• No results found

Konklusjoner

In document Vi og jeg – (sider 100-114)

Na compreensão de Var­ gas, sua candidatura sur­ gia em decorrência de um apelo popular direto e da incapacidade do sistema partidário de gerar uma solução mais adequada às necessidades nacionais. Se acei­ tava a incumbência de concorrer à chefia da nação, fazia-o apenas em nome de um compromisso direto e estrito com o povo. Não sendo sua candidatura fruto de um acordo partidário do qual tivesse parti­ cipado, Vargas a apresentava como solução inevitável diante das inde­ cisões e intransigências dos partidos, malgrado seus esforços pela "conciliação nacional" . Resultado de sua isenção frente à disputa partidária em torno de nomes, a candidatura Vargas seria também um produto do seu empenho num programa de governo em defesa da conciliação geral. Sua indicação teria surgido, assim, como "impo­ sição popular" que brotava fora das articulações partidárias e que gradativamente se constituía na alternativa popular para um candi­ dato de conciliação. I

Frente ao embate político-partidário em torno de alternativas presidenciais, o candidato Vargas apresentava como trunfo lisonjeiro o fato de nada ter reivindicado para si. Isso o legitimava diretamente junto às massas, que haviam ficado alijadas ou marginalizadas nesse debate. As

démarches

dos partidos, marcadas pelo marasmo, por divi­ sões internas e pela ausência de alternativas com caráter majoritário,

'14 O SEGUNDO GOVERl\-O VARGAS

reforçavam o apregoado caráter popular da candidatura Vargas: era naturalmente a saida política a despeito dos partidos. 2

A forma como é encaminhado o processo sucessório até a defi­ nição dos nomes que efetivamente concorrerão ao pleito é muito pro­ pícia ao tipo de imagem que interessa a Vargas construir naquele momento. De fato, ele nunca vetou qualquer nome que lhe tenha sido apresentado, mas em contrapartida nunca se prontificou a apoiar decisivamente qualquer cand.idato. Se assim o fizesse, correria o risco de esse nome ser amplamente .aceito em detrimento do seu, ou ainda arriscaria seu prestígio caso o escolhido nào fosse eleito ou não viesse a ter uma atuação que correspondesse aos anseios da corrente getulista. Na medida em que impunha como condição para se posicionar frente a candidaturas a existência de um programa de conciliação geral que atendesse aos interesses geais da nação, Vargas permanecia livre de compromissos, pois o desenrolar do processo sucessório indi­ cava claramente a impossibilidade de se chegar a tal solução concilia­ tória. Por outro lado, se tivesse havido de fato a "união nacional" entre os partidos majoritários, em torno de uma programa e de um candidato, o apoio de Vargas seria secundário. Em outras palavras, se os partidos conservadores tivessem chegado consensualmente a um candidato e a uma proposta de governo capazes de fazer frente aos interesses majoritários das forças políticas dominantes e de amplos setores do eleitorado, isso significaria que o "getulismo" havia deixado de ser um entrave ao desenlace das ações políticas. Refletiria, ainda, que os rumos da política nacional poderiam ser defi­ nidos sem a participação direta ou indireta do ex-Presidente e das correntes a ele vinculadas: o getulismo teria sido reduzido a uma ficção. Mas, conforme as legendas que compõem o Acordo Interparti­ dário não conseguem viabilizar tal tarefa, a intenção de reduzir o getu­ lismo a uma ficção ou a uma expressào política secundária transfonna­ se num recurso político contrário a elas próprias, já que nesse pro­ cesso saem fortalecidas as forças populistas. Diante do fracasso dos partidos em chegarem a uma solução consensual, Vargas pode apre­ sentar-se como o candidato isento e independente em face de organi­ zações que não souberam exercer seu papel de sujeito das grandes decisões políticas nacionais. Se os partidos falharam, se seu desempe­ nho não conduziu à defesa dos "reais interesses da nação", sua impor­ tância fica reduzida à de meros instrumentos eleitorais para operacio­ nalizar legalmente a decisão que emerja de demandas e exigências extrapartidárias das bases populares.

A POLÍTICA INSTITCCIONAL E O DlSCCRSO ELEITORAL DE VARGAS 95

Essas observações conduzem-nos a um dado já mencionado ante­ riormente: a tônica política que passa a dar corpo e identidade à can­ didatura Vargas é exatamente sua postura apartidária ou, quem sabe mesmo, antipartidária. Se isso lhe faculta uma comunicação mais direta com o eleitorado, também irá contribuir profundamente para a instabilidade de seu Governo, pois, numa sociedade regida pelo sis­ tema representativo, faz-se política apesar dos partidos, mas não se governa sem um mínimo de estabilidade na articulação partidária.

