factor must be at work (besides the events of childhood) that is a source of the future mental state.
De acordo com Benjamin, ainda, o uso de psicoterapia com o fulcro de curar o transexualismo, para que, ao final do tratamento, o paciente se aceite como homem (quando este já o é biologicamente, mas não psicologicamente), é completamente inútil. Em sua obra, afirma o seguinte (BENJAMIN, 1999, p. 53-54, tradução livre):
Todas as tentativas nesse sentido falharam. O Dr. Robert Laidlaw, psiquiatra chefe do Hospital Roosevelt, em Nova Iorque, estudou diversos transexuais e chegou à conclusão de que “a psicoterapia não tem nada a lhes oferecer”, no que diz respeito à cura. Em inúmeras conversas e em relatórios psiquiátricos, Dr. Laidlaw considerou o estado dos transexuais “inacessível à terapia”. O Dr. John Alden, um proeminente psiquiatra de São Francisco, concorda completamente com essa opinião, tendo repetidamente o declarado. Outros diversos psiquiatras concordam com isso, de acordo com meu conhecimento pessoal. […] Já que é evidente, portanto, que a mente do transsexual não pode ser ajustada ao seu corpo, é lógico e justificável tentar o oposto, ajustar o corpo à mente. Se tal pensamento for rejeitado, nos veriamos encarando um niilismo terapêutico que eu nunca poderia aceitar em face das experiências que tive com pacientes que foram, sem sombra de dúvidas, salvos, ou pelo menos distintamente auxiliados, pelas suas conversões.16
De acordo com Bento (2006), o autodiagnostico é defendido como legítimo pelos seguidores das ideias de Benjamin, sendo o tratamento hormonal, seguido pela cirurgia de redesignação sexual, a única terapia considerada, por ele, possível para os que denominava de “transexuais verdadeiros”.
Acerca das características do que Benjamin definia como sendo ínsitas a um transexual genuíno, estavam o fato de estarem constantemente infelizes e terem tendência a se automutilarem; serem fundamentalmente assexuados; e sonharem ter um corpo de homem ou de mulher, a ser conquistado com intervenções cirúrgicas.
Interessante mencionar, ainda, que Benjamin considerava que a principal motivação para fazer a cirurgia de redesignação, por parte dos indivíduos transexuais, seria de cunho sexual. Em sua obra, relata que a razão maior para que mulheres transexuais buscassem a “conversão” seria o desejo de ter relações sexuais com o órgão sexual apropriado: “Seu desejo sexual não é aquele de um homem homossexual, mas o de uma mulher fortemente atraída por homens heterossexuais normais” (BENJAMIN, 1999, p. 65). Aduz, ainda, que, na ótica da transexual, sua genitália original apenas a atrapalha, devendo ser removida para que
16 No original: All attempts to this effect have failed. Dr. Robert Laidlaw, chief psychiatrist at Roosevelt Hospital, New York, has studied a number of transsexuals and has come to the conclusion that "psychotherapy has nothing to offer to them," as far as any cure is concerned. In numerous conversations and in psychiatric reports, Dr. Laidlaw considered the transsexual's state "inaccessible to psychotherapy." Dr. John Alden, a prominent psychiatrist in San Francisco, fully concurs with this opinion and has repeatedly stated so. Numerous other psychiatrists agree, to my own personal knowledge. […] Since it is evident, therefore, that the mind of the transsexual cannot be adjusted to the body, it is logical and justifiable to attempt the opposite, to adjust the body to the mind. If such a thought is rejected, we would be faced with a therapeutic nihilism to which I could never subscribe in view of the experiences I have had with patients who have undoubtedly been salvaged or at least distinctly helped by their conversion.
seu parceiro sexual possa exercer seu papel da forma mais normal possível.
A partir da ideia esposada por Benjamin, é possível se depreender, ainda, duas características do que ele considerava ser o transexual verdadeiro: ele é heterossexual, e é devido a sua heterossexualidade impraticada que deseja a modificação dos seus genitais; e esse desejo de ter relações sexuais ditas “normais” é maior que seu anseio por fazer seu corpo corresponder ao seu gênero.
Tal taxatividade acerca do que é um verdadeiro transexual é duramente criticada por Berenice Bento (2006, p. 152), que, tendo feito um trabalho de campo com transexuais tanto no Brasil como da Europa ao longo de vários anos, afirmou:
[…] conheci histórias de vida de transexuais que têm uma vida sexual ativa; que vivem com seus/suas companheiros/as antes da cirurgia; de pessoas que fazem a cirurgia, mas não tiveram relações heterossexuais, pois se consideram lésbicas e
gays. Aproximei-me de outros que não acreditam que a cirurgia lhes possibilitará
ascender à masculinidade ou à feminilidade, pois defendem que suas identidades de gênero não serão garantidas pela existência de um pênis ou de uma vagina e que, portanto, a principal reivindicação é o direito legal à identidade de gênero, independentemente da cirurgia”.
Em que pese o esforço das diversas searas da ciência em reivindicar a descoberta da origem da transexualidade, certo é que inexistem evidências conclusivas capazes de explicar como e porque ela se manifesta. Apesar disso, a transexualidade é vulgarmente conhecida como “transexualismo”, sendo entendida, pois, como uma patologia, uma desordem entre corpo e mente que, em indivíduos categorizados como “normais”, não se manifestaria.