Não pretendo dilatar a discussão e a análise sobre a filosofia estoica, nem esse é um dos objetivos do estudo. Não obstante, as referências às técnicas de si como meios para se
permitir acessar o sujeito, constituindo o fundamento do conhecimento de si para o cuidado de si, tiveram suas bases nas pesquisas efetuadas por Foucault (1990, 2006a), pautadas na análise arquegenealógica das filosofias estoica, epicurista e do cristianismo primitivo, principalmente a primeira, o que já esbocei no percurso do primeiro subcapítulo.
De fato, é interessante demarcar como essas filosofias tiveram seus pilares decantados analiticamente por variados pensadores, desde os filósofos cristãos, racionalistas, como Descartes e os modernos, como Nietzsche, e os contemporâneos, como Deleuze, Paul Veyne e Foucault.
Concernente a isso, imagino que o conceito de Acontecimento de Deleuze (2007) é relevante e cabível para os fins de nossa análise e problematização do sujeito com lesão medular, na medida em que ele trata de acontecimentos tendo por alicerce teórico-filosófico outros conceitos estoicos que, entrecruzados, enfatizam a ideia que o autor quer passar de que o “infortúnio” ou a “tragédia” vivenciada pelos indivíduos são rebentos de suas próprias carnes e produzidas por esses sujeitos como obras.
Nas palavras de Deleuze (2007, p.151), ao citar a história de Joe Bousquet, chamando-a de “uma estoica maneira concreta ou poética de viver”, refere-se ao poeta como um estoico, dada a sua condição de encarar sua ferida, literalmente, como algo a ser vivido. Ou melhor, a ilustração é interessante a meu propósito de análise, uma vez que ele toca em dois pontos de reflexão importantes: o Acontecimento e a postura estoica diante deste.
Antes disso, evoco a história de vida de Bousquet de modo resumido. Em maio de 1918, na cidade Vally, França, Joe Bousquet, aos 21 anos de idade, herói de guerra condecorado, foi atingido por um projétil que se alojou em sua coluna vertebral, tendo ficado paraplégico. A princípio, pensou em suicídio, entretanto, tornou-se poeta, pintor e grande amigo de muitos artistas e pensadores da época (Dali, Magritte, Paul Eluard, André Gide, dentre outros), os quais vinham lhe visitar, ouvir e aprender quando estava em sua cadeira ou deitado em seu leito, ou por meio de suas correspondências e poesias. Seu pensamento e ideias, seu silêncio e sua arte de vida como obra estiveram embasadas em suas leituras do estoicismo (CLUB INFORMATIQUE DE VILLALIER, s/d). Como ele mesmo disse, citado por Deleuze (2007, p. 151): “Minha ferida existia antes de mim, nasci para encarná-la”.
A experiência de vida e com o corpo, a partir do qual ele fez sua própria serenidade, filosofia, arte poética e oratório, Bousquet chama a atenção não somente de Deleuze, mas também a minha, com a experiência de lidar com sujeitos com lesão medular. Isso demonstra que o modo de subjetivação novo é possível, reitero, das mais variadas formas, ainda que as submissões, práticas digam o contrário.
A: Lesão medular pra mim foi uma barreira que aconteceu que eu tive que quebrar, seguir em frente.
O Acontecimento, segundo Deleuze (2007, p. 152), “não é o que acontece (acidente), ele é no que acontece o puro expresso que nos dá sinal e nos espera.” Para ele, o Acontecimento tem uma estrutura dupla, a primeira, que é a efetuação do acontecimento propriamente dito, quando ele se encarna em um estado de coisas ou indivíduo, e a contra- efetuação, que seria o desdobramento do futuro e passado e tomados em si, algo impessoal ou que anteceda o indivíduo que o encarnará. Conclui que: “Cada acontecimento é como a morte, duplo e impessoal em seu duplo.” Aquilo que acontece e aquilo que nos espera, para o qual e com o qual devemos lidar, como atores, não como deuses do tempo. (DELEUZE, 2007, p. 154).
A postura estoica e enfática de Joe Bousquet, brevemente descrita por Deleuze (2007), pode se associar, dadas as devidas diferenças, com a experiência de Aron Rolston, cujo drama virou livro Between a Rock and a Hard Place, de 2004, e inspirou o filme 127 horas, dirigido por Danny Boyle (2010). Ambas tocam em um ponto tênue em comum, sobre a questão do Acontecimento.