O caráter personalista de uma candidatura que afirma não bus­ car benefícios pessoais será o principal trunfo para que Vargas se apre­ sente, sem mediações, ao eleitorado, na busca de seu referendo. Essa insistência com que afirma sua condição de independência frente a interesses políticos organizados pode ser constatada em diversos pro­ nunciamentos. Apresentando-se dessa forma, coloca-se como o defen­ sor daqueles que. por suas condições precárias de vida, não consegui­ ram ainda fazer-se representar nem merecer a atenção. quer das agre­ miações políticas, quer do poder estabelecido. Com essa posição, apre­ senta-se como o futuro dirigente que, a partir de uma ação desvin­ culada das instituições político-partidárias e de grupos de pressão, irá governar para interesses não-organizados que supõe visualizar e perce­ ber. Imprimindo à sua candidatura a tônica de expressão direta do povo e das grandes questões nacionais. faz-se porta-voz de interesses tão vastos e complexos que acabam por desobrigá-lo politicamente. Em outras palavras, suas obrigações políticas se diluem na proporçào em que o compromisso que procura entabular deverá dar-se numa relação direta com o "povo" e com a "Nação". 3

A rigor, todo candidato a cargo representativo importante. em maior ou menor grau, faz o mesmo tipo de apelo. O que inte­ ressa registrar aqui é que, apelando diretamente para o povo, Var­ gas minimiza, e até nega, o papel das instituições políticas, especial­ mente o dos partidos. Ao contrário dos outros candidatos, que atra­ vés de seus respectivos partidos se dizem também representantes dos reais interesses do povo, Vargas se apresenta como um predesti­ nado a dirigir a nação, apesar do j ogo partidário.

Dessa forma. vai marcando sua presença pessoal junto ao elei­ torado, sem definir os meios políticos através dos quais pretende atender a compromissos tão vagos e tão amplos. Se esse não-com­ prometimento. enquanto apelo político, tem sua eficácia, também gera descontentamentos e incertezas, uma vez que ficam indefini­ dos os agentes específicos a serem responsabilizados quando da cobrança de suas promessas.

96 O SEGUNDO GOVERNO VARGAS

Dentro dessa ótica, a representação de interesses se faz nova­ mente com o predomínio do "interesse nacional", em detrimento dos interesses particularistas de classes. Segundo Leopoldi, 4 foi essa a tendência que vigorou no Brasil durante o Império, quando o Estado assumia uma função integradora que evoluiu no sentido de ocultar interesses de classes. A República Velha marca a falência dessa ideologia do interesse nacional, na medida em que os estados mais importantes, econômica e eleitoralmente, passam a ser os cen­ tros dinâmicos da vida nacional.

Anos depois, a República populista vem exatamente consoli­ dar essa ideologia, patenteando-a na ênfase atribuída aos vínculos diretos do governante com o povo e com a nação, em prejuízo da legitimidade dos partidos e dos interesses classistas e setoriais. Essa tendência é levada às últimas conseqüências durante o Estado Novo, quando se explicita definitivamente o preconceito contra a represen· tação política dos interesses privados.

A partir de 1 946, com a introdução do sistema representativo, a situação ganha novas formas, mas não se modifica substancial­ mente. Segundo a mesma autora, nos partidos nacionais se verifica um corte entre as cúpulas e as bases. Em princípio mais envolvidas com as grandes questões do país, as cúpulas tornam-se mais inde­ pendentes em relação ao eleitorado. Esse vínculo diluído entre cúpula e base faz com que os dirigentes se sintam mais à vontade para manipular categorias como o interesse geral, a nação e o povo. Dentro desse esquema de funcionamento, as indicações para a Presidência da República partiam das cúpulas partidárias, e os presi­ dentes viam-se obrigados a beneficiar os líderes que os tinham apoiado. Mais do que isso, as atuações presidenciais mantinbam grande autono­ mia em relação aos partidos, privilegiando a relação personalista pre­ sidente-eleitorado, em prejuízo de vínculos partidários.

Se, de uma forma geral, essa constatação vale para o período 1946·1964, alguns traços acentuaram-se em determinados momen­ tos. O Governo Vargas, particularmente, é muito ilustrativo dessa problemática, mas conta também com uma agravante adicional. A liderança pessoal do Presidente e seu descompromisso para com os partidos passam a ser questionados pelas cúpulas políticas, temero­ sas dos resultados que esse prestígio direto junto às bases pudesse acarretar em termos da manutenção do sistema de privilégios que o pluripartidarismo propiciava.

Com maior ou menor ênfase, predomina no Brasil, no decor­ rer do periodo populista, essa ideologia que nega vínculos entre o

A POLÍT1CA INSTITUClONAL E O DISCURSO ELE1TORAl DE VARGAS 91

representante político e o interesse privado, e que atribui um apolí­ ticismo à representação dos interesses econômicos. A forma como Vargas se refere ao papel dos sindicatos, por exemplo, é bastante elucidativa desse tipo de visão. Não obstante as posições de Vargas se referirem a um quadro mais amplo da nossa história política, o fato de elas se inserirem num momento político peculiar, e frente ao significado das eleições, aéabaria por trazer conseqüências sérias

quando do exercício do poder.

É

inegável que uma posição como a do não-envolvimento político-partidário assume maior relevância quando é defendida por um líder como Vargas.

Formas legítimas

In document Vi og jeg – (sider 100-114)