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crática vence as eleições no Clube Militar contra a chapa naciona­

lista liderada por Estilac Leal e Horta Barbosa, vitória que se repe­

tirá dois anos depois. O cerco militar contra Vargas desenvolve-se

ao lado de críticas e polêmicas sobre a atuação de João Goulart

no Ministério do Trabalho e suas pretensas intenções de implantar

no Brasil um sindicalismo em moldes peronistas.

EM BUSCA DO ELO PERDIDO: O GOVERNO VARGAS E A DEMOCRACIA... 31 Todas essas questões são permeadas pelo temor ao comunismo e pela desconfiança de que o Governo não seja capaz de fazer pre­ servar e respeitar a ordem constitucional. A crise de desconfiança dá margem a que se explorem, de forma sensacionalista, todas as suspeitas alimentadas contra o Presidente. Amplamente divulgada, essa campanha vem abalar ainda mais a estabilidade governamen­ tal. A denúncia do ABC, acordo secreto entre Argentina, Brasil e Chile, edode exatamente nesse momento de maior tensão. Embora sua veracidade seja negada por fontes governamentais, o pacto denunciado pelo ex-Ministro João Neves da Fontoura é entendido como ameaça

à

hegemonia norte-americana no continente e como trama visando o confronto sul-americano contra a América do Norte. Os contatos entre Vargas e Perón são publicamente explora­ dos, na tentativa de provar que os entendimentos entre ambos visam estabelecer no Brasil uma República Sindicalista. 16

Todos esses episódios, que têm por meta aumentar a pressão con­ tra o Governo e desacreditar o Presidente, constituem, na verdade, uma exploração ilimitada de dados conjunturais que escondem uma problemática maior. De fato, o que está em jogo é a própria dinâmica do sistema partidário, sua incapacidade de gerar soluções governamen­ tais próprias, ou mesmo de chegar a um acordo de coexistência com o Governo. Pesa também o não-entendimento quanto à legitimidade da oposição, que é tida como atividade conspiratória. No entanto, quando se elege a figura do Presidente como o maior dos males em relação ao bom funcionamento do sistema político, busca-se limitar a ele o conjunto de problemas gerados no interior desse sistema; só assim é possível preconizar a manutenção da ordem política vigente.

Finalmente, cabe mencionar o papel e o peso das bases popula­ res nesse processo. Embora tenham provado suas preferências getulis­ tas por ocasião da eleição e da deposição de Vargas, não se transfor­ maram em base de apoio eficaz durante o período governamental. As

dificuldades econômicas vivenciadas, particularmente a partir de

1953,

e o tipo de orientação que prevalece no movimento sindical levam

à

eclosão de grandes greves em São Paulo e no Rio de Janeiro, as quais não só agravam a desestabilização do Governo como geram uma área de atrito com os setores empresariais, temerosos das concessões que o Governo possa fazer ao movimento grevista. Para os empresários e a oposição, embora as greves expressem descontentamento com o Governo, elas representam uma oportunidade concreta para que Var­ gas redefina sua aliança com os setores populares e com os sindicatos, empreendendo uma política ameaçadora para os interesses dos grandes capitais. 17 O aumento de

100"10

no salário minimo, decretado a I ? de

32 O SEGL"NDO GOVERNO VARGAS

maio de

1954,

que motiva a publicação do manifesto dos coronéis, vai constituir-se na alegação final para a deposição de João Goular! do Ministério do Trabalho e para a condenação do que seria a política demagógica do Governo em relação aos trabalhadores.

Essa política de reajuste salarial, embora possa ser entendida como manobra eleitoreira para angariar prestígio junto aos setores populares, dada a proximidade das eleições estaduais e federais, pode ser interpretada também como o canto de cisne da política trabalhista de Vargas. O trabalhisnto não fora urna reivindicação explicitada pelas bases sociais, mas se constituíra, através dos tempos, num dos fatores, se não de mobilização, pelo ntenos de cooptação das camadas popula­ res. No momento em que essa política é ofensivamente ativada, ela já não se mostra suficiente para refazer a imagent do Governo, abalada pelo surto de denúncias e pelas campanhas da oposição.

No último ano da administração Vargas, seu isolamento polí­ tico chega ao auge: o Presidente não consegue deter a fúria desen­ freada da imprensa, não controla as organizações político-partidá­ rias nem o movimento popular, vê-se pressionado pelos grupos eco­ nômicos e, finalmente, recebe o veto militar que efetiva seu afasta­ mento definitivo do poder.

A chamada crise de agosto é, na realidade, o desfecho de uma situação crítica que se inaugurara com o próprio Governo. No momento em que, na origem das insatisfações e dos embaraços polí­ ticos, localiza-se a figura do Presidente e sua herança de poder dis­ cricionário e personalista, todos os trunfos são usados para tentar depô-lo. As constantes ambigüidades do Governo junto aos parti· dos e aos militares, que permeia sua pregação política e econômica, facilitam a tarefa oposicionista. Alvo de críticas da maioria dos seto­ res, o Governo não consegue formar bases alternativas de apoio, e o afastamento do Presidente, em dado momento, é uma demanda quase que consensual. A dramaticidade em torno do seu suicídio traz a possibilidade de um revanchismo contra os que mais se haviam destacado na campanha oposicionista, ao mesmo tempo em que pro­ picia reabilitar historicamente a herança política de Vargas. Os con­ flitos políticos e militares que se sucedem até a posse de Juscelino Kubitschek inscrevem-se nesse quadro de referências, mas gradati­ vamente se redefine a dinàmica política do sistema no sentido da manutenção do regime e das instituições, incluindo a incorporação definitiva do getulismo ao sistema partidário via aliança PSD-PTB. Foi possível superar a situação de crise, sem maiores conturba­ ções internas, graças

à

delimitação do seu escopo. Uma situação crítica em tennos da convivência democrática e da institucionaliza-

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ção partidária

é

traduzida e resumida pelas lideranças políticas

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