O primeiro, paraplégico, com lesão na medular, afirma que nasceu para encarnar sua ferida, visto que ela existia antes dele. O segundo, após cair em um estreito desfiladeiro, em determinado momento, tem seu braço preso a uma rocha imensa que cai sobre si e encontra-se dividido entre o dilema de morrer de inanição ou amputar o membro, decidindo pela segunda opção. Na mesma perspectiva, suponho, o roteiro escrito por Boyle e Simon Beaufoy (2010) é pontual ao afirmar, ou melhor, confirmar o que estou analisando:
Sabe, eu estive pensando, tudo é… apenas vem junto. Sou eu. Eu escolhi isso. Eu escolhi tudo isso. Esta rocha... esta rocha está me esperando por toda a minha vida. A vida inteira dela. Desde que ela fora um pedaço de meteorito milhões, bilhões de anos atrás. Aqui... bem aqui. Eu fui movido até ela a vida inteira. No minuto que nasci, todo ar que eu tenho respirado, toda ação me
levou a esta ruptura da superfície lá fora. (Tradução a partir do roteiro original20
).
O que ambas as histórias, como mencionado, pode nos fazer refletir é sobre a questão de que o vivido e o inesperado, sob essa perspectiva, incidem na mesma proporção em que se aceita e se assume como sujeito e ator dos próprios destinos, posto que esses sujeitos e suas feridas, seus acidentes e encontros com o devir, podem ser encarados como filhos de “seus acontecimentos e mais de suas obras, pois a própria obra não é produzida senão pelo filho do acontecimento”. (DELEUZE, 2007, p. 152).
Não é à noção do trágico como figura caótica e desordeira que intento me subsidiar, mas afirmar como Nietzsche e Deleuze, inspirados no conceito de fatum estoico, o amor fati, tal qual fez Bousquet ou Rolston. Ou ainda, como fazem tantos sujeitos com suas “feridas” e “cicatrizes”. Amor ao próprio destino, fazer dele sua obra de arte e não ser mais um resignado ao poder que seja ao desejo de morte, à mortificação como excluir-se na própria exclusão em que se está circunscrito. Aceitar que os eventos sejam prenunciações ou anunciações de um deus, seja Cronos, como se refere Deleuze (2007), seja a própria ideia de vida, ou aquele enunciado bastante reincidente nos grupos: a vontade de viver. Ao contrário, é a afirmação da vida, solene e pungentemente.
A “apoteose da vontade” em oposição ao niilismo diante do Acontecimento, como se refere Deleuze (2007, p. 152) às palavras de Bousquet. A vontade de seguir, a arte da vida, a obra a esculpir, por fazer, por construir, por rascunhar e desenhar e fazer mais uma vez. “Tornar-se comediante de seus próprios acontecimentos”, pontifica Deleuze (2007, p. 153). O que não quer dizer que seja esconder a dor, a angústia, as dificuldades, os infernos e as feridas ainda expostas. É, no entanto, conceber-se como o condutor de si, o esteta de sua existência. A tekhne tou bíos. A arte sobre e da vida. O cuidado de si como medida ética, política e afirmativa.
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You know, I've been thinking, everything is...just comes together. It's me. I chose this. I chose all of this. This rock...this rock has been waiting for me my entire life. Its entire life. Ever since it was a bit of meteorite a million, billion years ago. There, in space. It's been waiting, to come here. Right...right here. I've been moving towards it my whole life. The minute I was born, every breath I've taken, every action has been leading me to this crack on the out surface.
Pode-se dizer, com base no exposto e na problematização empreendida, que esses sujeitos, tal qual Deleuze (2007) considerou o modo de viver de Bosquet, são estoicos. Não seria presunçoso, nem estigmatizador, adaptar as lentes por esse ângulo. Aqui, reporto-me ao enunciado estoico que passou a significar, ou melhor, em si mesmo fazer-se discurso da perseverança, da superação, do preparo para situações variadas, vividas ou antevistas, da conjunção de técnicas de si, de um modo de subjetivação baseado na constituição de um ethos.
É o atentar às submissões às técnicas que fizeram o sujeito grego na antiguidade se revelar, conhecer-se, cuidar de si mesmo, fazer de seu viver uma tekhne sobre sua vida, para além dos cuidados com o corpo, do cuidado médico, mas uma ascese para a vida inteira, mesmo no intercurso das adversidades como estabelecia o praemeditatio malorum, a previsão do mal, do infortúnio, da desgraça, da doença. No caso da lesão medular, preparar-se, como já expus, mas prevenir complicações médicas, como lesões, infecções, deformidades.
Nesse sentido, é pertinente remeter-se ao sujeito com lesão medular como submetido a um modo de subjetivação, a uma formação de subjetividade, a uma construção de si estoica, dadas as proporções e problematizações devidas e aqui empreendidas. Não tal qual às formulações e tecnologias de si aplicadas na antiguidade. Entretanto, se observarmos, sob a analítica que venho e tenho tentado assumir, os enunciados, o discurso, as práticas e as formações discursivas não afirmam que esse sujeito-deficiente-lesionado é ou se percebe como estoico. O dizer da pesquisa, da problematização, o afirma, que sua experiência é estoica, o que não significa que seja uma verdade universal, tampouco uma afirmação petrificada, que perdure por si mesma como uma discursividade sobre todos os sujeitos com lesão medular, nem que possa ser refutada pela própria difração de olhares, saberes e poderes que praticam a deficiência física, em específico, esta a que estou me referindo.
Ainda assim, posso, nesse momento, nessa perscrutação dessas práticas e no contato com os sujeitos desse estudo e de minha vivência laboral, afirmar que suas experiências e suas formas de encarar a vida, de lutar contra práticas e discursos que lhes circunscrevem são atitudes, meios, posicionamentos nada destoantes de uma subjetividade construída estoicamente.
De acordo com Deleuze (2007, p. 155): “Tudo é singular e por isso coletivo e privado ao mesmo tempo, particular e geral, nem individual nem universal”. É político, é eticamente constitutivo do sujeito a sua lesão, a sua deficiência. No decurso dessa análise, para uma hermenêutica desse sujeito, tratei de analisar as práticas, as evidências e efeitos dos discursos, os posicionamentos múltiplos desses sujeitos, os enunciados que denunciam e ao mesmo tempo anunciam seus modos de viver. O encontro entre a perda dos movimentos e o ganho pela motivação, pela vontade de vida, pelo cuidado de si por toda a vida, pelo conhecimento de si e de seus espaços.
A hermenêutica desse sujeito é aqui remetida a essa experiência que parece singular, mas que é histórica, política, social. Uma hermenêutica com subjetividades se formando e jogos de verdade interatuando. Uma hermenêutica com relações de poder, resistências e estados de possibilidade de um ethos da liberdade. Que o livre seja o destino desses sujeitos, que a problematização de suas experiências não seja mero momento analítico, mas de intervenção, de invenção, de co-construção. Que esse sujeito ético se reconheça em si mesmo e que sua fuga não seja uma escapatória às cegas para as redes que lhe agarram, que ele possa ser sujeito, mas que seja singular em sua diferença.
Nesse processo problematizador e de questionamento da hermenêutica de si desses sujeitos, são notórias as exigências e os nós na rede que os envolve. Pode-se dizer “perverso” o que os discursos lhe trazem e como lhe tratam, como conduzem suas vidas, sonhos e pensamentos. Relações de poderes, mas que só existem porque um lado pode resistir, como se referiu Foucault (2004b). Dessa forma, essas relações, como os atingem em cheio, lá onde eles mesmos esperam, onde dói, onde se apresenta espantoso, anormal, deficiente, insuficiente, inválido.
Como adverte Deleuze (2007):
Não se pode dizer nada mais, nunca se disse nada mais: tornar-se digno daquilo que nos ocorre, por conseguinte, querer e capturar o acontecimento, tornar-se o filho e seus próprios acontecimentos e por aí renascer, refazer para si mesmo um nascimento, romper com seu nascimento de carne. (DELEUZE, 2007, p. 154).
Mas as relações assimétricas desses poderes, o exercício desses saberes, o jogo dessas verdades não são máscaras, elas submetem e produzem esses sujeitos que lhes desejam negar, refutar, delas correr nem que seja nas quadras, nos palanques, nas calçadas sujas e
inadequadas, no trânsito inacessível, na compensação de responsabilidades e de culpas por padrões inaceitáveis, nos palcos de dança, em salas de aula, em eventos desportivos, nas mídias, no descobrir e intensificação do prazer e invenção da sexualidade como arte erótica.
Que essas condições sejam levantadas, e espero que esse exercício me tenha conduzido a uma proposta estratégica que tenha permitido focalizá-las, assim como as práticas a que estão conjugadas. E que possamos nos dirigir a uma hermenêutica do sujeito contemporâneo, como propôs Muchail (2009) ou intentou Foucault (2006a), quer dizer, tenho expectativa dessa direção. E, “pirotecnicamente” ou não, estou disposto a escavar mais, solapar mais, aguardar mais, na tocaia, para o “assalto”, vislumbrando o terreno e as suas rugosidades. Ou talvez eu tenha que me preparar um outro arsenal para chegar a esse fim.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O problema ao mesmo tempo político, ético, social e filosófico que hoje se nos coloca não é o de tentar liberar o indivíduo do Estado e de suas instituições, mas de nos liberar, a nós, do Estado e do tipo de individualidade que a ele se vincula. Devemos promover novas formas de subjetividade. (FOUCAULT, 2006a, p. 659).
Problematizar, perguntar, apontar, perscrutar, discernir, percorrer, co-construir, cercar o problema o objeto de pesquisa não como uma verdade a ser alcançada, porém como uma condição, uma possibilidade, uma tentativa de aprofundar-se e imergir-se nos relevos, reentrâncias e camadas. Não foram exatamente respostas ou constatação de hipóteses, mas um processo de elaborar algumas ideias, noções e mais indagações que busquei desde o início e que me enredou durante todo esse processo investigativo.
Algumas “respostas” ou perspectivas analíticas aqui elaboradas não são construtos ou verdades “universais”, como já demonstrado. Talvez o que se pode inferir e dizer é que a criação de espaços de discussão, de contatos, de experiência ética e política tornaram-se vieses para se fazer “aparecer” alguns fios dessa trama lesão medular-deficiência física e os modos de subjetivação que estão ligados às práticas discursivas e não discursivas que os circunscrevem e os abarcam.
Um passo para “se avançar”, recortando arestas e cercos que me reportam à minha experiência de pesquisador-profissional-sujeito político. Talvez tenha sido um caminhar, cujo percurso me trouxe surpresas, ratificações, dúvidas e, sobretudo, mais questionamentos. Foram novas direções para os problemas e objetos demarcados por toda a tessitura elaborada para encarar as superfícies – nada planas – que me direcionaram a investir meu olhar, meu saber e as relações de poder a que estou, indelevelmente, conectado.
Intervir, interpor-se, pôr-se ao meio das condições, instituições, marcas e eixos que condensados constituem esses sujeitos. Minha trajetória também esteve e está, de modo existencial, vinculada a esses pontos problematizados. E por meio deles, fui e estou sendo constituído como outro.
Este espaço não é um acerto de contas, nem para mim, nem para aqueles com quem convivi e assisti. Talvez para o contexto acadêmico, cuja implicação não pode ser esquecida e o tracejar dessas linhas figuram a resposta a que também devo me reportar.
Mas isto não configura um fim, tampouco são ponderações que aqui se encerram. Minha implicação, ratifico, transcende as respostas e requisitos acadêmicos – necessários – entretanto estou vinculado a existências que diferentes, deficientes, destoantes, lesionadas, marcadas, envolvidas por variados discursos que aguardam respostas, esclarecimentos e atuações para os seus cotidianos.
O meu olhar apenas difrata algumas luzes que incidem ou obscurecem aqueles com quem lido. Esse estudo me fez perceber que a prática da normalidade, da deficiência e da reabilitação os coloca em ordem. Na ordem de um discurso da exclusão, das políticas públicas e da dita “superação”, ou vontade de viver para além disso. Uma rede tecida de enunciados e de uma materialidade que os agarra e que, por suas variadas tentativas e modos de existência, intentam refutar, negar, desvencilhar-se. Endosso que esses sujeitos visam uma arte de viver, anseiam a vida, têm vontade de afirmá-la onde quer que seja, hoje, agora, nesse presente ontológico. E essa arte fulgura como suas múltiplas formas ou suas tênues linhas de fuga contra aquilo que lhes cerca, exclui e “incapacita” ainda mais.
Em nosso último encontro, em que fiz a restituição do material analisado e expus um vídeo com trechos de nossos encontros, essas condições e circunscrições tornaram-se mais evidentes para eles. Seus olhares pareciam dizer: é isso mesmo, mas estou aqui, no esporte, na vida, pegando ônibus, vendendo flanelinha na rua, estou lutando.
Na perspectiva da pesquisa-intervenção, a restituição, enquanto conceito socioanalítico, supõe que se deva falar de algumas coisas que, em geral, são deixadas de lado, ou são ocultadas. Entretanto, para que essa restituição seja realmente construtiva, supõe o respeito a certas regras, dentre elas as regras da discrição e as regras técnicas relativas à decisão sobre o momento mais oportuno para que essa restituição ocorra. (LOURAU, 1993).
Lourau (1993, p. 55) orienta que nas intervenções, em geral, em sua medida conceitual e operacional, é necessário o entendimento de que a restituição como dispositivo socioanalítico não é mera informação. Não está na tessitura ou término de um texto, no envio de um artigo, um livro publicado pelo pesquisador à população participante da pesquisa; mas
na elaboração de “uma restituição pessoal, implicada e posta, dentro da pesquisa, como um procedimento real e necessário do ato de pesquisar (intervir).”
A restituição não é um ato de gentileza para com o grupo pesquisado, ela é atividade intrínseca à pesquisa, logo, possui uma implicação diretamente política, posto que a Análise Institucional é considerada um processo diretamente político.
Nesse aspecto, a pesquisa é compreendida para além dos limites da redação final de um relatório, ou na sua “transformação em mercadoria cultural para servir unicamente ao pesquisador e à academia.” Fundamental ainda é a consideração de que a pesquisa, espelhada nessas orientações e procedimentos, pode continuar e continua após a redação final do texto, “podendo até mesmo, ser interminável”, posto que ao receber a restituição, o grupo estudado pode se apropriar de “parte do status do pesquisador”, tornando-se um "pesquisador-coletivo", e capaz de produzir novas restituições. Em termos efetivos, isso definiria a socialização da pesquisa. (LOURAU, 1993, P. 56)
Segundo Lourau (1993, p. 70), “a instituição segura a nossa mão e escreve o produto final de nosso trabalho.” A restituição escrita, por conseguinte, desempenha um papel em dois planos: por um lado, ela deveria ser a restituição de todo o processo de trabalho empreendido; de outro, ela deveria ser a “restituição do próprio pensar/redigir”.
A instituição acadêmico-científica nos faz escrever e escrevemos para sermos validados e valorizados por ela. A produção de nossos textos, portanto, está implicada com a existência de tal instituição. Desse modo, enfatiza Lourau (1993, p. 70): “Sequer aquilo que pensamos estar ‘naturalmente observando’ é natural”.
Nesse percurso, objetivei olhar a pesquisa como a própria intervenção, questionando a dinâmica do pesquisador e sua postura diante de uma realidade que também é a sua, não como reprodução de tecnologias e saberes em um campo ou espaço-tempo definidos como regras para um cronograma, mas com a intenção mesma de fazer brandir tais saberes e práticas em seus lugares de verdade e problematizar as formas por meio das quais isso se relaciona na constituição de novas subjetividades. Tal restituição, então, esteve comprometida com as posturas ético-estético-políticas de nossa proposta de pesquisa e com o vínculo criado com o grupo, e principalmente, suas subjetividades.
O encontro se deu no mesmo ginásio esportivo onde foram feitos todos os outros. O representante da associação estava presente, mas manteve-se silente durante o vídeo e a discussão. Após nossa conversa, os sujeitos referiram estar satisfeitos com o vídeo e com os pontos evocados pela análise.
No encontro, concordaram e ratificaram a noção de deficiência como prática, não apenas como termo. Entenderam que não se trata de uma questão de terminologia, de mudança de nomes ou substituições que lhes identifiquem como sujeitos diferentes.